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Com as próprias mãos Agosto 25, 2008

Posted by Allana in Fantasia, Forgotten Realms, RPG.
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- Você faria o mesmo se estivesse no meu lugar!

Não, Ariene não faria. Mas aquelas palavras reverberavam na sua mente, indo e voltando sem parar. Ariene Crownshield, cavaleira sagrada da Ordem do Cálice Prateado de Siamorphe, não venderia sua honra tentando matar alguém em troca de um punhado de moedas de ouro. Mas será que ela, nascida sem lar, sem ninguém que a ensinasse que valores deveria preservar, não se deixaria levar pela situação?

Segurou entre os dedos o cálice prateado, que usava sempre com tanto orgulho. Apertou-o forte, como se buscasse na deusa uma resposta para essas indagações. Não gostava da sensação de ter a vida de alguém em suas mãos – nunca se achou preparada para aquilo, na verdade. Já presenciara execuções antes – seu pai a preparara desde criança – mas isso não quer dizer que gostava de vê-las. Fechou os olhos azuis com força, como se tentasse apagar a lembrança, mas foi em vão.

**********

- Não vire o rosto, pequena. Seu pai está olhando você.

Quem lhe falava era Tersus, embora a criança não estivesse realmente dando importância a sua voz. Ariene não queria olhar, mas não conseguia tirar os olhos daquele a quem chamavam de traidor. Os ombros estavam caídos e marcas profundas adornavam o seu rosto, compondo o quadro de um derrotado. Não em combate, não em batalha… mas na vida. Profundas olheiras e olhos finos como linhas se esgueiravam pela multidão, como se não conseguissem encará-los. Ariene não desviou o olhar, e teve certeza: ele olhou para ela.

Mesmo nos dias de hoje, não conseguiu entender se ele buscava por ajuda ou pura redenção. Os olhos daquele homem eram de uma inexpressividade descomunal, mas ainda assim intensos como a pior das tempestades. Prendeu a respiração, e então ouviu a voz do seu pai soar acima do cochichar da multidão:

- Você, homem de armas conhecido por Saemon, foi acusado de traição para com seus companheiros de armas. Graças a informações, passada por você a comparsas dos exércitos da velha e corrupta corte, três valorosos guerreiros perderam suas vidas. Entre seus pertences, foi encontrada a quantia de trezentas moedas de ouro, cunhadas pelas formas da corte que você costumava combater. – pausou a fala por um instante, enrolando o pergaminho com as acusações. – O que tem a dizer em sua defesa?

Por um instante, o homem permaneceu calado, assim como a multidão. Seus olhos se viraram para seu acusador, Kelvan Crownshield, e Saemon apenas deu de ombros.

- Nada. Eu fiz tudo o que disse, meu senhor. Apenas me dê uma morte rápida.

A displicência do homem apenas irritou mais o lorde, e Ariene sabia disso. No entanto, ele manteve sua postura. Desembainhou sua espada bastarda, que refletiu por um instante a luz do sol, e disse:

- Pelo poder a mim investido, por mérito e berço, és declarado culpado, homem de armas Saemon.

***

Voltaram para o solar improvisado, em um silêncio quase mórbido. Ariene não conseguia parar de pensar nos olhos inertes daquele homem, e ainda assim tão intensos. E não conseguia também encarar seu pai. Como se adivinhasse seus pensamentos, Kelvan falou:

- Eu tive que fazer aquilo. Aquele homem cometeu um crime que matou três pais de família. É uma questão de justiça. E você deve acostumar-se com isso, minha filha. Um dia, você tomará conta desse lugar.

O silêncio perdurou até chegarem à casa. Ariene viu o pai dar-lhe as costas e dirigir ordens a alguns homens, e só então conseguiu dizer:

- E quem somos nós para julgar quando tirar a vida de alguém?

**********

- Ele não carrega o mal no coração. – disse por fim Arienne, e só então percebeu que demorara a tomar sua decisão.
- Preciso lembrar-lhe, minha noiva, que este homem tentou matar você? E foi uma tentativa premeditada? – a voz de Victarion se fez soar. – De acordo com as leis de Tethyr…
- Nós não estamos em Tethyr. – lembrou Vance, que era a favor de deixar o homem vivo.
- E mesmo de acordo com as leis dos homens do mar, traição a esse nível é passível de punição com morte. Arienne, eu negociei sua vida por duzentas moedas…
- Os deuses decidirão. – a jovem disse, e ouvir sua própria voz a deixou mais segura de si. – Se ele aceitar, largue-o no mar. Não estamos tão longe de terra firme, e qualquer provação que passar será o suficiente para que repense suas ações. Se, do contrário, ele perecer, teremos adiado o inevitável. Agora, se me derem licença, vou para os meus aposentos.

*****

Na manhã seguinte, os homens foram levados para o convés, para receber sua punição diante de todos – o exemplo também era uma ótima forma de coagir os membros de uma tripulação, a capitã lhe explicara. E assim era em qualquer lugar.
Aquele que mentira no intuito de salvar a vida teve uma morte rápida pelas lâminas de Vance. O outro, por sua vez, foi lançado na imensidão do mar, e se sobreviveu ou não a paladina não poderia dizer. No entanto, tinha a sensação de que a justiça, de fato, havia sido feita.

Prova de Honra Novembro 8, 2007

Posted by Allana in Fantasia, RPG.
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O crepúsculo inundava as planícies de Tethyr, banhando as terras em uma luz alaranjada. As folhas caídas ao chão, cuja cor se confundia com a luz do sol, indicavam a presença do outono, e lembrava a todos a proximidade do inverno.

