Seda e Aço

8 jan

A lua brilhava alta no céu, refletindo-se no riacho que cortava as terras da família Matsumoto. O casamento realizara-se no pequeno templo dedicado aos ancestrais da família, simbolizando os antepassados que olhavam e abençoavam a união do jovem casal. Arashi terminou de acender o incenso em honra aos espíritos, para que olhassem com bons olhos a noite de núpcias, enquanto o silêncio imperava entre os dois.

– Hanarai. Flor selvagem. É assim que seu irmão a chamava, quando estive com ele. Há algum motivo especial?

Saiki tinha uma voz macia e sutil, como um pincel pesado de tinta que percorria o linho. Devia ser com essa leveza que fazia suas pinturas. Arashi sorriu polidamente, lembrando-se do irmão.

– Ele deve ter lhe contado o motivo.
– Sim, de fato. – ele sorriu. – Mas boas histórias sempre possuem várias versões. Além do mais, eu prefiro ouvi-la dos seus lábios, se não for inconveniente.
– Minha mãe me chamava assim, porque eu costumava cavalgar para os limites das terras, mesmo quando me diziam para fazer o contrário. E porque eu era um tanto… irritadiça.
– Isso explica a parte do selvagem. E basta olhar para você para entender o porquê de ser chamada de flor.

Enquanto falava, o pintor passou os nós dos dedos delicadamente por seu rosto, contornando-lhe o queixo. Um pouco da maquiagem se desfez, e percebendo isso, a jovem falou:
– Creio que seja melhor remover a maquiagem. Eu…
– Não precisa de pressa, Arashi. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou vê-la assim, então gostaria de me deleitar um pouco mais com a visão. A não ser que seja um incômodo para você.
– Como sabe que eu não gosto de…? Você e meu irmão conversaram bastante a meu respeito, não?
– Já que eu estava prestes a me casar com a irmã de Enishi, nada mais natural que eu querer saber sobre minha noiva, não?
– Eu não sei nada sobre você.
– Isso é fato. E de onde eu venho, a melhor maneira de conhecer alguém é vendo como esta pessoa maneja uma espada. Você é uma guerreira, não? Me daria a honra?
– Já deseja matar a sua noiva na noite de núpcias? – Arashi sorriu divertida, sabendo que algo assim não aconteceria. Enquanto falava, dirigia-se ao altar onde suas espadas estavam guardadas. – Achei que fosse um pintor.
– E sou. Mas a leveza e precisão de um pintor está também na leveza e precisão de sua espada. Cada pincelada é como um golpe: deve ser calculado, observado, preciso e rápido. Ou a tinta secará antes que possa ser misturada.
– Minha família não aprecia duelos.
– Mas você os acha ao menos divertidos, não?

Os dois fizeram uma reverência medida, e sacaram as espadas. Logo as lâminas se chocaram, e o barulho de metal ressoou no aposento.  Arashi investiu em um golpe longo e demorado, apenas para ser aparado pela espada de Saiki. E como nos passos de uma dança, um media os golpes do outro, completando-se com uma precisão memorável. Seda e metal se cruzavam, indo e voltando, aproximando-se e afastando-se, como os movimentos do mar. Até que Arashi sentiu a ponta da espada na altura do estômago, enquanto pressionava ameaçadoramente a sua lâmina no pescoço do esposo.

– Acho que podemos dar isso por acabado, não? Um empate? – falava o jovem, com uma expressão tranquila e um leve sorriso no rosto.
– Só se pudermos desempatar. Amanhã.
– É uma disputa de um pintor contra uma samurai treinada. Não acha injusto, minha querida?
– Meu forte é com o arco, mas você também deve saber disso. Além do mais, são ótimas oportunidades de nos conhecermos melhor.
– É justo. Agora que tal desarmar-se tanto da espada quanto da alma?
– Desarmar-me…?
– Você estava fechada como uma ostra quando entrou no templo, e agora eu consegui ao menos que duelasse comigo. O que eu preciso fazer para que me deixe beijá-la?

Arashi baixou a espada, com um sorriso envergonhado. Embainhou a espada, e ele fez o mesmo, aproximando-se. Segurou-lhe o queixo delicada porém firmemente,  e seus lábios se tocaram. Longe dali, a lua refletia-se nas correntes do riacho, que seguiam seu destino para o mar.

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6 Respostas to “Seda e Aço”

  1. Allana janeiro 8, 2009 às 1:43 am #

    Este é um pseudo-prelúdio de uma personagem que foi criada para o cenário de jogo do meu noivo – a idéia não é um Japão Feudal histórico, e sim de uma civilização orientalizada, então vários elementos podem ser encontrados na história. 🙂

  2. Italo janeiro 8, 2009 às 2:06 am #

    A charming masterpiece.
    Não fica devendo nada para “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”.
    Quero escrever que nem tu quando… tiver a sua idade. xP

  3. Tsu janeiro 9, 2009 às 10:57 am #

    Hey, feliz ano novo!
    Muito bonitinho esse header novo

  4. Amanda janeiro 10, 2009 às 3:28 am #

    O q eles fizeram depois de embanhar a espada, hein? xP~~~

    Adorei o texto, vc escreve muito bem Allanitxa =]

    =****

  5. Olethros janeiro 10, 2009 às 6:42 pm #

    Belo texto Allana. Eu serei um narrador mais feliz se meus jogadores bolassem peças de ficção que nem você. Devo dizer que o melhor foi o lirismo da sua reação mesmo… gosto desse uso embelezado de palavras comuns.

    • Allana janeiro 11, 2009 às 3:06 am #

      Obrigada, Felipe! 🙂 Bem, a idéia desse texto em específico é mais pra ajudar o noivo a bolar o cenário, completando buracos e tudo o mais. E bem, escrever é sempre divertido. 😉

      Também achei interessante as “metáforas” que eu usei meio sem querer nesse texto – eu quis dar um pouco mais de personalidade, e acho que consegui. Um dia eu consigo fazer um desenho pra casar bem com esse bebê aqui. =D

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