Haunted – Parte I

20 abr

As botas de cano alto ecoavam pelo grande salão, enquanto os olhos claros se perdiam nas cores renascentistas. Sabia que aquelas não eram as artes originais da construção – a igreja era bem anterior à Renascença, mas passara por tantas reformas que as paredes originais haviam se perdido. Além do mais, não seria muito bom para a Igreja Católica relembrar as barbáries cometidas da Inquisição.

I’m ahead, I’m a man
I’m the first mammal to wear pants, yeah
I’m at peace with my lust
I can kill ‘cause in God I trust, yeah
It’s evolution, baby

Enquanto passeava pela grande construção de pedra sólida, pendurado na cintura um eletrônico levava música aos ouvidos da jovem Nicole. Algo, no entanto, se fez soar mais alto: primeiro um grito agudo, feminino, desesperado, e então o crepitar de chamas. Não foi apenas o barulho que fez a jovem se virar, mas também um forte cheiro de carne queimada, acompanhado de um calor intenso e repentino. Para a cena que desabrochava diante dos seus olhos havia apenas duas palavras: inexplicável e assustador.

Uma fogueira imensa ardia enquanto a fumaça espiralava para o teto da construção, agora invisível pela fumaça. Uma mulher, completamente desnuda, gritava loucamente, atada por cordas a um grande mastro de madeira. Já não se via seus pés ou joelhos, consumidos pelas chamas, e seu rosto já trazia grandes queimaduras, assim como o que restava do seu corpo. A mulher tremia e gritava de um modo inumano, desesperado, e tentava balbuciar algo em meio à tamanha agonia. Quando virou o rosto na direção de Nicole, a jovem percebeu: a mulher tivera a língua cortada.

Nicole fechava os olhos com força, e abanava as mãos diante de si, um gesto desesperado de fazer a visão desaparecer. Aquilo tinha que ser falso, afinal. Se fez gritar, até que notou que os gritos da mulher pararam, e que o calor da fogueira havia cessado. Abriu os olhos, e no mesmo momento se arrependeu de ter feito aquilo.

Viu pessoas, muitas delas. Andavam pelo salão, e pareciam ter percebido a presença da jovem. Todas elas estavam num estado deplorável – traziam várias marcas nos corpos, a maioria indizíveis. Homens, mulheres e crianças até, com marcas profundas no pescoço, as órbitas vazias e os lábios entreabertos, roxos pela falta de oxigênio. Enforcados.

E haviam outros mais – pescoços e braços quebrados, membros amputados, olhos arrancados. Andavam como podiam, ora se arrastando pelo salão, ora tropeçando. Nicole desejava correr, gritar e sair daquele lugar, sair dali e fingir que nada acontecera. Suas pernas, no entanto, não obedeciam. Estava paralisada de medo. Sua respiração faltava e sentia o corpo inteiro tremer – por mais que quisese, não conseguia sair dali. Deixou-se cair sentada no chão, encostada na parede. A inércia pelo medo era tanta que sequer baixar a cabeça conseguia – não era capaz sequer de desviar os olhos de tão horrenda visão.

Coforme se aproximavam, ela podia sentir o cheiro de carne putrefata crescendo, cercando-a, sufocando-a. Logo o ar começou a rarear e já não conseguia respirar. E antes que sentisse o toque gélido daquelas pessoas, desmaiou.

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6 Respostas to “Haunted – Parte I”

  1. Italo abril 20, 2008 às 4:27 am #

    Impressive! There is no better word to describe it.

    I also enjoyed the Pearl Jam song.

    See ya.

  2. Tsu abril 22, 2008 às 4:44 pm #

    Pearl Jam or Rolling Stones???

  3. Maurício abril 23, 2008 às 1:47 am #

    Tem coisa mais assustadora do que uma igreja antiga vazia?

    Eu imagino como não deve ser aquela igreja de Lucena de noite, com o cemitério na frente e aquelas caveiras esculpidas nas laterais, ô lugarzinho medonho.

  4. Ratysu abril 26, 2008 às 5:00 pm #

    nossa
    assustador
    bem silent hill na verdade!!

  5. Thiago Russo abril 28, 2008 às 10:59 pm #

    LOL.
    O.o
    Assustador, envolvente, perturbador… descrições incríveis das cenas. Pude vislumbrar a agonia da mulher, ardendo em meio as chamas…

    Resumidamente: ADOREI!!! \o/
    Vou ler as próximas partes agora…. aguarde comentários nelas… ^^

  6. pamela maio 29, 2008 às 2:03 pm #

    Nicole, coitada vê demais….
    gostei muito, muito bom!!!

    ahh e´a igreja que maurício falou…

    nao é igreja de lucena nao.. é da guia…
    lugar perfeito a noite, realmente, assustador.

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