Finding yourself out Janeiro 19, 2009
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Descansar, mesmo que fosse em uma cabana simplória numa noite fria, era muito reconfortante. Keriann sentia as pernas cansadas da viagem, e os ferimentos causados pelo combate inusitado da noite. Deitada no saco de dormir, olhava para sua mão direita, encarando a cicatriz profunda deixada pela adaga de Leona. A seus pés, Summer fechava os olhos, como se compartilhasse a inquietação da arqueira.
Mas não era a luta o que lhe atormentava aquela noite – no final das contas, encontrar Gawden, o ancião do vilarejo, foi até providencial. E os sortilégios curativos que ele performara foram o bastante para aplacar a dor física. O que inquietava sua cabeça, impedindo-a de dormir, eram as palavras ferinas do bardo: “uma cadelinha sem pensamentos próprios que o obedecia sem hesitar”.
Por mais que a ideia a incomodasse, aquela foi a única verdade que Adrian proferira durante toda a noite. Keriann sempre escutava o que Lyon dizia, sempre seguia seus conselhos, e não hesitava em retesar o arco quando ele pedia. Soldados bem treinados muitas vezes desobedeciam a seus capitães, em prol de si mesmos. Mesmo animais de caça fugiam dos seus donos às vezes. E quanto a ela? Mesmo quando discordava das opiniões do guerreiro, ela o seguiu.
E agora, Keriann se perguntava o porquê. Qual o motivo? Mesmo quando ele abandonou a todos – perseguindo loucamente os captores de Aillah, que por coincidência triste do destino eram liderados por Leona, irmã de Lyon – mesmo assim, ela o seguiu, sem hesitar. E não era por conta de Profecia alguma. Na verdade, a arqueira já esquecera-se daquilo há muito. Era outra coisa, incondicional, espontânea e que ela não conseguia explicar nem a si mesma.
- Pela Dama… eu não acredito que eu amo este homem.
O choque da descoberta a deixou pasma por algum tempo, não poderia medir. Repassava em mente os momentos, as conversas nas noites de guarda, os treinamentos, o desabafo no castelo de Clampot. Olhou para Lyon, deitado no saco de dormir. Estaria dormindo? Deveria contar a ele?
Claro que não, que ideia. Lyon era casado, estava prestes a ter um filho, e apesar dos pesares, parecia gostar da esposa. Não seria certo. E seria correto abrir mão de seus próprios sentimentos? Ser obrigada a casar foi o que a fez fugir de casa. No entanto, correr o risco de destruir uma família prestes a se formar não parecia a melhor coisa a se fazer. Guardar suas inquietações seria nobre, certamente. Mas era o que desejava?
Virou para o outro lado, encarando a parede. Podia estar confundindo os sentimentos. Não era a primeira vez que isso acontecia. Podia ter sido levada a acreditar naquilo, graças às bravatas ácidas do bardo. “Uma cadelinha sem pensamentos próprios”. Suspirou fundo. Sejá lá o que fosse, era melhor guardar para si.
Levantou-se, impaciente. Não conseguiria dormir agora, apesar do cansaço. Sorrateira, andou para onde estava Lyon, o meio-elfo de cabelos loiros que causava sua insônia. Definitivamente estava dormindo. A respiração ritmada, o peito subindo e descendo cadenciado…
A arqueira se aproximou, sentindo o coração acelerar dentro do peito. Os curtos cabelos cacheados caíram para frente, e então ela parou, com medo de que o roçar das madeixas acordasse o guerreiro. Ficou naquela posição não sabe por quanto tempo, indecisa sobre o que fazer. Pareceu uma eternidade até que resolveu se levantar. Voltou para o seu saco de dormir, resignada. Não, não era a coisa certa a se fazer. Chacoalhou a cabeça, como sempre fazia quando queria esquecer alguma coisa, e fechou os olhos. Amanhã seria um dia longo.
Não olhe para trás Setembro 22, 2008
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A batalha estava acabada, assim como a jovem arqueira. Seus olhos azuis encaravam a floresta que servira como campo de batalha: soldados arrastando corpos e feridos, outros vasculhando os pertences de um colega. “Vou levar pra mulher dele”, ainda pôde ouvi-lo falar. “Mulher e filhos”.
Mesmo tendo conseguido o que queriam – bater em retirada, depois do ataque mal sucedido a Camelerd – Keriann tinha a sensação de que muito mais havia se perdido aquela noite: Lyon, marido de Aillah e pai de uma criança ainda por vir; Leão da Montanha, guerreiro bérnio que, ironicamente, morrera defendendo os felden; e seu pai.
Não podia dizer quanto tempo ficou olhando aquela cena – nem importava realmente. Os outros carregavam os corpos dos seus conhecidos, e Keriann olhava para o que restara do seu pai. Quando o viu pela última vez, não imaginara que o reencontro seria assim.
Fechou os olhos, e lágrimas desciam pelo rosto sujo da batalha. Ela viu quando o exército de mortos corria para a floresta, ignorando galhos ou quaisquer obstáculos. Incansáveis e implacáveis, eles pareciam invencíveis. Mas o pior foi perceber que boa parte deles usava as roupas dos homens que morreram no ataque à cidade: as forças negras a serviço de Drakkan os trouxeram para lutar mais uma vez, sem vontade própria, apenas com o desejo instintivo de matar.
Mas em uma batalha, quem pode pensar diferente?
E Keriann lutou. As mãos calejadas dispararam flechas como nunca, e ela mal pôde sentir quando a luva se desfez mais uma vez e os dedos começaram a sangrar. Os desmortos continuavam a desferir seus golpes, ploriferando morte e corrupção, e ela continuava a atirar, os sons da corda fazendo-a não pensar nos gritos de dor dos soldados. Até perceber que a parede de escudos estava prestes a se romper, e os soldados protegiam os feridos.
