Arquivo | dezembro, 2007

Retalhos – I

17 dez

As sandálias de couro pisavam levemente a grama ainda molhada pela recente chuva de outono, enquanto os olhos azuis de Keriann vasculhavam o chão, em busca de qualquer sinal. Mal tivera tempo de se trocar, ou sequer de trazer Summer consigo, mas isso não importava muito agora: trazia seu arco longo, um saco de flechas e aquilo deveria bastar.

Afastara-se de Dorgauth e Aenarion, que seguiam pistas em direção ao solar de Beolláin, chefe do vilarejo. E se havia mais de uma pessoa, devem ter ido para lugares diferentes. Para despistar uma possível perseguição? Contava que não fossem inteligentes assim.

Lyon fora envenenado, às vésperas do seu casamento com Aillah, e por mais que as suspeitas fossem óbvias, eles precisavam de provas. Howell, filho de Beolláin, amigo de infância da druidisa, por pouco não matou Lyon em um combate singular. Estranho pensar que ele tentaria envenená-lo – nas histórias que ouvia de sua avó Nan, Keriann sempre associava venenos a bruxas e a mulheres más. Os homens de verdade matavam seus inimigos com suas próprias armas. E até o momento, não tinha motivos para duvidar da honra de Howell.

O desespero, no entanto, fazia as pessoas agirem de modo estranho.

Chacoalhou a cabeça, como se quisesse afastar esses pensamentos. O que ela devia fazer agora era seguir os rastros. Era uma caçadora, aquele era seu ofício. Se prezava tanto assim por seus amigos, se queria evitar que Fox ou Dorgauth fizessem alguma bobagem, que fizesse algo útil. As marcas a levaram até o rio que abastecia a cidade, e pelo qual Maelgrin viajava usando seu barco. Imaginava o que ele teria visto nela para cortejá-la.

– Inferno, detesto quando eles fazem isso. Se ao menos Summer estivesse aqui…

Atravessou a água, orando para que sua presa não tivesse seguido a corrente. E aparentemente, os deuses estavam ao seu lado: não tardou à caçadora reencontrar as marcas do outro lado, nas margens lamacentas. Apoiando-se no arco, subiu o pequeno declive e continou seu caminho. O que viu, no entanto, a fez parar.

Indubitavelmente, os rastros seguiam até a cabana de Maelgrin, que até então acreditava ser seu amante. Refez o caminho para ter certeza, mas não restavam dúvidas. Engoliu em seco, deu as costas para a cabana e resolveu retornar. Havia um terceiro rastro a seguir. Esperava não se surpreender tanto com o que poderia encontrar depois. Enquanto caminhava, imaginava como faria aquele homem confessar se teve alguma coisa a ver com tudo aquilo.

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In the night – Versão em Português

13 dez

Despindo-se lentamente, Aila podia sentir o cheiro do inverno vindouro. Tinha perdido tanto tempo assim? Por outro lado, suas memórias daquele mundo pareciam de fato muito distantes. Seu aniversário, a luta na cidade de Sylvan…

Com as roupas no chão, ela sorriu. Logo faria um ano que estavam viajando juntos pelas terras de Faêrun. Em uma tarde de inverno, ela recebera uma carta do seu irmão Alexander. Uma semana depois, ela partia da cidade de Waterdeep, incerta quanto ao seu destino.

– Tudo isso parece tão distante agora… tão longe… – ela sussurrou, sozinha que estava.

Gentilmente e desnuda, ela se sentou na cama. O vento uivava do lado de fora, mas ela não se importava com o frio – ela até gostava. O frio em sua pele pálida a fazia se sentir humana mais uma vez. Com um gesto fluído, pegou o bandolim e iniciou uma canção que conhecia há muito, mas agora relembrada com muito mais paixão: a paixão de alguém que caíra nas garras de demônios e retornara.

