Awakening – Parte I

1 out

Os uivos soavam alto, e tudo o que eu podia fazer era fechar a boca com mais força para não ouvir meus dentes se batendo. O apartamento cheirava a mofo, mas também a éter e drogas como maconha e cocaína. O reboco descascava nas minhas mãos, e eu não precisei fazer esforço para ver que havia preservativos espalhados e pedaços de agulhas usadas no chão. Não que aquilo importasse agora, pois tudo o que eu sentia era o meu coração acelerado e uma vontade imensa de não estar ali.

Mike voltava, e falou alguma coisa sobre um lobisomem. Um lobisomem. Aquilo me fez pensar no porquê de estar ali. O fato é que todos nós temos momentos de questionar nossas ações e escolhas. As minhas escolhas tinham me levado àquele lugar, e àquela situação. Um lobisomem, ele havia dito. Desde aquele dia na igreja o mundo deixou de ser o que parece – alguém que vê gente morta sabe que há muito mais atrás dos bastidores. E se eu estava lá, que fizesse aquilo direito. Um lobisomem. Se ele estava lá, eu queria vê-lo.

Aproveitei o momento de distração dos dois, a escuridão do apartamento e passei despercebida. O mundo, as coisas… tudo funcionava de alguma maneira. Nada acontecia de graça. Se eu estava ali, tinha algum motivo. Coincidência? Definitivamente não. Coincidência, sorte e azar são palavras que as pessoas usam para explicar o que elas não conseguem entender. Nossas escolhas nos fazem. Se não as escolhemos, elas nos escolhem. Você já me disse isso, Simon.

O corredor estava tão escuro quanto o apartamento, mas havia iluminação no lado de fora. Barulho de lataria amassada, talvez? Jurava que podia ouvir também uma conversa. Uma voz gutural, certamente inumana, falava algo, embora eu não pudesse entender daquela distância. Dei mais um passo, queria chegar mais perto, queria ver

E então tudo mudou. Eu ainda estava no prédio, mas agora as paredes eram verdes e o chão de metal. Eu já não ouvia os uivos, nem as conversas, nem nada. Simon e Mike não estavam lá. Toquei na parede, e ela era real. O que teria acontecido?

Não tive muito tempo para pensar, pois logo ouvi um grito alto e desesperado, além de muito familiar. Procurei as escadas e subi apressada, meus passos soando alto conforme eu quase corria. Botas tinham estilo, mas definitivamente não eram nada práticas. Nada no primeiro andar, embora eu já soubesse disso. Os gritos vinham de cima, do terceiro andar. Continuei correndo, mesmo que eu não soubesse bem o motivo. Eu apenas tinha que estar lá, precisava ajudá-la.

– Nicole? Nicole, é você?

Parei, quase tropeçando. Aquela voz, aquele tom… Olhei para trás e não vi ninguém, mas sentia a presença. Reconheceria aquela voz mesmo que eu estivesse drogada. Richard, irmão mais velho que morreu baleado na última “negociação calorosa” do meu pai. A cicatriz no meu pulso me lembrava do nosso último encontro, mas ele era meu irmão, e precisava de ajuda.

– Rick, onde… onde você está? Cadê você?

– Nicole, eu preciso… me ajude… isso é terrível… ME AJUDE!

E então uma onda de desespero se apoderou de mim, me levando ao chão. Senti o ar escapar-me dos pulmões, e minhas pernas fraquejarem. Sua voz reverberava na minha cabeça, e o mundo pareceu rodar a uma velocidade vertiginosa. Quase agradeci quando ouvi novamente o grito alto da mulher, que me tirou daquele torpor. Voltando a mim, tornei a correr. Não sabia bem como, mas aquilo era um teste. Eu tinha que chegar a ela, precisava…

Os gritos do meu irmão ainda ecoavam na minha mente quando voltei a subir os degraus. Por Deus, aquela escada não acabava nunca? Quando finalmente cheguei ao último andar, meus passos ecoavam no metal. Os gritos haviam parado, mas eu sabia que ela estava ali, em algum lugar. Comecei a andar pelo corredor, olhando para os lados sem saber ao certo o que esperar.

Então eu vi algo… ou talvez alguém. Era um homem, ou ao menos eu tinha a impressão de que fosse. Conforme se aproximava, parecia ganhar tamanho, agigantar-se diante de mim. Por instinto, ou medo, eu recuei um passo. E como se acionando um gatilho, gritos vários começaram a soar na minha mente, e por uma fração de tempo indefinida, me vi em uma igreja de arquitetura mista. Não, aquele lugar de novo não…

– Você não devia estar aqui. Este não é o seu lugar!

Embora ele abrisse a boca para falar, a voz não parecia vir dele. Ecoava por todo o andar, todo o prédio. As paredes pareciam se avantajar, me sufocando, me abatendo… e o homem se aproximava, os gritos se juntando à voz ininterrupta, minha visão turvava… Caí de joelhos, fraquejando. Talvez não devesse estar ali, afinal. Talvez eu devesse voltar a minha vida normal. Tinha uma família que precisava de mim.

O metal gelado parecia cortar a minha pele, congelando todo o meu corpo. Me encolhi, como se tentasse evitar o frio, e quando baixei meu olhar, percebi que ele não fazia sombra no chão. Ele não tinha sombra! Não era real! Superando o frio e com os joelhos tremendo, consegui me colocar de pé e passei por ele, fazendo assim todas as ilusões desaparecerem.

Mas o pior ainda estava por vir.

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