Posted by: brainsstorm | Julho 22, 2008

A Queda - Última Parte

Olhando para baixo, viu um grande poço circular, que borbulhava algo parecido com lava. Sentiu-se sendo baixada lentamente, e então discerniu o que a esperava lá em baixo: sangue fervente, borbulhante. Em desespero, começou a se debater, mesmo que parte de si soubesse ser em vão. Ouviu pequenas risadas entre os flagelados, assim como as erynies. Seus pulsos se feriam cada vez mais, embora fosse a última coisa na qual pensasse agora. Queria se livrar daquilo; queria, de um modo infantil, estar sonhando e acordar assustada, suando. Entretanto, aquilo era real – bem real. Logo ela poderia provar.

Seus pés tocaram o líquido quente – e ela gritou. Dobrou os joelhos, enquanto as correntes continuavam baixando sonoramente. As risadas as erynies ecoavam nos seus ouvidos, enquanto as palavras do irmão retumbavam em sua mente. Não era aquilo que queria – era tão errado assim desejar um pouco de justiça? Será que evitar o conflito entre duas raças, e um grande derramamento de sangue, valeria tão alto preço?

Seu grito ecoou mais uma vez, quando, mesmo encolhida e com o corpo já dolorido, sentiu o sangue fervente tocar-lhe a pele novamente. Com os braços esticados e o corpo reteso há tanto, não conseguiu resistir – mergulhou as pernas até a altura do joelho, conhecendo o significado de dor lancinante. O sangue quente machucava a pele, pele que sabia ser alma, e Aila desejava que fosse uma dor ainda maior, e que lhe tirasse a vida de uma vez. Pensou em quantas pessoas não haviam passado por aquele tormento, em quantos gritos já não haviam ecoado naquela sala.

As risadas diminuíram, mas não os gritos da barda. Sentia a corrente estremecer a cada vez que desciam assim como podia sentir as batidas desesperadas do seu coração. De modo vão, tentava agarrar-se às boas lembranças: os momentos bons com Ahlan, seu tutor e amante, e da sensação de abraçar Vanir, aquele elfo bondoso por quem guardava tanto carinho. O que eles pensariam se soubessem daquilo?

Submersa até a cintura, ainda tinha forças para se debater, embora quisesse ter forças para se libertar, ou não mais tê-las e acabar logo com aquele sofrimento. A dor era terrivelmente constante. A garganta secava, mas não parava de gritar, e nem poderia, pois a dor não deixava. A corrente baixava cada vez mais, emergindo-a lentamente, e chacoalhares metálicos soavam violentos, acompanhando os gritos desesperados da jovem.

Apesar de costumadas àquele espetáculo, a vã esperança demonstrada perturbava algumas erynies. Talvez porque fizesse vir à tona memórias de quando aquilo aconteceu a elas. Outras olhavam curiosas, achando que havia algo de irônico em ver alguém de sangue celestial ser transformado em demônio.

Aila prendeu a respiração, e fechou os olhos, conforme sentiu-se afundar completamente no poço de sangue. Tentava levantar o rosto, mas graças à dor, já não conseguia fazê-lo. Sentiu o corpo completamente submerso, enquanto ainda tentava forçar os braços para elevar-se acima do nível do poço. Em vão.

Logo seu peito começou a doer, e ela sentiu que precisava de ar. Sabia o que iria acontecer, mas não pôde resistir e relaxou os pulmões, expirando toda e qualquer esperança de vida. Abriu os olhos e viu apenas o vermelho forte diante de si, e sentiu-os ardendo. Tentou gritar, e além de ter seu grito abafado, sentiu o gosto do sangue quente e viscoso descendo pela garganta, queimando-lhe as entranhas.

A corrente foi parando lentamente, até não mais se movimentar.

Silêncio no calabouço.

As roldanas foram mais uma vez ativadas, e logo a corrente foi subindo, mostrando uma Aila de tez bem mais pálida, cabelos loiros encharcados de sangue, e asas escarlates a saírem do alto das costas, com sangue pingando por toda a sua extensão.

Nenhum movimento.

Até que ela inspira sonoramente. Renascida.

Abriu os olhos, outrora de um violeta misterioso, possuindo agora um brilho estranho, capazes de se destacarem sozinhos na escuridão. Da boca vertia um sorriso. Maligno. Cruel. Demoníaco.

Posted by: brainsstorm | Junho 30, 2008

A Queda - Parte V

Parte 1: aqui.

Parte 2: aqui.

Parte 3: aqui.

Parte 4: aqui.

