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Eneida – Livro V Outubro 1, 2007

Posted by Allana in Eneida, Sátira.
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Ao longe, os marinheiros vislumbravam a grande fogueira que queimava no pátio. A maioria deles, no entanto, tinha coisas mais importantes a fazer, como se preocupar com o jantar, as cuecas sujas e limpar o convés. Outros se preocupavam com coisas mais inúteis, como por exemplo saber para onde estavam indo. Enéias, por sua vez, como um bom capitão de navio, dormia tranqüilamente na sua cabine.

Juno, ainda ressentida pela morte idiota de sua protegida, trama o destuino de Enéias. Na verdade o que ela faz é dar grandes nós na linha do Destino de Enéias, deixando a vida do herói mais emabaraçada que cabelo de mulher quando acorda. E tecendo, com as agulhas e linhas, a deusa teceu uma bela tempestade.

Tempestade é um eufemismo. O Dilúvio de Noé foi fichinha perto daquela tempestade. E os navios, se pudessem falar, falariam de lugares nunca antes vistos, de grandes guerras, e outras coisas. O navio de Enéias, se pudesse falar, naquele momento diria: “Putaquepariu, tempestade DE NOVO?!”

E sem rumo sobre a água, Enéias aportou en terras conhecidas. Por mais que não lembrasse o nome do reio, sabia que ele era um bom homem, e pediu hospedagem. A lei da hospedagem é muito simpes: você entra na casa de alguém, come do bom e do melhor, é presenteado e tem servas a seu dispor. A única coisa que você não pode fazer é roubar a esposa do anfitrião. Foi aí que Páris errou. E isso acarretou na guerra de Tróia, e toda aquela conversa que nós já sabemos.

E os dias no reino do qual não se lembrava o nome – mas é Drépano, caro leitor – seriam tranquilos para Enéias: rezar pela alma do pai, celebrar jogos em seu nome, e ir embora, rumo à terra prometida. Simples, não?

Seria simples, se não estivéssemos em uma epopéia. Enéias celebra seus ritos, promove seus jogos, e enquanto isso as mulheres da sua tripulação fofocavam:

- Ah, mas você viu os vestidos que a rainha usava? Um luxo! Ah, todos aqueles detalhes bordados…
- E as sandálias de salto alto? LIN-DAS! Só aquele cabelo dela que era meio cafona…
- UM HORROR! E aquele cinto…?

Juno era mulher também, obviamente, e pior: era deusa. Sabia divinamente como infernizar a vida de alguém. Mas não podia fazer isso diretamente, afinal, era a esposa do patrão. Mandou então Íris. Sua missão? Fazer com que as mulheres queimassem os navios.

O que Íris fez exatamente não se sabe. Dizem que ela jogou entre as mulheres alguns metros de seda chinesa, e de tanto se estapearem, as mulheres se pisotearam até a morte. As sobreviventes ficaram ensandecidas diante da visão e queimaram os navios. Outros contam que ela teria jogado um boneco inflável do Brad Pitt ou do Eric Bana, e o calor que se seguiu foi tamanho que ateou fogo nos navios. Alguns mitógrafos, no entanto, se perguntam porque a própria Íris não queimou os navios, usando querosene e fósforos. Acho que ela não achou que seria épico o bastante.

O fato é que os navios pegaram fogo, mas alguns foram salvos. Nenhuma das mulheres sobreviventes conseguiu explicar o que realmente tinha acontecido, e o herói toma uma árdua decisão: as mulheres ficariam em Drépano. Elas já não cozinhavam tão bem, nem cuidavam dos outros afazeres femininos como deviam. Além do mais, andar com loucas incendiárias por aí não seria saudável.

As mulheres se casaram com nativos, tiveram filhos, constituíram família e tudo o mais. Mas de vez em quando se reuníam às escondidas e iam incendiar algumas coisas. Só para matar o tempo.

Eneida – Livro IV Outubro 1, 2007

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Enquanto isso, no Olimpo…

- COMO?! COMO ELE PÔDE?! Ah, aquele Netuno¹ de uma figa… pagará caro por isso! – Juno² esbravejava, andando de um lado para outro no seu quarto divino. – Pois eu lanço uma maldição: que seu nome perca tanto o prestígio que vire marca de carne de peixe!

