Arquivo | setembro, 2009

Quando a Luz vacila na Escuridão

28 set

Kate Empty SketchO despertador tocava. Pela terceira vez. Precisava acordar. Ir à escola. Prometera a Greg. E as aparências. Precisavam ser mantidas.

Não tinha vontade. Olhar para aquelas caras insossas, aquelas pessoas que não sabiam de nada. A sala inteira, o time inteiro. Ah, o time. Terça-feira? Tinha treino hoje, droga. Cheerleading. Não agüentava mais a Jennyfer. Nem aquelas outras que a seguiam como uma ninhada de patos. Quack quack. Katherine deixara aqueles dias para trás há muito.

Por uns dias, achou que poderia voltar àquela vida. Ou quase. Sabia que coisas espreitavam às escuras. Conhecia a verdade, ou parte dela. Mas quando chegou naquela cidadezinha, quando voltou à escola, quando se inscreveu para os testes, chegou quase a acreditar que aquela poderia ser a sua vida. Estudar. Faculdade. E tomar cuidado quando saísse por aí.

E veio aquele… espírito. Aquela fantasma atormentada. O fantasma de uma líder de torcida, pode? Kate estranhou, Greg não estava na cidade. Foi o seu primeiro trabalho. E aquela criatura, aquela coisa arruinou a vida de tanta gente… quantos não morreram? Quantos ela não deixou morrer para fazer alguma coisa?

Ela chorou, por uma semana ou mais. Revia Eric morrer, e ela inerte, impotente, entorpecida. Mas ela salvou pessoas. A própria Jennyfer, que nunca vai saber disso. O jogador de futebol; como era o nome dele mesmo? Ele estava bem agora. Ela ajudou alguém, no final das contas. Doeu, mas conseguiu superar. Greg estava lá. Imaginava o que ele não teria visto, quantos não teriam morrido diante dele.

Kate poderia ter morrido se ele não tivesse chegado à tempo, anos antes. Quantos anos? Parecia algo tão distante agora…

Ele a ajudou. Ele a levou para investigar os casos de pessoas que estavam brigando e se matando por motivos banais. Ela descobriu a boate. E lá conheceu aquele demônio.

Linda. Linda, sensual e provocante. A DJ da boate parecia ter sido desenhada por um Milo Manara. Kate nunca pensara na possibilidade, mas vê-la ali, tão dedicada, apaixonada e estonteante não a fez pensar duas vezes. E ela percebera seu olhar.

No dia seguinte, entraram no lugar. Kate e Greg, disfarçados, fizeram uma sondagem. E à noite, Kate voltara. E se deixou levar para o quarto. Era uma súcubo – e o exorcismo tinha que ser perfeito. Nada podia dar errado.

Mas deu. Ela era poderosa, e resistiu. Resistiu do jeito que poderia fazer: fazendo-a sentir um prazer forte, intenso, agudo, dolorosamente bom, e indescritível. Com um olhar. Apenas com as intenções que sua essência infernal trouxe à terra.

Naquela noite, Kate matou alguém. Era a sacerdotisa, quem trouxera aquela criatura das profundezas. Não a consolava pensar que era necessário. Ela matou alguém. Apontou a arma, puxou o gatilho e viu a mulher cair no chão. Mas não foi o que mais lamentou aquela noite.

Fez o exorcismo. Deixou-a ir embora. Fez com que ela fosse embora, de volta para o inferno, talvez. Mas desejou aquela sensação, aquele prazer pecaminoso uma vez mais. Mais. Queria mais, e de novo, e mais, e cada vez mais. Aquela intensidade, as ondas reverberando pelo seu corpo jovem e rijo e tenso. Desde aquela noite, era a única coisa que desejava.

E buscou, e buscava, e busca. Continua procurando. Apenas uma casca vazia, era como se sentia. E de que adiantava viver assim? Nada era interessante. Nada dava vontade. Bebeu, transou com tantos naquelas semanas que não podia nem contar. Contar. Contar a quem? Quem a entenderia? Não podia. E ainda buscava.

O despertador tocou. Pela quarta vez. Ou quinta? Não conseguia contar. Não podia contar. A ninguém. Olhou pela janela: o sol iluminava e esquentava seu quarto. Não tinha vontade de ir. Mas precisava. Encher a cabeça. A cabeça com conversas inúteis, planos inúteis, assuntos inúteis, pessoas inúteis. Nenhuma delas a preenchia. Nenhuma delas lhe servia.

Odiaria cada minuto daquele dia. Odiaria a si, àquele vazio, a si. Relutante, desligou o despertador e se levantou.

