Arquivo | abril, 2008

Haunted – Parte III

28 abr

“Yeah, though I walk through the valley of rape and despair
With head high and eyes alert
I tread on a plane of many
We who are of good nature and intention,
But cannot touch on the dark
Recesses of memory
And pain learned, so come walk
With me, feel the pain,
And release it…”

Sickman – Alice in Chains

– E o que você acha que pode ter causado essa… alucinação?

Don Perazzo era um homem prático, racional, e quando conveniente, extremamente frio. Ver a única pessoa restante da família sangrando em profusão no chão do banheiro poderia ter deixado qualquer um fora de si, mas não o Don. Ela tentara se matar, assim como a mãe. E ele deveria saber o porquê.

– Pode ter sido qualquer coisa. Uma perturbação. Uma lembrança traumática do passado. O uso de alguma…

– Droga? Como heroína? Ou outra dessas coisas?

– Esperamos os resultados dos exames, mas não acredito que ela estivesse drogada, senhor. Talvez levemente embriagada. Agora se me der licença, preciso ir.

Olhou para a filha inerte no leito do hospital, agora parecendo tranqüila. Não conseguia esquecer dos seus gritos e do sangue espalhado pelo banheiro. Escritas no chão, com seu próprio sangue, as palavras: Me ajude. Don Perazzo não sabia o que estava acontecendo, mas iria descobrir. Agora tinha trabalho a fazer.

**********

“Has no one told you she’s not breathing?”

Hello – Evanescence

Olhos verdes piscavam à luz branca do apartamento. Conforme sua visão voltava ao foco, Nicole destinguia uma bolsa de sangue ligada por uma agulha ao seu braço. Ela sabia muito bem de onde vinha aquele sangue. Olhou para o lado, esperando encontrar seu pai, mas ele não estava ali.

– Deve estar resolvendo alguma coisa.

Não gostava de hospitais. Desde aquela tarde na igreja passou a evitá-los. Todos os dias morriam pessoas, e quando isso acontecia por perto, ela podia senti-los. E por mais que quisesse se acostumar, não conseguia. Mas ao menos ela não tinha mais medo da morte. Talvez vê-la tantas vezes, de modos tão diferentes, a tenha deixado fleumática. A cirurgia no braço começava a comichar. A anestesia deveria estar perdendo o efeito, afinal.

– Também não consegue dormir?

Se não estivesse tonta demais, Nicole teria pulado da cama. A voz vinha de uma garota, de longos cabelos cacheados, vestindo uma camisola de hospital não muito diferente da que usava. A menina balançava os pés debilmente na cama ao lado da de Nicole. Olheiras profundas decoravam seu rosto magro, e os lábios descascavam. Não precisava olhar muito para saber que a menina tinha leucemia. E que não tinha muita esperança de melhorar.

– Eu só consigo dormir quando a minha mãe vem me ver. Você também é assim? – a garota continuou, agora mais interessada.

– Mais ou menos. – respondeu Nicole. Substituindo “mãe” por “calmantes” a frase ficaria mais ou menos verdadeira. – Você… está aí faz tempo?

– Vi quando trouxeram você. Havia um homem alto, forte e parecia preocupado. Seu pai, não é?

Nicole não respondeu, nem poderia. O que uma criança poderia estar fazendo fora da ala infantil, ainda por cima naquele estado? Uma olhada mais atenta no apartamento deixava claro que aquele não era um quarto coletivo, portanto ela não deveria estar ali. Tentou se colocar sentada, mas uma tontura repentina fez com que continuasse prostrada na cama. E mais uma vez, não tinha como sair dali.

– Você não devia estar aqui. – com a voz fraca, foi tudo o que conseguia dizer.

– Mas só você é quem pode falar comigo, Nicole. – e já não era a voz da menina, e sim a mesma voz que escutara no banheiro. Masculina, forte e grave.

– Rick… o que quer?

– Saber. O que aconteceu comigo. Por que eu ainda estou aqui. Por que só você consegue me ver. Eu estou morto, não é?

Ela daria uma gargalhada se não estivesse tão tonta. Ele estava fazendo isso também, ou era só o efeito da anestesia? Ou a idéia de estar presa em um filme de terror classe B, com corpos sendo possuídos por fantasmas? Mas sempre se surpreendeu com a capacidade de Richard dizer o óbvio.

Si, fratello. Tu stai morto. E o que você quer de mim?

Vendetta. Daqueles que me mataram. Dos que acabaram com a nossa família.

Os olhos da menina estavam opacos, e ela não respirava. Como ela não percebera antes? Talvez tenha se passado apenas alguns minutos desde seu último suspiro. A mão pequena e gélida tocou desajeitada o lugar do ferimento no pulso, fazendo a gaze se tingir levemente de vermelho.

– Scusa. Não queria.

– Deixe a garota agora. Deve haver alguém preocupado com ela.

