Archive | novembro, 2007

E em algum lugar longe de casa…

12 nov

Respirou fundo o ar noturno daquela floresta que tanto a oprimia, enquanto ajustava a última seta da noite. Olhou para os que dormiam um merecido sono enquanto pensava: Lyon, aquele que os libertou das masmorras de Lorde Drakkan; Aillah, a druidisa bérnia que se revelou como alguém completamente diferente do que Keriann poderia imaginar; Fox, o pequeno halfling que tanto a ajudara; Adrian, felden que acabaram por libertar, meio sem querer, das garras de uma bruxa do pântano; e o elfo arcano cujo nome não conseguia lembrar.

Seu ombro esquedo doía – o encontro com aqueles ogros rendera alguns bons hematomas – e naquela altura da noite ainda não conseguia distinguir o que era o certo e o errado. Procuravam Willow, a menina-fada chave para tudo o que estava acontecendo no reino de Bielefeld, e todas as pistas os levaram para aquela floresta odiosa. Orava para que o raiar do sol clareasse as suas idéias.

Suspirando mais uma vez, a jovem caçadora relembrou dos momentos que havia compartilhado com aquelas pessoas: a fuga desesperada da fortaleza, o encontro com Tyrion, as estadias calorosas nas tavernas do reino, a profecia proferida por sua avó em sua breve estadia em Eastwind… Sim, muita coisa acontecera. E não tinha chegado tão longe em vão.

O elfo e Adrian também buscavam por Willow, mas em nome de um lorde qualquer do reino. Não conhecia os nomes – era só a filha do caçador de um vilarejo, nunca aprendeu sequer a ler, quanto mais os nomes de cada conde de um reino tão grande – mas temia que fossem manipulados de Drakkan. Queria pensar que A Dama traçara o destino daqueles homens para encontrá-los ali, e que eles os ajudassem em sua tarefa, mas desconhecia as verdadeiras intenções daqueles desconhecidos. No entanto, deixá-los à própria sorte em uma floresta tão terrível era covardia. Cortar suas gargantas enquanto dormem também não lhe parecia certo. Não era o que o seu pai faria.

– Onde ele estará, afinal? Ele saberia o que fazer se estivesse aqui comigo…
– E quem disse que eu não posso estar?

O coração disparado, olhou na direção da voz. Um homem de altura mediana, cabelos na altura dos ombros e emaranhados saía das folhagens. Portava um arco longo, madeira escura, que Keriann conhecia tão bem. Um sorriso cansado ornamentava o rosto conforme se aproximava, andando com uma naturalidade quase sobrenatural da floresta.

– Você deu bastante trabalho, mocinha. Demorei para encontrá-la.
– …Pai?
– E quem mais poderia ser, Key?

Abraçou-o forte, como se tentando provar que não era mais uma ilusão das várias fadas que vagavam na floresta. Sentiu-se novamente como uma criança ao sentir os braços fortes e acalentadores, hesitando até em soltá-lo. Mil perguntas vinham à mente, mas podiam esperar.

– Como… você…?
– Shh, apenas descanse agora. Você está segura, e é isso que importa.
– Hmn, mas…
– Está tudo bem, querida. Só descanse…

E como se tomada por algum tipo de encantamento, Keriann sentiu seus olhos pesarem, e o cansaço do dia impeliu-a a dormir. Esboçou ainda um sorriso tranquilo, trazendo a mão caleijada de seu pai junto ao rosto, conforme se deixava guiar para o saco de dormir. Balbuciou ainda alguma coisa e se deixou levar, apenas para acordar ao raiar do sol, cuja luz adentrava pela folhagem espessa das árvores. Seu pai não estava lá. Mas ela já sabia que rumo tomar.

A hard way away from home

12 nov

O vento noturno fazia farfalhar as folhas do bosque próximo. De olhos fechados, podia ouvir os outros barulhos da noite: corujas piando e o adejar das suas asas, sapos coaxando, o uivo distante de um lobo… se se concentrasse muito, tinha a impressão de ouvir as passadas leves dos gatos no telhado de madeira da sua casa, ou o barulho de água corrente do rio que passava perto da cidade.

