Destiny Março 12, 2009
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As escamas avermelhadas brilhavam à luz bruxuleante das tochas do salão. O templo, dedicado a Bahamut, era sempre iluminado, mesmo que não houvesse ninguém presente. O draconato em vestes cerimoniais dirigia-lhe um olhar grave e austero, como faria com qualquer devoto que lhe procurasse. Isso não incomodaria Sonja se não fosse por um detalhe: ele era seu pai.
- Você sabe que precisa fazer isso, Sonja.
- E por que eu devo ir à terra dos humanos? Eu sou uma guerreira, não uma diplomata.
- Está questionando os meus desígnios, Sonja? Os desígnios de Bahamut?
- Não, sacerdote. – as palavras saíam-lhe à contragosto. Sabia que boa parte dos “desígnios divinos” vem da vontade daqueles que professam a religião. E sabia o que estava por trás das intenções de seu pai: ele a queria longe, convivendo com os humanos. E por quê?
- Ótimo. Então prepare suas armas, pois sua viagem começa amanhã, antes mesmo que a aurora desponte.
- E o que devo procurar entre eles?
Afastando-se do altar consagrado ao grande deus dragão, o sacerdote olhou-a com uma expressão que Sonja não pode identificar. Compaixão? Seria ele capaz disso? Com um andar solene, quase ritualístico, o draconato aproximou-se da filha.
- Algo grande está prestes a acontecer, Sonja. As visões são incertas, difusas e imprecisas, mas não são boas. E acredite ou não, eu vi você em meus sonhos.
Aquilo alarmou a draconata – os desígnios muitas vezes eram manipulados, mas Sonja já presenciara enquanto alguns descendentes de dragões tinham visões de fatos futuros. Ela engoliu em seco, encarando o pai.
- E no seu sonho, eu morro?
A ausência de palavras bastou para responder a pergunta. Instantes de silêncio se passaram, embora a guerreira não pudesse precisar quanto tempo exatamente. Mas por que deveria se alarmar? Não seria a morte o destino de todas as criaturas, afinal?
- Eu estava em batalha?
- Sim. – a voz poderosa ecoava pelo salão vazio.
- E você está me mandando para a terra dos humanos, para me poupar de tal destino?
- Você não entende, criança insolente. Acredite: é o melhor para você.
- E se eu não for?
- Se não for por vontade própria, eu a exilarei do nosso povo. É o que quer? Deixar os seus desonrada, sem valor? Agora obedeça-me e vá preparar seus pertences para a viagem. Haverá um banquete de despedida.
A guerreira deixou o salão, irritada e impotente. Até compreendia seu pai, mas se algo tão grande e perigoso era iminente de acontecer ao seu povo, ela preferia estar entre os seus e morrer entre eles. Mas não tinha escolha agora.
Enquanto isso, o sacerdote via a filha afastar-se, desaparecendo de sua visão. Nem em séculos ela seria capaz de compreendê-lo, mas seria melhor assim. O poderoso deus dragão o alertou, e ele não recusaria seus conselhos. Mal sabiam os dois que haviam desencandeado os fatos que culminariam no destino final da draconata: a fortaleza do Pendor das Sombras.
Finding yourself out Janeiro 19, 2009
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Descansar, mesmo que fosse em uma cabana simplória numa noite fria, era muito reconfortante. Keriann sentia as pernas cansadas da viagem, e os ferimentos causados pelo combate inusitado da noite. Deitada no saco de dormir, olhava para sua mão direita, encarando a cicatriz profunda deixada pela adaga de Leona. A seus pés, Summer fechava os olhos, como se compartilhasse a inquietação da arqueira.
Mas não era a luta o que lhe atormentava aquela noite – no final das contas, encontrar Gawden, o ancião do vilarejo, foi até providencial. E os sortilégios curativos que ele performara foram o bastante para aplacar a dor física. O que inquietava sua cabeça, impedindo-a de dormir, eram as palavras ferinas do bardo: “uma cadelinha sem pensamentos próprios que o obedecia sem hesitar”.
Por mais que a ideia a incomodasse, aquela foi a única verdade que Adrian proferira durante toda a noite. Keriann sempre escutava o que Lyon dizia, sempre seguia seus conselhos, e não hesitava em retesar o arco quando ele pedia. Soldados bem treinados muitas vezes desobedeciam a seus capitães, em prol de si mesmos. Mesmo animais de caça fugiam dos seus donos às vezes. E quanto a ela? Mesmo quando discordava das opiniões do guerreiro, ela o seguiu.
E agora, Keriann se perguntava o porquê. Qual o motivo? Mesmo quando ele abandonou a todos – perseguindo loucamente os captores de Aillah, que por coincidência triste do destino eram liderados por Leona, irmã de Lyon – mesmo assim, ela o seguiu, sem hesitar. E não era por conta de Profecia alguma. Na verdade, a arqueira já esquecera-se daquilo há muito. Era outra coisa, incondicional, espontânea e que ela não conseguia explicar nem a si mesma.