Don\'t you wish your girlfriend was \

Se não fossem as circunstâncias, a visão seria impressionante. A grande torre era completamente feita de metal – as paredes, o chão, as escadas. As altas e opressoras paredes incandescentes se mostravam praticamente intransponíveis. Estátuas de metal, das mais variadas temáticas, decoravam o lugar, que também trazia inscrições em baixo relevo, brilhando incandescentes.

Andaram até um lance de escadas que desciam em espiral, dando em outra porta de metal maciço, entalhada com motivos infernais. Imaginava a quantidade de magias de proteção que deveriam haver naquele lugar, desencorajando qualquer possibilidade de fuga. Desceram por vários andares, e na maioria deles Aila pôde reconhecer claramente algumas armadilhas mágicas. E se mesmo seus olhos destreinados puderam notar, quantas deveriam ter?.

- Nova serva?

A voz era grave e profunda, e a barda não deixou de sentir repulsa quando viu quem a emitia. Era também um demônio daquela espécie, embora possuísse asas das mais negras possíveis. Tinha braços e pernas fortes, e sua pele era repleta de cicatrizes – algumas tão antigas que se mostravam esbranquiçadas pelo tempo. Nos dedos brilhavam anéis vários, e um par de braceletes adornava os braços fortes. Ela caminhou sem cerimônias na direção da barda, que instintivamente recuou. A acompanhante assentiu em silêncio, afastando-se da jovem. A erynies de asas negras examinava a barda atentamente, olhando cada detalhe de sua anatomia.

- Esquálida e patética… venha comigo.

Desceram mais um lance de escadas, e Aila pôde finalmente vislumbrar o que imaginava ser o inferno em um só momento: pessoas acorrentadas às paredes, algumas gemendo sem forças, e outras sequer pareciam respirar. As paredes pareciam decoradas com atrocidades das mais diversas, embora a jovem não conseguisse desviar o olhar. Sendo puxada, a barda teve seus braços envoltos por algemas grossas e enferrujadas. A cada momento, a certeza de que percorria um caminho sem volta apunhalava seu coração.

Logo apareceram outras erynies, que a despiram sem a menor cerimônia. Os presos olhavam curiosos, enquanto outros agradeciam a algum deus por aquilo não estar acontecendo com eles. Vertiginosamente, Aila olhou por toda a sala, desejando alguém que pudesse ajudá-la. Cercada de criaturas que não conhecia e diante de um destino nefasto, se sentiu completamente sozinha. Baixinho, fez uma prece de perdão.

Sentiu-se sendo levantada, e escutou o barulho de correntes sendo movimentadas por um antigo sistema de roldanas. Completamente desnuda de corpo, sentia-se cada vez mais desprovida de espírito. Conforme subia, sentiu arranhões no pulso, causados pelas algemas, enquanto filetes de sangue escorriam por seus braços, fazendo um contraste irônico: sangue vermelho em carne branca. Fechou os olhos, até que ouviu as correntes pararem. Olhou para baixo, e não queria nem imaginar o que a aguardava.

Posted by: brainsstorm | Junho 26, 2008

A Queda - Parte IV

Parte 1: aqui.

Parte 2: aqui.

Parte 3: aqui.

A mulher tocou a barda no ombro, que sentiu a conhecida magia de teletransporte. Estava agora próxima às muralhas, mas isso não a preocupava agora. Reconheceu o irmão, com suas grandes e exuberantes asas felpudas e esbranquiçadas, lutando entre demônios que pareciam estar realizando um ataque à Necrópole de Kelemvor.

- Ele está em problemas. Vamos ajudá-lo.

Aila assentiu silenciosamente, e iniciou uma canção épica, que conhecia desde criança. Logo suas palavras soaram nos corações dos soldados de Kelemvor, e Alexander não tardou a reconhecer a irmã. Se não estivesse tão ocupado, teria se perguntado como ela teria chegado até ali. Com as esperanças renovadas, desferiu um ataque certeiro no seu oponente.

Se não conhecesse seu irmão, Aila poderia dizer que ele procedia dos planos celestiais: alto, forte e com cabelos loiros que desciam até os ombros. As linhas do rosto eram definidas, extremamente semelhantes às do pai, que sequer chegou a conhecer, e acompanhadas por olhos azuis límpidos e claros, capazes de enxergar o mal no coração das pessoas. Do alto das costas, surgiam duas asas felpudas e brancas, manifestação recente de sua herança celestial. Asas essas que acabavam de ser feridas por um raio de fogo concentrado, lançado dos olhos do construto com o qual combatia.

