“Yeah, though I walk through the valley of rape and despair
With head high and eyes alert
I tread on a plane of many
We who are of good nature and intention,
But cannot touch on the dark
Recesses of memory
And pain learned, so come walk
With me, feel the pain,
And release it…”
Sickman - Alice in Chains
- E o que você acha que pode ter causado essa… alucinação?
Don Perazzo era um homem prático, racional, e quando conveniente, extremamente frio. Ver a única pessoa restante da família sangrando em profusão no chão do banheiro poderia ter deixado qualquer um fora de si, mas não o Don. Ela tentara se matar, assim como a mãe. E ele deveria saber o porquê.
- Pode ter sido qualquer coisa. Uma perturbação. Uma lembrança traumática do passado. O uso de alguma…
- Droga? Como heroína? Ou outra dessas coisas?
- Esperamos os resultados dos exames, mas não acredito que ela estivesse drogada, senhor. Talvez levemente embriagada. Agora se me der licença, preciso ir.
Olhou para a filha inerte no leito do hospital, agora parecendo tranqüila. Não conseguia esquecer dos seus gritos e do sangue espalhado pelo banheiro. Escritas no chão, com seu próprio sangue, as palavras: Me ajude. Don Perazzo não sabia o que estava acontecendo, mas iria descobrir. Agora tinha trabalho a fazer.
**********
“Has no one told you she’s not breathing?”
Hello - Evanescence
Olhos verdes piscavam à luz branca do apartamento. Conforme sua visão voltava ao foco, Nicole destinguia uma bolsa de sangue ligada por uma agulha ao seu braço. Ela sabia muito bem de onde vinha aquele sangue. Olhou para o lado, esperando encontrar seu pai, mas ele não estava ali.
- Deve estar resolvendo alguma coisa.
Não gostava de hospitais. Desde aquela tarde na igreja passou a evitá-los. Todos os dias morriam pessoas, e quando isso acontecia por perto, ela podia senti-los. E por mais que quisesse se acostumar, não conseguia. Mas ao menos ela não tinha mais medo da morte. Talvez vê-la tantas vezes, de modos tão diferentes, a tenha deixado fleumática. A cirurgia no braço começava a comichar. A anestesia deveria estar perdendo o efeito, afinal.
- Também não consegue dormir?
Se não estivesse tonta demais, Nicole teria pulado da cama. A voz vinha de uma garota, de longos cabelos cacheados, vestindo uma camisola de hospital não muito diferente da que usava. A menina balançava os pés debilmente na cama ao lado da de Nicole. Olheiras profundas decoravam seu rosto magro, e os lábios descascavam. Não precisava olhar muito para saber que a menina tinha leucemia. E que não tinha muita esperança de melhorar.
- Eu só consigo dormir quando a minha mãe vem me ver. Você também é assim? - a garota continuou, agora mais interessada.
- Mais ou menos. - respondeu Nicole. Substituindo “mãe” por “calmantes” a frase ficaria mais ou menos verdadeira. - Você… está aí faz tempo?
- Vi quando trouxeram você. Havia um homem alto, forte e parecia preocupado. Seu pai, não é?
Nicole não respondeu, nem poderia. O que uma criança poderia estar fazendo fora da ala infantil, ainda por cima naquele estado? Uma olhada mais atenta no apartamento deixava claro que aquele não era um quarto coletivo, portanto ela não deveria estar ali. Tentou se colocar sentada, mas uma tontura repentina fez com que continuasse prostrada na cama. E mais uma vez, não tinha como sair dali.
- Você não devia estar aqui. - com a voz fraca, foi tudo o que conseguia dizer.
- Mas só você é quem pode falar comigo, Nicole. - e já não era a voz da menina, e sim a mesma voz que escutara no banheiro. Masculina, forte e grave.
- Rick… o que quer?
- Saber. O que aconteceu comigo. Por que eu ainda estou aqui. Por que só você consegue me ver. Eu estou morto, não é?
Ela daria uma gargalhada se não estivesse tão tonta. Ele estava fazendo isso também, ou era só o efeito da anestesia? Ou a idéia de estar presa em um filme de terror classe B, com corpos sendo possuídos por fantasmas? Mas sempre se surpreendeu com a capacidade de Richard dizer o óbvio.
- Si, fratello. Tu stai morto. E o que você quer de mim?
- Vendetta. Daqueles que me mataram. Dos que acabaram com a nossa família.
Os olhos da menina estavam opacos, e ela não respirava. Como ela não percebera antes? Talvez tenha se passado apenas alguns minutos desde seu último suspiro. A mão pequena e gélida tocou desajeitada o lugar do ferimento no pulso, fazendo a gaze se tingir levemente de vermelho.
- Scusa. Não queria.
- Deixe a garota agora. Deve haver alguém preocupado com ela.
Trôpega, a menina saiu do quarto. E ali, sozinha, Nicole pensava a respeito do que faria dali por diante. Vendetta, a palavra ressoava-lhe nos ouvidos, conforme a tontura ia e voltava. Como poderia explicar aquilo ao Don? Talvez não devesse, afinal, todos esses anos ele lutou para que Nicole não se envolvesse. Impossível - ela sempre fora parte da família.