Não olhe para trás Setembro 22, 2008
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A batalha estava acabada, assim como a jovem arqueira. Seus olhos azuis encaravam a floresta que servira como campo de batalha: soldados arrastando corpos e feridos, outros vasculhando os pertences de um colega. “Vou levar pra mulher dele”, ainda pôde ouvi-lo falar. “Mulher e filhos”.
Mesmo tendo conseguido o que queriam – bater em retirada, depois do ataque mal sucedido a Camelerd – Keriann tinha a sensação de que muito mais havia se perdido aquela noite: Lyon, marido de Aillah e pai de uma criança ainda por vir; Leão da Montanha, guerreiro bérnio que, ironicamente, morrera defendendo os felden; e seu pai.
Não podia dizer quanto tempo ficou olhando aquela cena – nem importava realmente. Os outros carregavam os corpos dos seus conhecidos, e Keriann olhava para o que restara do seu pai. Quando o viu pela última vez, não imaginara que o reencontro seria assim.
Fechou os olhos, e lágrimas desciam pelo rosto sujo da batalha. Ela viu quando o exército de mortos corria para a floresta, ignorando galhos ou quaisquer obstáculos. Incansáveis e implacáveis, eles pareciam invencíveis. Mas o pior foi perceber que boa parte deles usava as roupas dos homens que morreram no ataque à cidade: as forças negras a serviço de Drakkan os trouxeram para lutar mais uma vez, sem vontade própria, apenas com o desejo instintivo de matar.
Mas em uma batalha, quem pode pensar diferente?
E Keriann lutou. As mãos calejadas dispararam flechas como nunca, e ela mal pôde sentir quando a luva se desfez mais uma vez e os dedos começaram a sangrar. Os desmortos continuavam a desferir seus golpes, ploriferando morte e corrupção, e ela continuava a atirar, os sons da corda fazendo-a não pensar nos gritos de dor dos soldados. Até perceber que a parede de escudos estava prestes a se romper, e os soldados protegiam os feridos.
Atirou mais uma vez e largou o arco, sacando a Matadora de Bruxas, que Dorgauth entregara-lhe. Se servia para matar bruxas, daria descanso aos mortos também. Lutou. Teria continuado se não percebesse um brilho incomum na altura do peito do desmorto: um pingente prateado balançava, mostrando um cálice com uma linha dourada no topo e algumas inscrições.
De longe, ela reconheceria aquela jóia que seu pai costumava segurar com tanto afinco enquanto orava. Levantou os olhos para ver o rosto de quem estava prestes a atacar: era seu pai, os cabelos castanhos, agora imundos; os olhos azuis, de quem herdara os seus, sem o brilho da vida; a pele seca e esbranquiçada; e um grande ferimento de espada na altura do pescoço. Seu pai, tornado um desmorto pelos servos de Drakkan. Seu pai.
Largou a espada, mais por inércia que por desejo. Como aquilo era possível? Como?! Quis gritar, quis impedir os outros de lutarem, mas sabia que já era tarde. Enfrentara desmortos antes, e sabia que eles já não eram as pessoas de antes. Queria abraçá-lo, mas sabia que não podia. Os soldados gritavam, pedindo ajuda, pedindo que lutasse, mas naquele momento era impossível. Inerte e impotente, era como se sentia. Como deixou aquilo acontecer?
Mas naquela noite, os mortos não paravam. E ele continuou, avançando em sua direção, segurando uma espada que não era dele. Brandiu a lâmina sem muita força, atingindo a arqueira na altura do estômago. Ignorou a dor do ferimento porque alguma outra coisa lhe doía ainda mais. Seria a alma?
Não teve tempo para pensar: os outros soldados atacaram-no, cumprindo seu dever. E o que podia fazer a respeito? Conseguiram defender os feridos, era o que importava. E agora correram para ajudar os outros soldados em batalha. Era o que ela deveria fazer também, mas só conseguia pensar em um responsável por tudo aquilo: Drakkan.
