Arquivo | maio, 2010

Sobre fantasmas e heróis

7 maio

All my heroes have now become ghosts
Sold their sorrow to the ones who paid the most
All my heroes are dead and gone
But they’re inside of me, they still live on

(Heroes – Shinedown)

Tudo começou com uma moça bonita batendo à sua porta. Falando alguma coisa sobre ser jornalista. Estaria mentindo se dissesse que escutou o que ela disse no começo. Algo sobre estar fazendo uma matéria a respeito dos acidentes na estrada.

E então ela usou a palavra: assombração. Fantasmas, e coisas assim. Então ele escutou. E contou o que sabia. Sobre o acidente que quase o matou, e que o fez ter medo de sair de casa desde então. Há quatro anos. E que ela, Rebecca, o fantasma, queria se vingar dele. Por motivos extra-conjugais.

Agora, sendo interrogado pela polícia, Richard nem mencionara a moça que lhe salvara a vida. Para eles, tudo não passaria de um satanista que profanou o túmulo da sua ex-namorada. No fim, restaram duas pessoas mortas: um rapaz, que Rebecca, manipulada, matara, e que seria arquivado sem solução; e um faxineiro que ele nunca vira na vida, mas que, de algum modo, controlava Rebecca.

Ser filho de um juiz, nessas horas, ajuda. Sabia que tudo daria certo. E nem precisou falar de nenhum fantasma. Quando foi liberado, pegou o celular e mandou uma mensagem.

**********

Kate conseguia entender um fantasma vingativo. O que não quer dizer que gostasse deles, mas conseguia entendê-los. Eles tinham um motivo para voltar do além e buscar vingança, ou proteger alguém, ou qualquer coisa assim. Não precisavam ser bons motivos, mas eles tinham.

Mas as pessoas, bem, essas ela estava longe de entender.

Diante do espelho enferrujado do banheiro, ela olhava o hematoma no rosto. Uma mancha roxa se espalhava próxima à orelha. Inventaria uma desculpa qualquer.

No braço, um ferimento mais profundo, feito à faca. A mesma faça usada para abrir cortes do corpo de Rebecca, o fantasma vingativo que, meio sem querer, Kate destruíra. Depois de meio vidro de álcool derramado e muitas caretas de dor, ela esperava que estivesse limpo.

Fantasmas existiam; ela testemunhou. E o rapaz, que tentou tão desesperadamente salvar, seria enterrado amanhã.
Com cuidado, enfaixou o braço. Precisava ficar discreto o bastante para que ninguém notasse sob a roupa. Tinha certeza que se fosse a um hospital levaria alguns pontos, mas esse era um luxo que não podia ter.

– Você fez o que podia. – ouviu Gregor dizer atrás de si. Quase pulou de susto, o que só a fez apertar mais o curativo.
– Não fiz nada. Quatro pessoas morreram graças a isso tudo. – “Inclusive a única que eu achava que valia a pena salvar”, pensou em dizer.
– Pelo menos você não está fazendo companhia a eles.

O toque do telefone a impediu de dar uma resposta adequada, provavelmente envolvendo alguns palavrões.  Era uma mensagem. E, pela primeira vez na noite, sorriu.

Obrigado por me salvar. Richard.

Bem, não é o conto no qual eu estava trabalhando, mas tem a ver com o Hunter High School, certo? Estou desculpada? ;D

Mais um tema da Liga Narrativa – e o de Maio (que espantosamente eu estou postando antes do meio do mês!) é Herói.  E eu ainda estou no aguardo dos textos do pessoal. =]

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