Arquivos | Resenhas RSS feed for this section

Resenha – Enrolados (Rapunzel)

16 jan

Frigideiras são ótimas armas. Não as subestime.

Semana passada vi Enrolados (a adaptação Disney de Rapunzel), e preciso dizer que gostei. Não do 3D, que também não é tão decepcionante quanto o de outros filmes, mas o resto é bem legal. Exceto a dublagem do Luciano Huck, claro.

O filme é bonito, embora eu não acho que devesse esperar menos da Disney. A longa experiência do estúdio com animação já rendeu muita credibilidade à técnica utilizada nos filmes. Os movimentos dos personagens são muito fluidos, os cenários são exuberantes, e os cabelos ficaram muito bem feitos. A técnica é algo que surpreende no início e, apesar de alguns terem estranhado o tamanho dos olhos de Rapunzel (com os quais eu não vi nenhum problema), achei que a transposição do estilo Disney de desenhar para a CG ficou muito bem feita, mantendo as características que o tornou tão marcante e facilmente reconhecível.

O filme é muito divertido. Em relação ao conto original, várias adaptações foram feitas, mas isso não chega a ser realmente novidade no histórico do estúdio. Na verdade, até me arrisco a dizer que foram mudanças feitas para melhorar a história, e torná-la mais atrativa. Rapunzel é, na minha humilde opinião, um dos contos mais sombrios e explícitos entre os contos de fada que conheço. Uma transposição mais literal não seria bem sucedida como filme para diversão e, certamente, não estaria nos planos do estúdio.

Era o nariz do Luciano Huck, com certeza.

O que eu mais gostei de ver, entretanto, foram personagens mais dúbios: a ambivalência e o conflito bem/mal prevalecem (você esperava outra coisa?), mas eu senti uma presença maior de ambiguidade, de motivações pessoais. O mocinho é um ladrão bonachão, metido a conquistador, mas que no final reconhece na Rapunzel ingênua e delicada; a madrasta (famosas madrastas!) não é flor que se cheire, mas não é realmente aquela vilã saída das profundezas de um caldeirão mágico, moldada para o mau. Ponto positivo!

A ingenuidade de Rapunzel, entretanto, pode cansar. No início é divertido e engraçado, mas a recorrência disso acaba minando um pouco a presença da personagem. Claro que, por ter ficado trancada em uma torre por dezoito anos, isso é plenamente justificável, mas admito que Fiona de Shrek, bem como Tiana de A Princesa e o sapo devem ter me estragado nesse sentido. Não é nada que estrague o filme, de forma alguma!

"Sua mãe sabe mais!"

A forma como o filme fala, tanto para pais quanto para filhos, é também muito interessante. Rapunzel vive um conflito pelo qual todos passamos: o momento de ganhar maior independência dos pais. O medo de decepcionar a si e aos pais, a insegurança de um mundo que se abre cheio de possibilidades e armadilhas, o desejo de ganhar asas e ver-se livre das restrições, tidas como exageradas. A madrasta também, afinal! Ela mantém, por motivos puramente egoístas, a heroína isolada do resto do mundo, e tenta mantê-la presa ao lar de todas as formas. Essa é uma representação extrema, claro, mas a mensagem é clara: filhos são para o mundo, não para si. Com a orientação adequada, essa fase pode ser superada de maneira feliz.

Em suma, é um bom filme, com animação exímia e situações que vão arrancar boas risadas, além de vários “Ooooww”. Recomenda-se assistir com uma criança por perto. Torna a experiência muito mais proveitosa.

A Menina que Roubava Livros – Resenha

4 fev

“Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler.”

Foi com grata surpresa que comecei a ler A Menina que Roubava Livros, em um sábado à noite enquanto minha anfitriã (pois estava dormindo na casa de uma amiga) tomava banho. Se um trailer de um filme deve convidar o espectador a assisti-lo, Zusak captura o leitor nas duas primeiras páginas. Um aviso sobre a nossa curiosa narradora, a Morte em pessoa, pode chocar alguns, mas em mim despertou uma estranha curiosidade:

“EIS UM PEQUENO FATO:
Você vai morrer.”

Zusak não só dá cor a um narrador passional, como através de belas imagens nos conta a história de Liesel Meminger, uma garota que vive na Alemanha no período conturbado da Segunda Guerra Mundial. Em um trem, ela tem seu primeiro encontro com a Morte, embora não pareça estar ciente disso, e depois cruza com ela pelo menos três vezes, antes que chegue sua hora.

Com uma narrativa cheia de vais-e-vens, a Morte nos surpreende com fatos ainda a acontecer, atiçando a curiosidade do leitor. E como na vida de qualquer criança, há momentos felizes, há momentos dramáticos e há momentos tristes. Sem esquecer o menino da casa vizinha, aquele melhor amigo que nunca perde a oportunidade de pedir um beijo.

O livro é carreado de metáforas, tanto nas cores descritas – cores tão adoradas pela nossa narradora, que as utiliza como uma distração do seu árduo e penoso trabalho – quanto na própria capa: branco, preto e vermelho, cores que preenchiam a bandeira nazista.

De modo coeso e comovente, Zusak nos guia pelas várias páginas dos livros que a pequena ladra surrupia.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak, Editora Intrínseca, 480 páginas, R$ 30,00.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.