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A Queda – Parte IV Junho 26, 2008

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Parte 1: aqui.

Parte 2: aqui.

Parte 3: aqui.

A mulher tocou a barda no ombro, que sentiu a conhecida magia de teletransporte. Estava agora próxima às muralhas, mas isso não a preocupava agora. Reconheceu o irmão, com suas grandes e exuberantes asas felpudas e esbranquiçadas, lutando entre demônios que pareciam estar realizando um ataque à Necrópole de Kelemvor.

- Ele está em problemas. Vamos ajudá-lo.

Aila assentiu silenciosamente, e iniciou uma canção épica, que conhecia desde criança. Logo suas palavras soaram nos corações dos soldados de Kelemvor, e Alexander não tardou a reconhecer a irmã. Se não estivesse tão ocupado, teria se perguntado como ela teria chegado até ali. Com as esperanças renovadas, desferiu um ataque certeiro no seu oponente.

Se não conhecesse seu irmão, Aila poderia dizer que ele procedia dos planos celestiais: alto, forte e com cabelos loiros que desciam até os ombros. As linhas do rosto eram definidas, extremamente semelhantes às do pai, que sequer chegou a conhecer, e acompanhadas por olhos azuis límpidos e claros, capazes de enxergar o mal no coração das pessoas. Do alto das costas, surgiam duas asas felpudas e brancas, manifestação recente de sua herança celestial. Asas essas que acabavam de ser feridas por um raio de fogo concentrado, lançado dos olhos do construto com o qual combatia.

Era uma criatura bizarra, que possuía um corpo semelhante ao de uma aranha de órbitas vazias. Claramente artificial, se prostrava ameaçadora diante de Alexander, que, portando uma grande espada brilhante, desferiu dois ataques nas patas da criatura, mas que pouco pareceram afetá-la. A desconhecida de cabelos vermelhos bateu levemente as asas, elevando-se um pouco, e logo em seguida tensionou o arco,disparando duas flechas na direção do construto. Uma delas se crava no chão, enquanto a outra, com sua ponta flamejante, acerta o alvo.

Então um som semelhante a uma corneta soou ao longe, e a horda demoníaca entendeu aquilo como sinal de retirada. O construto, instruído para essas situações, desceu suas grandes pinças aracnídeas e prendeu Alexander, sem muita dificuldade, e logo iniciou sua caminhada. Aila então iniciou uma nova e breve canção, invocando um hipogrifo, vindo dos planos de Sune. Em celestial, num tom um tanto desesperado, ordenou que atacasse a criatura. Enquanto isso, a mulher realizou dois tiros certeiros, um deles entrando na órbita vazia do construto, que em seguida caiu inanimado no chão. A barda respirou aliviada, cancelando a magia e agradecendo à Senhora dos Cabelos de Fogo, enquanto seu irmão alçava vôo em direção à jovem.

- Aila, como… chegou até aqui? Como descobriu onde eu estava?
- Ela veio comigo, Alexander Ilindiel, paladino de Torm. – falou sem esperar a resposta da barda, e em um tom repentinamente frio. Tornando o olhar para a jovem, continuou: – Seja breve com suas despedidas.
- Despedidas…? Aila, do que este demônio está falando?
- De-demônio? – gaguejou a jovem, estarrecida.
- Ela virá comigo, paladino. – a voz firme e seca da erynies cortava os ouvidos de Alex. – Serão concedidos a ela os poderes para fazer a justiça que lhe foi negada.
- E você vem me falar de justiça, criatura infernal? Justamente você? – aumentou o tom de voz, e levou o olhar para a sua irmã – E você, onde estava com a cabeça quando ouviu as palavras dessa mulher? O que deu em você, Aila?
- Você não vê, Alex?! – gritou a barda – Eu não sabia de nada! E diferente de você, eu não posso discernir se há maldade no coração de alguém apenas olhando para ela! Além do mais… eu…
- Agora é tarde, paladino. Ela não poderá quebrar o Pacto que fez comigo. – falou a erynies – Ela terá as recompensas conforme o acordo: poderá fazer justiça a quem a matou, e será capaz de resolver os problemas terrenos pelos quais pereceu. Para tanto…
- Eu não acredito que você fez isso, Aila! – explodiu Alexander, desesperado. – Acha que essa é a verdadeira forma da justiça? Acha que é assim que se faz o bem, barganhando com demônios?!

A barda não conseguia sequer falar. Agora havia entendido tudo perfeitamente, tão claro como a água. Sentia as pernas tremerem e o coração acelerado, principalmente por saber que não haveria volta. Em um impulso, abraçou o irmão, enquanto se policiava para não chorar. Desatento a isso, ele correspondeu ao abraço, enquanto sussurrava:

- Eu não acredito, Aila. Minha irmã, como pôde? Como? Por quê?
- Então essas serão suas últimas palavras a sua irmã, Alexander Ilindiel?
- Eu tenho todo o direito de passar um sermão na minha irmã, demônio! Cale-se!
- É assim que você quer que ela se lembre de você?

