Arquivo | julho, 2008

A Queda – Última Parte

22 jul

Olhando para baixo, viu um grande poço circular, que borbulhava algo parecido com lava. Sentiu-se sendo baixada lentamente, e então discerniu o que a esperava lá em baixo: sangue fervente, borbulhante. Em desespero, começou a se debater, mesmo que parte de si soubesse ser em vão. Ouviu pequenas risadas entre os flagelados, assim como as erynies. Seus pulsos se feriam cada vez mais, embora fosse a última coisa na qual pensasse agora. Queria se livrar daquilo; queria, de um modo infantil, estar sonhando e acordar assustada, suando. Entretanto, aquilo era real – bem real. Logo ela poderia provar.

Seus pés tocaram o líquido quente – e ela gritou. Dobrou os joelhos, enquanto as correntes continuavam baixando sonoramente. As risadas as erynies ecoavam nos seus ouvidos, enquanto as palavras do irmão retumbavam em sua mente. Não era aquilo que queria – era tão errado assim desejar um pouco de justiça? Será que evitar o conflito entre duas raças, e um grande derramamento de sangue, valeria tão alto preço?

Seu grito ecoou mais uma vez, quando, mesmo encolhida e com o corpo já dolorido, sentiu o sangue fervente tocar-lhe a pele novamente. Com os braços esticados e o corpo reteso há tanto, não conseguiu resistir – mergulhou as pernas até a altura do joelho, conhecendo o significado de dor lancinante. O sangue quente machucava a pele, pele que sabia ser alma, e Aila desejava que fosse uma dor ainda maior, e que lhe tirasse a vida de uma vez. Pensou em quantas pessoas não haviam passado por aquele tormento, em quantos gritos já não haviam ecoado naquela sala.

As risadas diminuíram, mas não os gritos da barda. Sentia a corrente estremecer a cada vez que desciam assim como podia sentir as batidas desesperadas do seu coração. De modo vão, tentava agarrar-se às boas lembranças: os momentos bons com Ahlan, seu tutor e amante, e da sensação de abraçar Vanir, aquele elfo bondoso por quem guardava tanto carinho. O que eles pensariam se soubessem daquilo?

Submersa até a cintura, ainda tinha forças para se debater, embora quisesse ter forças para se libertar, ou não mais tê-las e acabar logo com aquele sofrimento. A dor era terrivelmente constante. A garganta secava, mas não parava de gritar, e nem poderia, pois a dor não deixava. A corrente baixava cada vez mais, emergindo-a lentamente, e chacoalhares metálicos soavam violentos, acompanhando os gritos desesperados da jovem.

Apesar de costumadas àquele espetáculo, a vã esperança demonstrada perturbava algumas erynies. Talvez porque fizesse vir à tona memórias de quando aquilo aconteceu a elas. Outras olhavam curiosas, achando que havia algo de irônico em ver alguém de sangue celestial ser transformado em demônio.

Aila prendeu a respiração, e fechou os olhos, conforme sentiu-se afundar completamente no poço de sangue. Tentava levantar o rosto, mas graças à dor, já não conseguia fazê-lo. Sentiu o corpo completamente submerso, enquanto ainda tentava forçar os braços para elevar-se acima do nível do poço. Em vão.

Logo seu peito começou a doer, e ela sentiu que precisava de ar. Sabia o que iria acontecer, mas não pôde resistir e relaxou os pulmões, expirando toda e qualquer esperança de vida. Abriu os olhos e viu apenas o vermelho forte diante de si, e sentiu-os ardendo. Tentou gritar, e além de ter seu grito abafado, sentiu o gosto do sangue quente e viscoso descendo pela garganta, queimando-lhe as entranhas.

A corrente foi parando lentamente, até não mais se movimentar.

Silêncio no calabouço.

As roldanas foram mais uma vez ativadas, e logo a corrente foi subindo, mostrando uma Aila de tez bem mais pálida, cabelos loiros encharcados de sangue, e asas escarlates a saírem do alto das costas, com sangue pingando por toda a sua extensão.

Nenhum movimento.

Até que ela inspira sonoramente. Renascida.

Abriu os olhos, outrora de um violeta misterioso, possuindo agora um brilho estranho, capazes de se destacarem sozinhos na escuridão. Da boca vertia um sorriso. Maligno. Cruel. Demoníaco.

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