A deusa jogou-se na cama, que só não rangeu em protesto com medo de apanhar mais. Pensou em reclamar para o sindicato das camas, ou até mesmo entrar em greve, mas achou que as outras camas de deuses não adeririam à causa. Carregada de raiva, a mulher recorreu ao seu espelho mágico, vendido por uma bruxa decadente com uma cesta de maçãs,e viu o jantar dado em honra a Enéias. Viu o olhar ardente de desejo da rainha Dido para o herói, e percebeu que ela já estava perdida. Isso era que dava ficar fazendo voto de castidade depois da morte do marido! Qualquer herói metido a besta se torna um semi-deus! Ah, mas ela ainda inventaria um artefato que pudesse satisfazer as necessidades de uma mulher. Como é que as amazonas se viravam nesses tempos de necessidade?

- Tudo bem, Vênus³. Sua trama deu frutos. Dido se apaixonou pelo seu querido filho Enéias. Satisfeita?! Mas veja bem, eu não quero que Cartago caia, como dizem os oráculos, e você não quer que seu filho passe por provações desnecessárias, certo? Que tal então nos juntarmos? Nós os casamos: Cartago permanece, e Enéias se torna rei do mesmo jeito. O que acha?

A deusa do amor sorriu com a pequena vitória. Não era rancorosa, mas não havia perdoado Juno pela enganação na Guerra de Tróia. Sim, essa mesma Juno, que agora implorava por uma aliança, havia-a enganado, pedindo seus dons em prol do casamento de outra deusa querida. Vênus, muito atenciosa, cedeu-lhe seus segredos especiais, que foram usados pela própria Juno para fazer Júpiter4 dormir enquanto ela, Minerva5 e Apolo destruíam a cidade. Ah, sim, ela ainda se vingaria… Com um andar de fazer inveja à serpente de Eva, Vênus sentou-se delicadamente na cama, como se fossem melhores amigas.

- Casá-los? Não é má idéia. mas não sei se Júpiter irá concordar…

- De Júpiter cuido eu. Acho que ainda tenho alguns daqueles cremes que você me emprestou. Mas o fato é que nós vamos juntá-los, e disso eu também cuidarei. Amanhã, na caçada, uma chuva torrencial cairá, e eles se abrigarão em uma caverna. E bem, deixar sozinhos um homem que viaja por mais de anos, e uma mulher que não toca em um homem por mais tempo ainda, você já sabe no que resulta.

- Ah, sim, se sei…

- Estamos resolvidas então?

- Claro, claro, querida… mas me deixe dar um conselho: se continuar com esse rosto franzido vai acabar criando rugas!

E a caçada de fato começou. Os homens se armavam com arcos, setas e lanças, e até mesmo os mais jovens se empolgavam. O grupo partiu na floresta e pouco tempo depois uma forte tempestade caiu no norte da África. Não que caçar na chuva fosse impossível, mas quando trovões, relâmpagos e raios caíam por toda a parte, a coisa ficava só um pouco mais complicada, compreende? Todos se abrigaram como podiam. Estrategicamente a rainha se perdeu de suas criadas, e se juntou a Enéias. Os dois encontraram uma caverna onde se abrigar da tempestade, e…

- Sabe, vocês deviam usar roupas mais escuras.

- Hã? – perguntou a rainha confusa. Púrpura era a cor do reino; o que ele esperava que ela vestisse?

- É que essa sua túnica lilás, molhada, é… bem, meio… transparente, rainha. Com todo o respeito, claro.

- E que parte do “Eu não quero que você me respeite” você ainda não entendeu? O til?

E dali em diante, Enéias passou a dormir no quarto da rainha. Na verdade, dormir era o que ele menos fazia. Afinal, não é todo dia que se encontram heróis com o vigor de semi-deuses por aí. Dido estava completamente apaixonada, para não dizer abobalhada. Já não dava tanta importância para o reino, se preocupava mais com os vestidos que usava, e era completamente ciumenta. Possessiva, egoísta e rancorosa, não suportava quando o seu marido ia se preocupar com os seus homens sobreviventes de Tróia. Oras, ele era só seu e precisava fazer o seu papel! E o nosso herói até que estava tendo uma vida feliz, apesar das crises de ciúmes da rainha, até o dia em que Mercúrio 6 resolveu aparecer, com suas sandálias douradas de asinhas e sua coroa de louros.

- Enéias, Enéias… você por acaso esqueceu do que tem que fazer?

- Hã… cuidar da construção das muralhas?

