Eneida – Livro V

1 out

Ao longe, os marinheiros vislumbravam a grande fogueira que queimava no pátio. A maioria deles, no entanto, tinha coisas mais importantes a fazer, como se preocupar com o jantar, as cuecas sujas e limpar o convés. Outros se preocupavam com coisas mais inúteis, como por exemplo saber para onde estavam indo. Enéias, por sua vez, como um bom capitão de navio, dormia tranqüilamente na sua cabine.

Juno, ainda ressentida pela morte idiota de sua protegida, trama o destuino de Enéias. Na verdade o que ela faz é dar grandes nós na linha do Destino de Enéias, deixando a vida do herói mais emabaraçada que cabelo de mulher quando acorda. E tecendo, com as agulhas e linhas, a deusa teceu uma bela tempestade.

Tempestade é um eufemismo. O Dilúvio de Noé foi fichinha perto daquela tempestade. E os navios, se pudessem falar, falariam de lugares nunca antes vistos, de grandes guerras, e outras coisas. O navio de Enéias, se pudesse falar, naquele momento diria: “Putaquepariu, tempestade DE NOVO?!”

E sem rumo sobre a água, Enéias aportou en terras conhecidas. Por mais que não lembrasse o nome do reio, sabia que ele era um bom homem, e pediu hospedagem. A lei da hospedagem é muito simpes: você entra na casa de alguém, come do bom e do melhor, é presenteado e tem servas a seu dispor. A única coisa que você não pode fazer é roubar a esposa do anfitrião. Foi aí que Páris errou. E isso acarretou na guerra de Tróia, e toda aquela conversa que nós já sabemos.

E os dias no reino do qual não se lembrava o nome – mas é Drépano, caro leitor – seriam tranquilos para Enéias: rezar pela alma do pai, celebrar jogos em seu nome, e ir embora, rumo à terra prometida. Simples, não?

Seria simples, se não estivéssemos em uma epopéia. Enéias celebra seus ritos, promove seus jogos, e enquanto isso as mulheres da sua tripulação fofocavam:

– Ah, mas você viu os vestidos que a rainha usava? Um luxo! Ah, todos aqueles detalhes bordados…
– E as sandálias de salto alto? LIN-DAS! Só aquele cabelo dela que era meio cafona…
– UM HORROR! E aquele cinto…?

Juno era mulher também, obviamente, e pior: era deusa. Sabia divinamente como infernizar a vida de alguém. Mas não podia fazer isso diretamente, afinal, era a esposa do patrão. Mandou então Íris. Sua missão? Fazer com que as mulheres queimassem os navios.

O que Íris fez exatamente não se sabe. Dizem que ela jogou entre as mulheres alguns metros de seda chinesa, e de tanto se estapearem, as mulheres se pisotearam até a morte. As sobreviventes ficaram ensandecidas diante da visão e queimaram os navios. Outros contam que ela teria jogado um boneco inflável do Brad Pitt ou do Eric Bana, e o calor que se seguiu foi tamanho que ateou fogo nos navios. Alguns mitógrafos, no entanto, se perguntam porque a própria Íris não queimou os navios, usando querosene e fósforos. Acho que ela não achou que seria épico o bastante.

O fato é que os navios pegaram fogo, mas alguns foram salvos. Nenhuma das mulheres sobreviventes conseguiu explicar o que realmente tinha acontecido, e o herói toma uma árdua decisão: as mulheres ficariam em Drépano. Elas já não cozinhavam tão bem, nem cuidavam dos outros afazeres femininos como deviam. Além do mais, andar com loucas incendiárias por aí não seria saudável.

As mulheres se casaram com nativos, tiveram filhos, constituíram família e tudo o mais. Mas de vez em quando se reuníam às escondidas e iam incendiar algumas coisas. Só para matar o tempo.

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