Retalhos – I

17 dez

As sandálias de couro pisavam levemente a grama ainda molhada pela recente chuva de outono, enquanto os olhos azuis de Keriann vasculhavam o chão, em busca de qualquer sinal. Mal tivera tempo de se trocar, ou sequer de trazer Summer consigo, mas isso não importava muito agora: trazia seu arco longo, um saco de flechas e aquilo deveria bastar.

Afastara-se de Dorgauth e Aenarion, que seguiam pistas em direção ao solar de Beolláin, chefe do vilarejo. E se havia mais de uma pessoa, devem ter ido para lugares diferentes. Para despistar uma possível perseguição? Contava que não fossem inteligentes assim.

Lyon fora envenenado, às vésperas do seu casamento com Aillah, e por mais que as suspeitas fossem óbvias, eles precisavam de provas. Howell, filho de Beolláin, amigo de infância da druidisa, por pouco não matou Lyon em um combate singular. Estranho pensar que ele tentaria envenená-lo – nas histórias que ouvia de sua avó Nan, Keriann sempre associava venenos a bruxas e a mulheres más. Os homens de verdade matavam seus inimigos com suas próprias armas. E até o momento, não tinha motivos para duvidar da honra de Howell.

O desespero, no entanto, fazia as pessoas agirem de modo estranho.

Chacoalhou a cabeça, como se quisesse afastar esses pensamentos. O que ela devia fazer agora era seguir os rastros. Era uma caçadora, aquele era seu ofício. Se prezava tanto assim por seus amigos, se queria evitar que Fox ou Dorgauth fizessem alguma bobagem, que fizesse algo útil. As marcas a levaram até o rio que abastecia a cidade, e pelo qual Maelgrin viajava usando seu barco. Imaginava o que ele teria visto nela para cortejá-la.

– Inferno, detesto quando eles fazem isso. Se ao menos Summer estivesse aqui…

Atravessou a água, orando para que sua presa não tivesse seguido a corrente. E aparentemente, os deuses estavam ao seu lado: não tardou à caçadora reencontrar as marcas do outro lado, nas margens lamacentas. Apoiando-se no arco, subiu o pequeno declive e continou seu caminho. O que viu, no entanto, a fez parar.

Indubitavelmente, os rastros seguiam até a cabana de Maelgrin, que até então acreditava ser seu amante. Refez o caminho para ter certeza, mas não restavam dúvidas. Engoliu em seco, deu as costas para a cabana e resolveu retornar. Havia um terceiro rastro a seguir. Esperava não se surpreender tanto com o que poderia encontrar depois. Enquanto caminhava, imaginava como faria aquele homem confessar se teve alguma coisa a ver com tudo aquilo.

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