Trôpega, a menina saiu do quarto. E ali, sozinha, Nicole pensava a respeito do que faria dali por diante. Vendetta, a palavra ressoava-lhe nos ouvidos, conforme a tontura ia e voltava. Como poderia explicar aquilo ao Don? Talvez não devesse, afinal, todos esses anos ele lutou para que Nicole não se envolvesse. Impossível – ela sempre fora parte da família.

Haunted – Parte II

27 abr

TLEC.

Esse foi o barulho que fez o interruptor quando Nicole entrou no banheiro acendendo a luz. As paredes revestidas de cerâmica branca já estavam meio fofas, mas o cômodo era limpo e organizado. Suspirou, cansada de mais um dia de trabalho, e distraidamente se despiu, largando as roupas de qualquer jeito no chão. Olhou de relance para o pequeno espelho ovalado mas logo desviou o olhar. Detestava aquelas sardas, por mais que quase ninguém as notasse. Faziam-na parecer uma adolescente.

Ligou o chuveiro e deixou que a água banhasse seu corpo desnudo. Nada como um banho quente depois de uma tarde inteira tendo que aturar uma excursão escolar na galeria. “Você finge que explica algo, eles sequer fingem que prestam atenção, e você ainda precisa responder perguntas imbecis. Nem parece que eu fui assim um dia”, pensava, esperando que a água levasse seus aborrecimentos ralo abaixo.

Fechou os olhos para retirar o xampu e percebeu que uma escuridão repentina tomou conta do banheiro. Levou a mão a uma das paredes, buscando apoio, mas a luz voltou. “Ufa, achei que tivesse queimado… de novo”. A oscilação continuou, e logo Nicole percebeu que não era um fenômeno puramente elétrico. Fechou os olhos novamente, e desligou a ducha, temendo algo mais sério.

Um calafrio súbito desceu-lhe pela espinha, e a jovem continuava de olhos fechados. Não queria ver, não de novo…

Igualmente repentino um vento forte invade o cômodo fechado, derrubando vidros de produtos diversos. A oscilação na lâmpada continuava incessante, cada vez mais rápida. Nicole tremia, e não era de frio. Por instinto tapou os ouvidos, mas em sua desorientação escorregou no chão, caindo indefesa. Não resistiria por muito tempo, e logo se ouviu gritando:

– O que você quer?! O que diabos você quer de mim?!

O box abriu-se estrondosamente, certamente rachando o vidro temperado em algumas partes. A jovem encolheu as pernas, abraçando-se. Seu maxilar tremia, e todo o seu corpo parecia suar frio, suor se misturando à água. Mas não conseguia desviar o olhar.

Conforme a lâmpada acendia e apagava, no espelho ovalado Nicole via sendo escrito com o vapor da água quente: Ajude-me. Logo abaixo, rompendo o branco da cerâmica, viu as letras se formando, dessa vez em sangue: AGORA!

E como aqueles pensamentos que nos ocorrem nos momentos mais importunos, veio à sua cabeça: “De onde vem esse sangue?” Seguindo o rastro do líquido vermelho com os olhos, percebeu a origem: do seu lado, um pedaço da embalagem de sabonete líquido estava suja de sangue, enquanto seu pulso esquerdo sangrava abundantemente.

Seu impulso foi gritar, e, irracional que estava, esfregava o ferimento. Trêmula e em pânico, a respiração lhe faltava, e a hemorragia não parava. Via seu sangue escorrer livremente – como podia ter tanto sangue assim? – até que uma fagulha de sensatez a atinou para tentar estancar o ferimento. Puxando uma toalha, tentou improvisar um curativo, quando vozes ecoaram na sua mente:

– Ajuda… eu preciso… de você… tortura… dor… ajuda…

As vozes ganhavam cada vez mais força, mais ímpeto, mais vigor. Pedidos de ajuda, gritos de sofrimento, e em meio a tudo aquilo, a voz lhe era conhecida.

– Minha… irmã… ajuda…

Mas como? As últimas palavras fizeram gelar seu coração. Seu.. irmão…? Mas… por quê…? Como… por que não a procurou antes? Por que tanta tortura…? Seus pensamentos se confundiam e se esvaíam juntamente com o sangue do seu pulso. O corte devia ter sido mais profundo do que julgara, afinal. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu a consciência se esvair conforme a porta do banheiro era aberta violentamente. Nunca ficara tão feliz em ver seu pai.

Haunted – Parte I

20 abr

As botas de cano alto ecoavam pelo grande salão, enquanto os olhos claros se perdiam nas cores renascentistas. Sabia que aquelas não eram as artes originais da construção – a igreja era bem anterior à Renascença, mas passara por tantas reformas que as paredes originais haviam se perdido. Além do mais, não seria muito bom para a Igreja Católica relembrar as barbáries cometidas da Inquisição.

