Archive | novembro, 2010

Representação do feminino em Disney

30 nov

Porque mesmo contos de fada podem se atualizar…

Que eu adoro desenhos animados não é nenhuma novidade – tenho uma criança de 24 anos dentro de mim que espero conseguir manter pro resto da vida. Que ela amadureça e aprenda com as experiências por vir, mas que não perca a capacidade de se envolver e se encantar com contos de fada.  Mesmo quando eles se tornam seus objetos de pesquisa.
E em vésperas de estreia de Rapunzel 3D (sim, faz tanto tempo assim que não atualizo o blog), e enquanto escrevo sobre a primeira princesa Disney, Branca de Neve, me pego pensando em como meios de reprodução cultural conseguem se atualizar, embora mantendo o “politicamente correto” e continue propagando a defesa de certos valores.

Isso não é bem politicamente correto...

Para tanto, basta levar em conta o recente A Princesa e o Sapo (2009) e o Branca de Neve e os Sete Anões (1937) (uau, 72 anos!). Walt Disney criou, sem sombra de dúvida, uma nova forma de encarar a animação. Juntou música ao cinema e construiu o jeito “Disney” de fazer desenhos animados. Claro que contra seu estilo surgiram outros, o que, a meu ver, apenas enriquece a linguagem, mas não podemos negar que ele tinha visão. Toda garota quis ser uma princesa Disney um dia (Bela é, de longe, a minha favorita, seguida de perto de Jasmim), e seu modo de visualizar os personagens influencia diversas outras versões das histórias, mesmo quando elas têm o intuito de subvertê-las.Vejamos, porém, como o mesmo estúdio se adapta aos novos papéis sociais desempenhados por suas heroínas.

Branca de Neve é meiga, bondosa, e, para nossos padrões, extremamente passiva. É caçada pela madrasta, que tem inveja de sua beleza inigualável, e em momento algum deseja vingança ou recompensa pelos seus bons atos. Casa-se com seu amado e, ao final, vai embora em seu cavalo branco rimo ao castelo, onde terá seu “felizes para sempre”. A madrasta morre enquanto tenta fugir dos anões, seguindo a máxima de que “o mal se destrói por si mesmo”.

"So whistle when you work..."

Claro que devemos pensar no contexto em que o filme foi produzido, bem como as possíveis intenções dos idealizadores. Final da década de 30, a mulher ideal devia dedicar-se à casa, e tudo o mais. E esses valores estão reproduzidos no filme de forma pouco sutil, através de uma Branca de Neve que arruma a casa para anões órfãos, que os manda lavar as mãos antes das refeições, e que se deixa enganar pela sua rival quando esta lhe oferece uma suposta “maçã dos desejos”.

Em contraposição, temos Tiana, uma moradora de Nova Orleans… espera aí, é um cenário real? Um conto de fadas que se passa em uma cidade real, e que faz referências à cultura local, inovando com músicas de jazz e afins? Não é a primeira vez que Disney tenta essa atualização, claro. Encantada (2008) faz isso muito bem, inclusive, subvertendo a linguagem tão específica dos filmes do estúdio, quando o interesse romântico da personagem reclama: “Não, sem cantar de novo! Ei, mas e por que estão todos cantando e dançando com ela?!”. As referências se dão de maneira caricata, não dá para negar, mas… é um começo!

Mencionei que ela é uma princesa negra?

E Tiana, uma moça órfã de pai, sonha em ter seu próprio restaurante. Trabalha três expedientes para juntar o dinheiro e sequer pensa em casamento, concentrada em sua vida profissional. Até aqui, são dois arquétipos bem diferentes sendo representados. A atual, com um espírito mais independente, acredita que qualquer recompensa deve vir do seu trabalho.

A atualização se torna necessária. Afinal, a criança – os filmes se destinam principalmente ao público infantil, não se pode negar – não raramente é filha de mãe solteira, ou filha de mãe que trabalha fora. O arquétipo da dona-de-casa exclusiva não é a regra atualmente, e não convenceria totalmente. Temos aí a necessidade mercadológica, pois o púbico precisa identificar-se com a história contada. E por público, entenda as crianças e os pais das crianças que vão levá-las. E claro, o público que cresceu assistindo os clássicos Disney e que vai continuar assistindo todas as charmosas animações.

Outros filmes – e aqui eu me limito apenas ao cinema, por ser o mesmo campo de comparação que comecei – já fizeram isso. Shrek é um exemplo clássico de paródia aos contos de fada, começando pela princesa que luta kung fu, bem como todas as outras referências às princesas Disney (Branca de Neve sendo levada pelos passarinhos da floresta, por exemplo, foi particularmente engraçado). Mas o importante é notar que mesmo produtoras clássicas (ou politicamente corretas) se deram ao trabalho de realmente adaptar histórias ao seu público. Mais uma vez, reforço a questão do contexto; são 73 anos de diferença, afinal!  E ainda assim, penso ser interessante observar esse tipo de evolução nas representações.

É isso, pessoal! Nada de novos textos por enquanto, mas não pensem que não pretendo voltar. 😉