- Pela Dama… eu não acredito que eu amo este homem.
O choque da descoberta a deixou pasma por algum tempo, não poderia medir. Repassava em mente os momentos, as conversas nas noites de guarda, os treinamentos, o desabafo no castelo de Clampot. Olhou para Lyon, deitado no saco de dormir. Estaria dormindo? Deveria contar a ele?
Claro que não, que ideia. Lyon era casado, estava prestes a ter um filho, e apesar dos pesares, parecia gostar da esposa. Não seria certo. E seria correto abrir mão de seus próprios sentimentos? Ser obrigada a casar foi o que a fez fugir de casa. No entanto, correr o risco de destruir uma família prestes a se formar não parecia a melhor coisa a se fazer. Guardar suas inquietações seria nobre, certamente. Mas era o que desejava?
Virou para o outro lado, encarando a parede. Podia estar confundindo os sentimentos. Não era a primeira vez que isso acontecia. Podia ter sido levada a acreditar naquilo, graças às bravatas ácidas do bardo. “Uma cadelinha sem pensamentos próprios”. Suspirou fundo. Sejá lá o que fosse, era melhor guardar para si.
Levantou-se, impaciente. Não conseguiria dormir agora, apesar do cansaço. Sorrateira, andou para onde estava Lyon, o meio-elfo de cabelos loiros que causava sua insônia. Definitivamente estava dormindo. A respiração ritmada, o peito subindo e descendo cadenciado…
A arqueira se aproximou, sentindo o coração acelerar dentro do peito. Os curtos cabelos cacheados caíram para frente, e então ela parou, com medo de que o roçar das madeixas acordasse o guerreiro. Ficou naquela posição não sabe por quanto tempo, indecisa sobre o que fazer. Pareceu uma eternidade até que resolveu se levantar. Voltou para o seu saco de dormir, resignada. Não, não era a coisa certa a se fazer. Chacoalhou a cabeça, como sempre fazia quando queria esquecer alguma coisa, e fechou os olhos. Amanhã seria um dia longo.
Seda e Aço Janeiro 8, 2009
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A lua brilhava alta no céu, refletindo-se no riacho que cortava as terras da família Matsumoto. O casamento realizara-se no pequeno templo dedicado aos ancestrais da família, simbolizando os antepassados que olhavam e abençoavam a união do jovem casal. Arashi terminou de acender o incenso em honra aos espíritos, para que olhassem com bons olhos a noite de núpcias, enquanto o silêncio imperava entre os dois.
- Hanarai. Flor selvagem. É assim que seu irmão a chamava, quando estive com ele. Há algum motivo especial?
Saiki tinha uma voz macia e sutil, como um pincel pesado de tinta que percorria o linho. Devia ser com essa leveza que fazia suas pinturas. Arashi sorriu polidamente, lembrando-se do irmão.
- Ele deve ter lhe contado o motivo.
- Sim, de fato. – ele sorriu. – Mas boas histórias sempre possuem várias versões. Além do mais, eu prefiro ouvi-la dos seus lábios, se não for inconveniente.
- Minha mãe me chamava assim, porque eu costumava cavalgar para os limites das terras, mesmo quando me diziam para fazer o contrário. E porque eu era um tanto… irritadiça.
- Isso explica a parte do selvagem. E basta olhar para você para entender o porquê de ser chamada de flor.
Enquanto falava, o pintor passou os nós dos dedos delicadamente por seu rosto, contornando-lhe o queixo. Um pouco da maquiagem se desfez, e percebendo isso, a jovem falou:
- Creio que seja melhor remover a maquiagem. Eu…
- Não precisa de pressa, Arashi. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou vê-la assim, então gostaria de me deleitar um pouco mais com a visão. A não ser que seja um incômodo para você.
- Como sabe que eu não gosto de…? Você e meu irmão conversaram bastante a meu respeito, não?
- Já que eu estava prestes a me casar com a irmã de Enishi, nada mais natural que eu querer saber sobre minha noiva, não?
- Eu não sei nada sobre você.
- Isso é fato. E de onde eu venho, a melhor maneira de conhecer alguém é vendo como esta pessoa maneja uma espada. Você é uma guerreira, não? Me daria a honra?
- Já deseja matar a sua noiva na noite de núpcias? – Arashi sorriu divertida, sabendo que algo assim não aconteceria. Enquanto falava, dirigia-se ao altar onde suas espadas estavam guardadas. – Achei que fosse um pintor.
- E sou. Mas a leveza e precisão de um pintor está também na leveza e precisão de sua espada. Cada pincelada é como um golpe: deve ser calculado, observado, preciso e rápido. Ou a tinta secará antes que possa ser misturada.
- Minha família não aprecia duelos.
- Mas você os acha ao menos divertidos, não?
