Não olhe para trás

22 set
Never look back because it hurts

Never look back because it hurts

A batalha estava acabada, assim como a jovem arqueira. Seus olhos azuis encaravam a floresta que servira como campo de batalha: soldados arrastando corpos e feridos, outros vasculhando os pertences de um colega. “Vou levar pra mulher dele”, ainda pôde ouvi-lo falar. “Mulher e filhos”.

Mesmo tendo conseguido o que queriam – bater em retirada, depois do ataque mal sucedido a Camelerd – Keriann tinha a sensação de que muito mais havia se perdido aquela noite: Lyon, marido de Aillah e pai de uma criança ainda por vir; Leão da Montanha, guerreiro bérnio que, ironicamente, morrera defendendo os felden; e seu pai.

Não podia dizer quanto tempo ficou olhando aquela cena – nem importava realmente. Os outros carregavam os corpos dos seus conhecidos, e Keriann olhava para o que restara do seu pai. Quando o viu pela última vez, não imaginara que o reencontro seria assim.

Fechou os olhos, e lágrimas desciam pelo rosto sujo da batalha. Ela viu quando o exército de mortos corria para a floresta, ignorando galhos ou quaisquer obstáculos. Incansáveis e implacáveis, eles pareciam invencíveis. Mas o pior foi perceber que boa parte deles usava as roupas dos homens que morreram no ataque à cidade: as forças negras a serviço de Drakkan os trouxeram para lutar mais uma vez, sem vontade própria, apenas com o desejo instintivo de matar.

Mas em uma batalha, quem pode pensar diferente?

E Keriann lutou. As mãos calejadas dispararam flechas como nunca, e ela mal pôde sentir quando a luva se desfez mais uma vez e os dedos começaram a sangrar. Os desmortos continuavam a desferir seus golpes, ploriferando morte e corrupção, e ela continuava a atirar, os sons da corda fazendo-a não pensar nos gritos de dor dos soldados. Até perceber que a parede de escudos estava prestes a se romper, e os soldados protegiam os feridos.

Atirou mais uma vez e largou o arco, sacando a Matadora de Bruxas, que Dorgauth entregara-lhe. Se servia para matar bruxas, daria descanso aos mortos também. Lutou. Teria continuado se não percebesse um brilho incomum na altura do peito do desmorto: um pingente prateado balançava, mostrando um cálice com uma linha dourada no topo e algumas inscrições.

De longe, ela reconheceria aquela jóia que seu pai costumava segurar com tanto afinco enquanto orava. Levantou os olhos para ver o rosto de quem estava prestes a atacar: era seu pai, os cabelos castanhos, agora imundos; os olhos azuis, de quem herdara os seus, sem o brilho da vida; a pele seca e esbranquiçada; e um grande ferimento de espada na altura do pescoço. Seu pai, tornado um desmorto pelos servos de Drakkan. Seu pai.

Largou a espada, mais por inércia que por desejo. Como aquilo era possível? Como?! Quis gritar, quis impedir os outros de lutarem, mas sabia que já era tarde. Enfrentara desmortos antes, e sabia que eles já não eram as pessoas de antes. Queria abraçá-lo, mas sabia que não podia. Os soldados gritavam, pedindo ajuda, pedindo que lutasse, mas naquele momento era impossível. Inerte e impotente, era como se sentia. Como deixou aquilo acontecer?

Mas naquela noite, os mortos não paravam. E ele continuou, avançando em sua direção, segurando uma espada que não era dele. Brandiu a lâmina sem muita força, atingindo a arqueira na altura do estômago. Ignorou a dor do ferimento porque alguma outra coisa lhe doía ainda mais. Seria a alma?

Não teve tempo para pensar: os outros soldados atacaram-no, cumprindo seu dever. E o que podia fazer a respeito? Conseguiram defender os feridos, era o que importava. E agora correram para ajudar os outros soldados em batalha. Era o que ela deveria fazer também, mas só conseguia pensar em um responsável por tudo aquilo: Drakkan.

Mas a batalha já havia terminado. Os homens marchavam, cansados, para longe de Camelerd. A época do plantio começara, e se não quisessem morrer de fome tinham que trabalhar no campo. Estabelecia-se assim uma trégua temporária, para que os dois lados se preparem para o que estar por vir. Nada daquilo importava para Keriann.

Diante de si, um túmulo improvisado: passara o resto da noite em lágrimas, preparando a cova, já que não havia nada mais o que fazer. Enterrou junto com ele seus pertences, exceto o símbolo sagrado da Dama, que agora brilhava no seu peito. Agora já não havia o que chorar. Levantou o capuz, olhou para a distante fortaleza que diminuía conforme a distância aumentava, e fez uma última prece à Dama.

– É uma promessa: não descansarei enquanto não matar você, Drakkan.

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7 Respostas to “Não olhe para trás”

  1. Italo setembro 22, 2008 às 6:50 pm #

    Eu achei… fantástico.
    Quase pude ver as árvores, os feridos, os mortos e desmortos se debatendo e a imagem do pai de Keriann em preto e branco e câmera lenta enquanto ao mesmo tempo em que a espada cai de sua mão… Fantástico.
    Eu tenho mais algumas coisas a dizer, mas prefiro falar pessoalmente. Até mais, menina.

  2. Elisa setembro 23, 2008 às 11:00 am #

    A arqueira e seus devaneios. Muito arroz com feijão para você conseguir arranhar Drakkan. rs rs rs

    Dá uma olhada no fábulas. Lá tem minha versão da batalha.

  3. Tsu setembro 23, 2008 às 11:27 am #

    aee, bonita as novas ilustrações

  4. Fernanda Eggers setembro 23, 2008 às 4:02 pm #

    Muito legal, Allana!!! =D

  5. samura janeiro 11, 2009 às 6:03 pm #

    Inspirador…

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