Archive | março, 2010

A luz que queima os olhos – Parte final

26 mar

Parte 1 aqui.

As luzes da árvore de Natal passaram para as luzes vermelhas e azuis das sirenes da polícia. Catteryn se viu observada por uma multidão de curiosos conforme era levada para uma das viaturas. Na multidão, reconheceu o homem que salvara sua vida.

– Acha que pode falar sobre o que aconteceu? Não está cansada, mocinha?

A voz era de uma mulher; a sala era de interrogatório. Detetive Bennet, ela podia ver no crachá que trazia uma foto antiga da mulher com quem falava. O braço estava fortemente enfaixado, mas três rastros de sangue se viam pela gaze.

Catteryn queria falar; talvez assim, parte da dor fosse embora. Talvez falar a ajudasse a entender o que aconteceu.

Acordara no meio da noite. Desceu as escadas, pensando que surpreenderia o pai comendo os biscoitos da árvore de Natal, e encontrou o copo quebrado. Na sala, viu primeiro a mão da aliança; Depois, o seu pai, caído, inerte. E então a voz da mãe, parecendo implorar a alguém.

– E o que ela disse?

Não lembrava. As palavras não tiveram nenhum sentido, Lembrava-se apenas das vozes, e da pessoa que atacara a sua mãe. Não viu nada, apenas uma forma que tentou agarrá-la. E então alguém chegou atirando.

– Você viu o homem? Os policiais disseram que você falou de um negro. Poderia descrevê-lo?

Veio-lhe à mente a imagem do homem que a observava na multidão. Era alto, usava uma jaqueta pesada, coturnos militares e uma calça jeans surrada. Tinha o rosto marcado e um cabelo curto, estilo militar. Ele lhe salvara a vida. Mas não adiantaria dizer isso à detetive Bennet. Eles queriam um culpado; e o primeiro a ser procurado seria o negro que entrou na sua casa atirando.

– Não, estava escuro. Ele só gritou que eu ficasse lá e saiu correndo atrás do… do outro.

– Tudo bem, não se preocupe. Se você lembrar de alguma coisa, qualquer coisa, pode nos procurar. – a mulher forçou um sorriso, talvez por pena. – E esse seu braço, não está ponteado por quê?

– O médico falou algo sobre uma infecção. Disse que ia demorar a sarar.

Ela não fazia idéia do quanto.

**********

Estava correndo. O peito arfava, suas pernas parecendo não conhecer limites para o esforço. Sentia nos pés o sangue ainda quente do pai.

Olhou para trás, mas já não havia luz. A árvore de Natal estava derrubada, e a escuridão era quase palpável. Apenas ouvia a respiração e os passos arranhando o assoalho. Estava perto, muito perto, cada vez mais perto.

Continuou correndo, mas ele a alcançou. Segurou-a pelo braço e uma dor lancinante percorreu-lhe o corpo. Não conseguia mais se mover, não havia mais porque. Olhos amarelados, fendidos como os de um gato, a encaravam, deliciados com o medo da menina. Catteryn gritou, sabendo que ninguém a escutaria. E acordou.

– Outro pesadelo, menina?

Os faróis do carro iluminavam a estrada. A escuridão se estendia, e as luzes da cidade já não podiam ser vistas pelo retrovisor. Pela manhã, já estariam fora do Texas. Kate olhou para motorista pelo retrovisor: sisudo e sério, o homem negro de cabelo curto não devolvia o olhar.

– É, outro pesadelo. – respondeu. – Gregor, como você sabia… daquela coisa que nos atacou?

– Ocorrências parecidas anteriormente. Agora volte a deitar no banco. A última coisa que eu preciso é ser acusado de sequestro.

Kate afundou no banco revestido de couro. Era um carro velho, mas os bancos eram confortáveis. Os pesadelos não parariam, e tinha certeza, embora não soubesse o porquê, que a coisa voltaria um dia. Não estava segura com seus tios, não estaria segura sozinha. Gregor, ao menos, parecia saber um pouco mais. Mas não era do tipo que falava muito.

Não importava. Ela teria muito tempo para pedir explicações.