Mantendo os olhos fechados, Keriann passou a mão pela grama, fria por conta da temperatura da noite, e molhada pela chuva recente do final da tarde. Gostava do barulho que fazia, mas gostava mais ainda da sensação de ter a mão molhada pela água que se guardava nas folhas maiores. A velha Nan, que já era velha desde quando Keriann não passava de uma criança de colo, contava histórias sobre a chuva. Às vezes eram lágrimas da Dama, às vezes eram sementes que fecundavam a terra para fazê-la florescer, ou às vezes era só a chuva que castigava os heróis nas suas viagens. Para Keriann, era só a chuva. Para ela, era o que precisava saber.

Gostava do chão molhado também porque ficava mais fácil ouvir os passos das pessoas que se aproximavam. Logo, quando ouviu a voz do seu pai não foi realmente uma surpresa.

– Não acha que já está na hora de ir pra cama?
– Não, está cedo. O céu está tão limpo, pai. Até parece verão!

Ela não precisava de muito para convencê-lo. O homem apenas sorriu, sabendo que a discussão não iria longe, e desistiu. Sentou do lado da filha e passou-lhe a mão nos cabelos emaranhados.

– Mude a roupa antes de dormir, senão vai ficar resfriada. Vai à caçada amanhã?
– Eu posso?

A jovem olhou-o com os olhos azuis, quase tão escuros como a noite. Poucos reparavam, mas pequenas listras douradas brilhavam por toda a íris. Tinha as maçãs do rosto bem definidas, e os traços do rosto bem angulosos: sobrancelhas finas, os lábios também, e o cabelo curto, sempre com aparência despenteada faziam-na parecer ainda mais com um menino.

– Pode, pode sim. – respirou fundo, tirando uma folha que se enganchara no cabelo ondulado, e continuou: – Key, nós precisamos conversar.
– Pode falar, pai. Estou ouvindo. Aquela não é a constelação do centauro?
– Eu e a sua mãe estávamos conversando, e… nós achamos que já está na hora de você casar.
– Não, acho que não é a do centauro… como é? Casar?
– Filha, você já passa dos quinze anos… sua mãe acha que se demorar mais as pessoas vão acabar falando… além do mais, ela acha que arranjou um bom marido pra você.
– Você não pode estar falando sério, pai! Casar? Mas… agora? E… quem vai ajudar você? Quem-
– Keriann, você já é uma adulta. Sabe que não pode ficar a vida toda se embrenhando no mato e… e isso é o melhor, filha. Casar, ter filhos… E o Fawkes é um bom rapaz. Humilde, simples, é um dos caçadores da vila. Você já o conhece.
– Aquele idiota?! Aquele idiota que vai se embebedar na taverna…
– Keriann…
– …me fazer ficar o dia inteiro em casa…
– Keriann…
– … e me bater quando achar que deve…
– Keriann! Já chega!
– Já chega nada! – gritou a jovem de volta. – Você vem com essa idéia estúpida de me casar com qualquer um e quer que eu fique contente?
– Idéia estúpida? Você não vê que tudo o que eu quero é o melhor pra você, minha filha? Você acha que eu não temo por sua segurança, toda vez que se embrenha por aí? Acha que não sei o que os outros comentam a seu respeito? Acha que não prezo por você?
– Sim, idéia estúpida! Já pensou que eu não me importo com o que os outros dizem a meu respeito? Eu estou me lixando pro veneno que essas cobras disfarçadas soltam!
– Baixe esse tom de voz comigo, menina, e já pra dentro de casa. Agora!

Sem mesmo que percebesse, lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Raiva, tristeza, impotência… ah, mas aquilo não ficaria assim. Não se casaria com um qualquer. Não com qualquer. Não que não quisesse casar, ter filhos e todas essas coisas de vida de casada. Mas não queria que fosse assim.

– Não.
– Como é que é?
– Não, eu não vou. Eu não vou pra dentro de casa, nem vou me casar com aquele imbecil burro feito uma porta, nem mais nada! Eu não sou obrigada a obedecer você!

Os olhos arregalados de surpresa, Keriann sentiu o tapa queimar-lhe o rosto molhado pela chuva e pelas lágrimas. Foi tão rápido que sequer teve tempo de reagir – seu pai era um homem forte e hábil, e isso não era novidade para ninguém. Mas ele nunca levantara a mão para a filha, ou tampouco chegara a esse extremo. A pele do rosto queimava, e devia estar vermelha, mas Keriann não se importava com isso no momento.

– Você vai entrar naquela casa agora e vai parar com essa discussão sem sentido!