Soltando-se do abraço do irmão, Aila levantou o rosto, encarando-o com o par de olhos violetas banhados em lágrimas.

- Eu também fiz isso por você, Alex.
- Venha, Aila. – chamou a erynies. – Quanto a você, paladino, espero não vê-lo nunca mais.
- O mesmo não posso dizer de você, demônio. E Aila, eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.

A erynies segurou a barda pelo braço, desaparecendo logo em seguida. Ainda tentando digerir o que aconteceu, Alexander deixou-se cair sentado, sentindo o rosto ser aquecido por lágrimas furtivas, enquanto dizia:

- … nem que isso custe a minha vida.

Enquanto caminhava na direção de uma grande torre de brilho metálico, Aila sentiu novas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. As últimas palavras que ouvira de Alex ainda ecoavam-lhe na mente:

“- Eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”

Em outras palavras, ele seria capaz de matá-la, se preciso fosse.

- Entre, Aila.

A Queda – Parte 3 Junho 5, 2008

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LEIAM A PARTE 1 AQUI! E A PARTE 2 AQUI!

Aila estava confusa. Havia perecido pela lâmina daquele machado, e claro que faria alguma coisa se pudesse. Mas aqueles eram desígnios divinos: ele receberia seu descanso eterno, assim como ela também. Insegura, a jovem olhou para a mulher, que até então nem se preocupara em dizer o seu nome.

- Mas… esta justiça não deve ser feita pelas minhas mãos. Isso não é correto. Não… não sou eu quem decido isso.
- E se eu disser que a sua morte e a dos seus amigos foi em vão? O exército de orcs ainda se concentra na região, e em breve os elfos da cidade de Sylvan receberão retaliações. Você sabe que eles não poderão resistir. E você poderia evitar esse derramamento de sangue inútil. Não era isso que você queria em vida, Aila Ilindiel?
- Esses assuntos… já não me concernem. – respondeu a barda, embora não estivesse tão segura de suas palavras. – Eu morri em prol dessa causa. Esses fatos… já não me dizem respeito.

Em um ímpeto de coragem, sentido estar indo contra todas as suas vontades, deu as costas à desconhecida. Não sabia quem ela era, mas parecia uma criatura celestial – as feições harmoniosas, agora entristecidas, apunhalavam a barda. Sentia como se tivesse ferido uma beleza até então imaculada, até que novas palavras da mulher alada a fizeram parar mais uma vez:

- E se eu disser que o seu irmão gêmeo, Alexander Ilindiel, também pereceu do mesmo golpe que tirou a sua vida?

Então se recordou do par de anéis de platina que comprou com a insistência do irmão. Em questão de segundos lembrou-se da prece que Alex havia feito, momentos antes de iniciar o combate, explicando que os ferimentos que Aila viesse a sofrer seriam partilhados por ele.

“-E não pense em protestar. Quero proteger você.”

- Você está dizendo… que… ele morreu… por minha causa…?

A mulher não respondeu, e nem precisava fazê-lo. Mais uma vez, Aila levou a mão ao local onde deveria estar o ferimento, e imaginou a dor que seu irmão, um guerreiro santo, treinado para servir a Torm, sentira. E a morte dele teria sido tão vã quando a sua.

- Ele… está aqui? Nesse lugar?
- Sim, está.
- Leve-me até ele! Leve-me até ele e… e então terá sua resposta.
- Infelizmente, as coisas não funcionam assim, Aila. Meus patronos lutam pela justiça verdadeira. A justiça que você também deseja. Você não deve me temer.

Passaram-se alguns minutos de silêncio que pareciam se estender por uma eternidade. Estava dividida entre o que acreditava ser a ordem celestial e o que seu coração desejava. Queria ser capaz ignorar aquele pedido, mas quem quer que tivesse mandado aquela mulher parecia compartilhar dos desejos de Aila. Respirou fundo e quebrou o silêncio que perdurará até então:

- Eu aceito. Leve-me até meu irmão.

A Queda – Parte 2 Junho 2, 2008

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LEIA A PARTE 1 AQUI!

Levantou a cabeça, atordoada. Então… estava morta. Olhou outra vez ao seu redor, enquanto buscava nas profundezas de sua mente informações sobre o destino daqueles que morrem. Talvez tivesse até conseguido recordar de mais detalhes, se não tivesse percebido diversos outros seres esbranquiçados como ela, vagando aparentemente sem destino. Almas sem corpos, e provavelmente tão confusas quanto ela.

Tentou desvencilhar a visão, e concentrar seus pensamentos. O que as diversas conversas em estalagens e tavernas poderiam revelar-lhe agora? Lembrou-se de uma conversa com um nobre da cidade de Waterdeep, que desejava muito mais do que um vinho quente para aquecê-lo aquela noite.

“- Segundo o que me disse um sacerdote do Senhor dos Mortos, as almas são levadas ao Plano da Fuga, regido pela neutralidade de Kelemvor. Lá, as almas aguardam até que um enviado do deus ao qual seus votos eram dedicados viessem buscá-lo.