Atirou mais uma vez e largou o arco, sacando a Matadora de Bruxas, que Dorgauth entregara-lhe. Se servia para matar bruxas, daria descanso aos mortos também. Lutou. Teria continuado se não percebesse um brilho incomum na altura do peito do desmorto: um pingente prateado balançava, mostrando um cálice com uma linha dourada no topo e algumas inscrições.
De longe, ela reconheceria aquela jóia que seu pai costumava segurar com tanto afinco enquanto orava. Levantou os olhos para ver o rosto de quem estava prestes a atacar: era seu pai, os cabelos castanhos, agora imundos; os olhos azuis, de quem herdara os seus, sem o brilho da vida; a pele seca e esbranquiçada; e um grande ferimento de espada na altura do pescoço. Seu pai, tornado um desmorto pelos servos de Drakkan. Seu pai.
Largou a espada, mais por inércia que por desejo. Como aquilo era possível? Como?! Quis gritar, quis impedir os outros de lutarem, mas sabia que já era tarde. Enfrentara desmortos antes, e sabia que eles já não eram as pessoas de antes. Queria abraçá-lo, mas sabia que não podia. Os soldados gritavam, pedindo ajuda, pedindo que lutasse, mas naquele momento era impossível. Inerte e impotente, era como se sentia. Como deixou aquilo acontecer?
Mas naquela noite, os mortos não paravam. E ele continuou, avançando em sua direção, segurando uma espada que não era dele. Brandiu a lâmina sem muita força, atingindo a arqueira na altura do estômago. Ignorou a dor do ferimento porque alguma outra coisa lhe doía ainda mais. Seria a alma?
Não teve tempo para pensar: os outros soldados atacaram-no, cumprindo seu dever. E o que podia fazer a respeito? Conseguiram defender os feridos, era o que importava. E agora correram para ajudar os outros soldados em batalha. Era o que ela deveria fazer também, mas só conseguia pensar em um responsável por tudo aquilo: Drakkan.
Mas a batalha já havia terminado. Os homens marchavam, cansados, para longe de Camelerd. A época do plantio começara, e se não quisessem morrer de fome tinham que trabalhar no campo. Estabelecia-se assim uma trégua temporária, para que os dois lados se preparem para o que estar por vir. Nada daquilo importava para Keriann.
Diante de si, um túmulo improvisado: passara o resto da noite em lágrimas, preparando a cova, já que não havia nada mais o que fazer. Enterrou junto com ele seus pertences, exceto o símbolo sagrado da Dama, que agora brilhava no seu peito. Agora já não havia o que chorar. Levantou o capuz, olhou para a distante fortaleza que diminuía conforme a distância aumentava, e fez uma última prece à Dama.
- É uma promessa: não descansarei enquanto não matar você, Drakkan.
Retalhos – I Dezembro 17, 2007
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As sandálias de couro pisavam levemente a grama ainda molhada pela recente chuva de outono, enquanto os olhos azuis de Keriann vasculhavam o chão, em busca de qualquer sinal. Mal tivera tempo de se trocar, ou sequer de trazer Summer consigo, mas isso não importava muito agora: trazia seu arco longo, um saco de flechas e aquilo deveria bastar.
Afastara-se de Dorgauth e Aenarion, que seguiam pistas em direção ao solar de Beolláin, chefe do vilarejo. E se havia mais de uma pessoa, devem ter ido para lugares diferentes. Para despistar uma possível perseguição? Contava que não fossem inteligentes assim.
Lyon fora envenenado, às vésperas do seu casamento com Aillah, e por mais que as suspeitas fossem óbvias, eles precisavam de provas. Howell, filho de Beolláin, amigo de infância da druidisa, por pouco não matou Lyon em um combate singular. Estranho pensar que ele tentaria envenená-lo – nas histórias que ouvia de sua avó Nan, Keriann sempre associava venenos a bruxas e a mulheres más. Os homens de verdade matavam seus inimigos com suas próprias armas. E até o momento, não tinha motivos para duvidar da honra de Howell.
O desespero, no entanto, fazia as pessoas agirem de modo estranho.
Chacoalhou a cabeça, como se quisesse afastar esses pensamentos. O que ela devia fazer agora era seguir os rastros. Era uma caçadora, aquele era seu ofício. Se prezava tanto assim por seus amigos, se queria evitar que Fox ou Dorgauth fizessem alguma bobagem, que fizesse algo útil. As marcas a levaram até o rio que abastecia a cidade, e pelo qual Maelgrin viajava usando seu barco. Imaginava o que ele teria visto nela para cortejá-la.
- Inferno, detesto quando eles fazem isso. Se ao menos Summer estivesse aqui…
Atravessou a água, orando para que sua presa não tivesse seguido a corrente. E aparentemente, os deuses estavam ao seu lado: não tardou à caçadora reencontrar as marcas do outro lado, nas margens lamacentas. Apoiando-se no arco, subiu o pequeno declive e continou seu caminho. O que viu, no entanto, a fez parar.
Indubitavelmente, os rastros seguiam até a cabana de Maelgrin, que até então acreditava ser seu amante. Refez o caminho para ter certeza, mas não restavam dúvidas. Engoliu em seco, deu as costas para a cabana e resolveu retornar. Havia um terceiro rastro a seguir. Esperava não se surpreender tanto com o que poderia encontrar depois. Enquanto caminhava, imaginava como faria aquele homem confessar se teve alguma coisa a ver com tudo aquilo.