Era uma criatura bizarra, que possuía um corpo semelhante ao de uma aranha de órbitas vazias. Claramente artificial, se prostrava ameaçadora diante de Alexander, que, portando uma grande espada brilhante, desferiu dois ataques nas patas da criatura, mas que pouco pareceram afetá-la. A desconhecida de cabelos vermelhos bateu levemente as asas, elevando-se um pouco, e logo em seguida tensionou o arco,disparando duas flechas na direção do construto. Uma delas se crava no chão, enquanto a outra, com sua ponta flamejante, acerta o alvo.

Então um som semelhante a uma corneta soou ao longe, e a horda demoníaca entendeu aquilo como sinal de retirada. O construto, instruído para essas situações, desceu suas grandes pinças aracnídeas e prendeu Alexander, sem muita dificuldade, e logo iniciou sua caminhada. Aila então iniciou uma nova e breve canção, invocando um hipogrifo, vindo dos planos de Sune. Em celestial, num tom um tanto desesperado, ordenou que atacasse a criatura. Enquanto isso, a mulher realizou dois tiros certeiros, um deles entrando na órbita vazia do construto, que em seguida caiu inanimado no chão. A barda respirou aliviada, cancelando a magia e agradecendo à Senhora dos Cabelos de Fogo, enquanto seu irmão alçava vôo em direção à jovem.

- Aila, como… chegou até aqui? Como descobriu onde eu estava?
- Ela veio comigo, Alexander Ilindiel, paladino de Torm. – falou sem esperar a resposta da barda, e em um tom repentinamente frio. Tornando o olhar para a jovem, continuou: - Seja breve com suas despedidas.
- Despedidas…? Aila, do que este demônio está falando?
- De-demônio? – gaguejou a jovem, estarrecida.
- Ela virá comigo, paladino. – a voz firme e seca da erynies cortava os ouvidos de Alex. – Serão concedidos a ela os poderes para fazer a justiça que lhe foi negada.
- E você vem me falar de justiça, criatura infernal? Justamente você? – aumentou o tom de voz, e levou o olhar para a sua irmã – E você, onde estava com a cabeça quando ouviu as palavras dessa mulher? O que deu em você, Aila?
- Você não vê, Alex?! – gritou a barda – Eu não sabia de nada! E diferente de você, eu não posso discernir se há maldade no coração de alguém apenas olhando para ela! Além do mais… eu…
- Agora é tarde, paladino. Ela não poderá quebrar o Pacto que fez comigo. – falou a erynies – Ela terá as recompensas conforme o acordo: poderá fazer justiça a quem a matou, e será capaz de resolver os problemas terrenos pelos quais pereceu. Para tanto…
- Eu não acredito que você fez isso, Aila! – explodiu Alexander, desesperado. – Acha que essa é a verdadeira forma da justiça? Acha que é assim que se faz o bem, barganhando com demônios?!

A barda não conseguia sequer falar. Agora havia entendido tudo perfeitamente, tão claro como a água. Sentia as pernas tremerem e o coração acelerado, principalmente por saber que não haveria volta. Em um impulso, abraçou o irmão, enquanto se policiava para não chorar. Desatento a isso, ele correspondeu ao abraço, enquanto sussurrava:

- Eu não acredito, Aila. Minha irmã, como pôde? Como? Por quê?
- Então essas serão suas últimas palavras a sua irmã, Alexander Ilindiel?
- Eu tenho todo o direito de passar um sermão na minha irmã, demônio! Cale-se!
- É assim que você quer que ela se lembre de você?

Soltando-se do abraço do irmão, Aila levantou o rosto, encarando-o com o par de olhos violetas banhados em lágrimas.

- Eu também fiz isso por você, Alex.
- Venha, Aila. – chamou a erynies. – Quanto a você, paladino, espero não vê-lo nunca mais.
- O mesmo não posso dizer de você, demônio. E Aila, eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.

A erynies segurou a barda pelo braço, desaparecendo logo em seguida. Ainda tentando digerir o que aconteceu, Alexander deixou-se cair sentado, sentindo o rosto ser aquecido por lágrimas furtivas, enquanto dizia:

- … nem que isso custe a minha vida.

Enquanto caminhava na direção de uma grande torre de brilho metálico, Aila sentiu novas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. As últimas palavras que ouvira de Alex ainda ecoavam-lhe na mente:

“- Eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”

Em outras palavras, ele seria capaz de matá-la, se preciso fosse.

- Entre, Aila.

Posted by: brainsstorm | Junho 5, 2008

A Queda - Parte 3

LEIAM A PARTE 1 AQUI! E A PARTE 2 AQUI!

Aila estava confusa. Havia perecido pela lâmina daquele machado, e claro que faria alguma coisa se pudesse. Mas aqueles eram desígnios divinos: ele receberia seu descanso eterno, assim como ela também. Insegura, a jovem olhou para a mulher, que até então nem se preocupara em dizer o seu nome.

