Destiny

12 mar

As escamas avermelhadas brilhavam à luz bruxuleante das tochas do salão. O templo, dedicado a Bahamut, era sempre iluminado, mesmo que não houvesse ninguém presente. O draconato em vestes cerimoniais dirigia-lhe um olhar grave e austero, como faria com qualquer devoto que lhe procurasse. Isso não incomodaria Sonja se não fosse por um detalhe: ele era seu pai.

– Você sabe que precisa fazer isso, Sonja.

– E por que eu devo ir à terra dos humanos? Eu sou uma guerreira, não uma diplomata.

– Está questionando os meus desígnios, Sonja? Os desígnios de Bahamut?

– Não, sacerdote.  – as palavras saíam-lhe à contragosto. Sabia que boa parte dos “desígnios divinos” vem da vontade daqueles que professam a religião. E sabia o que estava por trás das intenções de seu pai: ele a queria longe, convivendo com os humanos. E por quê?

– Ótimo. Então prepare suas armas, pois sua viagem começa amanhã, antes mesmo que a aurora desponte.

– E o que devo procurar entre eles?

Afastando-se do altar consagrado ao grande deus dragão, o sacerdote olhou-a com uma expressão que Sonja não pode identificar. Compaixão? Seria ele capaz disso? Com um andar solene, quase ritualístico, o draconato aproximou-se da filha.

– Algo grande está prestes a acontecer, Sonja. As visões são incertas, difusas e imprecisas, mas não são boas. E acredite ou não, eu vi você em meus sonhos.

Aquilo alarmou a draconata – os desígnios muitas vezes eram manipulados, mas Sonja já presenciara enquanto alguns descendentes de dragões tinham visões de fatos futuros. Ela engoliu em seco, encarando o pai.

– E no seu sonho, eu morro?

A ausência de palavras bastou para responder a pergunta. Instantes de silêncio se passaram, embora a guerreira não pudesse precisar quanto tempo exatamente. Mas por que deveria se alarmar? Não seria a morte o destino de todas as criaturas, afinal?

– Eu estava em batalha?

– Sim. – a voz poderosa ecoava pelo salão vazio.

– E você está me mandando para a terra dos humanos, para me poupar de tal destino?

– Você não entende, criança insolente. Acredite: é o melhor para você.

– E se eu não for?

– Se não for por vontade própria, eu a exilarei do nosso povo. É o que quer? Deixar os seus desonrada, sem valor? Agora obedeça-me e vá preparar seus pertences para a viagem. Haverá um banquete de despedida.

A guerreira deixou o salão, irritada e impotente. Até compreendia seu pai, mas se algo tão grande e perigoso era iminente de acontecer ao seu povo, ela preferia estar entre os seus e morrer entre eles. Mas não tinha escolha agora.

Enquanto isso, o sacerdote via a filha afastar-se, desaparecendo de sua visão. Nem em séculos ela seria capaz de compreendê-lo, mas seria melhor assim. O poderoso deus dragão o alertou, e ele não recusaria seus conselhos. Mal sabiam os dois que haviam desencandeado os fatos que culminariam no destino final da draconata: a fortaleza do Pendor das Sombras.

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6 Respostas to “Destiny”

  1. Italo março 12, 2009 às 3:23 am #

    Gostei do “Não, sacerdote”. Tadinha de Sonja… pertence a uma raça feia que a desgraça, com um nome feio como “draconato” e ainda tem que abandonar o seu povo!? Não é a toa que um futuro negro a espera…

  2. Maurício Linhares março 12, 2009 às 12:16 pm #

    Ouxe, vai pra terra dos humanos, entra num grupo de aventureiros, sobe de nível e pronto, volta nos níveis épicos pra salvar a terra dela (se ainda tiver alguma terra, claro…).

    Mas draconato continua sendo um nome esquisito ;D

  3. Arquimago março 15, 2009 às 5:37 pm #

    Muito bom!

  4. Tsu abril 12, 2009 às 5:56 pm #

    hehehehe…Sonja!

  5. samuelgois abril 13, 2009 às 12:05 pm #

    imagino aquela trilha `TAM DAM DAMMM“ no final quando é revelado o destino que culimara os fatos e coisa e tal…

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pendor das Sombras - meu jogo « Pensotopia - março 15, 2009

    […] o conto Destiny, com a difícil escolha de […]

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