- Bem que a sua mãe disse que você não é muito esperto. É um bom homem, audacioso e feroz em batalha. Mas não se pode ter tudo, não é mesmo? Uff, bem… eu não sei se você se lembra, mas você saiu de Tróia para fundar o seu reino, sabe? E se você não fizer isso, Roma não poderá exsitir. Você tem noção do quanto isso significa, Enéias?

- Mas… a rainha, e meus homens já estão até procurando casamento, e…

- Seus homens são leais a você, como todo e qualquer soldado de contos épicos! Não seja idiota, Enéias. Você precisa sair daqui. Ordens superiores.

- Assim… o quão superiores?

- Ou você vai, ou um raio cortará a sua cabeça em duas.

- Ah, tudo bem. Esse superior. É. Ok. Diga a ele que eu partirei amanhã.

Cabisbaixo, Enéias se dirigiu ao palácio. Seria difícil explicar à rainha. Mas eram Ordens Superiores, afinal. Em maiúsculo mesmo. Dido era meio… louca, às vezes, mas era uma pessoa de bom coração. E ele estava feliz lá. Não queria ter que ficar viajando de novo, se perder no mar, ver seus homens morrendo à toa… mas eram ordens superiores. Ordens superiores. Imaginou o que poderia acontecer se resolvesse não obdecer, mas não podia. Ah, como ele queria uma garrafa de vinho agora…

- COMO ASSIM?! Como assim você vai partir? Enéias, você… você não pode! Nós… nós vamos nos casar! Você será meu rei! Meu rei! Isso não é suficiente para você?!

- Mas, querida, compreenda… não é bem minha culpa, eu tenho que ir…

- NADA DISSO! Você não tem que ir coisa nenhuma! Você vai porque você já cansou de mim, não é? Homens, homens! Por que, deusa, por que eu perdi minha sanidade justamente com esse crápula?! Você, que chegou às minhas praias cansado e com fome, e eu gentilmente te abriguei! Você, que com esse corpo escultural e essa sua cara de bocó me conquistou! Ah, claro que não! Não bastava você romper com meus votos de castidade, se aproveitar de toda a minha fortuna, e me… me… SAIA JÁ DAQUI, SEU CAFAJESTE DOS INFERNOS! Que seu povo vague sem alma no Inferno, e que você… que você… SAIA DAQUI!

Desconsolado, Enéias saiu. Rumou logo para seus homens, e mandou que se aprontassem. Partiria assim que possível, não esperaria pela manhã. Algo dentro de si dizia isso. Sim, o inverno estava começando, mas ele não tinha escolha. Pensou que louca como estava, a rainha poderia mandar seus homens matá-lo enquanto dormia, ou coisa pior: desprovi-lo de certas… marcas de nascença. Não queria que ela ficasse assim, não estava gostando nada daquele desfecho, mas nada podia fazer. Não tinha escolha.

E seus homens trabalhavam, enquanto a rainha andava de um lado para outro no seu quarto. Na cama, jazia a espada de aço troiano, dada como presente pelo filho de Vênus. Desgrenhada e com olhos como brasa, Dido mandou que acendessem uma grande pira funerária. Iria queimar todas as lembranças desse canalha. Como pôde entregar-se desse jeito? Deixou de casar com reis locais, ganhar mais influência e dominar o resto da África, e talvez o mundo, só por conta daquele abdômen espartano. Por isso que mulheres não podem ser rainhas! Voláteis que são, acabariam pondo fogo no reino! Se bem que um certo homem viria a fazer isso em Roma…

E conforme Enéias e seus homens partiam mar tempestuoso adentro, Dido, do alto da pira funerária, observava-os. Jogou as sedas, o colchão, a camisola que havia comprado para a noite de aniversário. Seus olhos ardiam, e os cabelos loiros, desgrenhados, acompanhavam o crepitar do fogo. E naquelas visões que todo moribundo em poemas épicos tem, Dido desembanhou a espada e gritou aos ventos:

- Vai, Enéias. Vá e cego com Édipo cumpre o destino que os deuses te impuseram. Mas não te esqueces, Enéias, que haverá de vir um filho desta terra, que será a ruína de Roma. E eu não só falo da eterna rivalidade que a partir de agora surgirá, mas de um homem, que passeará por entre as tuas terras como um cidadão. Tudo bem, ele vai morrer e perder a guerra, mas não é isso que vem ao caso.