- Mas… esta justiça não deve ser feita pelas minhas mãos. Isso não é correto. Não… não sou eu quem decido isso.
- E se eu disser que a sua morte e a dos seus amigos foi em vão? O exército de orcs ainda se concentra na região, e em breve os elfos da cidade de Sylvan receberão retaliações. Você sabe que eles não poderão resistir. E você poderia evitar esse derramamento de sangue inútil. Não era isso que você queria em vida, Aila Ilindiel?
- Esses assuntos… já não me concernem. – respondeu a barda, embora não estivesse tão segura de suas palavras. – Eu morri em prol dessa causa. Esses fatos… já não me dizem respeito.

Em um ímpeto de coragem, sentido estar indo contra todas as suas vontades, deu as costas à desconhecida. Não sabia quem ela era, mas parecia uma criatura celestial – as feições harmoniosas, agora entristecidas, apunhalavam a barda. Sentia como se tivesse ferido uma beleza até então imaculada, até que novas palavras da mulher alada a fizeram parar mais uma vez:

- E se eu disser que o seu irmão gêmeo, Alexander Ilindiel, também pereceu do mesmo golpe que tirou a sua vida?

Então se recordou do par de anéis de platina que comprou com a insistência do irmão. Em questão de segundos lembrou-se da prece que Alex havia feito, momentos antes de iniciar o combate, explicando que os ferimentos que Aila viesse a sofrer seriam partilhados por ele.

“-E não pense em protestar. Quero proteger você.”

- Você está dizendo… que… ele morreu… por minha causa…?

A mulher não respondeu, e nem precisava fazê-lo. Mais uma vez, Aila levou a mão ao local onde deveria estar o ferimento, e imaginou a dor que seu irmão, um guerreiro santo, treinado para servir a Torm, sentira. E a morte dele teria sido tão vã quando a sua.

- Ele… está aqui? Nesse lugar?
- Sim, está.
- Leve-me até ele! Leve-me até ele e… e então terá sua resposta.
- Infelizmente, as coisas não funcionam assim, Aila. Meus patronos lutam pela justiça verdadeira. A justiça que você também deseja. Você não deve me temer.

Passaram-se alguns minutos de silêncio que pareciam se estender por uma eternidade. Estava dividida entre o que acreditava ser a ordem celestial e o que seu coração desejava. Queria ser capaz ignorar aquele pedido, mas quem quer que tivesse mandado aquela mulher parecia compartilhar dos desejos de Aila. Respirou fundo e quebrou o silêncio que perdurará até então:

- Eu aceito. Leve-me até meu irmão.

Posted by: brainsstorm | Junho 2, 2008

A Queda - Parte 2

LEIA A PARTE 1 AQUI!

Levantou a cabeça, atordoada. Então… estava morta. Olhou outra vez ao seu redor, enquanto buscava nas profundezas de sua mente informações sobre o destino daqueles que morrem. Talvez tivesse até conseguido recordar de mais detalhes, se não tivesse percebido diversos outros seres esbranquiçados como ela, vagando aparentemente sem destino. Almas sem corpos, e provavelmente tão confusas quanto ela.

Tentou desvencilhar a visão, e concentrar seus pensamentos. O que as diversas conversas em estalagens e tavernas poderiam revelar-lhe agora? Lembrou-se de uma conversa com um nobre da cidade de Waterdeep, que desejava muito mais do que um vinho quente para aquecê-lo aquela noite.

“- Segundo o que me disse um sacerdote do Senhor dos Mortos, as almas são levadas ao Plano da Fuga, regido pela neutralidade de Kelemvor. Lá, as almas aguardam até que um enviado do deus ao qual seus votos eram dedicados viessem buscá-lo.

‘Entretanto, as almas dos descrentes têm um destino nefasto: são levadas para proteger a Cidadela dos Mortos, onde passam a eternidade a serviço do deus”.

Um sussurro que parecia produzido pelos ventos trouxe Aila de volta. Ao longe, pôde observar uma enorme cidadela, de altas torres e muralhas, esbranquiçadas. Desnorteada e emaranhada em seus pensamentos, a barda de longas madeixas loiras seguiu até a famosa Necrópole.

Kelemvor - Deus da Morte

Kelemvor - Deus da Morte

E se a sua fé não fosse o suficiente? E se o que ela fizera em nome da Senhora dos Cabelos de Fogo não fosse o bastante? Sune, a deusa da beleza e do amor, pregava o auxílio aos outros, para que eles também fossem dignos de conhecer os encantos da paixão. Aila não havia sido muito ativa em sua busca nos últimos tempos, mas outras causas demandaram-lhe a atenção. E estava certa de que havia promovido o nome da deusa. E sim, isso deveria bastar. A Senhora dos Cabelos de Fogo saberia recompensá-la. Com a confiança renovada, a barda continuou o caminho, embora ainda incerta de onde ele fosse acabar.