I’m ahead, I’m a man
I’m the first mammal to wear pants, yeah
I’m at peace with my lust
I can kill ‘cause in God I trust, yeah
It’s evolution, baby

Enquanto passeava pela grande construção de pedra sólida, pendurado na cintura um eletrônico levava música aos ouvidos da jovem Nicole. Algo, no entanto, se fez soar mais alto: primeiro um grito agudo, feminino, desesperado, e então o crepitar de chamas. Não foi apenas o barulho que fez a jovem se virar, mas também um forte cheiro de carne queimada, acompanhado de um calor intenso e repentino. Para a cena que desabrochava diante dos seus olhos havia apenas duas palavras: inexplicável e assustador.

Uma fogueira imensa ardia enquanto a fumaça espiralava para o teto da construção, agora invisível pela fumaça. Uma mulher, completamente desnuda, gritava loucamente, atada por cordas a um grande mastro de madeira. Já não se via seus pés ou joelhos, consumidos pelas chamas, e seu rosto já trazia grandes queimaduras, assim como o que restava do seu corpo. A mulher tremia e gritava de um modo inumano, desesperado, e tentava balbuciar algo em meio à tamanha agonia. Quando virou o rosto na direção de Nicole, a jovem percebeu: a mulher tivera a língua cortada.

Nicole fechava os olhos com força, e abanava as mãos diante de si, um gesto desesperado de fazer a visão desaparecer. Aquilo tinha que ser falso, afinal. Se fez gritar, até que notou que os gritos da mulher pararam, e que o calor da fogueira havia cessado. Abriu os olhos, e no mesmo momento se arrependeu de ter feito aquilo.

Viu pessoas, muitas delas. Andavam pelo salão, e pareciam ter percebido a presença da jovem. Todas elas estavam num estado deplorável – traziam várias marcas nos corpos, a maioria indizíveis. Homens, mulheres e crianças até, com marcas profundas no pescoço, as órbitas vazias e os lábios entreabertos, roxos pela falta de oxigênio. Enforcados.

E haviam outros mais – pescoços e braços quebrados, membros amputados, olhos arrancados. Andavam como podiam, ora se arrastando pelo salão, ora tropeçando. Nicole desejava correr, gritar e sair daquele lugar, sair dali e fingir que nada acontecera. Suas pernas, no entanto, não obedeciam. Estava paralisada de medo. Sua respiração faltava e sentia o corpo inteiro tremer – por mais que quisese, não conseguia sair dali. Deixou-se cair sentada no chão, encostada na parede. A inércia pelo medo era tanta que sequer baixar a cabeça conseguia – não era capaz sequer de desviar os olhos de tão horrenda visão.

Coforme se aproximavam, ela podia sentir o cheiro de carne putrefata crescendo, cercando-a, sufocando-a. Logo o ar começou a rarear e já não conseguia respirar. E antes que sentisse o toque gélido daquelas pessoas, desmaiou.

Enquete – Banner do Blog

12 abr

Bem, eu nunca fui uma especialista em personalizar blogs, mas se tem uma coisa que eu gostaria saber de fazer era página de internet. Mas me falta a paciência.

Mas o que me traz aqui nessa sexta-feira pseudo-chuvosa não é mais um dos meus textos (vai ser da próxima vez, juro solenemente), mas sim o fato de querer propor a vocês, caros leitores do Brainstorm, uma pequena enquete, a respeito do banner.

Eu fiz um novo desenho, e com as super-cores de Aluízo Júnior (cujos desenhos vocês podem encontrar aqui) pretendia colocá-lo no banner. Mas resolvi fazer a enquete, para saber como anda a preferência da super-heroína ali em cima.

Então, por favor, comentem!


Atualizações genéricas

2 abr

Que personagem de Heroes é você?

Ahá! E numa rápida aparição, só para passar esse teste tão legal. =) Em inglês.

Juro que posto mais alguma coisa decente depois. Bilhões de coisas para fazer agora.

Sim, provavelmente esse post será apagado posteriormente. Mas não importa, por enquanto só quero mostrar que…

peter.jpg

… eu sou PETER! =O Aquele com o poder mais apelão da série, mas também o herói mais heróico. E com o corte de cabelo mais emo da primeira temporada. :p

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1º de Abril

Quando eu era aluna detestava o 1º de Abril, porque sempre me esquecia da data e caía nas brincadeiras dos meus colegas. Mas ontem eu vi qual era a verdadeira graça. Acompanhem.

Professora baixinha entra na sala, segurandoos diários de classe e a pasta com os trabalhos corrigidos. Dá bom dia, coloca o material sobre a mesa, e depois que o burburinho cessa um pouco mais, ela finalmente se pronuncia:

– Bem, como hoje estou bem-humorada, quero dar uma notícia a vocês: todos estão dispensados da prova de sexta-feira, e com 10!

Primeiro, aquele choque. Como assim? Ela só pode estar louca. Depois, a aceitação da verdade: aquela professora era louca. E então, o fuzuê característico.  Mas então eles perceberam: a sombra, que iniciava-se com um leve sorriso de lado (como ela sempre fazia), e então a gargalhada tão típica. MWAHUHAUHUAHUAHUAHUHAUA!

– Vocês acreditaram? É PRIMEIRO DE ABRIL!