Os dois fizeram uma reverência medida, e sacaram as espadas. Logo as lâminas se chocaram, e o barulho de metal ressoou no aposento. Arashi investiu em um golpe longo e demorado, apenas para ser aparado pela espada de Saiki. E como nos passos de uma dança, um media os golpes do outro, completando-se com uma precisão memorável. Seda e metal se cruzavam, indo e voltando, aproximando-se e afastando-se, como os movimentos do mar. Até que Arashi sentiu a ponta da espada na altura do estômago, enquanto pressionava ameaçadoramente a sua lâmina no pescoço do esposo.
- Acho que podemos dar isso por acabado, não? Um empate? – falava o jovem, com uma expressão tranquila e um leve sorriso no rosto.
- Só se pudermos desempatar. Amanhã.
- É uma disputa de um pintor contra uma samurai treinada. Não acha injusto, minha querida?
- Meu forte é com o arco, mas você também deve saber disso. Além do mais, são ótimas oportunidades de nos conhecermos melhor.
- É justo. Agora que tal desarmar-se tanto da espada quanto da alma?
- Desarmar-me…?
- Você estava fechada como uma ostra quando entrou no templo, e agora eu consegui ao menos que duelasse comigo. O que eu preciso fazer para que me deixe beijá-la?
Arashi baixou a espada, com um sorriso envergonhado. Embainhou a espada, e ele fez o mesmo, aproximando-se. Segurou-lhe o queixo delicada porém firmemente, e seus lábios se tocaram. Longe dali, a lua refletia-se nas correntes do riacho, que seguiam seu destino para o mar.
Não olhe para trás Setembro 22, 2008
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A batalha estava acabada, assim como a jovem arqueira. Seus olhos azuis encaravam a floresta que servira como campo de batalha: soldados arrastando corpos e feridos, outros vasculhando os pertences de um colega. “Vou levar pra mulher dele”, ainda pôde ouvi-lo falar. “Mulher e filhos”.
Mesmo tendo conseguido o que queriam – bater em retirada, depois do ataque mal sucedido a Camelerd – Keriann tinha a sensação de que muito mais havia se perdido aquela noite: Lyon, marido de Aillah e pai de uma criança ainda por vir; Leão da Montanha, guerreiro bérnio que, ironicamente, morrera defendendo os felden; e seu pai.
Não podia dizer quanto tempo ficou olhando aquela cena – nem importava realmente. Os outros carregavam os corpos dos seus conhecidos, e Keriann olhava para o que restara do seu pai. Quando o viu pela última vez, não imaginara que o reencontro seria assim.
Fechou os olhos, e lágrimas desciam pelo rosto sujo da batalha. Ela viu quando o exército de mortos corria para a floresta, ignorando galhos ou quaisquer obstáculos. Incansáveis e implacáveis, eles pareciam invencíveis. Mas o pior foi perceber que boa parte deles usava as roupas dos homens que morreram no ataque à cidade: as forças negras a serviço de Drakkan os trouxeram para lutar mais uma vez, sem vontade própria, apenas com o desejo instintivo de matar.
Mas em uma batalha, quem pode pensar diferente?
E Keriann lutou. As mãos calejadas dispararam flechas como nunca, e ela mal pôde sentir quando a luva se desfez mais uma vez e os dedos começaram a sangrar. Os desmortos continuavam a desferir seus golpes, ploriferando morte e corrupção, e ela continuava a atirar, os sons da corda fazendo-a não pensar nos gritos de dor dos soldados. Até perceber que a parede de escudos estava prestes a se romper, e os soldados protegiam os feridos.
Atirou mais uma vez e largou o arco, sacando a Matadora de Bruxas, que Dorgauth entregara-lhe. Se servia para matar bruxas, daria descanso aos mortos também. Lutou. Teria continuado se não percebesse um brilho incomum na altura do peito do desmorto: um pingente prateado balançava, mostrando um cálice com uma linha dourada no topo e algumas inscrições.
De longe, ela reconheceria aquela jóia que seu pai costumava segurar com tanto afinco enquanto orava. Levantou os olhos para ver o rosto de quem estava prestes a atacar: era seu pai, os cabelos castanhos, agora imundos; os olhos azuis, de quem herdara os seus, sem o brilho da vida; a pele seca e esbranquiçada; e um grande ferimento de espada na altura do pescoço. Seu pai, tornado um desmorto pelos servos de Drakkan. Seu pai.
Largou a espada, mais por inércia que por desejo. Como aquilo era possível? Como?! Quis gritar, quis impedir os outros de lutarem, mas sabia que já era tarde. Enfrentara desmortos antes, e sabia que eles já não eram as pessoas de antes. Queria abraçá-lo, mas sabia que não podia. Os soldados gritavam, pedindo ajuda, pedindo que lutasse, mas naquele momento era impossível. Inerte e impotente, era como se sentia. Como deixou aquilo acontecer?