Mas a batalha já havia terminado. Os homens marchavam, cansados, para longe de Camelerd. A época do plantio começara, e se não quisessem morrer de fome tinham que trabalhar no campo. Estabelecia-se assim uma trégua temporária, para que os dois lados se preparem para o que estar por vir. Nada daquilo importava para Keriann.
Diante de si, um túmulo improvisado: passara o resto da noite em lágrimas, preparando a cova, já que não havia nada mais o que fazer. Enterrou junto com ele seus pertences, exceto o símbolo sagrado da Dama, que agora brilhava no seu peito. Agora já não havia o que chorar. Levantou o capuz, olhou para a distante fortaleza que diminuía conforme a distância aumentava, e fez uma última prece à Dama.
- É uma promessa: não descansarei enquanto não matar você, Drakkan.
Lembranças Maio 19, 2008
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Aquilo tinha tudo para dar errado.
Um grupo de batedores, pequeno, aproximava-se da fortaleza. A noite avançava vermelha – tudo naquele lugar tinha, para Akane, algo de vermelho – e tudo o que eles tinham que fazer era conseguir informações o suficiente para que pudessem preparar um ataque. Aquele forte tinha que ser tomado.
Os cabelos alaranjados emolduravam o rosto tenso da guerreira, que se aproximava entre as árvores o mais silenciosamente possível. Podia ouvir o leve roçar dos soldados que a acompanhavam. Ou talvez eles nem estivessem fazendo barulho de fato, talvez fosse apenas a tensão.
Medo. Era isso que sentia. Mas achava bom – não ter medo de demônios e diabos era algo de se estranhar. Na bainha, A Ladra das Nove Vidas parecia pulsar, como se pedisse por sangue. Para se sentir melhor, segurou a guarda conforme andava. Não ajudou.
- E o que fazemos agora?
Um sussurro a fez voltar para si. Era um dos homens. Akane encarou a muralha, procurando uma brecha, uma falha, qualquer coisa… até que viu. Era uma saída na muralha lateral, onde provavelmente eram eliminados os dejetos. Talvez ali eles não chamassem a atenção. É, talvez desse certo.
Com passos rápidos, o grupo se aproximou da muralha. Nada de errado. Uma forçada rápida na grade e a passagem estava aberta. A guerreira esperou que os outros chegassem, esperou que passassem e só então entrou no túnel.
A escuridão logo se apoderou da visão de Akane, que tropeçou um pouco até se encontrar. Os olhos se acostumaram aos poucos, e então ela pôde divisar os vultos dos homens. Tentou ignorar o cheiro, e apoiando-se nas paredes seguiu. Dez passos, quinze passos, e ela pôde divisar uma fraca luz adiante. Por um momento aquilo a animou, até que pôde ver que alguém trazia aquela iluminação.
Luz que se aproximava, ganhando forma e tamanho, e trazendo calor. A explosão repentina que se seguiu mal deu tempo para Akane esquivar-se com um salto rápido pára trás, levando apenas breves escoriações. Mas o cheiro de carne queimada, juntamente com os gritos dos outros, indicavam que eles não tiveram tanta sorte.
<- Achou que podia entrar aqui de maneira tão fácil, Estrangeira?> – a voz parecia ressoar por todos os lados. E logo em seguida uma escuridão quase palpável tomou conta do pequeno corredor. Como detestava magos. Prendeu a respiração por alguns segundos, o suficiente para deduzir a localização o conjurador pelo ruído dos seus passos.
<- Ao que parece, eu posso. Acha que esses truques baratos vão me impedir, arcano?>
<- Prove então dos seus artifícios de bárbaros, Forasteira.>
E então sentiu uma movimentação muito próxima. Por muito pouco desviou de um golpe de espada, e bolqueou outro com o escudo. Perder homens em uma missão de reconhecimento não tinha nada de anormal, mas ser morta por eles não parecia nada agradável. Movimentou-se para onde achava que era a saída, e por instinto desembanhou a espada.