‘Entretanto, as almas dos descrentes têm um destino nefasto: são levadas para proteger a Cidadela dos Mortos, onde passam a eternidade a serviço do deus”.

Um sussurro que parecia produzido pelos ventos trouxe Aila de volta. Ao longe, pôde observar uma enorme cidadela, de altas torres e muralhas, esbranquiçadas. Desnorteada e emaranhada em seus pensamentos, a barda de longas madeixas loiras seguiu até a famosa Necrópole.

Kelemvor - Deus da Morte

Kelemvor – Deus da Morte

E se a sua fé não fosse o suficiente? E se o que ela fizera em nome da Senhora dos Cabelos de Fogo não fosse o bastante? Sune, a deusa da beleza e do amor, pregava o auxílio aos outros, para que eles também fossem dignos de conhecer os encantos da paixão. Aila não havia sido muito ativa em sua busca nos últimos tempos, mas outras causas demandaram-lhe a atenção. E estava certa de que havia promovido o nome da deusa. E sim, isso deveria bastar. A Senhora dos Cabelos de Fogo saberia recompensá-la. Com a confiança renovada, a barda continuou o caminho, embora ainda incerta de onde ele fosse acabar.

Conforme se aproximava da cidade, pôde divisar melhor os contornos das muralhas, e seus ouvidos filtraram o que julgava até então ser o uivo do vento: gritos e lamentos, vindo das muralhas – das almas descrentes, que não aceitavam divindade alguma como salvadora. Então era assim que os descrentes passavam a eternidade?

Assustada, sentiu as pernas fraquejarem. Nem mesmo o mais devoto dos homens conseguiria se deparar com algo assim e manter-se inabalável. Instintivamente, sem conseguir desviar o olhar dos rostos de todas aquelas pessoas, afastou-se, tropeçando logo em seguida. Abalada demais para levantar-se, tentou se arrastar, quando uma voz feminina e suave surpreendeu-a:

- Aila Ilindiel, seu lugar não é aqui.

Virou o rosto, surpreendendo-se com a visão: uma mulher belíssima, de traços harmoniosos e delicados, pele pálida e longos cabelos vermelhos estendia a mão, em um gesto benévolo de ajuda. Do alto de suas costas saiam felpudas asas num tom escarlate, e a mulher esboçava um leve sorriso tranqüilizador. Em frangalhos, Aila aceitou a ajuda, e ambas seguiram para longe da muralha.

- Como sabe o meu nome?
- Eu sei de muitas coisas, Aila. E você já sabe o que aconteceu, não?

A jovem demorou um pouco, relutante em aceitar o fato, e assentiu com a cabeça silenciosamente. “Ótimo”, ouviu a desconhecida sussurrar.

- Então você sabe também o que acontece com as almas a partir de agora, não é? – sem esperar a resposta, continuou: – Sabe que aquele responsável por sua morte, aquele orc de nome Tarûk, também está morto? E que em breve estará recebendo sua recompensa? A recompensa por ter espalhado toda aquela destruição, por ter causado dor a tantas pessoas.

Aquelas palavras fizeram Aila parar a sua caminhada. Claro, se ele de fato morrera, sua alma seria recompensada por seu deus monstruoso. Discretamente, a desconhecida sorriu ao ver a reação da barda. Estava chegando aonde queria. Confiante, continuou seu discurso:

- Sim, ele estará recebendo dons por ter matado tantas pessoas, e por ter disseminado a morte entre os elfos da Alta Floresta. Isso é o que você considera justiça, Aila Ilindiel?
- E… o que eu posso fazer para impedir?
- Junte-se a mim. Eu concederei os poderes para que você faça a justiça necessária.

A Queda – Parte 1 Junho 1, 2008

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Suas pernas andavam de modo autômato, acompanhando a mulher que ainda a pouco parecia querer ajudá-la. Ainda estarrecida, Aila Ilindiel tentava compreender o que fizera. Estava diante de uma grande torre, feita completamente de metal e ricamente trabalhada. Atravessou portões também em metal maciço, e descia escadas que não pareciam terminar. Não atentava para os detalhes da construção que a cercava, atordoada que estava. A cada passo que dava, reminiscências dos últimos acontecimentos vinham à tona.

**********

Abriu os olhos lentamente, e a paisagem era o que poderia se chamar de peculiar. Um céu completamente cinzento abria-se ao horizonte, e planícies igualmente cinzentas pareciam estender-se infinitamente. Conforme ia despertando, sua mente trazia às claras o que havia acontecido: o golpe de machado fatal que espatifou suas vértebras, perpetrado por aquele monstro bárbaro sanguinário, fazendo-a perecer sem agonia.

Instintivamente levou a mão ao local do ferimento, e viu que nada havia. Foi então que atinou a olhar para si mesma, vislumbrando-se em seus trajes preferidos, e os fatos clareavam-se cada vez mais: a pele, sem tom, provava o que sua mente se recusava a aceitar. Estava morta.

