A hard way away from home

12 nov

O vento noturno fazia farfalhar as folhas do bosque próximo. De olhos fechados, podia ouvir os outros barulhos da noite: corujas piando e o adejar das suas asas, sapos coaxando, o uivo distante de um lobo… se se concentrasse muito, tinha a impressão de ouvir as passadas leves dos gatos no telhado de madeira da sua casa, ou o barulho de água corrente do rio que passava perto da cidade.

Mantendo os olhos fechados, Keriann passou a mão pela grama, fria por conta da temperatura da noite, e molhada pela chuva recente do final da tarde. Gostava do barulho que fazia, mas gostava mais ainda da sensação de ter a mão molhada pela água que se guardava nas folhas maiores. A velha Nan, que já era velha desde quando Keriann não passava de uma criança de colo, contava histórias sobre a chuva. Às vezes eram lágrimas da Dama, às vezes eram sementes que fecundavam a terra para fazê-la florescer, ou às vezes era só a chuva que castigava os heróis nas suas viagens. Para Keriann, era só a chuva. Para ela, era o que precisava saber.

Gostava do chão molhado também porque ficava mais fácil ouvir os passos das pessoas que se aproximavam. Logo, quando ouviu a voz do seu pai não foi realmente uma surpresa.

– Não acha que já está na hora de ir pra cama?
– Não, está cedo. O céu está tão limpo, pai. Até parece verão!

Ela não precisava de muito para convencê-lo. O homem apenas sorriu, sabendo que a discussão não iria longe, e desistiu. Sentou do lado da filha e passou-lhe a mão nos cabelos emaranhados.

– Mude a roupa antes de dormir, senão vai ficar resfriada. Vai à caçada amanhã?
– Eu posso?

A jovem olhou-o com os olhos azuis, quase tão escuros como a noite. Poucos reparavam, mas pequenas listras douradas brilhavam por toda a íris. Tinha as maçãs do rosto bem definidas, e os traços do rosto bem angulosos: sobrancelhas finas, os lábios também, e o cabelo curto, sempre com aparência despenteada faziam-na parecer ainda mais com um menino.

– Pode, pode sim. – respirou fundo, tirando uma folha que se enganchara no cabelo ondulado, e continuou: – Key, nós precisamos conversar.
– Pode falar, pai. Estou ouvindo. Aquela não é a constelação do centauro?
– Eu e a sua mãe estávamos conversando, e… nós achamos que já está na hora de você casar.
– Não, acho que não é a do centauro… como é? Casar?
– Filha, você já passa dos quinze anos… sua mãe acha que se demorar mais as pessoas vão acabar falando… além do mais, ela acha que arranjou um bom marido pra você.
– Você não pode estar falando sério, pai! Casar? Mas… agora? E… quem vai ajudar você? Quem-
– Keriann, você já é uma adulta. Sabe que não pode ficar a vida toda se embrenhando no mato e… e isso é o melhor, filha. Casar, ter filhos… E o Fawkes é um bom rapaz. Humilde, simples, é um dos caçadores da vila. Você já o conhece.
– Aquele idiota?! Aquele idiota que vai se embebedar na taverna…
– Keriann…
– …me fazer ficar o dia inteiro em casa…
– Keriann…
– … e me bater quando achar que deve…
– Keriann! Já chega!
– Já chega nada! – gritou a jovem de volta. – Você vem com essa idéia estúpida de me casar com qualquer um e quer que eu fique contente?
– Idéia estúpida? Você não vê que tudo o que eu quero é o melhor pra você, minha filha? Você acha que eu não temo por sua segurança, toda vez que se embrenha por aí? Acha que não sei o que os outros comentam a seu respeito? Acha que não prezo por você?
– Sim, idéia estúpida! Já pensou que eu não me importo com o que os outros dizem a meu respeito? Eu estou me lixando pro veneno que essas cobras disfarçadas soltam!
– Baixe esse tom de voz comigo, menina, e já pra dentro de casa. Agora!