…Old familiar faces
Everyone you meet
Following the ways of the land
Cobblestones and lanterns
Lining every street
Calling me to come home again

Dancing in the moonlight
Singing in the rain
Oh it’s good to be back home again
Laughing in the sunlight
Running down the lane
Oh it’s good to be back home again

When you play with fire
Sometimes you get burned
It happens when you take a chance or two
But time is never wasted
When you’ve lived and learned
And in time it all comes back to you…

Sua voz era baixa e doce, e para Aila, cantar e tocar nunca causara tanta satisfação. Os lençóis da cama, a madeira do bandolim, o vento frio vindo da janela, e o alívio de estar de volta fez com que sua música viesse do seu coração. Como sempre deveria ter sido.

O barulho da porta sendo aberta a fez parar, mas um sorriso ainda mais largo brotou em seu rosto. Vanir, seu amante, uma das pessoas que desceram aos Nove Infernos para trazê-la de volta entrava no lugar, distraído como sempre. Surpreso, ele parou por um breve momento, fechando a porta atrás de si. Gentil e vagarosamente, Aila se levantou, sua pele pálida contrastando com a noite, seus longos cabelos loiros cascateando abaixo dos ombros, e e seus olhos púrpura sobre o recém-chegado.

– Não está sentindo frio, querida? – perguntou Vanir, ainda atordoado.

– E por que você não vem me aquecer?

O beijo foi suave e lento, como se ela tentasse desfrutar cada momento. Quando teria sido a última vez que ela beijara alguém assim, com tanta calma e desejo ao mesmo tempo? Deslizando suas mãos pelos longos cabelos de Vanir, ela o abraçou.
– Senti sua falta. – ela sussurrou, a voz como uma música doce e hipnotizante.

– E eu senti muita saudade.

A noite foi preenchida com amor e palavras doces. Deitada sobre o peito nu de seu amante, Aila podia ouvir as batidas do seu coração, e sentir o cheiro do seu suor. Daquela vez ela teria um sono tranqüilo, observado apelas pelo sol nascente do outono.

PS: A música é Home Again, de Blackmore Nights.

In the night

12 dez

Taking off her clothes calmly, Aila could smell the winter coming. Has she lost so much time? On the other side, her last memories of that world seemed far away on that moment.

The clothes in the floor, she smiled. Soon would be a year since they started traveling together through the lands of Faêrun. In a winter afternoon, she received a letter from her brother Alexander. A week later, she went out from Waterdeep unsure about her own destiny.

– All of it seems so distant now… – she whispered just to herself, alone she was.

Gently and naked, she sat on the bed. The wind howled outside, but she didn’t mind the cold – she even liked it. The cold in her pale skin made her feel human again. With a fluid gesture, she took the mandolin and started a song known since long ago, but sang with much more passion now: the passion of someone who has fallen deeply and has arised.

…Old familiar faces
Everyone you meet
Following the ways of the land
Cobblestones and lanterns
Lining every street
Calling me to come home again

Dancing in the moonlight
Singing in the rain
Oh it’s good to be back home again
Laughing in the sunlight
Running down the lane
Oh it’s good to be back home again

When you play with fire
Sometimes you get burned
It happens when you take a chance or two
But time is never wasted
When you’ve lived and learned
And in time it all comes back to you…

Her voice was low and sweet, and for Aila, singing and playing has never been so much satisfying. The blanket of the bed, the wood of the mandolin, the cold wind coming from the window, and the relief of being back made her music comes from her heart. As it always should have been.

The noise of the door being opened made her stop, but a smile even brighter appeared on her face. Vanir, her lover, one of those people who went down to the Nine Hells to save her soul was entering, distracted as always, and as always sweet. Surprised, he stopped for a short moment, and closed the door behind him. Gently and slowly, she got up and walked, her pale skin against the night outside, her long and fair hair weaving down her shoulders, and her purple eyes upon him.

– Aren’t you felling cold, my dear? – asked Vanir, still astonished.

– And why don’t you come to warm me?

The kiss was soft and slow, as if she tried to taste the moment. When was the last time she kissed someone with all that calm and desire? Sliping her hands through his long hair, she embraced him.

– I’ve missed you. – she whispered, her voice like a slow and hypnotizing music.

– I’ve missed you desesperatly, my love.

The night was filled with love and sweet words. Layed upon his naked chest, Aila could hear his heartbeating, and smell his sweat. That time she would have a calm sleep, watched only by the rising sun of the auttum.

PS.: The music is a piece of Home Again, from Blackmore’s Night.