O bater dos cascos anunciava a chegada de alguém. Um trote rápido, mas nem por isso violento: quem vinha conhecia a terra, sabendo exatamente onde pisar e por onde andar. E não poderia ser diferente: Ariene Crownshield pode não ter nascido na aquele lugar, mas cresceu ali e aprendeu a amá-lo.

Seus cabelos loiros brincavam com o vento, e o escudo brilhava em suas costas ao sabor da luz. Trazia consigo alguns ferimentos, mas nada sério: escaramuças com bandidos que perturbavam suas terras só podem resultar em coisas assim. E quase podia ouvir as palavras do seu pai agora: “Tome cuidado em situações como essa. Eles não têm nada a perder, diferente de você”.

Um nobre, no entanto, deve governar acima dos seus desejos. E é para isso que ela se preparava: ser uma boa líder, ser lembrada pelos seus. E para tanto, conhecer seu povo e ser conhecida por ele era essencial. Saber dos seus problemas, e de como resolvê-los. Cheia de sonhos, se juntara à ordem do Cálice Prateado de Siamorphe. E cheia de sonhos, está prestes a ser sagrada cavaleira da ordem. Mas sabia o que precisava fazer antes.

Os portões se abriram, e cumprimentando os servos do solar, Arienne entrou. Tinha consciência de que havia coisas importantes ainda a fazer, mas no momento tudo o que desejava era um bom banho. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo rápido, para que ficasse mais apresentável ao lorde.

- Ariene, que bom que chegou. Seu pai gostaria de vê-la.
- Seus cumprimentos, lady Adanna. Meu pai já me espera?
- Não de fato, mas foi uma feliz coincidência. Ele está no escritório.

Lady Adanna seria sua madrasta se seu pai tivesse se casado anos antes. Casaram-se recentemente, depois que uma praga misteriosa assolou as terras dos Runestone, e o lorde simplesmente desapareceu. Sozinha, com o filho herdeiro tendo ido estudar nas terras de Halruaa, foi bem amparada por seu pai, que a pediu em casamento pouco depois. Arienne não questionou as ações do pai, e entendia seus motivos. Além de estar sozinho por anos, o casamento renderia um bom acréscimo em suas terras.

- Irei ter com ele. Com sua licença.

Se dirigiu para o escritório apenas para encontrá-lo conversando com um outro homem. Olhou com mais cuidado enquanto tentava lembrar-se de onde conhecia aquele rosto: cabelos curtos, uma barba rala, rosto anguloso…

- Ah, Arienne, que bom que está aqui.
- Interrompo algo, meu senhor? Vim vê-lo porque lady Adanna…
- Não se preocupe, minha filha. É bom porque tratamos logo do assunto. Este é lorde Crawford, das terras ao norte. Talvez se lembre dele, de quando eram crianças.
- Oh, claro. Como vai, milorde? Bem, devo pedir desculpas pelos meus trajes, mas estive em escaramuças com alguns bandoleiros que estavam assolando nossas terras. Espero que não se importem, senhores.

Não lembrava de fato, mas havia aprendido pequenas mentiras diplomáticas. E pelo tom da conversa, já imaginava o que viria depois.

- Belas damas sempre estão perdoadas, milady. Não precisa se preocupar com isso. E foi bem sucedida em sua empreitada?
- Parcialmente. Alguns fugiram, mas o barão já foi avisado. Não deverá tardar para que eles sejam presos também.

E uma conversa sem muito significado se seguiu por pouco mais de uma hora, quando querendo chegar aos finalmentes, seu pai falara:

- O fato, minha filha, é que lorde Crawford veio pedir a minha permissão para fazer-lhe a corte.
- Compreendo. – já desconfiava daquilo, apenas não quis externar suas suspeitas e ser indelicada. Respirou fundo, contemplativa, e continuou – Bem, senhores, estou certa de que os arranjos podem ser feitos entre vocês dois…

Arienne se sentiu bem ao ver o leve sorriso no rosto do pai. Que ele queria casá-la já não era novidade, mas ele compreendia suas motivações. Ela tinha uma tarefa maior a cumprir, antes de pensar em qualquer coisa. E esperava que ele compreendesse a sua escolha.

- … desde que compreendam uma simples exigência: eu só posso respeitar um homem como meu marido depois que ele se prove digno de tal. Eu me casarei com o lorde Crawford, caso ele me vença em um combate singular.

Lorde Crownshield permaneceu impassível, embora a jovem tivesse a impressão de perceber um leve sorriso aparecer em seus lábios. Desviou o olhar e viu a expressão de espanto e desconcerto do visitante, e aquilo a deixou mais tranquila. Ele havia hesitado.

- Minha dama, há de convir que…
- Trate isso como uma prova de merecimento, lorde Crawford, não como um teste de perícia em combate. – interrompeu Lorde Crownshield, direto e incinsivo. – Se for merecedor de casar-se com a minha filha, os deuses estarão ao seu lado. Do contrário, estou certo de que há várias outras donzelas em busca de um pretendente.
- Eu… pensarei na proposta. De qualquer modo, o embate não poderia ser realizado hoje, tenho que contatar meu escudeiro e estar provido de meus equipamentos. Com vossa licença…

Ao ouvir a porta se fechar, não conseguiu evitar um suspiro alto: alívio. Não foi daquela vez. Sabia, também, que não deveria tardar. Mas preferia não pensar nisso agora – nos próximos dias,  seria cavaleira reconhecida da Ordem do Cálice. O casamento podia esperar.