Mas naquela noite, os mortos não paravam. E ele continuou, avançando em sua direção, segurando uma espada que não era dele. Brandiu a lâmina sem muita força, atingindo a arqueira na altura do estômago. Ignorou a dor do ferimento porque alguma outra coisa lhe doía ainda mais. Seria a alma?
Não teve tempo para pensar: os outros soldados atacaram-no, cumprindo seu dever. E o que podia fazer a respeito? Conseguiram defender os feridos, era o que importava. E agora correram para ajudar os outros soldados em batalha. Era o que ela deveria fazer também, mas só conseguia pensar em um responsável por tudo aquilo: Drakkan.
Mas a batalha já havia terminado. Os homens marchavam, cansados, para longe de Camelerd. A época do plantio começara, e se não quisessem morrer de fome tinham que trabalhar no campo. Estabelecia-se assim uma trégua temporária, para que os dois lados se preparem para o que estar por vir. Nada daquilo importava para Keriann.
Diante de si, um túmulo improvisado: passara o resto da noite em lágrimas, preparando a cova, já que não havia nada mais o que fazer. Enterrou junto com ele seus pertences, exceto o símbolo sagrado da Dama, que agora brilhava no seu peito. Agora já não havia o que chorar. Levantou o capuz, olhou para a distante fortaleza que diminuía conforme a distância aumentava, e fez uma última prece à Dama.
- É uma promessa: não descansarei enquanto não matar você, Drakkan.
Com as próprias mãos Agosto 25, 2008
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- Você faria o mesmo se estivesse no meu lugar!
Não, Ariene não faria. Mas aquelas palavras reverberavam na sua mente, indo e voltando sem parar. Ariene Crownshield, cavaleira sagrada da Ordem do Cálice Prateado de Siamorphe, não venderia sua honra tentando matar alguém em troca de um punhado de moedas de ouro. Mas será que ela, nascida sem lar, sem ninguém que a ensinasse que valores deveria preservar, não se deixaria levar pela situação?
Segurou entre os dedos o cálice prateado, que usava sempre com tanto orgulho. Apertou-o forte, como se buscasse na deusa uma resposta para essas indagações. Não gostava da sensação de ter a vida de alguém em suas mãos – nunca se achou preparada para aquilo, na verdade. Já presenciara execuções antes – seu pai a preparara desde criança – mas isso não quer dizer que gostava de vê-las. Fechou os olhos azuis com força, como se tentasse apagar a lembrança, mas foi em vão.
**********
- Não vire o rosto, pequena. Seu pai está olhando você.
Quem lhe falava era Tersus, embora a criança não estivesse realmente dando importância a sua voz. Ariene não queria olhar, mas não conseguia tirar os olhos daquele a quem chamavam de traidor. Os ombros estavam caídos e marcas profundas adornavam o seu rosto, compondo o quadro de um derrotado. Não em combate, não em batalha… mas na vida. Profundas olheiras e olhos finos como linhas se esgueiravam pela multidão, como se não conseguissem encará-los. Ariene não desviou o olhar, e teve certeza: ele olhou para ela.
Mesmo nos dias de hoje, não conseguiu entender se ele buscava por ajuda ou pura redenção. Os olhos daquele homem eram de uma inexpressividade descomunal, mas ainda assim intensos como a pior das tempestades. Prendeu a respiração, e então ouviu a voz do seu pai soar acima do cochichar da multidão:
- Você, homem de armas conhecido por Saemon, foi acusado de traição para com seus companheiros de armas. Graças a informações, passada por você a comparsas dos exércitos da velha e corrupta corte, três valorosos guerreiros perderam suas vidas. Entre seus pertences, foi encontrada a quantia de trezentas moedas de ouro, cunhadas pelas formas da corte que você costumava combater. – pausou a fala por um instante, enrolando o pergaminho com as acusações. – O que tem a dizer em sua defesa?
Por um instante, o homem permaneceu calado, assim como a multidão. Seus olhos se viraram para seu acusador, Kelvan Crownshield, e Saemon apenas deu de ombros.
- Nada. Eu fiz tudo o que disse, meu senhor. Apenas me dê uma morte rápida.
A displicência do homem apenas irritou mais o lorde, e Ariene sabia disso. No entanto, ele manteve sua postura. Desembainhou sua espada bastarda, que refletiu por um instante a luz do sol, e disse:
- Pelo poder a mim investido, por mérito e berço, és declarado culpado, homem de armas Saemon.
***
Voltaram para o solar improvisado, em um silêncio quase mórbido. Ariene não conseguia parar de pensar nos olhos inertes daquele homem, e ainda assim tão intensos. E não conseguia também encarar seu pai. Como se adivinhasse seus pensamentos, Kelvan falou:
- Eu tive que fazer aquilo. Aquele homem cometeu um crime que matou três pais de família. É uma questão de justiça. E você deve acostumar-se com isso, minha filha. Um dia, você tomará conta desse lugar.
