Eneida – Livro IV

1 out

Enquanto isso, no Olimpo…

– COMO?! COMO ELE PÔDE?! Ah, aquele Netuno¹ de uma figa… pagará caro por isso! – Juno² esbravejava, andando de um lado para outro no seu quarto divino. – Pois eu lanço uma maldição: que seu nome perca tanto o prestígio que vire marca de carne de peixe!

A deusa jogou-se na cama, que só não rangeu em protesto com medo de apanhar mais. Pensou em reclamar para o sindicato das camas, ou até mesmo entrar em greve, mas achou que as outras camas de deuses não adeririam à causa. Carregada de raiva, a mulher recorreu ao seu espelho mágico, vendido por uma bruxa decadente com uma cesta de maçãs,e viu o jantar dado em honra a Enéias. Viu o olhar ardente de desejo da rainha Dido para o herói, e percebeu que ela já estava perdida. Isso era que dava ficar fazendo voto de castidade depois da morte do marido! Qualquer herói metido a besta se torna um semi-deus! Ah, mas ela ainda inventaria um artefato que pudesse satisfazer as necessidades de uma mulher. Como é que as amazonas se viravam nesses tempos de necessidade?

– Tudo bem, Vênus³. Sua trama deu frutos. Dido se apaixonou pelo seu querido filho Enéias. Satisfeita?! Mas veja bem, eu não quero que Cartago caia, como dizem os oráculos, e você não quer que seu filho passe por provações desnecessárias, certo? Que tal então nos juntarmos? Nós os casamos: Cartago permanece, e Enéias se torna rei do mesmo jeito. O que acha?

A deusa do amor sorriu com a pequena vitória. Não era rancorosa, mas não havia perdoado Juno pela enganação na Guerra de Tróia. Sim, essa mesma Juno, que agora implorava por uma aliança, havia-a enganado, pedindo seus dons em prol do casamento de outra deusa querida. Vênus, muito atenciosa, cedeu-lhe seus segredos especiais, que foram usados pela própria Juno para fazer Júpiter4 dormir enquanto ela, Minerva5 e Apolo destruíam a cidade. Ah, sim, ela ainda se vingaria… Com um andar de fazer inveja à serpente de Eva, Vênus sentou-se delicadamente na cama, como se fossem melhores amigas.

– Casá-los? Não é má idéia. mas não sei se Júpiter irá concordar…

– De Júpiter cuido eu. Acho que ainda tenho alguns daqueles cremes que você me emprestou. Mas o fato é que nós vamos juntá-los, e disso eu também cuidarei. Amanhã, na caçada, uma chuva torrencial cairá, e eles se abrigarão em uma caverna. E bem, deixar sozinhos um homem que viaja por mais de anos, e uma mulher que não toca em um homem por mais tempo ainda, você já sabe no que resulta.

– Ah, sim, se sei…

– Estamos resolvidas então?

– Claro, claro, querida… mas me deixe dar um conselho: se continuar com esse rosto franzido vai acabar criando rugas!

E a caçada de fato começou. Os homens se armavam com arcos, setas e lanças, e até mesmo os mais jovens se empolgavam. O grupo partiu na floresta e pouco tempo depois uma forte tempestade caiu no norte da África. Não que caçar na chuva fosse impossível, mas quando trovões, relâmpagos e raios caíam por toda a parte, a coisa ficava só um pouco mais complicada, compreende? Todos se abrigaram como podiam. Estrategicamente a rainha se perdeu de suas criadas, e se juntou a Enéias. Os dois encontraram uma caverna onde se abrigar da tempestade, e…

– Sabe, vocês deviam usar roupas mais escuras.

– Hã? – perguntou a rainha confusa. Púrpura era a cor do reino; o que ele esperava que ela vestisse?

– É que essa sua túnica lilás, molhada, é… bem, meio… transparente, rainha. Com todo o respeito, claro.

– E que parte do “Eu não quero que você me respeite” você ainda não entendeu? O til?

E dali em diante, Enéias passou a dormir no quarto da rainha. Na verdade, dormir era o que ele menos fazia. Afinal, não é todo dia que se encontram heróis com o vigor de semi-deuses por aí. Dido estava completamente apaixonada, para não dizer abobalhada. Já não dava tanta importância para o reino, se preocupava mais com os vestidos que usava, e era completamente ciumenta. Possessiva, egoísta e rancorosa, não suportava quando o seu marido ia se preocupar com os seus homens sobreviventes de Tróia. Oras, ele era só seu e precisava fazer o seu papel! E o nosso herói até que estava tendo uma vida feliz, apesar das crises de ciúmes da rainha, até o dia em que Mercúrio 6 resolveu aparecer, com suas sandálias douradas de asinhas e sua coroa de louros.

– Enéias, Enéias… você por acaso esqueceu do que tem que fazer?

– Hã… cuidar da construção das muralhas?

– Bem que a sua mãe disse que você não é muito esperto. É um bom homem, audacioso e feroz em batalha. Mas não se pode ter tudo, não é mesmo? Uff, bem… eu não sei se você se lembra, mas você saiu de Tróia para fundar o seu reino, sabe? E se você não fizer isso, Roma não poderá exsitir. Você tem noção do quanto isso significa, Enéias?

– Mas… a rainha, e meus homens já estão até procurando casamento, e…

– Seus homens são leais a você, como todo e qualquer soldado de contos épicos! Não seja idiota, Enéias. Você precisa sair daqui. Ordens superiores.