Lembranças Maio 19, 2008

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Aquilo tinha tudo para dar errado.

Um grupo de batedores, pequeno, aproximava-se da fortaleza. A noite avançava vermelha – tudo naquele lugar tinha, para Akane, algo de vermelho – e tudo o que eles tinham que fazer era conseguir informações o suficiente para que pudessem preparar um ataque. Aquele forte tinha que ser tomado.
Os cabelos alaranjados emolduravam o rosto tenso da guerreira, que se aproximava entre as árvores o mais silenciosamente possível. Podia ouvir o leve roçar dos soldados que a acompanhavam. Ou talvez eles nem estivessem fazendo barulho de fato, talvez fosse apenas a tensão.

Medo. Era isso que sentia. Mas achava bom – não ter medo de demônios e diabos era algo de se estranhar. Na bainha, A Ladra das Nove Vidas parecia pulsar, como se pedisse por sangue. Para se sentir melhor, segurou a guarda conforme andava. Não ajudou.

- E o que fazemos agora?

Um sussurro a fez voltar para si. Era um dos homens. Akane encarou a muralha, procurando uma brecha, uma falha, qualquer coisa… até que viu. Era uma saída na muralha lateral, onde provavelmente eram eliminados os dejetos. Talvez ali eles não chamassem a atenção. É, talvez desse certo.

Com passos rápidos, o grupo se aproximou da muralha. Nada de errado. Uma forçada rápida na grade e a passagem estava aberta. A guerreira esperou que os outros chegassem, esperou que passassem e só então entrou no túnel.

A escuridão logo se apoderou da visão de Akane, que tropeçou um pouco até se encontrar. Os olhos se acostumaram aos poucos, e então ela pôde divisar os vultos dos homens. Tentou ignorar o cheiro, e apoiando-se nas paredes seguiu. Dez passos, quinze passos, e ela pôde divisar uma fraca luz adiante. Por um momento aquilo a animou, até que pôde ver que alguém trazia aquela iluminação.

Luz que se aproximava, ganhando forma e tamanho, e trazendo calor. A explosão repentina que se seguiu mal deu tempo para Akane esquivar-se com um salto rápido pára trás, levando apenas breves escoriações. Mas o cheiro de carne queimada, juntamente com os gritos dos outros, indicavam que eles não tiveram tanta sorte.

<- Achou que podia entrar aqui de maneira tão fácil, Estrangeira?> – a voz parecia ressoar por todos os lados. E logo em seguida uma escuridão quase palpável tomou conta do pequeno corredor. Como detestava magos. Prendeu a respiração por alguns segundos, o suficiente para deduzir a localização o conjurador pelo ruído dos seus passos.
<- Ao que parece, eu posso. Acha que esses truques baratos vão me impedir, arcano?>
<- Prove então dos seus artifícios de bárbaros, Forasteira.>

E então sentiu uma movimentação muito próxima. Por muito pouco desviou de um golpe de espada, e bolqueou outro com o escudo. Perder homens em uma missão de reconhecimento não tinha nada de anormal, mas ser morta por eles não parecia nada agradável. Movimentou-se para onde achava que era a saída, e por instinto desembanhou a espada.

Não soube se demorou demais a reagir, mas o fato é que não conseguiu explicar realmente o que aconteceu depois. A Ladra das Nove Vidas, sentindo-se liberta da bainha, parecia guiar os golpes. O primeiro foi aberto, e atingiu o soldado entre algumas costelas. Com o braço esquerdo, desviou um outro golpe que mal percebera, mas o movimento deixou o flanco esquerdo desprotegido. E então o terceiro soldado atacou-a, descendo a lâmina pela perna e encaixando-a exatamente na parte traseira da rótula.

O grito de dor e raiva incontida parece ter preenchido todo o forte, e ao invés de debilitar a guerreira, a dor pareceu excitá-la ainda mais. Fazendo a lâmina descrever um círculo, atingiu seu oponente na altura da bacia, fazendo-o cair de joelhos. O segundo golpe era desnecessário, mas nada a faria parar naquele momento. Como se soubesse exatamente o que fazer, retirou a espada já coberta de sangue e desceu a lâmina pouco acima da clavícula. O sangue espirrou-lhe no rosto, mas Akane não parecia se importar com isso.

******

- E o que aconteceu depois? – perguntou o rapaz, impressionado. – Você devia ter perdido a perna, ou não ser capaz de mexê-la…
- Magias de cura fazem milagres, Colin. Mas eu não me lembro. Me deixei levar. – os olhos verdes da guerreira pareciam se arrepender de ter contado a história. – Eu disse que não seriam boas histórias.
- Não, não é isso. Mas é impressionante ouvir tudo o que aconteceu… E essa aqui? Como conseguiu?