Conforme se aproximava da cidade, pôde divisar melhor os contornos das muralhas, e seus ouvidos filtraram o que julgava até então ser o uivo do vento: gritos e lamentos, vindo das muralhas – das almas descrentes, que não aceitavam divindade alguma como salvadora. Então era assim que os descrentes passavam a eternidade?

Assustada, sentiu as pernas fraquejarem. Nem mesmo o mais devoto dos homens conseguiria se deparar com algo assim e manter-se inabalável. Instintivamente, sem conseguir desviar o olhar dos rostos de todas aquelas pessoas, afastou-se, tropeçando logo em seguida. Abalada demais para levantar-se, tentou se arrastar, quando uma voz feminina e suave surpreendeu-a:

- Aila Ilindiel, seu lugar não é aqui.

Virou o rosto, surpreendendo-se com a visão: uma mulher belíssima, de traços harmoniosos e delicados, pele pálida e longos cabelos vermelhos estendia a mão, em um gesto benévolo de ajuda. Do alto de suas costas saiam felpudas asas num tom escarlate, e a mulher esboçava um leve sorriso tranqüilizador. Em frangalhos, Aila aceitou a ajuda, e ambas seguiram para longe da muralha.

- Como sabe o meu nome?
- Eu sei de muitas coisas, Aila. E você já sabe o que aconteceu, não?

A jovem demorou um pouco, relutante em aceitar o fato, e assentiu com a cabeça silenciosamente. “Ótimo”, ouviu a desconhecida sussurrar.

- Então você sabe também o que acontece com as almas a partir de agora, não é? – sem esperar a resposta, continuou: - Sabe que aquele responsável por sua morte, aquele orc de nome Tarûk, também está morto? E que em breve estará recebendo sua recompensa? A recompensa por ter espalhado toda aquela destruição, por ter causado dor a tantas pessoas.

Aquelas palavras fizeram Aila parar a sua caminhada. Claro, se ele de fato morrera, sua alma seria recompensada por seu deus monstruoso. Discretamente, a desconhecida sorriu ao ver a reação da barda. Estava chegando aonde queria. Confiante, continuou seu discurso:

- Sim, ele estará recebendo dons por ter matado tantas pessoas, e por ter disseminado a morte entre os elfos da Alta Floresta. Isso é o que você considera justiça, Aila Ilindiel?
- E… o que eu posso fazer para impedir?
- Junte-se a mim. Eu concederei os poderes para que você faça a justiça necessária.

Posted by: brainsstorm | Junho 1, 2008

Novo Banner! =)

Então, como vocês podem ver, temos um novo banner. E para agradar ao público, temos meu alter ego e o alter ego do meu alter ego!

Ficaram confusos? Era essa a idéia! Há!

Confiram o desenho completo:

Tan dan!

E bem, eu esqueci de dizer, mas as cores quem fez foi meu amigo Aluízo, cuja galeria vocês podem ver aqui!

Posted by: brainsstorm | Junho 1, 2008

A Queda - Parte 1

Suas pernas andavam de modo autômato, acompanhando a mulher que ainda a pouco parecia querer ajudá-la. Ainda estarrecida, Aila Ilindiel tentava compreender o que fizera. Estava diante de uma grande torre, feita completamente de metal e ricamente trabalhada. Atravessou portões também em metal maciço, e descia escadas que não pareciam terminar. Não atentava para os detalhes da construção que a cercava, atordoada que estava. A cada passo que dava, reminiscências dos últimos acontecimentos vinham à tona.

**********

Abriu os olhos lentamente, e a paisagem era o que poderia se chamar de peculiar. Um céu completamente cinzento abria-se ao horizonte, e planícies igualmente cinzentas pareciam estender-se infinitamente. Conforme ia despertando, sua mente trazia às claras o que havia acontecido: o golpe de machado fatal que espatifou suas vértebras, perpetrado por aquele monstro bárbaro sanguinário, fazendo-a perecer sem agonia.

Instintivamente levou a mão ao local do ferimento, e viu que nada havia. Foi então que atinou a olhar para si mesma, vislumbrando-se em seus trajes preferidos, e os fatos clareavam-se cada vez mais: a pele, sem tom, provava o que sua mente se recusava a aceitar. Estava morta.

Posted by: brainsstorm | Maio 19, 2008

Lembranças

Aquilo tinha tudo para dar errado.