– Assim… o quão superiores?

– Ou você vai, ou um raio cortará a sua cabeça em duas.

– Ah, tudo bem. Esse superior. É. Ok. Diga a ele que eu partirei amanhã.

Cabisbaixo, Enéias se dirigiu ao palácio. Seria difícil explicar à rainha. Mas eram Ordens Superiores, afinal. Em maiúsculo mesmo. Dido era meio… louca, às vezes, mas era uma pessoa de bom coração. E ele estava feliz lá. Não queria ter que ficar viajando de novo, se perder no mar, ver seus homens morrendo à toa… mas eram ordens superiores. Ordens superiores. Imaginou o que poderia acontecer se resolvesse não obdecer, mas não podia. Ah, como ele queria uma garrafa de vinho agora…

COMO ASSIM?! Como assim você vai partir? Enéias, você… você não pode! Nós… nós vamos nos casar! Você será meu rei! Meu rei! Isso não é suficiente para você?!

– Mas, querida, compreenda… não é bem minha culpa, eu tenho que ir…

– NADA DISSO! Você não tem que ir coisa nenhuma! Você vai porque você já cansou de mim, não é? Homens, homens! Por que, deusa, por que eu perdi minha sanidade justamente com esse crápula?! Você, que chegou às minhas praias cansado e com fome, e eu gentilmente te abriguei! Você, que com esse corpo escultural e essa sua cara de bocó me conquistou! Ah, claro que não! Não bastava você romper com meus votos de castidade, se aproveitar de toda a minha fortuna, e me… me… SAIA JÁ DAQUI, SEU CAFAJESTE DOS INFERNOS! Que seu povo vague sem alma no Inferno, e que você… que você… SAIA DAQUI!

Desconsolado, Enéias saiu. Rumou logo para seus homens, e mandou que se aprontassem. Partiria assim que possível, não esperaria pela manhã. Algo dentro de si dizia isso. Sim, o inverno estava começando, mas ele não tinha escolha. Pensou que louca como estava, a rainha poderia mandar seus homens matá-lo enquanto dormia, ou coisa pior: desprovi-lo de certas… marcas de nascença. Não queria que ela ficasse assim, não estava gostando nada daquele desfecho, mas nada podia fazer. Não tinha escolha.

E seus homens trabalhavam, enquanto a rainha andava de um lado para outro no seu quarto. Na cama, jazia a espada de aço troiano, dada como presente pelo filho de Vênus. Desgrenhada e com olhos como brasa, Dido mandou que acendessem uma grande pira funerária. Iria queimar todas as lembranças desse canalha. Como pôde entregar-se desse jeito? Deixou de casar com reis locais, ganhar mais influência e dominar o resto da África, e talvez o mundo, só por conta daquele abdômen espartano. Por isso que mulheres não podem ser rainhas! Voláteis que são, acabariam pondo fogo no reino! Se bem que um certo homem viria a fazer isso em Roma…

E conforme Enéias e seus homens partiam mar tempestuoso adentro, Dido, do alto da pira funerária, observava-os. Jogou as sedas, o colchão, a camisola que havia comprado para a noite de aniversário. Seus olhos ardiam, e os cabelos loiros, desgrenhados, acompanhavam o crepitar do fogo. E naquelas visões que todo moribundo em poemas épicos tem, Dido desembanhou a espada e gritou aos ventos:

– Vai, Enéias. Vá e cego com Édipo cumpre o destino que os deuses te impuseram. Mas não te esqueces, Enéias, que haverá de vir um filho desta terra, que será a ruína de Roma. E eu não só falo da eterna rivalidade que a partir de agora surgirá, mas de um homem, que passeará por entre as tuas terras como um cidadão. Tudo bem, ele vai morrer e perder a guerra, mas não é isso que vem ao caso.

E Dido até tinha pensado em desistir da idéia de se matar, mas quando tentou se virar tropeçou no vestido e não sabendo manejar a espada, acabou se matando.
______________
MITOLOGIA FOR DUMMIES

1. Netuno é o deus dos mares, irmão de Júpiter e o equivalente romano a Posídon. Foi ele quem acalmou a tempestade mandada por Juno no Canto I.
2. Juno é a rancorosa irmã-esposa de Júpiter, ciumenta e possessiva. Por vingança, ela não quer que Enéias chegue à Itália, e é a equivalente romana a Hera.
3. Vênus é a deusa do amor, amante de Marte (Ares) e esposa de Vulcano (Hefesto). Mãe de Enéias, é a equivalente romana a Afrodite.
4. Júpiter é o deus dos deuses, manda-chuva do Olimpo. Equivale a Zeus.
5. Minerva é a filha de Júpiter, representando a sabedoria, conhecimento e a guerra justa. Equivalente a Palas Atena.
6. Mercúrio é um deus mensageiro, mas também ligado ao comércio e subterfúgio. Equivale a Hermes na mitologia grega.

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Uma resposta to “Eneida – Livro IV”

  1. Fernanda Eggers junho 1, 2008 às 3:49 pm #

    Já tinha lido isso no Membrana, mas reli pra manter a memória fresca. Só tem um detalhe: você tá colocnado “equivale ao romano” quando provavelmente quer dizer “equivale ao grego”. =x
    Desculpe a correção, mas se até deuses e semi-deuses se atrapalham, reles humanos também têm o direito. E se eu tiver me atrapalhado, pode tirar onda da minha cara, eu deixo! xD
    =*

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