Texto que escrevi para uma personagem de Hunter: The Vigil. E para comemorar os dois anos de um blog quase abandonado.

O despertador tocava. Pela terceira vez. Precisava acordar. Ir à escola. Prometera a Greg. E as aparências. Precisavam ser mantidas.

Não tinha vontade. Olhar para aquelas caras insossas, aquelas pessoas que não sabiam de nada. A sala inteira, o time inteiro. Ah, o time. Terça-feira? Tinha treino hoje, droga. Cheerleading. Não agüentava mais a Jennyfer. Nem aquelas outras que a seguiam como uma ninhada de patos. Quack quack. Katherine deixara aqueles dias para trás há muito.

Por uns dias, achou que poderia voltar àquela vida. Ou quase. Sabia que coisas espreitavam às escuras. Conhecia a verdade, ou parte dela. Mas quando chegou naquela cidadezinha, quando voltou à escola, quando se inscreveu para os testes, chegou quase a acreditar que aquela poderia ser a sua vida. Estudar. Faculdade. E tomar cuidado quando saísse por aí.

E veio aquele… espírito. Aquela fantasma atormentada. O fantasma de uma líder de torcida, pode? Kate estranhou, Greg não estava na cidade. Foi o seu primeiro trabalho. E aquela criatura, aquela coisa arruinou a vida de tanta gente… quantos não morreram? Quantos ela não deixou morrer para fazer alguma coisa?

Ela chorou, por uma semana ou mais. Revia Eric morrer, e ela inerte, impotente, entorpecida. Mas ela salvou pessoas. A própria Jennyfer, que nunca vai saber disso. O jogador de futebol; como era o nome dele mesmo? Ele estava bem agora. Ela ajudou alguém, no final das contas. Doeu, mas conseguiu superar. Greg estava lá. Imaginava o que ele não teria visto, quantos não teriam morrido diante dele.

Kate poderia ter morrido se ele não tivesse chegado à tempo, anos antes. Quantos anos? Parecia algo tão distante agora…

Ele a ajudou. Ele a levou para investigar os casos de pessoas que estavam brigando e se matando por motivos banais. Ela descobriu a boate. E lá conheceu aquele demônio.

Linda. Linda, sensual e provocante. A DJ da boate parecia ter sido desenhada por um Milo Manara. Kate nunca pensara na possibilidade, mas vê-la ali, tão dedicada, apaixonada e estonteante não a fez pensar duas vezes. E ela percebera seu olhar.

No dia seguinte, entraram no lugar. Kate e Greg, disfarçados, fizeram uma sondagem. E à noite, Kate voltara. E se deixou levar para o quarto. Era uma súcubo – e o exorcismo tinha que ser perfeito. Nada podia dar errado.

Mas deu. Ela era poderosa, e resistiu. Resistiu do jeito que poderia fazer: fazendo-a sentir um prazer forte, intenso, agudo, dolorosamente bom, e indescritível. Com um olhar. Apenas com as intenções que sua essência infernal trouxe à terra.

Naquela noite, Kate matou alguém. Era a sacerdotisa, quem trouxera aquela criatura das profundezas. Não a consolava pensar que era necessário. Ela matou alguém. Apontou a arma, puxou o gatilho e viu a mulher cair no chão. Mas não foi o que mais lamentou aquela noite.

Fez o exorcismo. Deixou-a ir embora. Fez com que ela fosse embora, de volta para o inferno, talvez. Mas desejou aquela sensação, aquele prazer pecaminoso uma vez mais. Mais. Queria mais, e de novo, e mais, e cada vez mais. Aquela intensidade, as ondas reverberando pelo seu corpo jovem e rijo e tenso. Desde aquela noite, era a única coisa que desejava.

E buscou, e buscava, e busca. Continua procurando. Apenas uma casca vazia, era como se sentia. E de que adiantava viver assim? Nada era interessante. Nada dava vontade. Bebeu, transou com tantos naquelas semanas que não podia nem contar. Contar. Contar a quem? Quem a entenderia? Não podia. E ainda buscava.

O despertador tocou. Pela quarta vez. Ou quinta? Não conseguia contar. Olhou pela janela: o sol iluminava e esquentava seu quarto. Não tinha vontade de ir. Mas precisava. Encher a cabeça. A cabeça com conversas inúteis, planos inúteis, assuntos inúteis, pessoas inúteis. Nenhuma delas a preenchia. Nenhuma delas lhe servia.

Odiaria cada minuto daquele dia. Odiaria a si, àquele vazio, a si. Relutante, desligou o despertador e se levantou.

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