Um grupo de batedores, pequeno, aproximava-se da fortaleza. A noite avançava vermelha - tudo naquele lugar tinha, para Akane, algo de vermelho - e tudo o que eles tinham que fazer era conseguir informações o suficiente para que pudessem preparar um ataque. Aquele forte tinha que ser tomado.
Os cabelos alaranjados emolduravam o rosto tenso da guerreira, que se aproximava entre as árvores o mais silenciosamente possível. Podia ouvir o leve roçar dos soldados que a acompanhavam. Ou talvez eles nem estivessem fazendo barulho de fato, talvez fosse apenas a tensão.

Medo. Era isso que sentia. Mas achava bom - não ter medo de demônios e diabos era algo de se estranhar. Na bainha, A Ladra das Nove Vidas parecia pulsar, como se pedisse por sangue. Para se sentir melhor, segurou a guarda conforme andava. Não ajudou.

- E o que fazemos agora?

Um sussurro a fez voltar para si. Era um dos homens. Akane encarou a muralha, procurando uma brecha, uma falha, qualquer coisa… até que viu. Era uma saída na muralha lateral, onde provavelmente eram eliminados os dejetos. Talvez ali eles não chamassem a atenção. É, talvez desse certo.

Com passos rápidos, o grupo se aproximou da muralha. Nada de errado. Uma forçada rápida na grade e a passagem estava aberta. A guerreira esperou que os outros chegassem, esperou que passassem e só então entrou no túnel.

A escuridão logo se apoderou da visão de Akane, que tropeçou um pouco até se encontrar. Os olhos se acostumaram aos poucos, e então ela pôde divisar os vultos dos homens. Tentou ignorar o cheiro, e apoiando-se nas paredes seguiu. Dez passos, quinze passos, e ela pôde divisar uma fraca luz adiante. Por um momento aquilo a animou, até que pôde ver que alguém trazia aquela iluminação.

Luz que se aproximava, ganhando forma e tamanho, e trazendo calor. A explosão repentina que se seguiu mal deu tempo para Akane esquivar-se com um salto rápido pára trás, levando apenas breves escoriações. Mas o cheiro de carne queimada, juntamente com os gritos dos outros, indicavam que eles não tiveram tanta sorte.

<- Achou que podia entrar aqui de maneira tão fácil, Estrangeira?> - a voz parecia ressoar por todos os lados. E logo em seguida uma escuridão quase palpável tomou conta do pequeno corredor. Como detestava magos. Prendeu a respiração por alguns segundos, o suficiente para deduzir a localização o conjurador pelo ruído dos seus passos.
<- Ao que parece, eu posso. Acha que esses truques baratos vão me impedir, arcano?>
<- Prove então dos seus artifícios de bárbaros, Forasteira.>

E então sentiu uma movimentação muito próxima. Por muito pouco desviou de um golpe de espada, e bolqueou outro com o escudo. Perder homens em uma missão de reconhecimento não tinha nada de anormal, mas ser morta por eles não parecia nada agradável. Movimentou-se para onde achava que era a saída, e por instinto desembanhou a espada.

Não soube se demorou demais a reagir, mas o fato é que não conseguiu explicar realmente o que aconteceu depois. A Ladra das Nove Vidas, sentindo-se liberta da bainha, parecia guiar os golpes. O primeiro foi aberto, e atingiu o soldado entre algumas costelas. Com o braço esquerdo, desviou um outro golpe que mal percebera, mas o movimento deixou o flanco esquerdo desprotegido. E então o terceiro soldado atacou-a, descendo a lâmina pela perna e encaixando-a exatamente na parte traseira da rótula.

O grito de dor e raiva incontida parece ter preenchido todo o forte, e ao invés de debilitar a guerreira, a dor pareceu excitá-la ainda mais. Fazendo a lâmina descrever um círculo, atingiu seu oponente na altura da bacia, fazendo-o cair de joelhos. O segundo golpe era desnecessário, mas nada a faria parar naquele momento. Como se soubesse exatamente o que fazer, retirou a espada já coberta de sangue e desceu a lâmina pouco acima da clavícula. O sangue espirrou-lhe no rosto, mas Akane não parecia se importar com isso.

******

- E o que aconteceu depois? - perguntou o rapaz, impressionado. - Você devia ter perdido a perna, ou não ser capaz de mexê-la…
- Magias de cura fazem milagres, Colin. Mas eu não me lembro. Me deixei levar. - os olhos verdes da guerreira pareciam se arrepender de ter contado a história. - Eu disse que não seriam boas histórias.
- Não, não é isso. Mas é impressionante ouvir tudo o que aconteceu… E essa aqui? Como conseguiu?