O silêncio perdurou até chegarem à casa. Ariene viu o pai dar-lhe as costas e dirigir ordens a alguns homens, e só então conseguiu dizer:
- E quem somos nós para julgar quando tirar a vida de alguém?
**********
- Ele não carrega o mal no coração. – disse por fim Arienne, e só então percebeu que demorara a tomar sua decisão.
- Preciso lembrar-lhe, minha noiva, que este homem tentou matar você? E foi uma tentativa premeditada? – a voz de Victarion se fez soar. – De acordo com as leis de Tethyr…
- Nós não estamos em Tethyr. – lembrou Vance, que era a favor de deixar o homem vivo.
- E mesmo de acordo com as leis dos homens do mar, traição a esse nível é passível de punição com morte. Arienne, eu negociei sua vida por duzentas moedas…
- Os deuses decidirão. – a jovem disse, e ouvir sua própria voz a deixou mais segura de si. – Se ele aceitar, largue-o no mar. Não estamos tão longe de terra firme, e qualquer provação que passar será o suficiente para que repense suas ações. Se, do contrário, ele perecer, teremos adiado o inevitável. Agora, se me derem licença, vou para os meus aposentos.
*****
Na manhã seguinte, os homens foram levados para o convés, para receber sua punição diante de todos – o exemplo também era uma ótima forma de coagir os membros de uma tripulação, a capitã lhe explicara. E assim era em qualquer lugar.
Aquele que mentira no intuito de salvar a vida teve uma morte rápida pelas lâminas de Vance. O outro, por sua vez, foi lançado na imensidão do mar, e se sobreviveu ou não a paladina não poderia dizer. No entanto, tinha a sensação de que a justiça, de fato, havia sido feita.
A Queda – Parte V Junho 30, 2008
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Parte 4: aqui.

Se não fossem as circunstâncias, a visão seria impressionante. A grande torre era completamente feita de metal – as paredes, o chão, as escadas. As altas e opressoras paredes incandescentes se mostravam praticamente intransponíveis. Estátuas de metal, das mais variadas temáticas, decoravam o lugar, que também trazia inscrições em baixo relevo, brilhando incandescentes.
Andaram até um lance de escadas que desciam em espiral, dando em outra porta de metal maciço, entalhada com motivos infernais. Imaginava a quantidade de magias de proteção que deveriam haver naquele lugar, desencorajando qualquer possibilidade de fuga. Desceram por vários andares, e na maioria deles Aila pôde reconhecer claramente algumas armadilhas mágicas. E se mesmo seus olhos destreinados puderam notar, quantas deveriam ter?.
- Nova serva?
A voz era grave e profunda, e a barda não deixou de sentir repulsa quando viu quem a emitia. Era também um demônio daquela espécie, embora possuísse asas das mais negras possíveis. Tinha braços e pernas fortes, e sua pele era repleta de cicatrizes – algumas tão antigas que se mostravam esbranquiçadas pelo tempo. Nos dedos brilhavam anéis vários, e um par de braceletes adornava os braços fortes. Ela caminhou sem cerimônias na direção da barda, que instintivamente recuou. A acompanhante assentiu em silêncio, afastando-se da jovem. A erynies de asas negras examinava a barda atentamente, olhando cada detalhe de sua anatomia.
- Esquálida e patética… venha comigo.
Desceram mais um lance de escadas, e Aila pôde finalmente vislumbrar o que imaginava ser o inferno em um só momento: pessoas acorrentadas às paredes, algumas gemendo sem forças, e outras sequer pareciam respirar. As paredes pareciam decoradas com atrocidades das mais diversas, embora a jovem não conseguisse desviar o olhar. Sendo puxada, a barda teve seus braços envoltos por algemas grossas e enferrujadas. A cada momento, a certeza de que percorria um caminho sem volta apunhalava seu coração.
Logo apareceram outras erynies, que a despiram sem a menor cerimônia. Os presos olhavam curiosos, enquanto outros agradeciam a algum deus por aquilo não estar acontecendo com eles. Vertiginosamente, Aila olhou por toda a sala, desejando alguém que pudesse ajudá-la. Cercada de criaturas que não conhecia e diante de um destino nefasto, se sentiu completamente sozinha. Baixinho, fez uma prece de perdão.
Sentiu-se sendo levantada, e escutou o barulho de correntes sendo movimentadas por um antigo sistema de roldanas. Completamente desnuda de corpo, sentia-se cada vez mais desprovida de espírito. Conforme subia, sentiu arranhões no pulso, causados pelas algemas, enquanto filetes de sangue escorriam por seus braços, fazendo um contraste irônico: sangue vermelho em carne branca. Fechou os olhos, até que ouviu as correntes pararem. Olhou para baixo, e não queria nem imaginar o que a aguardava.
