Peripécias Divinas – I

5 out

– Isso lá são horas de chegar, Zeus?!

Se não fosse trágica, a cena seria cômica. Ou vice-versa. Zeus, senhor dos trovões, andava na ponta dos pés em direção à cama, enquanto a ciumenta Hera estava sentada no leito de pele curtida de carneiro, os cabelos presos numa toca, e uma massa verde cobrindo a pele do rosto. E você que pensava que era fácil manter a macia pele imortal das deusas?

– Querida, a assembléia durou mais do que eu achava que…
– E esse cheiro de vinho?! E essas manchas de batom na sua túnica?! Acha que consegue me enrolar, não é? Pois bem, nesse quarto você não dorme hoje!
– Hera, não é nada disso do que…
– Saia já daqui! Bem que meu pai disse, eu não deveria ter me casado com você! Com tantos deuses por aí, eu precisava ter me casado com o mais mulherengo deles!

Suspirou, vencido. “Ela deve estar de TPM”, pensou, enquanto andava por seu divino palácio, já sem sono. Pôs os dedos entre a farta cabeleira grisalha, que as mulheres achavam um charme, e se jogou no sofá revestido de couro. Nunca seria capaz de entender sua esposa – ela não queria casar? Pois bem, casados estavam! Ele fez a corte, deu todos os presentes, gastou uma fortuna com a melhor mansão do Olimpo… será que além disso ele teria que ser fiel, quando se tem uma imortalidade pela frente a ser vivida? Não se incomodaria que ela tivesse também seus casos à parte, desde que ela não fosse tão ciumenta.

– E o pior é que nem clamar para algum deus eu posso… porque mesmo que eu aceitei ser o líder desse panteão mesmo?
– Poder. Privilégios. Riquezas. Bem, e há também a comodidade de ser o líder de um bando de deuses idiotas.

A voz que soava como vidro quebrado era inconfundível, assim como o cheiro de enxofre. Será que nem mesmo um banho ele poderia tomar, antes de subir alguns degraus da geografia planar? Com seus pés em brasa, Hades adentrava ao palácio, deixando chamuscada a cara tapeçaria que havia sido um presente de casamento.

– E o que você quer dessa vez, hã? Não tenho nenhum dinheiro pra emprestar, o que implica que seus instrumentos de tortura terão que esperar mais um pouco para serem trocados.
– Não se preocupe – meus clientes já se acostumaram com o que tem à disposição. Sabe, eu os convenci de que essas novas tecnologias não são realmente dolorosas.
– Ah, compreendo.
– Na verdade, tudo o que eu quero é fazer-lhe uma proposta. Estou cansado dessa vida de condenar os mortos, de arrumar um trabalho para cada alma que me chega lá – você não imagina como é ter que ouvir os lamentos dos seus heróis por séculos!
– Sabe, aquela história toda de destino, carma. Você tinha que ficar com a parte suja do trabalho.
– Bobagem! E bem… eu também estou com outros problemas…
– Do tipo…?
– Hum, você sabe…

Uma pausa desconcertante, embaraçosa. Mesmo os deuses ficavam sem palavras às vezes. Ainda por cima se tratando de assuntos tão delicados quanto à intimidade sexual de um casal. Com toda a sua experiência no assunto, Zeus pôde entender as entrelinhas do pensamento do seu desgarrado irmão.

– E… sua esposa está reclamando disso, imagino.
– É. E… bem, eu acho na verdade que tudo isso é conseqüência do stress. Nessa guerra que está acontecendo, minha demanda de trabalho anda aumentando muito e…
– Hum, e o que você propõe?
– Uma troca. Isso deixaria minha esposa feliz, e talvez acalmasse um pouco o seu casamento.

No topo de toda a sua sabedoria, Zeus ponderou o fato. Bem, talvez o enxofre ferise um pouco seus pulmões, mas não era nada que um deus não pudesse agüentar. E lembrou-se principalmente de Perséfone, envolta em seus trajes vermelhos e com tantos decotes que cobriam apenas o essencial, que do seu ponto de vista ainda era muito.

– Quando você quer começar mesmo?

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