Bitter face, empty eyes.
There has been so many smiles.
(Vanished in Haze, Rage)
Uma dor intensa no peito a fez despertar aquela noite. Com lágrimas aos olhos, ela olhava confusa ao redor. Aos poucos, reconheceu o lugar. Era seu quarto, porém estava diferente. Não sabia identificar o quê, entretanto.
A cama vazia; estava sozinha. Estava? Olhou para o banheiro, a luz apagada. Não estava lá. Estaria com insônia mais uma vez?
Levantou-se, pisando no chão que deveria estar frio. Que horas deveriam ser? Três da manhã? O aquecedor estava ligado e não percebera?
Encontrou-o, como esperava, na varanda, olhando o céu. Ultimamente carregava aquele semblante: pensativo, levemente triste, certamente desnorteado. O que tanto o atormentava?
Andou pela sala de estar; ele não pareceu notá-la. A camisola arrastava-se muda pelo chão. Havia uma pasta aberta em cima da mesa – propostas de compra de imóvel. Onde estavam os porta-retratos com as fotos do casamento? Aqueles eram os mesmos móveis que escolhera?
Uma porta de vidro que ia do teto ao chão separava-os. Quando levantou a frágil mão para abri-la, percebeu que não podia tocá-la. Sangue rubro descia-lhe pelo braço, desaparecendo antes de pingar no assoalho.
Foi então que viu seu reflexo. E gritou alto o bastante para que ninguém a ouvisse.
**********
O jornal de um ano atrás, as páginas já amareladas pelo uso e pelo tempo. Em preto e branco, a foto e a nota anunciando o crime. No colo, fotos coloridas. Tirou-as da sala para que os outros pensassem que estava bem.
Não estava em absoluto. Ficaria um dia?
E ela, estaria bem? Rezava para que sim.
Levantou o olhar para o céu estrelado. Se tivesse filhos, diria que ela se tornou uma estrela no céu, de onde os observava. Mas não houve filhos nem estrelas. Apenas os grilhões e o vazio.
Permitiria que ela fosse embora um dia?
**********
Toda noite, ela despertava na cama. Molhada em seu próprio sangue.
Toda noite, ele ia até a varanda, o rosto molhado em lágrimas.
Toda noite, ela via o próprio reflexo. Aterrorizada, não conseguia chegar até ele.
Toda noite, as fotos, refletindo uma felicidade de outrora.
Dos dois lados do vidro, a dor da perda. E a incerteza do que aconteceria caso as lembranças fossem destruÃdas.
Meu texto do mês para a Liga Narrativa. O tema é Masmorras, calabouços e prisões. Fui um pouco além, mas…
Quis matar dois coelhos com uma bordoada só, e fazer um texto temático para o dia dos namorados. ; )
Definitivamente, eu preciso escrever algo com mais testoterona. Carros explodindo, pessoas se matando, coisas de macho. xD
Outros posts da Liga:
Erick – Morrendo pela boca
Tags:Fantasmas, Grilhões, Liga Narrativa
First!
Ótimo texto mais uma vez, interessante ver que os grilhões existem dos dois lados, ela não consegue escapar porque ele não esquece dela e ela não consegue seguir em sua caminhada porque não consegue largar das lembranças dele.
Vários jogos tentaram levantar essa temática mas talvez por ser uma coisa tão real e possÃvel de se acontecer conosco seja um assunto que termina não divertindo quando numa mesa de RPG, mas não deixa de ser muito legal ler sobre
Drama é legal em uma mesa de RPG, mas o tempo todo… cansa. Eu tô jogando RPG, e não fazendo treino pra novela mexicana. xD Além do mais, em um grupo, é meio difícil levar por esse lado.
Mas pra quebrar o gelo e ter um mote pro dia dos namorados, funcionou bem. Faltou uma nota no fim: “Na próxima postagem voltaremos com nossa programação normal.” \(^o^)/
Tenho medo de uma sessão que tente fazer drama o tempo todo.
Gostei do texto mais do que consigo expressar. Ficou muito bom.
Thanks. xD
@Xico, é verdade, faltou. Mas como eu não sei se voltaremos, melhor não prometer, né? =D
NÃO FAÇA ISSO, MULHER. Brincadeira \(^o^)/. É sempre bom quebrar a rotina.