Prova de Honra

8 nov

O crepúsculo inundava as planícies de Tethyr, banhando as terras em uma luz alaranjada. As folhas caídas ao chão, cuja cor se confundia com a luz do sol, indicavam a presença do outono, e lembrava a todos a proximidade do inverno.

O bater dos cascos anunciava a chegada de alguém. Um trote rápido, mas nem por isso violento: quem vinha conhecia a terra, sabendo exatamente onde pisar e por onde andar. E não poderia ser diferente: Ariene Crownshield pode não ter nascido na aquele lugar, mas cresceu ali e aprendeu a amá-lo.

Seus cabelos loiros brincavam com o vento, e o escudo brilhava em suas costas ao sabor da luz. Trazia consigo alguns ferimentos, mas nada sério: escaramuças com bandidos que perturbavam suas terras só podem resultar em coisas assim. E quase podia ouvir as palavras do seu pai agora: “Tome cuidado em situações como essa. Eles não têm nada a perder, diferente de você”.

Um nobre, no entanto, deve governar acima dos seus desejos. E é para isso que ela se preparava: ser uma boa líder, ser lembrada pelos seus. E para tanto, conhecer seu povo e ser conhecida por ele era essencial. Saber dos seus problemas, e de como resolvê-los. Cheia de sonhos, se juntara à ordem do Cálice Prateado de Siamorphe. E cheia de sonhos, está prestes a ser sagrada cavaleira da ordem. Mas sabia o que precisava fazer antes.

Os portões se abriram, e cumprimentando os servos do solar, Arienne entrou. Tinha consciência de que havia coisas importantes ainda a fazer, mas no momento tudo o que desejava era um bom banho. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo rápido, para que ficasse mais apresentável ao lorde.

– Ariene, que bom que chegou. Seu pai gostaria de vê-la.
– Seus cumprimentos, lady Adanna. Meu pai já me espera?
– Não de fato, mas foi uma feliz coincidência. Ele está no escritório.

Lady Adanna seria sua madrasta se seu pai tivesse se casado anos antes. Casaram-se recentemente, depois que uma praga misteriosa assolou as terras dos Runestone, e o lorde simplesmente desapareceu. Sozinha, com o filho herdeiro tendo ido estudar nas terras de Halruaa, foi bem amparada por seu pai, que a pediu em casamento pouco depois. Arienne não questionou as ações do pai, e entendia seus motivos. Além de estar sozinho por anos, o casamento renderia um bom acréscimo em suas terras.

– Irei ter com ele. Com sua licença.

Se dirigiu para o escritório apenas para encontrá-lo conversando com um outro homem. Olhou com mais cuidado enquanto tentava lembrar-se de onde conhecia aquele rosto: cabelos curtos, uma barba rala, rosto anguloso…

– Ah, Arienne, que bom que está aqui.
– Interrompo algo, meu senhor? Vim vê-lo porque lady Adanna…
– Não se preocupe, minha filha. É bom porque tratamos logo do assunto. Este é lorde Crawford, das terras ao norte. Talvez se lembre dele, de quando eram crianças.
– Oh, claro. Como vai, milorde? Bem, devo pedir desculpas pelos meus trajes, mas estive em escaramuças com alguns bandoleiros que estavam assolando nossas terras. Espero que não se importem, senhores.

Não lembrava de fato, mas havia aprendido pequenas mentiras diplomáticas. E pelo tom da conversa, já imaginava o que viria depois.

– Belas damas sempre estão perdoadas, milady. Não precisa se preocupar com isso. E foi bem sucedida em sua empreitada?
– Parcialmente. Alguns fugiram, mas o barão já foi avisado. Não deverá tardar para que eles sejam presos também.

E uma conversa sem muito significado se seguiu por pouco mais de uma hora, quando querendo chegar aos finalmentes, seu pai falara:

– O fato, minha filha, é que lorde Crawford veio pedir a minha permissão para fazer-lhe a corte.
– Compreendo. – já desconfiava daquilo, apenas não quis externar suas suspeitas e ser indelicada. Respirou fundo, contemplativa, e continuou – Bem, senhores, estou certa de que os arranjos podem ser feitos entre vocês dois…

Arienne se sentiu bem ao ver o leve sorriso no rosto do pai. Que ele queria casá-la já não era novidade, mas ele compreendia suas motivações. Ela tinha uma tarefa maior a cumprir, antes de pensar em qualquer coisa. E esperava que ele compreendesse a sua escolha.

– … desde que compreendam uma simples exigência: eu só posso respeitar um homem como meu marido depois que ele se prove digno de tal. Eu me casarei com o lorde Crawford, caso ele me vença em um combate singular.

Lorde Crownshield permaneceu impassível, embora a jovem tivesse a impressão de perceber um leve sorriso aparecer em seus lábios. Desviou o olhar e viu a expressão de espanto e desconcerto do visitante, e aquilo a deixou mais tranquila. Ele havia hesitado.

– Minha dama, há de convir que…
– Trate isso como uma prova de merecimento, lorde Crawford, não como um teste de perícia em combate. – interrompeu Lorde Crownshield, direto e incinsivo. – Se for merecedor de casar-se com a minha filha, os deuses estarão ao seu lado. Do contrário, estou certo de que há várias outras donzelas em busca de um pretendente.
– Eu… pensarei na proposta. De qualquer modo, o embate não poderia ser realizado hoje, tenho que contatar meu escudeiro e estar provido de meus equipamentos. Com vossa licença…

Ao ouvir a porta se fechar, não conseguiu evitar um suspiro alto: alívio. Não foi daquela vez. Sabia, também, que não deveria tardar. Mas preferia não pensar nisso agora – nos próximos dias,  seria cavaleira reconhecida da Ordem do Cálice. O casamento podia esperar.

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2 Respostas to “Prova de Honra”

  1. Augusto, Arcanjo novembro 8, 2007 às 2:05 pm #

    Muuuiito bom mesmo! Como ja lhe disse a tempos atras sou seu fa como escritora e como desenhista! então nao tem como nao gostar dos seus textos!
    Gostei muito dos nomes! E os dialogos ficaram muuuito bons!As falasarcaicas ficaram perfeitas!!!

  2. Italo novembro 8, 2007 às 2:20 pm #

    Ficou excelente, menina! Espero que o narrador das próximas histórias de Ariene tenha capacidade de criar algo nesse nível.

    Parabens, menina.

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