Não soube se demorou demais a reagir, mas o fato é que não conseguiu explicar realmente o que aconteceu depois. A Ladra das Nove Vidas, sentindo-se liberta da bainha, parecia guiar os golpes. O primeiro foi aberto, e atingiu o soldado entre algumas costelas. Com o braço esquerdo, desviou um outro golpe que mal percebera, mas o movimento deixou o flanco esquerdo desprotegido. E então o terceiro soldado atacou-a, descendo a lâmina pela perna e encaixando-a exatamente na parte traseira da rótula.
O grito de dor e raiva incontida parece ter preenchido todo o forte, e ao invés de debilitar a guerreira, a dor pareceu excitá-la ainda mais. Fazendo a lâmina descrever um círculo, atingiu seu oponente na altura da bacia, fazendo-o cair de joelhos. O segundo golpe era desnecessário, mas nada a faria parar naquele momento. Como se soubesse exatamente o que fazer, retirou a espada já coberta de sangue e desceu a lâmina pouco acima da clavícula. O sangue espirrou-lhe no rosto, mas Akane não parecia se importar com isso.
******
- E o que aconteceu depois? – perguntou o rapaz, impressionado. – Você devia ter perdido a perna, ou não ser capaz de mexê-la…
- Magias de cura fazem milagres, Colin. Mas eu não me lembro. Me deixei levar. – os olhos verdes da guerreira pareciam se arrepender de ter contado a história. – Eu disse que não seriam boas histórias.
- Não, não é isso. Mas é impressionante ouvir tudo o que aconteceu… E essa aqui? Como conseguiu?
Retalhos – I Dezembro 17, 2007
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As sandálias de couro pisavam levemente a grama ainda molhada pela recente chuva de outono, enquanto os olhos azuis de Keriann vasculhavam o chão, em busca de qualquer sinal. Mal tivera tempo de se trocar, ou sequer de trazer Summer consigo, mas isso não importava muito agora: trazia seu arco longo, um saco de flechas e aquilo deveria bastar.
Afastara-se de Dorgauth e Aenarion, que seguiam pistas em direção ao solar de Beolláin, chefe do vilarejo. E se havia mais de uma pessoa, devem ter ido para lugares diferentes. Para despistar uma possível perseguição? Contava que não fossem inteligentes assim.
Lyon fora envenenado, às vésperas do seu casamento com Aillah, e por mais que as suspeitas fossem óbvias, eles precisavam de provas. Howell, filho de Beolláin, amigo de infância da druidisa, por pouco não matou Lyon em um combate singular. Estranho pensar que ele tentaria envenená-lo – nas histórias que ouvia de sua avó Nan, Keriann sempre associava venenos a bruxas e a mulheres más. Os homens de verdade matavam seus inimigos com suas próprias armas. E até o momento, não tinha motivos para duvidar da honra de Howell.
O desespero, no entanto, fazia as pessoas agirem de modo estranho.
Chacoalhou a cabeça, como se quisesse afastar esses pensamentos. O que ela devia fazer agora era seguir os rastros. Era uma caçadora, aquele era seu ofício. Se prezava tanto assim por seus amigos, se queria evitar que Fox ou Dorgauth fizessem alguma bobagem, que fizesse algo útil. As marcas a levaram até o rio que abastecia a cidade, e pelo qual Maelgrin viajava usando seu barco. Imaginava o que ele teria visto nela para cortejá-la.
- Inferno, detesto quando eles fazem isso. Se ao menos Summer estivesse aqui…
Atravessou a água, orando para que sua presa não tivesse seguido a corrente. E aparentemente, os deuses estavam ao seu lado: não tardou à caçadora reencontrar as marcas do outro lado, nas margens lamacentas. Apoiando-se no arco, subiu o pequeno declive e continou seu caminho. O que viu, no entanto, a fez parar.