A Queda – Parte IV Junho 26, 2008
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A mulher tocou a barda no ombro, que sentiu a conhecida magia de teletransporte. Estava agora próxima às muralhas, mas isso não a preocupava agora. Reconheceu o irmão, com suas grandes e exuberantes asas felpudas e esbranquiçadas, lutando entre demônios que pareciam estar realizando um ataque à Necrópole de Kelemvor.
- Ele está em problemas. Vamos ajudá-lo.
Aila assentiu silenciosamente, e iniciou uma canção épica, que conhecia desde criança. Logo suas palavras soaram nos corações dos soldados de Kelemvor, e Alexander não tardou a reconhecer a irmã. Se não estivesse tão ocupado, teria se perguntado como ela teria chegado até ali. Com as esperanças renovadas, desferiu um ataque certeiro no seu oponente.
Se não conhecesse seu irmão, Aila poderia dizer que ele procedia dos planos celestiais: alto, forte e com cabelos loiros que desciam até os ombros. As linhas do rosto eram definidas, extremamente semelhantes às do pai, que sequer chegou a conhecer, e acompanhadas por olhos azuis límpidos e claros, capazes de enxergar o mal no coração das pessoas. Do alto das costas, surgiam duas asas felpudas e brancas, manifestação recente de sua herança celestial. Asas essas que acabavam de ser feridas por um raio de fogo concentrado, lançado dos olhos do construto com o qual combatia.
Era uma criatura bizarra, que possuía um corpo semelhante ao de uma aranha de órbitas vazias. Claramente artificial, se prostrava ameaçadora diante de Alexander, que, portando uma grande espada brilhante, desferiu dois ataques nas patas da criatura, mas que pouco pareceram afetá-la. A desconhecida de cabelos vermelhos bateu levemente as asas, elevando-se um pouco, e logo em seguida tensionou o arco,disparando duas flechas na direção do construto. Uma delas se crava no chão, enquanto a outra, com sua ponta flamejante, acerta o alvo.
Então um som semelhante a uma corneta soou ao longe, e a horda demoníaca entendeu aquilo como sinal de retirada. O construto, instruído para essas situações, desceu suas grandes pinças aracnídeas e prendeu Alexander, sem muita dificuldade, e logo iniciou sua caminhada. Aila então iniciou uma nova e breve canção, invocando um hipogrifo, vindo dos planos de Sune. Em celestial, num tom um tanto desesperado, ordenou que atacasse a criatura. Enquanto isso, a mulher realizou dois tiros certeiros, um deles entrando na órbita vazia do construto, que em seguida caiu inanimado no chão. A barda respirou aliviada, cancelando a magia e agradecendo à Senhora dos Cabelos de Fogo, enquanto seu irmão alçava vôo em direção à jovem.
- Aila, como… chegou até aqui? Como descobriu onde eu estava?
- Ela veio comigo, Alexander Ilindiel, paladino de Torm. – falou sem esperar a resposta da barda, e em um tom repentinamente frio. Tornando o olhar para a jovem, continuou: – Seja breve com suas despedidas.
- Despedidas…? Aila, do que este demônio está falando?
- De-demônio? – gaguejou a jovem, estarrecida.
- Ela virá comigo, paladino. – a voz firme e seca da erynies cortava os ouvidos de Alex. – Serão concedidos a ela os poderes para fazer a justiça que lhe foi negada.
- E você vem me falar de justiça, criatura infernal? Justamente você? – aumentou o tom de voz, e levou o olhar para a sua irmã – E você, onde estava com a cabeça quando ouviu as palavras dessa mulher? O que deu em você, Aila?
- Você não vê, Alex?! – gritou a barda – Eu não sabia de nada! E diferente de você, eu não posso discernir se há maldade no coração de alguém apenas olhando para ela! Além do mais… eu…
- Agora é tarde, paladino. Ela não poderá quebrar o Pacto que fez comigo. – falou a erynies – Ela terá as recompensas conforme o acordo: poderá fazer justiça a quem a matou, e será capaz de resolver os problemas terrenos pelos quais pereceu. Para tanto…
- Eu não acredito que você fez isso, Aila! – explodiu Alexander, desesperado. – Acha que essa é a verdadeira forma da justiça? Acha que é assim que se faz o bem, barganhando com demônios?!
A barda não conseguia sequer falar. Agora havia entendido tudo perfeitamente, tão claro como a água. Sentia as pernas tremerem e o coração acelerado, principalmente por saber que não haveria volta. Em um impulso, abraçou o irmão, enquanto se policiava para não chorar. Desatento a isso, ele correspondeu ao abraço, enquanto sussurrava:
- Eu não acredito, Aila. Minha irmã, como pôde? Como? Por quê?
- Então essas serão suas últimas palavras a sua irmã, Alexander Ilindiel?
- Eu tenho todo o direito de passar um sermão na minha irmã, demônio! Cale-se!
- É assim que você quer que ela se lembre de você?
Soltando-se do abraço do irmão, Aila levantou o rosto, encarando-o com o par de olhos violetas banhados em lágrimas.
