Peripécias Divinas – II

5 out

Atalanta sentou-se cansada, encostando-se sem delicadeza nenhuma em uma grande árvore, provavelmente centenária. Saciou a sede que queimava-lhe a garganta, e respirou fundo. É, até que o treino de hoje não tinha sido tão ruim. A pobre árvore, por sua vez, limitada por sua imobilidade, se perguntava porque diabos tinha escolhido trabalhar como uma árvore. Essa história de servir de encosto para qualquer um não era nem um pouco agradável. Sem contar com os cachorros, e outros animais que a usavam para coisas indevidas. Estava pensando seriamente em mudar de emprego. Talvez se fosse uma pedra… hum, será que ganharia alguma indenização por mais de cem anos de trabalho?

Preocupada demais em respirar e pensar ao mesmo tempo, Atalanta sequer podia sonhar que a árvore agora realizava cálculos astronômicos (afinal, é de conhecimento público que árvores são excelentes matemáticas). A heroína andrógina perdeu o fôlego por um momento quando ouviu passos se aproximando e tentava advinhar de quem seriam.

– Será que eles não se cansam nunca?
– Atalanta! – bradou um deles – Viemos aqui para que finalmente escolhas teu marido!
– Eu tinha esperança que vocês já tivessem desistido. Que parte do “Eu não quero me casar!” vocês não entenderam? Querem que eu desenhe?
– Hum, talvez o til…

Suspirou, mais desconsolada do que nunca. Será que eles não entendiam que ela não podia casar? Sim, um advinho qualquer havia predito um futuro tão horrível, mas tão horrível, caso ela chegasse a se casar, que seus pais nunca contaram. Além do mais, ela sempre foi meio esquisita mesmo… tinha um rosto masculino demais para ser uma mulher, e feminino demais para ser um homem. Ou seria o contrário? Bem, não importava. Tinha que se livrar daqueles pretendentes. E rápido.

– Tá, tudo bem. Façamos assim então: aquele que me vencer numa corrida, se casará comigo. Os perdedores, porém, serão brutalmente mortos. Quem se habilita?

Quando olhou novamente para os pretendentes, Atalanta percebeu que haviam diminuído bastante em número. Se apiedava de todos eles, mas bem, eles estavam se arriscando porque queriam.

E houve a corrida. E havia mais pessoas assistindo o sacrifício coletivo do que a corrida, o que era plenamente previsível naqueles tempos. Não que os homens não apreciassem os esportes, mas ver pessoas agonizando sem motivo aparente era sem dúvida mais interessante. Essa mórbida curiosidade humana, que nos motiva a andar bem devagar quando passamos de carro perto de um acidente.

– Por que te vanglorias por vencer esses patifes? Ofereço-me para a disputa.

Lentamente, Atalanta levantou os olhos, visualizando seu oponente dos pés à cabeça. Alto, forte, de madeixas loiras que caíam-lhe delicadamente pelos ombros, o rapaz esbanjava mocidade. E o pessoal dos efeitos especiais não esqueceu de dar um toque de brilho, a câmera lenta com os cabelos ao vento, e uma trilha sonora adequada. Um grande sentimento de pena cortou o coração da garota, preferindo que ele desistisse do seu desafio. Logo a multidão começou a agitar, e ela foi obrigada a aceitar.

O que ninguém sabia era que Hipômenes guardava truques em sua túnica. Três deles, na verdade. Três maçãs de ouro. E a corrida começou. Em pontos estratégicos, Hipômenes jogou as maçãs, distraindo Atalanta (embora todos acreditem que se ele tivesse jogado qualquer coisa, mesmo uma pedra, a tática teria funcionado do mesmo jeito). Na última delas, orou para Afrodite, que se apiedou do jovem e o fez vencer a corrida.

E durante a lua de mel Atalanta se perguntava porque não tinha casado antes. Tinha adorado conhecer as peripécias do sexo.

Afrodite, contudo, ficou ofendida, por não ter nem ao menos um sacrificiozinho de nada em troca. Nem um mísero carneiro! Foi chorar aos pés de Réia, mãe de Zeus, e esta, só para não ter que aturar Afrodite miando no pé no seu ouvido, transformou os dois num casal de leões (um leão e uma leoa, caso isso não tenha sido entendido). A pobre árvore, sem entender mais nada daquela história toda, continuou pobre, uma vez que o sindicato das árvores foi fechado por falta de mobilidade dos seus participantes.

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Uma resposta to “Peripécias Divinas – II”

  1. Italo outubro 12, 2007 às 4:37 pm #

    Dessa eu lembro. =]

    A parte dos efeitos especiais e da trilha sonora ficou ótima.

    =***

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