Indubitavelmente, os rastros seguiam até a cabana de Maelgrin, que até então acreditava ser seu amante. Refez o caminho para ter certeza, mas não restavam dúvidas. Engoliu em seco, deu as costas para a cabana e resolveu retornar. Havia um terceiro rastro a seguir. Esperava não se surpreender tanto com o que poderia encontrar depois. Enquanto caminhava, imaginava como faria aquele homem confessar se teve alguma coisa a ver com tudo aquilo.
E em algum lugar longe de casa… Novembro 12, 2007
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Respirou fundo o ar noturno daquela floresta que tanto a oprimia, enquanto ajustava a última seta da noite. Olhou para os que dormiam um merecido sono enquanto pensava: Lyon, aquele que os libertou das masmorras de Lorde Drakkan; Aillah, a druidisa bérnia que se revelou como alguém completamente diferente do que Keriann poderia imaginar; Fox, o pequeno halfling que tanto a ajudara; Adrian, felden que acabaram por libertar, meio sem querer, das garras de uma bruxa do pântano; e o elfo arcano cujo nome não conseguia lembrar.
Seu ombro esquedo doía – o encontro com aqueles ogros rendera alguns bons hematomas – e naquela altura da noite ainda não conseguia distinguir o que era o certo e o errado. Procuravam Willow, a menina-fada chave para tudo o que estava acontecendo no reino de Bielefeld, e todas as pistas os levaram para aquela floresta odiosa. Orava para que o raiar do sol clareasse as suas idéias.
Suspirando mais uma vez, a jovem caçadora relembrou dos momentos que havia compartilhado com aquelas pessoas: a fuga desesperada da fortaleza, o encontro com Tyrion, as estadias calorosas nas tavernas do reino, a profecia proferida por sua avó em sua breve estadia em Eastwind… Sim, muita coisa acontecera. E não tinha chegado tão longe em vão.
O elfo e Adrian também buscavam por Willow, mas em nome de um lorde qualquer do reino. Não conhecia os nomes – era só a filha do caçador de um vilarejo, nunca aprendeu sequer a ler, quanto mais os nomes de cada conde de um reino tão grande – mas temia que fossem manipulados de Drakkan. Queria pensar que A Dama traçara o destino daqueles homens para encontrá-los ali, e que eles os ajudassem em sua tarefa, mas desconhecia as verdadeiras intenções daqueles desconhecidos. No entanto, deixá-los à própria sorte em uma floresta tão terrível era covardia. Cortar suas gargantas enquanto dormem também não lhe parecia certo. Não era o que o seu pai faria.
- Onde ele estará, afinal? Ele saberia o que fazer se estivesse aqui comigo…
- E quem disse que eu não posso estar?
O coração disparado, olhou na direção da voz. Um homem de altura mediana, cabelos na altura dos ombros e emaranhados saía das folhagens. Portava um arco longo, madeira escura, que Keriann conhecia tão bem. Um sorriso cansado ornamentava o rosto conforme se aproximava, andando com uma naturalidade quase sobrenatural da floresta.
- Você deu bastante trabalho, mocinha. Demorei para encontrá-la.
- …Pai?
- E quem mais poderia ser, Key?
Abraçou-o forte, como se tentando provar que não era mais uma ilusão das várias fadas que vagavam na floresta. Sentiu-se novamente como uma criança ao sentir os braços fortes e acalentadores, hesitando até em soltá-lo. Mil perguntas vinham à mente, mas podiam esperar.
- Como… você…?
- Shh, apenas descanse agora. Você está segura, e é isso que importa.
- Hmn, mas…
- Está tudo bem, querida. Só descanse…
E como se tomada por algum tipo de encantamento, Keriann sentiu seus olhos pesarem, e o cansaço do dia impeliu-a a dormir. Esboçou ainda um sorriso tranquilo, trazendo a mão caleijada de seu pai junto ao rosto, conforme se deixava guiar para o saco de dormir. Balbuciou ainda alguma coisa e se deixou levar, apenas para acordar ao raiar do sol, cuja luz adentrava pela folhagem espessa das árvores. Seu pai não estava lá. Mas ela já sabia que rumo tomar.
