Archive | abril, 2009

Monólogo

15 abr

nicole-sketch

Eu não sou melhor que ninguém.

Ver o corpo cair mudo na cama me fez perceber que eu não sou melhor que ninguém. Não sou melhor que meu pai, a quem tanto censurei em pensamento, por ser um líder do crimoe organizado – que hipócrita eu sou. De onde vinha, então, o dinheiro que sustentava minhas viagens à Europa? Definitivamente, eu não sou melhor que Don Giorgio. Caspita, eu não sou melhor nem que meus irmãos, que tão ferrenhamente seguiam os passos de meu pai. Ao menos eles não fechavam os olhos para o que realmente acontecia.

“Valorizar a vida, por saber o que há depois dela”. Mentira! Uma baboseira da qual eu tentava me convencer para conviver com a culpa que eu carrego. Uma auto-enganação, para que assim eu possa dormir à noite sem que meus pesadelos pulem na minha garganta. Mentira pura, falso escrúpulo. Eu não tenho sequer princípios. Eu matei um homem – e gostei disso.

Mas este homem, que agora não passa de matéria inerte, este homem foi o responsável por toda a desgraça que se abateu sobre a Família. Sobre a minha família. Um informante, Fellipo. E agora estava morto. E isso não me trará paz, mas me trouxe… prazer. Temporário, efêmero, tanto quanto a vida, mas ainda assim prazer. Há quanto tempo eu não fazia algo com tanta gana, tanta vontade…? Alguém para culpar, alguém para odiar por tudo o que estava acontecendo. Ele era o responsável pela morte do meu irmão, pela minha quase loucura. Quase? Alguém podia dizer que eu não já estou louca de fato?

Minhas mãos tremem, e eu tenho vontade de chorar. Talvez eu esteja louca de fato, talvez fosse melhor parar. Sair dali, fugir. Para onde eu não sei, não faço ideia. Para a minha família, eles cuidariam de mim, eles se importam comigo.  Que dizer ao meu pai, quando sair desse quartinho bolorento? Que ele está morto, que eu não vou mais ser assombrada, que eu o matei com a minha magia? O que ele vai pensar quando vislumbrar aquele corpo envelhecido, a pele quase solta nos ossos, a expressão de dor e pavor, os cabelos tão grisalhos? Veneno. Um novo tipo de veneno, eu direi, que envelhece o corpo da vítima. E a faz sofrer.

E ele sofreu, e gritou – Bruxa! Bruxa! – e continuou gritando de dor. Eu vi o medo, o pavor nos seus olhos, e eu gostei daquilo. As sombras, a sua própria sombra o caçava, o buscava, o tocava, distribuindo pelo seu tao frágil corpo os calafrios gélidos que lhe tiravam a vida.

Vida. A vida é supervalorizada. Eu estive do outro lado, e sei o que há. E não é nada de terrível. Do Outro Lado, a vida não importa, seus desejos não importam, seus afazeres de nada valem. Seus objetivos não passam de memórias de um mundo distante. A vida é apenas matéria inerte.

Tudo é matéria, afinal. Eu também serei. Todos serão.

Eu matei um homem. E Deus me perdoe, mas eu quero fazer isso de novo.

Essa é uma peça de ficção. Nicole é uma personagem de RPG em um jogo de Mage – The Awakening, com domínio sobre a esfera de Morte. Outras estórias dela apareceram aqui no blog, como vocês podem ver nos posts anteriores, mas para um esclarecimento rápido, Nicole é filha de um mafioso de Chicago, e há alguns meses seus irmãos foram atacados enquanto faziam um serviço para o pai. O mais velho morreu, e agora a assombra procurando por vingança contra o responsável pelo acontecido.