- Eu também fiz isso por você, Alex.
- Venha, Aila. – chamou a erynies. – Quanto a você, paladino, espero não vê-lo nunca mais.
- O mesmo não posso dizer de você, demônio. E Aila, eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.
A erynies segurou a barda pelo braço, desaparecendo logo em seguida. Ainda tentando digerir o que aconteceu, Alexander deixou-se cair sentado, sentindo o rosto ser aquecido por lágrimas furtivas, enquanto dizia:
- … nem que isso custe a minha vida.
Enquanto caminhava na direção de uma grande torre de brilho metálico, Aila sentiu novas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. As últimas palavras que ouvira de Alex ainda ecoavam-lhe na mente:
“- Eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”
Em outras palavras, ele seria capaz de matá-la, se preciso fosse.
- Entre, Aila.
A Queda – Parte 3 Junho 5, 2008
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LEIAM A PARTE 1 AQUI! E A PARTE 2 AQUI!
Aila estava confusa. Havia perecido pela lâmina daquele machado, e claro que faria alguma coisa se pudesse. Mas aqueles eram desígnios divinos: ele receberia seu descanso eterno, assim como ela também. Insegura, a jovem olhou para a mulher, que até então nem se preocupara em dizer o seu nome.
- Mas… esta justiça não deve ser feita pelas minhas mãos. Isso não é correto. Não… não sou eu quem decido isso.
- E se eu disser que a sua morte e a dos seus amigos foi em vão? O exército de orcs ainda se concentra na região, e em breve os elfos da cidade de Sylvan receberão retaliações. Você sabe que eles não poderão resistir. E você poderia evitar esse derramamento de sangue inútil. Não era isso que você queria em vida, Aila Ilindiel?
- Esses assuntos… já não me concernem. – respondeu a barda, embora não estivesse tão segura de suas palavras. – Eu morri em prol dessa causa. Esses fatos… já não me dizem respeito.
Em um ímpeto de coragem, sentido estar indo contra todas as suas vontades, deu as costas à desconhecida. Não sabia quem ela era, mas parecia uma criatura celestial – as feições harmoniosas, agora entristecidas, apunhalavam a barda. Sentia como se tivesse ferido uma beleza até então imaculada, até que novas palavras da mulher alada a fizeram parar mais uma vez:
- E se eu disser que o seu irmão gêmeo, Alexander Ilindiel, também pereceu do mesmo golpe que tirou a sua vida?
Então se recordou do par de anéis de platina que comprou com a insistência do irmão. Em questão de segundos lembrou-se da prece que Alex havia feito, momentos antes de iniciar o combate, explicando que os ferimentos que Aila viesse a sofrer seriam partilhados por ele.
“-E não pense em protestar. Quero proteger você.”
- Você está dizendo… que… ele morreu… por minha causa…?
A mulher não respondeu, e nem precisava fazê-lo. Mais uma vez, Aila levou a mão ao local onde deveria estar o ferimento, e imaginou a dor que seu irmão, um guerreiro santo, treinado para servir a Torm, sentira. E a morte dele teria sido tão vã quando a sua.
- Ele… está aqui? Nesse lugar?
- Sim, está.
- Leve-me até ele! Leve-me até ele e… e então terá sua resposta.
- Infelizmente, as coisas não funcionam assim, Aila. Meus patronos lutam pela justiça verdadeira. A justiça que você também deseja. Você não deve me temer.
Passaram-se alguns minutos de silêncio que pareciam se estender por uma eternidade. Estava dividida entre o que acreditava ser a ordem celestial e o que seu coração desejava. Queria ser capaz ignorar aquele pedido, mas quem quer que tivesse mandado aquela mulher parecia compartilhar dos desejos de Aila. Respirou fundo e quebrou o silêncio que perdurará até então:
- Eu aceito. Leve-me até meu irmão.
A Queda – Parte 2 Junho 2, 2008
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Levantou a cabeça, atordoada. Então… estava morta. Olhou outra vez ao seu redor, enquanto buscava nas profundezas de sua mente informações sobre o destino daqueles que morrem. Talvez tivesse até conseguido recordar de mais detalhes, se não tivesse percebido diversos outros seres esbranquiçados como ela, vagando aparentemente sem destino. Almas sem corpos, e provavelmente tão confusas quanto ela.
Tentou desvencilhar a visão, e concentrar seus pensamentos. O que as diversas conversas em estalagens e tavernas poderiam revelar-lhe agora? Lembrou-se de uma conversa com um nobre da cidade de Waterdeep, que desejava muito mais do que um vinho quente para aquecê-lo aquela noite.
“- Segundo o que me disse um sacerdote do Senhor dos Mortos, as almas são levadas ao Plano da Fuga, regido pela neutralidade de Kelemvor. Lá, as almas aguardam até que um enviado do deus ao qual seus votos eram dedicados viessem buscá-lo.