E Dido até tinha pensado em desistir da idéia de se matar, mas quando tentou se virar tropeçou no vestido e não sabendo manejar a espada, acabou se matando.
______________
MITOLOGIA FOR DUMMIES

1. Netuno é o deus dos mares, irmão de Júpiter e o equivalente romano a Posídon. Foi ele quem acalmou a tempestade mandada por Juno no Canto I.
2. Juno é a rancorosa irmã-esposa de Júpiter, ciumenta e possessiva. Por vingança, ela não quer que Enéias chegue à Itália, e é a equivalente romana a Hera.
3. Vênus é a deusa do amor, amante de Marte (Ares) e esposa de Vulcano (Hefesto). Mãe de Enéias, é a equivalente romana a Afrodite.
4. Júpiter é o deus dos deuses, manda-chuva do Olimpo. Equivale a Zeus.
5. Minerva é a filha de Júpiter, representando a sabedoria, conhecimento e a guerra justa. Equivalente a Palas Atena.
6. Mercúrio é um deus mensageiro, mas também ligado ao comércio e subterfúgio. Equivale a Hermes na mitologia grega.

Eneida – Livros II e III Outubro 1, 2007

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E aqui segue a tragetória do herói fundador de Roma. Depois de vagar longa e penosamente por uma tempestade mandada por Juno (ou eu poderia chamá-la de Hera? Acho que não faz muita diferença…), aporta nas praias de Cartago e segue para encontrar a raina Dido. Dido, como toda rainha que se preze, convida o herói para jantar. Mal sabe ela da artimanha perparadas por Afrod… hã, Vênus: escondendo o pequeno Ascânio, filho de Enéias, ela pede que Cupido tome a forma dele e induza no peito da rainha furioso amor.

Enéias suspira, toma mais um bom gole do vinho africano, e a pedido da rainha, começa a contar a história da queda de Tróia.

- Um dia estávamos lutando e no outro dia *ic* PUF! Nada! Os gregos *insira aqui algum xingamento proibido para o horário* simplesmente sumiram! De primeiro achamos que… *ic* era algum tipo de estratégia idiota… mas bem, não é como se eles tivessem muito para onde ir, afinal. Mas o mais estranho era um *ic* cavalo! De madeira, enorme, maior até mesmo que as nossas muralhas! – gesticulava o herói exageradamente, enquanto tomava mais vinho. No fundo, um aedo (aquele sujeito que ficava cantando histórias, acompanhado de uma harpa, e normalmente era cego) cochichou com uma das escravas:

- Depois eu quem invento histórias…

Enéias fingiu que não ouviu, e continuou sua narrativa. Falou que um sacerdote de Posídon tentou convencer o rei a queimar o cavalo, que não se podia confiar nos presentes dos gregos. Mas os troianos, cegos que estavam pelo fim da guerra, não lhe deram ouvidos, e quando uma cobra “que era desse tamanho, juu*ic*uuro!” sufocou e devorou o sacerdote, acharam por melhor deixar o cavalo entrar.

E o resto do dia foi somente festa: a guerra de dez anos, narrada em mais de 8 mil versos por aí, havia finalmente acabado! À noite, enquanto todos dormiam o sono dos justos, os soldados gregos escondidos no cavalo começaram a chacina.

- E bem*ic*, eu achei que havia sido algo pesado que eu comi *ic* antes de dormir, mas naquela noite eu tive um sonho. Heitor, filho de… de… de… como era mesmo o nome dele, do rei de Tróia… bem não importa. Ele era um bom homem. Heitor. Mas o rei também era. Onde eu estava? Ah, sim, eu sonhei com Heitor. Sim, sim. Foi um sonho estranho, na época. Ele disse que eu saísse correndo, pegasse os Penates de Tróia, e fugisse, que um reino me aguardava. Um bom reino, com água, terras férteis e todas essas coisas que se diz em profecias.

- E claro, eu acordei, e vi a cidade queimado. E o que eu fiz?

- Fugiu com sua comitiva? – perguntou um figurante qualquer.

- Claro *ic* que não! Eu sou um guerreiro, oras! Peguei minhas armas! Me juntei *ic* a um punhado de homens e se fosse para morrer, que morresse como homem! Até que resolvemos usar as armaduras dos gregos, matando a maior quantidade deles disfarçados. E essa até que foi uma boa idéia, até o momento em que os troianos passaram a nos atacar. Tivemos que fugir para o palácio do rei… Príamo! O nome dele era Príamo! E foi onde eu o vi morrer pelas mãos do filho de Aquiles. Era um bom homem, o rei. E Aquiles também, apesar de meio esquentado.