Posted by: brainsstorm | Abril 28, 2008

Haunted - Parte III

“Yeah, though I walk through the valley of rape and despair
With head high and eyes alert
I tread on a plane of many
We who are of good nature and intention,
But cannot touch on the dark
Recesses of memory
And pain learned, so come walk
With me, feel the pain,
And release it…”

Sickman - Alice in Chains

- E o que você acha que pode ter causado essa… alucinação?

Don Perazzo era um homem prático, racional, e quando conveniente, extremamente frio. Ver a única pessoa restante da família sangrando em profusão no chão do banheiro poderia ter deixado qualquer um fora de si, mas não o Don. Ela tentara se matar, assim como a mãe. E ele deveria saber o porquê.

- Pode ter sido qualquer coisa. Uma perturbação. Uma lembrança traumática do passado. O uso de alguma…

- Droga? Como heroína? Ou outra dessas coisas?

- Esperamos os resultados dos exames, mas não acredito que ela estivesse drogada, senhor. Talvez levemente embriagada. Agora se me der licença, preciso ir.

Olhou para a filha inerte no leito do hospital, agora parecendo tranqüila. Não conseguia esquecer dos seus gritos e do sangue espalhado pelo banheiro. Escritas no chão, com seu próprio sangue, as palavras: Me ajude. Don Perazzo não sabia o que estava acontecendo, mas iria descobrir. Agora tinha trabalho a fazer.

**********

“Has no one told you she’s not breathing?”

Hello - Evanescence

Olhos verdes piscavam à luz branca do apartamento. Conforme sua visão voltava ao foco, Nicole destinguia uma bolsa de sangue ligada por uma agulha ao seu braço. Ela sabia muito bem de onde vinha aquele sangue. Olhou para o lado, esperando encontrar seu pai, mas ele não estava ali.

- Deve estar resolvendo alguma coisa.

Não gostava de hospitais. Desde aquela tarde na igreja passou a evitá-los. Todos os dias morriam pessoas, e quando isso acontecia por perto, ela podia senti-los. E por mais que quisesse se acostumar, não conseguia. Mas ao menos ela não tinha mais medo da morte. Talvez vê-la tantas vezes, de modos tão diferentes, a tenha deixado fleumática. A cirurgia no braço começava a comichar. A anestesia deveria estar perdendo o efeito, afinal.

- Também não consegue dormir?

Se não estivesse tonta demais, Nicole teria pulado da cama. A voz vinha de uma garota, de longos cabelos cacheados, vestindo uma camisola de hospital não muito diferente da que usava. A menina balançava os pés debilmente na cama ao lado da de Nicole. Olheiras profundas decoravam seu rosto magro, e os lábios descascavam. Não precisava olhar muito para saber que a menina tinha leucemia. E que não tinha muita esperança de melhorar.

- Eu só consigo dormir quando a minha mãe vem me ver. Você também é assim? - a garota continuou, agora mais interessada.

- Mais ou menos. - respondeu Nicole. Substituindo “mãe” por “calmantes” a frase ficaria mais ou menos verdadeira. - Você… está aí faz tempo?

- Vi quando trouxeram você. Havia um homem alto, forte e parecia preocupado. Seu pai, não é?

Nicole não respondeu, nem poderia. O que uma criança poderia estar fazendo fora da ala infantil, ainda por cima naquele estado? Uma olhada mais atenta no apartamento deixava claro que aquele não era um quarto coletivo, portanto ela não deveria estar ali. Tentou se colocar sentada, mas uma tontura repentina fez com que continuasse prostrada na cama. E mais uma vez, não tinha como sair dali.

- Você não devia estar aqui. - com a voz fraca, foi tudo o que conseguia dizer.

- Mas só você é quem pode falar comigo, Nicole. - e já não era a voz da menina, e sim a mesma voz que escutara no banheiro. Masculina, forte e grave.

- Rick… o que quer?

- Saber. O que aconteceu comigo. Por que eu ainda estou aqui. Por que só você consegue me ver. Eu estou morto, não é?

Ela daria uma gargalhada se não estivesse tão tonta. Ele estava fazendo isso também, ou era só o efeito da anestesia? Ou a idéia de estar presa em um filme de terror classe B, com corpos sendo possuídos por fantasmas? Mas sempre se surpreendeu com a capacidade de Richard dizer o óbvio.

- Si, fratello. Tu stai morto. E o que você quer de mim?

- Vendetta. Daqueles que me mataram. Dos que acabaram com a nossa família.

Os olhos da menina estavam opacos, e ela não respirava. Como ela não percebera antes? Talvez tenha se passado apenas alguns minutos desde seu último suspiro. A mão pequena e gélida tocou desajeitada o lugar do ferimento no pulso, fazendo a gaze se tingir levemente de vermelho.