De modo automático, a jovem seguiu para a pequena casa. Balbuciou um “Summer, aqui”, e o seu cachorro, que se afastara da discussão, seguiu-a fielmente, o focinho baixo, parecendo triste. Sua avó, a velha Nan, estava sentada na frente da casa, olhando a chuva. Ignorando-a, Keriann seguiu para dentro da casa. Sem vontade de conversar com ninguém, a garota entrou no quarto e afundou na cama simples.

Só então se deixou chorar realmente. O rosto queimava e doía, mas talvez o orgulho tivesse sido o mais machucado com tudo aquilo. Crescera livre como um passarinho, correndo pelas planícies, subindo em árvores e nadando no rio. E um animal selvagem, quando engaiolado, ficava arisco, rebelde. Assim ela se sentia.

Não se importava de casar, só não achava que era o momento. Nem a pessoa certa. A Dama haveria de dizer quando e com quem seria, pensava. Era assim na natureza, por que não poderia ser assim com os homens? Ela não havia criado tudo, afinal? Por mais que pudessem pensar, homens também erravam, e mais do que gostariam. A natureza não – tudo acontecia seguindo um ciclo, no momento ideal.

Não se importaria de casar com Anthon, filho do condestável da cidade. Era um bom rapaz, educado e inteligente. Não era um caçador – sonhava em sagrar-se cavaleiro. Para ele, Eastwind era pequena demais pros sonhos que carregava. E por isso partira há alguns meses, para Portfeld. Seria escudeiro, e depois, cavaleiro. Talvez gostasse dele, e nunca quis admitir. De qualquer modo, não achava que caso confessasse, ele teria ficado. Era sonhador, e não precisaria se casar com ninguém aos 15 anos.

Imersa em pensamentos, Keriann dormiu. E os dias se passaram, caçadas foram feitas, chuvas foram e vieram. Trocava poucas palavras com a família, preferindo passar mais tempo fora de casa com Summer, cachorro que a ajudava nas caçadas ou que simplesmente fazia companhia. Desejava que ele pudesse falar, às vezes.

Às vezes ia até o rio, tendo vontade de descer a sul acompanhando-o. A corrente desembocaria no mar, e antes disso Keriann chegaria a Camelerd. Mas então lembrava da sua família e de como eles ficariam, e então desistia. Além do mais, ela sabia que seu pai não queria que ela casasse. Sentia isso quando o surpreendia olhando-a, e nos suspiros que dava quando tentava falar-lhe alguma coisa. Daria uma chance a ele.

A data do casamento se aproximava, e tudo continuava na mesma. Em uma noite clara, na qual a lua brilhava no seu maior esplendor no céu, Keriann separou suas roupas, o arco de madeira pintado de verde que fizera com seu pai anos antes, e saiu pela janela. Summer a acompanhava, os dois como sombras na noite, e se afastaram de Eastwind. Sentiria falta dali.

Prova de Honra

8 nov

O crepúsculo inundava as planícies de Tethyr, banhando as terras em uma luz alaranjada. As folhas caídas ao chão, cuja cor se confundia com a luz do sol, indicavam a presença do outono, e lembrava a todos a proximidade do inverno.

O bater dos cascos anunciava a chegada de alguém. Um trote rápido, mas nem por isso violento: quem vinha conhecia a terra, sabendo exatamente onde pisar e por onde andar. E não poderia ser diferente: Ariene Crownshield pode não ter nascido na aquele lugar, mas cresceu ali e aprendeu a amá-lo.

Seus cabelos loiros brincavam com o vento, e o escudo brilhava em suas costas ao sabor da luz. Trazia consigo alguns ferimentos, mas nada sério: escaramuças com bandidos que perturbavam suas terras só podem resultar em coisas assim. E quase podia ouvir as palavras do seu pai agora: “Tome cuidado em situações como essa. Eles não têm nada a perder, diferente de você”.

Um nobre, no entanto, deve governar acima dos seus desejos. E é para isso que ela se preparava: ser uma boa líder, ser lembrada pelos seus. E para tanto, conhecer seu povo e ser conhecida por ele era essencial. Saber dos seus problemas, e de como resolvê-los. Cheia de sonhos, se juntara à ordem do Cálice Prateado de Siamorphe. E cheia de sonhos, está prestes a ser sagrada cavaleira da ordem. Mas sabia o que precisava fazer antes.

