Awakening – Parte III

25 mar

Partes anteriores: Parte 1, Parte 2

O barco seguiu, embora seu guia não parecesse fazer nenhum esforço para isso. Olhei para trás mais uma vez, tentando me convencer de que não havia outra escolha. Reverberando na minha mente, as últimas palavras do guia:

Conhecimento. Sobre você. Sobre o que você é. E o que você pode fazer.

Na tentativa vã de distrair meus pensamentos, olhei para a água estagnada pela qual íamos, e entendi muito bem onde estava: rostos de pessoas que passavam, suplicantes, pedindo talvez uma segunda chance ou outras coisas além da compreensão. Seus olhos brilhavam de um jeito opaco, e as expressões eram de dor pura.

– Quem são eles?

– Esquecidos. Pessoas que morreram sem sepulcro. Com o passar dos anos, se tornam matéria deste Reino.

– E que reino é esse? Que lugar é esse?

Por um instante a figura não respondeu. O único barulho que ouvia era o da água passando embaixo do casco do pequeno barco. Já estava prestes a perguntar de novo quando ouvi minha própria voz dizer:

– É seu destino, Nicole.

Uma figura enorme ganhava forma conforme o barco seguia pela correnteza. Um ponto branco em um horizonte negro se destacava e se avantajava, ficando cada vez maior. Meu coração palpitava, porque algo dentro de mim sabia exatamente o que era aquilo, embora Nicole não soubesse de fato. Por instinto, ergui minha mão e senti-la queimar levemente, mas de um modo agradável – a primeira sensação realmente boa desde quando tudo aquilo havia começado.

Puxei o ar para perguntar o que era aquilo, mas logo o barco encostou na margem e eu já não precisava de resposta alguma. A Torre de Ossos.

– Siga, e descubra o que foi acordado.

A voz grave que saiu do manto fez-me voltar a mim. Desci do barco, minhas botas afundando na margem de pedras de carvalho, e um vento trazendo um leve cheiro impossível de identificar, embora fosse estranhamente familiar.

– Como devo voltar? – ainda perguntei, mas meu guia já deixara a margem e seguia sem caminho. Sem ter para onde ir, comecei a caminhar.

Não sei quanto tempo se passou. Dias, meses, anos, não poderia dizer. Minhas pernas não se cansavam. Não sentia frio, fome, sede ou qualquer desconforto. Às vezes, sentia medo. Mas continuei caminhando para a torre, e ela parecia aproximar-se de mim, não o contrário. A cada passo que dava, suas formas iam delineando-se, e eu sabia que minhas respostas estariam ali. Ao mesmo tempo, sentia que não precisava de resposta alguma. E por fim eu cheguei.

Mal podia ver seu topo, e não havia porta de entrada ou qualquer janela. Os ossos se aglomeravam de modo aparentemente incerto, mas era firme, e a torre emanava poder. Eu não precisava de ninguém para me dizer que aquilo era magia, pura e bruta, em seu estado verdadeiro.

Toquei-a, e logo me senti invadida por algo tão poderoso quanto indescritível; basta dizer que era uma força avassaladora, que por pouco não me arremessou a metros de distância. Mas ali permaneci, e o lugar onde eu havia tocado começou a brilhar.

Eu já havia estado ali, milhares de vezes antes, então soube exatamente o que fazer. Escrevi meu nome, e como se esperando um gatilho, mais uma vez aquela força se jogou contra mim. Tentei evitar, mas fui arremessada e caí inconsciente. E quando acordei, estava nesse quarto, onde você me deixou.

Agora eu entendo o que eu posso fazer, Simon. E você pode não acreditar em mim, mas acho que é a primeira vez que tenho medo de morrer.

Por quê? Você já vendeu sua alma antes?

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9 Respostas to “Awakening – Parte III”

  1. brainsstorm março 25, 2008 às 3:11 pm #

    Retomando projetos antigos, finalmente terminei esse conto. Espero que gostem. 😉

  2. Mirtila março 25, 2008 às 4:04 pm #

    Em relação à pergunta final do texto, se qser, eu negocio almas a um preço módico.

  3. Maurício março 25, 2008 às 4:10 pm #

    Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!

    Espero ver mais coisas sobre Nicole por aqui, tava sentindo falta da bixinha (e do resto do grupo também, snif..).

    Essa última frase foi Simon falando pra Nicole?

    Só faltou escrever o nome na torre 🙂

  4. Filósofo de Boteco março 25, 2008 às 8:24 pm #

    Adoro Mago!!!
    Poutz…pena q eu parei de jogar

  5. Italo março 26, 2008 às 1:10 am #

    “Torre de Ossos”? Não parece um lugar para um “programa família”. Gostei da descrição. Do rio e tudo mais. Talvez eu a use como referência para algum… projeto futuro.

    Eu só queria entender mais de Mago pra sacar melhor as coisas… =\

    =***

  6. Filósofo de Boteco março 26, 2008 às 1:59 am #

    sério? da onde vc é?

    aliás, o dominio brainstorm é bem concorrido, eu tb queria…

  7. Filósofo de Boteco março 26, 2008 às 4:52 pm #

    ai q triste…só de passagem aérea já dá uma fortuna né…
    Bem q podia existir o teleporte
    : (

    abra um buraco no espaço com correspondência 3
    para vir pro EIRPG, só espero q não dê dox

  8. Elisa março 26, 2008 às 7:26 pm #

    Gostei muito do conto.

    Negociar almas é uma boa 😛

  9. Fernanda Eggers junho 1, 2008 às 3:16 pm #

    Gostei muuuito!!!
    Há séculos estava esperando a continuação! =D

    E aí? Veremos mais Nicole?

    Bjos!

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