- Scusa. Não queria.

- Deixe a garota agora. Deve haver alguém preocupado com ela.

Trôpega, a menina saiu do quarto. E ali, sozinha, Nicole pensava a respeito do que faria dali por diante. Vendetta, a palavra ressoava-lhe nos ouvidos, conforme a tontura ia e voltava. Como poderia explicar aquilo ao Don? Talvez não devesse, afinal, todos esses anos ele lutou para que Nicole não se envolvesse. Impossível - ela sempre fora parte da família.

Posted by: brainsstorm | Abril 27, 2008

Haunted - Parte II

TLEC.

Esse foi o barulho que fez o interruptor quando Nicole entrou no banheiro acendendo a luz. As paredes revestidas de cerâmica branca já estavam meio fofas, mas o cômodo era limpo e organizado. Suspirou, cansada de mais um dia de trabalho, e distraidamente se despiu, largando as roupas de qualquer jeito no chão. Olhou de relance para o pequeno espelho ovalado mas logo desviou o olhar. Detestava aquelas sardas, por mais que quase ninguém as notasse. Faziam-na parecer uma adolescente.

Ligou o chuveiro e deixou que a água banhasse seu corpo desnudo. Nada como um banho quente depois de uma tarde inteira tendo que aturar uma excursão escolar na galeria. “Você finge que explica algo, eles sequer fingem que prestam atenção, e você ainda precisa responder perguntas imbecis. Nem parece que eu fui assim um dia”, pensava, esperando que a água levasse seus aborrecimentos ralo abaixo.

Fechou os olhos para retirar o xampu e percebeu que uma escuridão repentina tomou conta do banheiro. Levou a mão a uma das paredes, buscando apoio, mas a luz voltou. “Ufa, achei que tivesse queimado… de novo”. A oscilação continuou, e logo Nicole percebeu que não era um fenômeno puramente elétrico. Fechou os olhos novamente, e desligou a ducha, temendo algo mais sério.

Um calafrio súbito desceu-lhe pela espinha, e a jovem continuava de olhos fechados. Não queria ver, não de novo…

Igualmente repentino um vento forte invade o cômodo fechado, derrubando vidros de produtos diversos. A oscilação na lâmpada continuava incessante, cada vez mais rápida. Nicole tremia, e não era de frio. Por instinto tapou os ouvidos, mas em sua desorientação escorregou no chão, caindo indefesa. Não resistiria por muito tempo, e logo se ouviu gritando:

- O que você quer?! O que diabos você quer de mim?!

O box abriu-se estrondosamente, certamente rachando o vidro temperado em algumas partes. A jovem encolheu as pernas, abraçando-se. Seu maxilar tremia, e todo o seu corpo parecia suar frio, suor se misturando à água. Mas não conseguia desviar o olhar.

Conforme a lâmpada acendia e apagava, no espelho ovalado Nicole via sendo escrito com o vapor da água quente: Ajude-me. Logo abaixo, rompendo o branco da cerâmica, viu as letras se formando, dessa vez em sangue: AGORA!

E como aqueles pensamentos que nos ocorrem nos momentos mais importunos, veio à sua cabeça: “De onde vem esse sangue?” Seguindo o rastro do líquido vermelho com os olhos, percebeu a origem: do seu lado, um pedaço da embalagem de sabonete líquido estava suja de sangue, enquanto seu pulso esquerdo sangrava abundantemente.

Seu impulso foi gritar, e, irracional que estava, esfregava o ferimento. Trêmula e em pânico, a respiração lhe faltava, e a hemorragia não parava. Via seu sangue escorrer livremente - como podia ter tanto sangue assim? - até que uma fagulha de sensatez a atinou para tentar estancar o ferimento. Puxando uma toalha, tentou improvisar um curativo, quando vozes ecoaram na sua mente:

- Ajuda… eu preciso… de você… tortura… dor… ajuda…

As vozes ganhavam cada vez mais força, mais ímpeto, mais vigor. Pedidos de ajuda, gritos de sofrimento, e em meio a tudo aquilo, a voz lhe era conhecida.

- Minha… irmã… ajuda…

Mas como? As últimas palavras fizeram gelar seu coração. Seu.. irmão…? Mas… por quê…? Como… por que não a procurou antes? Por que tanta tortura…? Seus pensamentos se confundiam e se esvaíam juntamente com o sangue do seu pulso. O corte devia ter sido mais profundo do que julgara, afinal. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu a consciência se esvair conforme a porta do banheiro era aberta violentamente. Nunca ficara tão feliz em ver seu pai.

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