- E eis que eu vi Helena: a grande *insira aqui um xingamento bem forte* que causou toda a guerra. Por um momento eu fiquei cego. Sim, eu morreria, enquanto ela iria só jogar um charminho para o marido chifrudo dela e sair ilesa. Ah, não, não. Eu não poderia deixar aquilo passar. Quando levantei a minha espada, minha divina mãe apareceu. Me lembro até hoje das palavras sábias e carinhosas dela.

- Olha aqui, seu mané! Você acha que isso é trabalho desses mortais? Não, meu filho desprovido de inteligência. São os deuses, os deuses que estão fazendo isso. Deixe essa vadia pra lá e vá cuidar da sua família, como um homem de verdade deveria fazer! Pegue seu pai, os Penates de Tróia e vá embora! Entendeu ou quer que eu desenhe?

- Bem, então eu fugi. Carregando meu pai nas costas, e ele segurando os Penates, e meu filho pela mão. Só que no meio do caminho eu meio que perdi a minha esposa… como era mesmo o nome dela? Bem, ela morreu, não importa. E bem, daí juntei os sobreviventes e comecei a viagem.

- E como foi a viagem? – perguntou a rainha, que já sentia uma coisa estranha no peito quando ouvia o herói falar. Tanta coragem, tantas provações, braços tão fortes, pernas tão bem trabalhadas, e o tanquinho, nem se fala…

- A viagem foi um inferno na terra. No mar, *ic* quer dizer. Na terra e no mar, na verdade. Ulisses? Rá! Ele *ic* deveria agradecer por ter tido uma viagem melhor que a minha! Ficou anos e anos com uma deusa imortal e ainda queria voltar para Ítaca… *ic* cara burro. Vi vários lugares, enfrentei monstros terríveis, ouvi *ic* oráculos dos mais estranhos… mas nunca me preparei para *ic* a morte do meu pai. Ah, meu pai. Era um bom homem, ele também. Como era mesmo o nome dele…? Bem, depois de queimá-lo e fazer toda aquela frescura de ritual fúnebre, segui o caminho. Mas pegamos uma tempestade grande no meio do caminho e agora estamos aqui. Agora, se me permite, rainha… *ic* eu preciso descansar da viagem…

E assim Enéias terminou sua história, se levantou meio trôpego e foi dormir.

Eneida – Livro I Outubro 1, 2007

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A noite ia alta, as estrelas brilhavam no alto céu, e a frota de navios seguia seu caminho como previsto e ordenado pelos deuses. Previsto, porque os deuses sempre têm um oráculo duvidoso para tudo, e ordenado porque eram eles que mandavam naquela joça mesmo.

De repente, as nuvens se juntaram no céu e uma tempestade terrível abateu a frota. E era uma tempestade experiente aquela: usava de todos os efeitos especiais a seu alcance, como raios, trovões, ventos, ondas gigantes – adorava ondas gigantes; tinham todo um charme oriental. E além de experiente, estava dando tudo de si: queria ser promovida a tornado. E para isso era necessário mostrar serviço, ora pois!

Essa é a história de Enéias, vale salientar. Enéias, foragido de Tróia, se meteu mares adentro, e viveu uma jornada homérica. Na verdade, foi uma jornada virgílica, visto que Virgílio pegou tudo de bom (e de ruim) de Homero. Enéias, filho de Afrodite, ou melhor, Vênus, deveria seguir longa jornada até chegar à terra prometida das melhores pizzas do mundo, a Itália. Claro, foram os deuses que determinaram que ele deveria fazer isso. O porquê? Perguntasse a eles!

- Esse é o grande problema de ser o protagonista de uma epopéia – falava Enéias para o vento, enquanto tentava se manter de pé no seu navio. – Não bastando enfrentar monstros terríveis, descer ao Inferno e voltar de lá, ou lutar por dez anos numa guerra sem sentido, ainda tenho que aturar uma tempestade chata que vai me tirar do rumo de novo. Só espero que o cachê seja bom!

A Eneida é uma narrativa in media res. Ou, no bom e velho português, que começa com o bonde andando. Ou o navio, como preferir. Por isso cabe aqui uma pausa para o uso de uma técnica deveras comum na literatura: o flashback.