A hard way away from home Novembro 12, 2007
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O vento noturno fazia farfalhar as folhas do bosque próximo. De olhos fechados, podia ouvir os outros barulhos da noite: corujas piando e o adejar das suas asas, sapos coaxando, o uivo distante de um lobo… se se concentrasse muito, tinha a impressão de ouvir as passadas leves dos gatos no telhado de madeira da sua casa, ou o barulho de água corrente do rio que passava perto da cidade.
Mantendo os olhos fechados, Keriann passou a mão pela grama, fria por conta da temperatura da noite, e molhada pela chuva recente do final da tarde. Gostava do barulho que fazia, mas gostava mais ainda da sensação de ter a mão molhada pela água que se guardava nas folhas maiores. A velha Nan, que já era velha desde quando Keriann não passava de uma criança de colo, contava histórias sobre a chuva. Às vezes eram lágrimas da Dama, às vezes eram sementes que fecundavam a terra para fazê-la florescer, ou às vezes era só a chuva que castigava os heróis nas suas viagens. Para Keriann, era só a chuva. Para ela, era o que precisava saber.
Gostava do chão molhado também porque ficava mais fácil ouvir os passos das pessoas que se aproximavam. Logo, quando ouviu a voz do seu pai não foi realmente uma surpresa.
- Não acha que já está na hora de ir pra cama?
- Não, está cedo. O céu está tão limpo, pai. Até parece verão!
Ela não precisava de muito para convencê-lo. O homem apenas sorriu, sabendo que a discussão não iria longe, e desistiu. Sentou do lado da filha e passou-lhe a mão nos cabelos emaranhados.
- Mude a roupa antes de dormir, senão vai ficar resfriada. Vai à caçada amanhã?
- Eu posso?
A jovem olhou-o com os olhos azuis, quase tão escuros como a noite. Poucos reparavam, mas pequenas listras douradas brilhavam por toda a íris. Tinha as maçãs do rosto bem definidas, e os traços do rosto bem angulosos: sobrancelhas finas, os lábios também, e o cabelo curto, sempre com aparência despenteada faziam-na parecer ainda mais com um menino.
- Pode, pode sim. – respirou fundo, tirando uma folha que se enganchara no cabelo ondulado, e continuou: – Key, nós precisamos conversar.
- Pode falar, pai. Estou ouvindo. Aquela não é a constelação do centauro?
- Eu e a sua mãe estávamos conversando, e… nós achamos que já está na hora de você casar.
- Não, acho que não é a do centauro… como é? Casar?
- Filha, você já passa dos quinze anos… sua mãe acha que se demorar mais as pessoas vão acabar falando… além do mais, ela acha que arranjou um bom marido pra você.
- Você não pode estar falando sério, pai! Casar? Mas… agora? E… quem vai ajudar você? Quem-
- Keriann, você já é uma adulta. Sabe que não pode ficar a vida toda se embrenhando no mato e… e isso é o melhor, filha. Casar, ter filhos… E o Fawkes é um bom rapaz. Humilde, simples, é um dos caçadores da vila. Você já o conhece.
- Aquele idiota?! Aquele idiota que vai se embebedar na taverna…
- Keriann…
- …me fazer ficar o dia inteiro em casa…
- Keriann…
- … e me bater quando achar que deve…
- Keriann! Já chega!
- Já chega nada! – gritou a jovem de volta. – Você vem com essa idéia estúpida de me casar com qualquer um e quer que eu fique contente?
- Idéia estúpida? Você não vê que tudo o que eu quero é o melhor pra você, minha filha? Você acha que eu não temo por sua segurança, toda vez que se embrenha por aí? Acha que não sei o que os outros comentam a seu respeito? Acha que não prezo por você?
- Sim, idéia estúpida! Já pensou que eu não me importo com o que os outros dizem a meu respeito? Eu estou me lixando pro veneno que essas cobras disfarçadas soltam!
- Baixe esse tom de voz comigo, menina, e já pra dentro de casa. Agora!
