Seda e Aço Janeiro 8, 2009
Posted by Allana in Fantasia, Oriental, RPG.6 comments
A lua brilhava alta no céu, refletindo-se no riacho que cortava as terras da família Matsumoto. O casamento realizara-se no pequeno templo dedicado aos ancestrais da família, simbolizando os antepassados que olhavam e abençoavam a união do jovem casal. Arashi terminou de acender o incenso em honra aos espíritos, para que olhassem com bons olhos a noite de núpcias, enquanto o silêncio imperava entre os dois.
- Hanarai. Flor selvagem. É assim que seu irmão a chamava, quando estive com ele. Há algum motivo especial?
Saiki tinha uma voz macia e sutil, como um pincel pesado de tinta que percorria o linho. Devia ser com essa leveza que fazia suas pinturas. Arashi sorriu polidamente, lembrando-se do irmão.
- Ele deve ter lhe contado o motivo.
- Sim, de fato. – ele sorriu. – Mas boas histórias sempre possuem várias versões. Além do mais, eu prefiro ouvi-la dos seus lábios, se não for inconveniente.
- Minha mãe me chamava assim, porque eu costumava cavalgar para os limites das terras, mesmo quando me diziam para fazer o contrário. E porque eu era um tanto… irritadiça.
- Isso explica a parte do selvagem. E basta olhar para você para entender o porquê de ser chamada de flor.
Enquanto falava, o pintor passou os nós dos dedos delicadamente por seu rosto, contornando-lhe o queixo. Um pouco da maquiagem se desfez, e percebendo isso, a jovem falou:
- Creio que seja melhor remover a maquiagem. Eu…
- Não precisa de pressa, Arashi. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou vê-la assim, então gostaria de me deleitar um pouco mais com a visão. A não ser que seja um incômodo para você.
- Como sabe que eu não gosto de…? Você e meu irmão conversaram bastante a meu respeito, não?
- Já que eu estava prestes a me casar com a irmã de Enishi, nada mais natural que eu querer saber sobre minha noiva, não?
- Eu não sei nada sobre você.
- Isso é fato. E de onde eu venho, a melhor maneira de conhecer alguém é vendo como esta pessoa maneja uma espada. Você é uma guerreira, não? Me daria a honra?
- Já deseja matar a sua noiva na noite de núpcias? – Arashi sorriu divertida, sabendo que algo assim não aconteceria. Enquanto falava, dirigia-se ao altar onde suas espadas estavam guardadas. – Achei que fosse um pintor.
- E sou. Mas a leveza e precisão de um pintor está também na leveza e precisão de sua espada. Cada pincelada é como um golpe: deve ser calculado, observado, preciso e rápido. Ou a tinta secará antes que possa ser misturada.
- Minha família não aprecia duelos.
- Mas você os acha ao menos divertidos, não?
Os dois fizeram uma reverência medida, e sacaram as espadas. Logo as lâminas se chocaram, e o barulho de metal ressoou no aposento. Arashi investiu em um golpe longo e demorado, apenas para ser aparado pela espada de Saiki. E como nos passos de uma dança, um media os golpes do outro, completando-se com uma precisão memorável. Seda e metal se cruzavam, indo e voltando, aproximando-se e afastando-se, como os movimentos do mar. Até que Arashi sentiu a ponta da espada na altura do estômago, enquanto pressionava ameaçadoramente a sua lâmina no pescoço do esposo.
- Acho que podemos dar isso por acabado, não? Um empate? – falava o jovem, com uma expressão tranquila e um leve sorriso no rosto.
- Só se pudermos desempatar. Amanhã.
- É uma disputa de um pintor contra uma samurai treinada. Não acha injusto, minha querida?
- Meu forte é com o arco, mas você também deve saber disso. Além do mais, são ótimas oportunidades de nos conhecermos melhor.
- É justo. Agora que tal desarmar-se tanto da espada quanto da alma?
- Desarmar-me…?
- Você estava fechada como uma ostra quando entrou no templo, e agora eu consegui ao menos que duelasse comigo. O que eu preciso fazer para que me deixe beijá-la?
Arashi baixou a espada, com um sorriso envergonhado. Embainhou a espada, e ele fez o mesmo, aproximando-se. Segurou-lhe o queixo delicada porém firmemente, e seus lábios se tocaram. Longe dali, a lua refletia-se nas correntes do riacho, que seguiam seu destino para o mar.