Há muito, muito, mas muuuuito tempo atrás, uma rancorosa deusa, ciumenta e possessiva, resolveu participar de um concurso de beleza. Esta deusa, Hera, ou melhor, Juno, resolveu competir com Atena, aliás, Minerva, e Vênus. O juiz desse concurso foi o primeiro mané que elas encontraram: um pastor bonitinho, meio magricela, troiano, chamado Páris. Como boas deusas gregas que são, aliás, romanas, partiram para a famosa técnica do suborno. Juno, esposa de Zeus, hã, bem, de Júpiter, ofereceu impérios e terras. Minerva, deusa sábia e guerreira, ofereceu ao jovem a invencibilidade em batalhas. Vênus, que não era boba nem nada, seguiu literalmente o dito popular “Meta os peito”: desnudou os seios e ofereceu a mortal mais bela do mundo – Helena. Páris, como homem, deu como vencedora a deusa seminua.

E bem, como o mundo já está cansado de ouvir, isso acarretou na Guerra de Tróia. Os troianos, claro, perderam, mas essa é outra parte da história. A questão é que Juno ainda não estava completamente satisfeita. Não bastava ter colocado a cidade abaixo, os templos destruídos, os soldados mortos, as mulheres feitas escravas. Não, ela queria mais: ela queria acabar com o sangue troiano, principalmente porque eles estavam destinados a destruírem sua terra preferida, Cartago. E usando seus encantos de deusa do casamento, bateu um pequeno papo com Éolo, deus menor dos ventos, e encomendou uma tempestade. Éolo, não querendo fazer feio com a esposa do patrão, acatou as ordens como qualquer deus menor faria.

Voltemos à nossa tempestade, que infelizmente não conseguiu sua tão sonhada promoção. Poseidon, aliás, Netuno, não gostou nada nada que deuses menores se intrometessem no seu território. O mar era dele, afinal de contas. Com seu tridente mágico +20 expulsou a tempestade e assegurou um porto seguro para Enéias, embora ele não tivesse a mínima idéia de onde estava.

Vênus, preocupada com o destino do filho, foi bater um papo com o chefe. Vestiu a saia mais curta, a blusa mais decotada, aquele perfume especial e marcou uma hora com o manda-chuva.

- Júpiter, sabe… você prometeu um reino para o meu filho, abundância e paz. Já não basta tudo que ele passou? Pobre rapaz, perdeu a mulher, o pai… por acaso esqueceu do que prometeu?

- Ah, mas isso você nem precisa se preocupar. Sim, Enéias terá um reino. E depois dele Iulo, que dará origem ao famoso Júlio! E será um reino grande, quase eterno. Sim, sim, eu… bem, só não sei muito bem quando isso poderá acontecer.

- Podemos negociar algo a mais… curto prazo?

Júpiter olhou para a deusa a sua frente. Seria um incesto. Não que ele fosse famoso por ter muita moral, mas ainda assim era um incesto. No entanto, seria um incesto muito bem aproveitado. Sim, sim, um belo de um incesto. Na verdade, seria incesto de acordo com a versão da lenda.

Incesto ou não, foi muito bem aproveitado.

Enquanto isso, no plano terreno, Enéias seguia por entre as terras desconhecidas. Eles já erguiam seus próprios muros, as mulheres vestiam púrpura. Sorte deles que já haviam realizado o sonho da casa própria! E nos muros dos templos pinturas com os acontecimentos da guerra de Tróia. Mal sabia ele que aquele lugar seria odiado por sua raça, dali a alguns milhares de anos à frente. Mal sabia ele que acabara de aportar em Cartago.

- É, Acestes. Todo mundo já sabe da guerra. Até parece que alguém resolveu escrever uma epopéia a respeito, e dramatizar isso em peças e peças. Às vezes é até bom ser famoso, não acha?

Depois de algumas boas horas, Vênus, recuperada da longa série de exercícios, recorre a seu filho mais novo, Cupido. Com as chantagens de mãe, diz que ele tomasse a forma de Iulo, filho de Enéias, e fizesse com que Dido, rainha de Cartago e que há muito não conhecia as coisas boas que o amor poderia trazer, se apaixonasse por Enéias. “Sempre é bom ter uma rainha apaixonada por protagonistas”, pensou. Não que ela duvidasse do destino, mas uma ajuda sempre é bem vinda.

E deu no que deu: Dido, ao vislumbrar o herói que chegara de tão longas terras, em jornada, o convida para um jantar. E não é preciso ler a Eneida para saber o que acontece agora: ela estende a conversa e pede que ele conte sobre a guerra. E Enéias, depois de um charminho necessário, se desata a falar.

E isso, nós deixamos para o próximo episódio.