Sem mesmo que percebesse, lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Raiva, tristeza, impotência… ah, mas aquilo não ficaria assim. Não se casaria com um qualquer. Não com qualquer. Não que não quisesse casar, ter filhos e todas essas coisas de vida de casada. Mas não queria que fosse assim.
- Não.
- Como é que é?
- Não, eu não vou. Eu não vou pra dentro de casa, nem vou me casar com aquele imbecil burro feito uma porta, nem mais nada! Eu não sou obrigada a obedecer você!
Os olhos arregalados de surpresa, Keriann sentiu o tapa queimar-lhe o rosto molhado pela chuva e pelas lágrimas. Foi tão rápido que sequer teve tempo de reagir – seu pai era um homem forte e hábil, e isso não era novidade para ninguém. Mas ele nunca levantara a mão para a filha, ou tampouco chegara a esse extremo. A pele do rosto queimava, e devia estar vermelha, mas Keriann não se importava com isso no momento.
- Você vai entrar naquela casa agora e vai parar com essa discussão sem sentido!
De modo automático, a jovem seguiu para a pequena casa. Balbuciou um “Summer, aqui”, e o seu cachorro, que se afastara da discussão, seguiu-a fielmente, o focinho baixo, parecendo triste. Sua avó, a velha Nan, estava sentada na frente da casa, olhando a chuva. Ignorando-a, Keriann seguiu para dentro da casa. Sem vontade de conversar com ninguém, a garota entrou no quarto e afundou na cama simples.
Só então se deixou chorar realmente. O rosto queimava e doía, mas talvez o orgulho tivesse sido o mais machucado com tudo aquilo. Crescera livre como um passarinho, correndo pelas planícies, subindo em árvores e nadando no rio. E um animal selvagem, quando engaiolado, ficava arisco, rebelde. Assim ela se sentia.
Não se importava de casar, só não achava que era o momento. Nem a pessoa certa. A Dama haveria de dizer quando e com quem seria, pensava. Era assim na natureza, por que não poderia ser assim com os homens? Ela não havia criado tudo, afinal? Por mais que pudessem pensar, homens também erravam, e mais do que gostariam. A natureza não – tudo acontecia seguindo um ciclo, no momento ideal.
Não se importaria de casar com Anthon, filho do condestável da cidade. Era um bom rapaz, educado e inteligente. Não era um caçador – sonhava em sagrar-se cavaleiro. Para ele, Eastwind era pequena demais pros sonhos que carregava. E por isso partira há alguns meses, para Portfeld. Seria escudeiro, e depois, cavaleiro. Talvez gostasse dele, e nunca quis admitir. De qualquer modo, não achava que caso confessasse, ele teria ficado. Era sonhador, e não precisaria se casar com ninguém aos 15 anos.
Imersa em pensamentos, Keriann dormiu. E os dias se passaram, caçadas foram feitas, chuvas foram e vieram. Trocava poucas palavras com a família, preferindo passar mais tempo fora de casa com Summer, cachorro que a ajudava nas caçadas ou que simplesmente fazia companhia. Desejava que ele pudesse falar, às vezes.
Às vezes ia até o rio, tendo vontade de descer a sul acompanhando-o. A corrente desembocaria no mar, e antes disso Keriann chegaria a Camelerd. Mas então lembrava da sua família e de como eles ficariam, e então desistia. Além do mais, ela sabia que seu pai não queria que ela casasse. Sentia isso quando o surpreendia olhando-a, e nos suspiros que dava quando tentava falar-lhe alguma coisa. Daria uma chance a ele.
A data do casamento se aproximava, e tudo continuava na mesma. Em uma noite clara, na qual a lua brilhava no seu maior esplendor no céu, Keriann separou suas roupas, o arco de madeira pintado de verde que fizera com seu pai anos antes, e saiu pela janela. Summer a acompanhava, os dois como sombras na noite, e se afastaram de Eastwind. Sentiria falta dali.