Os portões se abriram, e cumprimentando os servos do solar, Arienne entrou. Tinha consciência de que havia coisas importantes ainda a fazer, mas no momento tudo o que desejava era um bom banho. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo rápido, para que ficasse mais apresentável ao lorde.

– Ariene, que bom que chegou. Seu pai gostaria de vê-la.
– Seus cumprimentos, lady Adanna. Meu pai já me espera?
– Não de fato, mas foi uma feliz coincidência. Ele está no escritório.

Lady Adanna seria sua madrasta se seu pai tivesse se casado anos antes. Casaram-se recentemente, depois que uma praga misteriosa assolou as terras dos Runestone, e o lorde simplesmente desapareceu. Sozinha, com o filho herdeiro tendo ido estudar nas terras de Halruaa, foi bem amparada por seu pai, que a pediu em casamento pouco depois. Arienne não questionou as ações do pai, e entendia seus motivos. Além de estar sozinho por anos, o casamento renderia um bom acréscimo em suas terras.

– Irei ter com ele. Com sua licença.

Se dirigiu para o escritório apenas para encontrá-lo conversando com um outro homem. Olhou com mais cuidado enquanto tentava lembrar-se de onde conhecia aquele rosto: cabelos curtos, uma barba rala, rosto anguloso…

– Ah, Arienne, que bom que está aqui.
– Interrompo algo, meu senhor? Vim vê-lo porque lady Adanna…
– Não se preocupe, minha filha. É bom porque tratamos logo do assunto. Este é lorde Crawford, das terras ao norte. Talvez se lembre dele, de quando eram crianças.
– Oh, claro. Como vai, milorde? Bem, devo pedir desculpas pelos meus trajes, mas estive em escaramuças com alguns bandoleiros que estavam assolando nossas terras. Espero que não se importem, senhores.

Não lembrava de fato, mas havia aprendido pequenas mentiras diplomáticas. E pelo tom da conversa, já imaginava o que viria depois.

– Belas damas sempre estão perdoadas, milady. Não precisa se preocupar com isso. E foi bem sucedida em sua empreitada?
– Parcialmente. Alguns fugiram, mas o barão já foi avisado. Não deverá tardar para que eles sejam presos também.

E uma conversa sem muito significado se seguiu por pouco mais de uma hora, quando querendo chegar aos finalmentes, seu pai falara:

– O fato, minha filha, é que lorde Crawford veio pedir a minha permissão para fazer-lhe a corte.
– Compreendo. – já desconfiava daquilo, apenas não quis externar suas suspeitas e ser indelicada. Respirou fundo, contemplativa, e continuou – Bem, senhores, estou certa de que os arranjos podem ser feitos entre vocês dois…

Arienne se sentiu bem ao ver o leve sorriso no rosto do pai. Que ele queria casá-la já não era novidade, mas ele compreendia suas motivações. Ela tinha uma tarefa maior a cumprir, antes de pensar em qualquer coisa. E esperava que ele compreendesse a sua escolha.

– … desde que compreendam uma simples exigência: eu só posso respeitar um homem como meu marido depois que ele se prove digno de tal. Eu me casarei com o lorde Crawford, caso ele me vença em um combate singular.

Lorde Crownshield permaneceu impassível, embora a jovem tivesse a impressão de perceber um leve sorriso aparecer em seus lábios. Desviou o olhar e viu a expressão de espanto e desconcerto do visitante, e aquilo a deixou mais tranquila. Ele havia hesitado.

– Minha dama, há de convir que…
– Trate isso como uma prova de merecimento, lorde Crawford, não como um teste de perícia em combate. – interrompeu Lorde Crownshield, direto e incinsivo. – Se for merecedor de casar-se com a minha filha, os deuses estarão ao seu lado. Do contrário, estou certo de que há várias outras donzelas em busca de um pretendente.
– Eu… pensarei na proposta. De qualquer modo, o embate não poderia ser realizado hoje, tenho que contatar meu escudeiro e estar provido de meus equipamentos. Com vossa licença…

Ao ouvir a porta se fechar, não conseguiu evitar um suspiro alto: alívio. Não foi daquela vez. Sabia, também, que não deveria tardar. Mas preferia não pensar nisso agora – nos próximos dias,  seria cavaleira reconhecida da Ordem do Cálice. O casamento podia esperar.