Retalhos – I Dezembro 17, 2007

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As sandálias de couro pisavam levemente a grama ainda molhada pela recente chuva de outono, enquanto os olhos azuis de Keriann vasculhavam o chão, em busca de qualquer sinal. Mal tivera tempo de se trocar, ou sequer de trazer Summer consigo, mas isso não importava muito agora: trazia seu arco longo, um saco de flechas e aquilo deveria bastar.

Afastara-se de Dorgauth e Aenarion, que seguiam pistas em direção ao solar de Beolláin, chefe do vilarejo. E se havia mais de uma pessoa, devem ter ido para lugares diferentes. Para despistar uma possível perseguição? Contava que não fossem inteligentes assim.

Lyon fora envenenado, às vésperas do seu casamento com Aillah, e por mais que as suspeitas fossem óbvias, eles precisavam de provas. Howell, filho de Beolláin, amigo de infância da druidisa, por pouco não matou Lyon em um combate singular. Estranho pensar que ele tentaria envenená-lo – nas histórias que ouvia de sua avó Nan, Keriann sempre associava venenos a bruxas e a mulheres más. Os homens de verdade matavam seus inimigos com suas próprias armas. E até o momento, não tinha motivos para duvidar da honra de Howell.

O desespero, no entanto, fazia as pessoas agirem de modo estranho.

Chacoalhou a cabeça, como se quisesse afastar esses pensamentos. O que ela devia fazer agora era seguir os rastros. Era uma caçadora, aquele era seu ofício. Se prezava tanto assim por seus amigos, se queria evitar que Fox ou Dorgauth fizessem alguma bobagem, que fizesse algo útil. As marcas a levaram até o rio que abastecia a cidade, e pelo qual Maelgrin viajava usando seu barco. Imaginava o que ele teria visto nela para cortejá-la.

- Inferno, detesto quando eles fazem isso. Se ao menos Summer estivesse aqui…

Atravessou a água, orando para que sua presa não tivesse seguido a corrente. E aparentemente, os deuses estavam ao seu lado: não tardou à caçadora reencontrar as marcas do outro lado, nas margens lamacentas. Apoiando-se no arco, subiu o pequeno declive e continou seu caminho. O que viu, no entanto, a fez parar.

Indubitavelmente, os rastros seguiam até a cabana de Maelgrin, que até então acreditava ser seu amante. Refez o caminho para ter certeza, mas não restavam dúvidas. Engoliu em seco, deu as costas para a cabana e resolveu retornar. Havia um terceiro rastro a seguir. Esperava não se surpreender tanto com o que poderia encontrar depois. Enquanto caminhava, imaginava como faria aquele homem confessar se teve alguma coisa a ver com tudo aquilo.

In the night – Versão em Português Dezembro 13, 2007

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Despindo-se lentamente, Aila podia sentir o cheiro do inverno vindouro. Tinha perdido tanto tempo assim? Por outro lado, suas memórias daquele mundo pareciam de fato muito distantes. Seu aniversário, a luta na cidade de Sylvan…

Com as roupas no chão, ela sorriu. Logo faria um ano que estavam viajando juntos pelas terras de Faêrun. Em uma tarde de inverno, ela recebera uma carta do seu irmão Alexander. Uma semana depois, ela partia da cidade de Waterdeep, incerta quanto ao seu destino.

- Tudo isso parece tão distante agora… tão longe… – ela sussurrou, sozinha que estava.

Gentilmente e desnuda, ela se sentou na cama. O vento uivava do lado de fora, mas ela não se importava com o frio – ela até gostava. O frio em sua pele pálida a fazia se sentir humana mais uma vez. Com um gesto fluído, pegou o bandolim e iniciou uma canção que conhecia há muito, mas agora relembrada com muito mais paixão: a paixão de alguém que caíra nas garras de demônios e retornara.

…Old familiar faces
Everyone you meet
Following the ways of the land
Cobblestones and lanterns
Lining every street
Calling me to come home again

Dancing in the moonlight
Singing in the rain
Oh it’s good to be back home again
Laughing in the sunlight
Running down the lane
Oh it’s good to be back home again

When you play with fire
Sometimes you get burned
It happens when you take a chance or two
But time is never wasted
When you’ve lived and learned
And in time it all comes back to you…

Sua voz era baixa e doce, e para Aila, cantar e tocar nunca causara tanta satisfação. Os lençóis da cama, a madeira do bandolim, o vento frio vindo da janela, e o alívio de estar de volta fez com que sua música viesse do seu coração. Como sempre deveria ter sido.

O barulho da porta sendo aberta a fez parar, mas um sorriso ainda mais largo brotou em seu rosto. Vanir, seu amante, uma das pessoas que desceram aos Nove Infernos para trazê-la de volta entrava no lugar, distraído como sempre. Surpreso, ele parou por um breve momento, fechando a porta atrás de si. Gentil e vagarosamente, Aila se levantou, sua pele pálida contrastando com a noite, seus longos cabelos loiros cascateando abaixo dos ombros, e e seus olhos púrpura sobre o recém-chegado.