Sem mesmo que percebesse, lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Raiva, tristeza, impotência… ah, mas aquilo não ficaria assim. Não se casaria com um qualquer. Não com qualquer. Não que não quisesse casar, ter filhos e todas essas coisas de vida de casada. Mas não queria que fosse assim.

– Não.
– Como é que é?
– Não, eu não vou. Eu não vou pra dentro de casa, nem vou me casar com aquele imbecil burro feito uma porta, nem mais nada! Eu não sou obrigada a obedecer você!

Os olhos arregalados de surpresa, Keriann sentiu o tapa queimar-lhe o rosto molhado pela chuva e pelas lágrimas. Foi tão rápido que sequer teve tempo de reagir – seu pai era um homem forte e hábil, e isso não era novidade para ninguém. Mas ele nunca levantara a mão para a filha, ou tampouco chegara a esse extremo. A pele do rosto queimava, e devia estar vermelha, mas Keriann não se importava com isso no momento.

– Você vai entrar naquela casa agora e vai parar com essa discussão sem sentido!

De modo automático, a jovem seguiu para a pequena casa. Balbuciou um “Summer, aqui”, e o seu cachorro, que se afastara da discussão, seguiu-a fielmente, o focinho baixo, parecendo triste. Sua avó, a velha Nan, estava sentada na frente da casa, olhando a chuva. Ignorando-a, Keriann seguiu para dentro da casa. Sem vontade de conversar com ninguém, a garota entrou no quarto e afundou na cama simples.

Só então se deixou chorar realmente. O rosto queimava e doía, mas talvez o orgulho tivesse sido o mais machucado com tudo aquilo. Crescera livre como um passarinho, correndo pelas planícies, subindo em árvores e nadando no rio. E um animal selvagem, quando engaiolado, ficava arisco, rebelde. Assim ela se sentia.

Não se importava de casar, só não achava que era o momento. Nem a pessoa certa. A Dama haveria de dizer quando e com quem seria, pensava. Era assim na natureza, por que não poderia ser assim com os homens? Ela não havia criado tudo, afinal? Por mais que pudessem pensar, homens também erravam, e mais do que gostariam. A natureza não – tudo acontecia seguindo um ciclo, no momento ideal.

Não se importaria de casar com Anthon, filho do condestável da cidade. Era um bom rapaz, educado e inteligente. Não era um caçador – sonhava em sagrar-se cavaleiro. Para ele, Eastwind era pequena demais pros sonhos que carregava. E por isso partira há alguns meses, para Portfeld. Seria escudeiro, e depois, cavaleiro. Talvez gostasse dele, e nunca quis admitir. De qualquer modo, não achava que caso confessasse, ele teria ficado. Era sonhador, e não precisaria se casar com ninguém aos 15 anos.

Imersa em pensamentos, Keriann dormiu. E os dias se passaram, caçadas foram feitas, chuvas foram e vieram. Trocava poucas palavras com a família, preferindo passar mais tempo fora de casa com Summer, cachorro que a ajudava nas caçadas ou que simplesmente fazia companhia. Desejava que ele pudesse falar, às vezes.

Às vezes ia até o rio, tendo vontade de descer a sul acompanhando-o. A corrente desembocaria no mar, e antes disso Keriann chegaria a Camelerd. Mas então lembrava da sua família e de como eles ficariam, e então desistia. Além do mais, ela sabia que seu pai não queria que ela casasse. Sentia isso quando o surpreendia olhando-a, e nos suspiros que dava quando tentava falar-lhe alguma coisa. Daria uma chance a ele.

A data do casamento se aproximava, e tudo continuava na mesma. Em uma noite clara, na qual a lua brilhava no seu maior esplendor no céu, Keriann separou suas roupas, o arco de madeira pintado de verde que fizera com seu pai anos antes, e saiu pela janela. Summer a acompanhava, os dois como sombras na noite, e se afastaram de Eastwind. Sentiria falta dali.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: