Com as próprias mãos

25 ago

– Você faria o mesmo se estivesse no meu lugar!

Não, Ariene não faria. Mas aquelas palavras reverberavam na sua mente, indo e voltando sem parar. Ariene Crownshield, cavaleira sagrada da Ordem do Cálice Prateado de Siamorphe, não venderia sua honra tentando matar alguém em troca de um punhado de moedas de ouro. Mas será que ela, nascida sem lar, sem ninguém que a ensinasse que valores deveria preservar, não se deixaria levar pela situação?

Segurou entre os dedos o cálice prateado, que usava sempre com tanto orgulho. Apertou-o forte, como se buscasse na deusa uma resposta para essas indagações. Não gostava da sensação de ter a vida de alguém em suas mãos – nunca se achou preparada para aquilo, na verdade. Já presenciara execuções antes – seu pai a preparara desde criança – mas isso não quer dizer que gostava de vê-las. Fechou os olhos azuis com força, como se tentasse apagar a lembrança, mas foi em vão.

**********

– Não vire o rosto, pequena. Seu pai está olhando você.

Quem lhe falava era Tersus, embora a criança não estivesse realmente dando importância a sua voz. Ariene não queria olhar, mas não conseguia tirar os olhos daquele a quem chamavam de traidor. Os ombros estavam caídos e marcas profundas adornavam o seu rosto, compondo o quadro de um derrotado. Não em combate, não em batalha… mas na vida. Profundas olheiras e olhos finos como linhas se esgueiravam pela multidão, como se não conseguissem encará-los. Ariene não desviou o olhar, e teve certeza: ele olhou para ela.

Mesmo nos dias de hoje, não conseguiu entender se ele buscava por ajuda ou pura redenção. Os olhos daquele homem eram de uma inexpressividade descomunal, mas ainda assim intensos como a pior das tempestades. Prendeu a respiração, e então ouviu a voz do seu pai soar acima do cochichar da multidão:

– Você, homem de armas conhecido por Saemon, foi acusado de traição para com seus companheiros de armas. Graças a informações, passada por você a comparsas dos exércitos da velha e corrupta corte, três valorosos guerreiros perderam suas vidas. Entre seus pertences, foi encontrada a quantia de trezentas moedas de ouro, cunhadas pelas formas da corte que você costumava combater. – pausou a fala por um instante, enrolando o pergaminho com as acusações. – O que tem a dizer em sua defesa?

Por um instante, o homem permaneceu calado, assim como a multidão. Seus olhos se viraram para seu acusador, Kelvan Crownshield, e Saemon apenas deu de ombros.

– Nada. Eu fiz tudo o que disse, meu senhor. Apenas me dê uma morte rápida.

A displicência do homem apenas irritou mais o lorde, e Ariene sabia disso. No entanto, ele manteve sua postura. Desembainhou sua espada bastarda, que refletiu por um instante a luz do sol, e disse:

– Pelo poder a mim investido, por mérito e berço, és declarado culpado, homem de armas Saemon.

***

Voltaram para o solar improvisado, em um silêncio quase mórbido. Ariene não conseguia parar de pensar nos olhos inertes daquele homem, e ainda assim tão intensos. E não conseguia também encarar seu pai. Como se adivinhasse seus pensamentos, Kelvan falou:

– Eu tive que fazer aquilo. Aquele homem cometeu um crime que matou três pais de família. É uma questão de justiça. E você deve acostumar-se com isso, minha filha. Um dia, você tomará conta desse lugar.

O silêncio perdurou até chegarem à casa. Ariene viu o pai dar-lhe as costas e dirigir ordens a alguns homens, e só então conseguiu dizer:

– E quem somos nós para julgar quando tirar a vida de alguém?

**********

– Ele não carrega o mal no coração. – disse por fim Arienne, e só então percebeu que demorara a tomar sua decisão.
– Preciso lembrar-lhe, minha noiva, que este homem tentou matar você? E foi uma tentativa premeditada? – a voz de Victarion se fez soar. – De acordo com as leis de Tethyr…
– Nós não estamos em Tethyr. – lembrou Vance, que era a favor de deixar o homem vivo.
– E mesmo de acordo com as leis dos homens do mar, traição a esse nível é passível de punição com morte. Arienne, eu negociei sua vida por duzentas moedas…
– Os deuses decidirão. – a jovem disse, e ouvir sua própria voz a deixou mais segura de si. – Se ele aceitar, largue-o no mar. Não estamos tão longe de terra firme, e qualquer provação que passar será o suficiente para que repense suas ações. Se, do contrário, ele perecer, teremos adiado o inevitável. Agora, se me derem licença, vou para os meus aposentos.

*****

Na manhã seguinte, os homens foram levados para o convés, para receber sua punição diante de todos – o exemplo também era uma ótima forma de coagir os membros de uma tripulação, a capitã lhe explicara. E assim era em qualquer lugar.
Aquele que mentira no intuito de salvar a vida teve uma morte rápida pelas lâminas de Vance. O outro, por sua vez, foi lançado na imensidão do mar, e se sobreviveu ou não a paladina não poderia dizer. No entanto, tinha a sensação de que a justiça, de fato, havia sido feita.

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4 Respostas to “Com as próprias mãos”

  1. Italo agosto 25, 2008 às 1:40 am #

    Eu tenho que admitir… eu adoro a Campanha de Tethyr. O ambiente, o plot, os personagens…

    Nessa sessão eu realmente não esperava que houvesse todo esse conflito psicológico e tal. Fiquei surpreso, agradavelmente surpreso. E, talvez por isso*, é que eu goste mais dos personagens jogadores a cada sessão. Mesmo um personagem tão desenvolvido quanto Ariene não perde a capacidade de surpreender.

    Bom, espero que a campanha continue com esse clima legal e que a gente possa criar juntos uma história interessante e divertida.

    O texto ficou muito bom, menina, parabéns!

    —–

    * http://pensotopia.wordpress.com/sobre-as-personagens/

  2. Fernanda Eggers agosto 27, 2008 às 3:18 pm #

    O texto ficou legal, mas eu boiei em algumas partes. =*

  3. Ighor setembro 2, 2008 às 11:44 pm #

    Humm.. essa seção foi muito massa… apesar de eu (Vance) ter sido mais uma vez emboscado .. rsrsrs

    A situação foi que marinheiros foram pagos para assassinar os personagens… tentaram inicialmente facilitar o trabalho por meio de envenenamento.. oq n surtiu efeito em Vance e Victarion… que foram emboscados e tiveram q lutar por suas vidas. E acabaram conseguindo prender os dois traidores.

  4. Elisa setembro 3, 2008 às 10:55 am #

    Boiei geral! Acho que ficou muito interno esse texto.

    O banner novo ficou bonito, mas admito que prefiro o anterior. ^^

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