- Não está sentindo frio, querida? – perguntou Vanir, ainda atordoado.

- E por que você não vem me aquecer?

O beijo foi suave e lento, como se ela tentasse desfrutar cada momento. Quando teria sido a última vez que ela beijara alguém assim, com tanta calma e desejo ao mesmo tempo? Deslizando suas mãos pelos longos cabelos de Vanir, ela o abraçou.
- Senti sua falta. – ela sussurrou, a voz como uma música doce e hipnotizante.

- E eu senti muita saudade.

A noite foi preenchida com amor e palavras doces. Deitada sobre o peito nu de seu amante, Aila podia ouvir as batidas do seu coração, e sentir o cheiro do seu suor. Daquela vez ela teria um sono tranqüilo, observado apelas pelo sol nascente do outono.

PS: A música é Home Again, de Blackmore Nights.

In the night Dezembro 12, 2007

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Taking off her clothes calmly, Aila could smell the winter coming. Has she lost so much time? On the other side, her last memories of that world seemed far away on that moment.

The clothes in the floor, she smiled. Soon would be a year since they started traveling together through the lands of Faêrun. In a winter afternoon, she received a letter from her brother Alexander. A week later, she went out from Waterdeep unsure about her own destiny.

- All of it seems so distant now… – she whispered just to herself, alone she was.

Gently and naked, she sat on the bed. The wind howled outside, but she didn’t mind the cold – she even liked it. The cold in her pale skin made her feel human again. With a fluid gesture, she took the mandolin and started a song known since long ago, but sang with much more passion now: the passion of someone who has fallen deeply and has arised.

…Old familiar faces
Everyone you meet
Following the ways of the land
Cobblestones and lanterns
Lining every street
Calling me to come home again

Dancing in the moonlight
Singing in the rain
Oh it’s good to be back home again
Laughing in the sunlight
Running down the lane
Oh it’s good to be back home again

When you play with fire
Sometimes you get burned
It happens when you take a chance or two
But time is never wasted
When you’ve lived and learned
And in time it all comes back to you…

Her voice was low and sweet, and for Aila, singing and playing has never been so much satisfying. The blanket of the bed, the wood of the mandolin, the cold wind coming from the window, and the relief of being back made her music comes from her heart. As it always should have been.

The noise of the door being opened made her stop, but a smile even brighter appeared on her face. Vanir, her lover, one of those people who went down to the Nine Hells to save her soul was entering, distracted as always, and as always sweet. Surprised, he stopped for a short moment, and closed the door behind him. Gently and slowly, she got up and walked, her pale skin against the night outside, her long and fair hair weaving down her shoulders, and her purple eyes upon him.

- Aren’t you felling cold, my dear? – asked Vanir, still astonished.

- And why don’t you come to warm me?

The kiss was soft and slow, as if she tried to taste the moment. When was the last time she kissed someone with all that calm and desire? Sliping her hands through his long hair, she embraced him.

- I’ve missed you. – she whispered, her voice like a slow and hypnotizing music.

- I’ve missed you desesperatly, my love.

The night was filled with love and sweet words. Layed upon his naked chest, Aila could hear his heartbeating, and smell his sweat. That time she would have a calm sleep, watched only by the rising sun of the auttum.

PS.: The music is a piece of Home Again, from Blackmore’s Night.

E em algum lugar longe de casa… Novembro 12, 2007

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Respirou fundo o ar noturno daquela floresta que tanto a oprimia, enquanto ajustava a última seta da noite. Olhou para os que dormiam um merecido sono enquanto pensava: Lyon, aquele que os libertou das masmorras de Lorde Drakkan; Aillah, a druidisa bérnia que se revelou como alguém completamente diferente do que Keriann poderia imaginar; Fox, o pequeno halfling que tanto a ajudara; Adrian, felden que acabaram por libertar, meio sem querer, das garras de uma bruxa do pântano; e o elfo arcano cujo nome não conseguia lembrar.

Seu ombro esquedo doía – o encontro com aqueles ogros rendera alguns bons hematomas – e naquela altura da noite ainda não conseguia distinguir o que era o certo e o errado. Procuravam Willow, a menina-fada chave para tudo o que estava acontecendo no reino de Bielefeld, e todas as pistas os levaram para aquela floresta odiosa. Orava para que o raiar do sol clareasse as suas idéias.

Suspirando mais uma vez, a jovem caçadora relembrou dos momentos que havia compartilhado com aquelas pessoas: a fuga desesperada da fortaleza, o encontro com Tyrion, as estadias calorosas nas tavernas do reino, a profecia proferida por sua avó em sua breve estadia em Eastwind… Sim, muita coisa acontecera. E não tinha chegado tão longe em vão.

O elfo e Adrian também buscavam por Willow, mas em nome de um lorde qualquer do reino. Não conhecia os nomes – era só a filha do caçador de um vilarejo, nunca aprendeu sequer a ler, quanto mais os nomes de cada conde de um reino tão grande – mas temia que fossem manipulados de Drakkan. Queria pensar que A Dama traçara o destino daqueles homens para encontrá-los ali, e que eles os ajudassem em sua tarefa, mas desconhecia as verdadeiras intenções daqueles desconhecidos. No entanto, deixá-los à própria sorte em uma floresta tão terrível era covardia. Cortar suas gargantas enquanto dormem também não lhe parecia certo. Não era o que o seu pai faria.

- Onde ele estará, afinal? Ele saberia o que fazer se estivesse aqui comigo…
- E quem disse que eu não posso estar?

O coração disparado, olhou na direção da voz. Um homem de altura mediana, cabelos na altura dos ombros e emaranhados saía das folhagens. Portava um arco longo, madeira escura, que Keriann conhecia tão bem. Um sorriso cansado ornamentava o rosto conforme se aproximava, andando com uma naturalidade quase sobrenatural da floresta.

- Você deu bastante trabalho, mocinha. Demorei para encontrá-la.
- …Pai?
- E quem mais poderia ser, Key?

Abraçou-o forte, como se tentando provar que não era mais uma ilusão das várias fadas que vagavam na floresta. Sentiu-se novamente como uma criança ao sentir os braços fortes e acalentadores, hesitando até em soltá-lo. Mil perguntas vinham à mente, mas podiam esperar.

- Como… você…?
- Shh, apenas descanse agora. Você está segura, e é isso que importa.
- Hmn, mas…
- Está tudo bem, querida. Só descanse…

E como se tomada por algum tipo de encantamento, Keriann sentiu seus olhos pesarem, e o cansaço do dia impeliu-a a dormir. Esboçou ainda um sorriso tranquilo, trazendo a mão caleijada de seu pai junto ao rosto, conforme se deixava guiar para o saco de dormir. Balbuciou ainda alguma coisa e se deixou levar, apenas para acordar ao raiar do sol, cuja luz adentrava pela folhagem espessa das árvores. Seu pai não estava lá. Mas ela já sabia que rumo tomar.

A hard way away from home Novembro 12, 2007

Posted by Allana in Arton, Fantasia, RPG.
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O vento noturno fazia farfalhar as folhas do bosque próximo. De olhos fechados, podia ouvir os outros barulhos da noite: corujas piando e o adejar das suas asas, sapos coaxando, o uivo distante de um lobo… se se concentrasse muito, tinha a impressão de ouvir as passadas leves dos gatos no telhado de madeira da sua casa, ou o barulho de água corrente do rio que passava perto da cidade.

Mantendo os olhos fechados, Keriann passou a mão pela grama, fria por conta da temperatura da noite, e molhada pela chuva recente do final da tarde. Gostava do barulho que fazia, mas gostava mais ainda da sensação de ter a mão molhada pela água que se guardava nas folhas maiores. A velha Nan, que já era velha desde quando Keriann não passava de uma criança de colo, contava histórias sobre a chuva. Às vezes eram lágrimas da Dama, às vezes eram sementes que fecundavam a terra para fazê-la florescer, ou às vezes era só a chuva que castigava os heróis nas suas viagens. Para Keriann, era só a chuva. Para ela, era o que precisava saber.

Gostava do chão molhado também porque ficava mais fácil ouvir os passos das pessoas que se aproximavam. Logo, quando ouviu a voz do seu pai não foi realmente uma surpresa.

- Não acha que já está na hora de ir pra cama?
- Não, está cedo. O céu está tão limpo, pai. Até parece verão!

Ela não precisava de muito para convencê-lo. O homem apenas sorriu, sabendo que a discussão não iria longe, e desistiu. Sentou do lado da filha e passou-lhe a mão nos cabelos emaranhados.

- Mude a roupa antes de dormir, senão vai ficar resfriada. Vai à caçada amanhã?
- Eu posso?

A jovem olhou-o com os olhos azuis, quase tão escuros como a noite. Poucos reparavam, mas pequenas listras douradas brilhavam por toda a íris. Tinha as maçãs do rosto bem definidas, e os traços do rosto bem angulosos: sobrancelhas finas, os lábios também, e o cabelo curto, sempre com aparência despenteada faziam-na parecer ainda mais com um menino.