‘Entretanto, as almas dos descrentes têm um destino nefasto: são levadas para proteger a Cidadela dos Mortos, onde passam a eternidade a serviço do deus”.
Um sussurro que parecia produzido pelos ventos trouxe Aila de volta. Ao longe, pôde observar uma enorme cidadela, de altas torres e muralhas, esbranquiçadas. Desnorteada e emaranhada em seus pensamentos, a barda de longas madeixas loiras seguiu até a famosa Necrópole.
Kelemvor – Deus da Morte
E se a sua fé não fosse o suficiente? E se o que ela fizera em nome da Senhora dos Cabelos de Fogo não fosse o bastante? Sune, a deusa da beleza e do amor, pregava o auxílio aos outros, para que eles também fossem dignos de conhecer os encantos da paixão. Aila não havia sido muito ativa em sua busca nos últimos tempos, mas outras causas demandaram-lhe a atenção. E estava certa de que havia promovido o nome da deusa. E sim, isso deveria bastar. A Senhora dos Cabelos de Fogo saberia recompensá-la. Com a confiança renovada, a barda continuou o caminho, embora ainda incerta de onde ele fosse acabar.
Conforme se aproximava da cidade, pôde divisar melhor os contornos das muralhas, e seus ouvidos filtraram o que julgava até então ser o uivo do vento: gritos e lamentos, vindo das muralhas – das almas descrentes, que não aceitavam divindade alguma como salvadora. Então era assim que os descrentes passavam a eternidade?
Assustada, sentiu as pernas fraquejarem. Nem mesmo o mais devoto dos homens conseguiria se deparar com algo assim e manter-se inabalável. Instintivamente, sem conseguir desviar o olhar dos rostos de todas aquelas pessoas, afastou-se, tropeçando logo em seguida. Abalada demais para levantar-se, tentou se arrastar, quando uma voz feminina e suave surpreendeu-a:
- Aila Ilindiel, seu lugar não é aqui.
Virou o rosto, surpreendendo-se com a visão: uma mulher belíssima, de traços harmoniosos e delicados, pele pálida e longos cabelos vermelhos estendia a mão, em um gesto benévolo de ajuda. Do alto de suas costas saiam felpudas asas num tom escarlate, e a mulher esboçava um leve sorriso tranqüilizador. Em frangalhos, Aila aceitou a ajuda, e ambas seguiram para longe da muralha.
- Como sabe o meu nome?
- Eu sei de muitas coisas, Aila. E você já sabe o que aconteceu, não?
A jovem demorou um pouco, relutante em aceitar o fato, e assentiu com a cabeça silenciosamente. “Ótimo”, ouviu a desconhecida sussurrar.
- Então você sabe também o que acontece com as almas a partir de agora, não é? – sem esperar a resposta, continuou: – Sabe que aquele responsável por sua morte, aquele orc de nome Tarûk, também está morto? E que em breve estará recebendo sua recompensa? A recompensa por ter espalhado toda aquela destruição, por ter causado dor a tantas pessoas.
Aquelas palavras fizeram Aila parar a sua caminhada. Claro, se ele de fato morrera, sua alma seria recompensada por seu deus monstruoso. Discretamente, a desconhecida sorriu ao ver a reação da barda. Estava chegando aonde queria. Confiante, continuou seu discurso:
- Sim, ele estará recebendo dons por ter matado tantas pessoas, e por ter disseminado a morte entre os elfos da Alta Floresta. Isso é o que você considera justiça, Aila Ilindiel?
- E… o que eu posso fazer para impedir?
- Junte-se a mim. Eu concederei os poderes para que você faça a justiça necessária.
A Queda – Parte 1 Junho 1, 2008
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Suas pernas andavam de modo autômato, acompanhando a mulher que ainda a pouco parecia querer ajudá-la. Ainda estarrecida, Aila Ilindiel tentava compreender o que fizera. Estava diante de uma grande torre, feita completamente de metal e ricamente trabalhada. Atravessou portões também em metal maciço, e descia escadas que não pareciam terminar. Não atentava para os detalhes da construção que a cercava, atordoada que estava. A cada passo que dava, reminiscências dos últimos acontecimentos vinham à tona.
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Abriu os olhos lentamente, e a paisagem era o que poderia se chamar de peculiar. Um céu completamente cinzento abria-se ao horizonte, e planícies igualmente cinzentas pareciam estender-se infinitamente. Conforme ia despertando, sua mente trazia às claras o que havia acontecido: o golpe de machado fatal que espatifou suas vértebras, perpetrado por aquele monstro bárbaro sanguinário, fazendo-a perecer sem agonia.
Instintivamente levou a mão ao local do ferimento, e viu que nada havia. Foi então que atinou a olhar para si mesma, vislumbrando-se em seus trajes preferidos, e os fatos clareavam-se cada vez mais: a pele, sem tom, provava o que sua mente se recusava a aceitar. Estava morta.