- Pode, pode sim. – respirou fundo, tirando uma folha que se enganchara no cabelo ondulado, e continuou: – Key, nós precisamos conversar.
- Pode falar, pai. Estou ouvindo. Aquela não é a constelação do centauro?
- Eu e a sua mãe estávamos conversando, e… nós achamos que já está na hora de você casar.
- Não, acho que não é a do centauro… como é? Casar?
- Filha, você já passa dos quinze anos… sua mãe acha que se demorar mais as pessoas vão acabar falando… além do mais, ela acha que arranjou um bom marido pra você.
- Você não pode estar falando sério, pai! Casar? Mas… agora? E… quem vai ajudar você? Quem-
- Keriann, você já é uma adulta. Sabe que não pode ficar a vida toda se embrenhando no mato e… e isso é o melhor, filha. Casar, ter filhos… E o Fawkes é um bom rapaz. Humilde, simples, é um dos caçadores da vila. Você já o conhece.
- Aquele idiota?! Aquele idiota que vai se embebedar na taverna…
- Keriann…
- …me fazer ficar o dia inteiro em casa…
- Keriann…
- … e me bater quando achar que deve…
- Keriann! Já chega!
- Já chega nada! – gritou a jovem de volta. – Você vem com essa idéia estúpida de me casar com qualquer um e quer que eu fique contente?
- Idéia estúpida? Você não vê que tudo o que eu quero é o melhor pra você, minha filha? Você acha que eu não temo por sua segurança, toda vez que se embrenha por aí? Acha que não sei o que os outros comentam a seu respeito? Acha que não prezo por você?
- Sim, idéia estúpida! Já pensou que eu não me importo com o que os outros dizem a meu respeito? Eu estou me lixando pro veneno que essas cobras disfarçadas soltam!
- Baixe esse tom de voz comigo, menina, e já pra dentro de casa. Agora!

Sem mesmo que percebesse, lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Raiva, tristeza, impotência… ah, mas aquilo não ficaria assim. Não se casaria com um qualquer. Não com qualquer. Não que não quisesse casar, ter filhos e todas essas coisas de vida de casada. Mas não queria que fosse assim.

- Não.
- Como é que é?
- Não, eu não vou. Eu não vou pra dentro de casa, nem vou me casar com aquele imbecil burro feito uma porta, nem mais nada! Eu não sou obrigada a obedecer você!

Os olhos arregalados de surpresa, Keriann sentiu o tapa queimar-lhe o rosto molhado pela chuva e pelas lágrimas. Foi tão rápido que sequer teve tempo de reagir – seu pai era um homem forte e hábil, e isso não era novidade para ninguém. Mas ele nunca levantara a mão para a filha, ou tampouco chegara a esse extremo. A pele do rosto queimava, e devia estar vermelha, mas Keriann não se importava com isso no momento.

- Você vai entrar naquela casa agora e vai parar com essa discussão sem sentido!

De modo automático, a jovem seguiu para a pequena casa. Balbuciou um “Summer, aqui”, e o seu cachorro, que se afastara da discussão, seguiu-a fielmente, o focinho baixo, parecendo triste. Sua avó, a velha Nan, estava sentada na frente da casa, olhando a chuva. Ignorando-a, Keriann seguiu para dentro da casa. Sem vontade de conversar com ninguém, a garota entrou no quarto e afundou na cama simples.

Só então se deixou chorar realmente. O rosto queimava e doía, mas talvez o orgulho tivesse sido o mais machucado com tudo aquilo. Crescera livre como um passarinho, correndo pelas planícies, subindo em árvores e nadando no rio. E um animal selvagem, quando engaiolado, ficava arisco, rebelde. Assim ela se sentia.

Não se importava de casar, só não achava que era o momento. Nem a pessoa certa. A Dama haveria de dizer quando e com quem seria, pensava. Era assim na natureza, por que não poderia ser assim com os homens? Ela não havia criado tudo, afinal? Por mais que pudessem pensar, homens também erravam, e mais do que gostariam. A natureza não – tudo acontecia seguindo um ciclo, no momento ideal.

Não se importaria de casar com Anthon, filho do condestável da cidade. Era um bom rapaz, educado e inteligente. Não era um caçador – sonhava em sagrar-se cavaleiro. Para ele, Eastwind era pequena demais pros sonhos que carregava. E por isso partira há alguns meses, para Portfeld. Seria escudeiro, e depois, cavaleiro. Talvez gostasse dele, e nunca quis admitir. De qualquer modo, não achava que caso confessasse, ele teria ficado. Era sonhador, e não precisaria se casar com ninguém aos 15 anos.

Imersa em pensamentos, Keriann dormiu. E os dias se passaram, caçadas foram feitas, chuvas foram e vieram. Trocava poucas palavras com a família, preferindo passar mais tempo fora de casa com Summer, cachorro que a ajudava nas caçadas ou que simplesmente fazia companhia. Desejava que ele pudesse falar, às vezes.

Às vezes ia até o rio, tendo vontade de descer a sul acompanhando-o. A corrente desembocaria no mar, e antes disso Keriann chegaria a Camelerd. Mas então lembrava da sua família e de como eles ficariam, e então desistia. Além do mais, ela sabia que seu pai não queria que ela casasse. Sentia isso quando o surpreendia olhando-a, e nos suspiros que dava quando tentava falar-lhe alguma coisa. Daria uma chance a ele.

A data do casamento se aproximava, e tudo continuava na mesma. Em uma noite clara, na qual a lua brilhava no seu maior esplendor no céu, Keriann separou suas roupas, o arco de madeira pintado de verde que fizera com seu pai anos antes, e saiu pela janela. Summer a acompanhava, os dois como sombras na noite, e se afastaram de Eastwind. Sentiria falta dali.