Demônios da Noite

1 dez

As vozes se tornaram habituais. De gritos, tornaram-se sussurros, rastejando pelas entranhas de sua mente. Keriann não sabia o que era pior. Os gritos eram assustadores, mas ininteligíveis. Já o que aquelas criaturas sussurravam, ah, ela compreendia muito bem. Mate-os, eles não merecem sua confiança. Traidores. São demônios. Querem eviscerar seu corpo e mente, seu rosto, seu arco. Retese seu arco, espere-os cair de cansaço e atire. Atire. Atire. Faça-os ouvir a canção do inferno através da corda do seu arco. Atire. Mate.

Os sonhos, certamente, eram os piores momentos do dia. Passou a dormir apenas quando o cansaço a exauria, e acordar ao primeiro raio de sol da manhã. Via as criaturas disformes saírem das sombras, lançando seus longos braços e garras e pústulas em sua direção. A sensação de estar presa, amarrada a um leito de sangue, carne e entranhas. Gritava, gritava alto, sentia a garganta ressecar da sua própria voz, mas como das outras vezes, ninguém a ouvia. Até escutar a voz familiar de Lyon chamando seu nome. Primeiro, como um sussurro inaudível. Depois, como a chama de uma vela no meio da escuridão profunda: trêmula, fraca, e, no entanto, ainda a guiá-la. E então, acordava.

Naquela noite, sabia que não seria diferente. Nos becos da cidade de pedra e madeira e tijolos e mercadores e guardas, as formas rastejavam. Eles não estavam lá, sabia que não estavam, ou era o que queria acreditar. No coração de Portsmouth, reino que não mantinha boas relações com Bielefeld, a arqueira olhava desconfiada. Na casa de Lady Rowena, esposa de Darius Drakkan, homem que aprendera a odiar, e a quem agora todos pareciam dever favores ou estar aliados, na casa daquela bela mulher, não seria diferente, ela sabia. As criaturas, os chamados demônios da tormenta, poderiam estar em qualquer lugar. Keriann sabia disso.

Olhando da sacada da janela, viu os criados colocarem os cavalos para dentro. O pequeno pátio abrigava alguns guardas, e à distância, aproximava-se um pequeno destacamento. Guiando-o, um cavaleiro vestindo armadura e peles. Howell – um dos dois esposos de Vento. Criaturas da Tormenta poderiam não estar naquela morada, mas outros diabos intangíveis abrigavam-se nos recantos das paredes decoradas, como orgulho e ciúme.

Resolveu esperar. Tinha seus próprios problemas para enfrentar aquela noite.

Para devolver parte da sanidade da arqueira, Vento, nome druídico da mulher que conheceu por Aillah, teve que abrir mão de sua própria. Keriann sabia disso, e agora as duas partilhavam visões que ninguém mais poderia entender. Mas o que Vento teve foi apenas um vislumbre da Loucura e do Terror.

Sorriu, consolada. Seria melhor assim. Não desejava nada daquilo para ninguém.

Deitou-se na cama confortável, com lençóis imaculadamente limpos. Encarava o teto de pedra do solar, imaginando o trabalho que deveria ter sido construir aquele lugar, considerado “modesto” por sua dona. Modesta. Modesta era a cabana em que morara, há… um ano atrás? Dois anos? Já não podia precisar o tempo. Resolveu que viveria dia após dia, conforme as coisas fossem acontecendo.

Fechou os olhos, exausta. Queria que a Noite levasse seus tormentos embora, queria partir, para onde? Não importava, não mais. Não haveria lugar para ela, haveria? Talvez não devesse ter saído da ilha… não, a ilha não, aquele lugar não. Mas e se perdesse o controle de novo, e se levantasse o arco para eles, mas não seria capaz de fazer isso, não, não seria. Keriann, a pobre criança? Criança? Já não era criança há muito tempo, e sabia disso. Sabia. Sabia que eles estavam lá, à espreita, esperando que dormisse, que fechasse os olhos, que não resistisse ao cansaço e adormecesse…

Um ranger de porta a trouxe de volta à realidade. Os lençóis em desalinho comprovaram que estivera dormindo, mas não mais. Procurou o arco às cegas, no meio da Noite densa e escura, a Noite que envolvera todo o quarto enquanto ela dormia. Maldição.

Sussurros. Envolveu o arco com a mão e encontrou a aljava. Pelo leve barulho que fazia, pôde deduzir a localização do seu alvo, e como caçadora, antes que pudesse pensar, a corda balançava, a seta disparada, o gesto tão natural. Não conseguiu evitar de sorrir ao grito agonizante da criatura.

Mas haviam outros, e seus sentidos falharam em percebê-los.

Rápido como o vento que agora entrava uivando pela janela, sentiu-se ser arremessada contra a parede. O ar escapou-lhe dos pulmões, mas conseguiu manter o arco em punho. O pescoço agarrado pelo braço esquálido da criatura, Keriann podia sentir os nós dos dedos apertando-lhe as artérias. Não tinha espaço para atirar, mas o bom caçador sabe que não é apenas com flechas que se abate uma presa.

Os braços livres, levantou o arco na direção do rosto de quem a agarrava e sentiu-o fraquejar. Rapidamente se livrou dos dedos nodosos e caiu no chão, tateando em busca das setas que se espalharam pelo tapete. Agarrou quantas encontrou e com a velocidade adquirida nos campos de batalha, saltou uma saraivada por todo o quarto. Gritos e grunhidos cortaram-lhe os ouvidos, e pensando ter ganhado tempo, saiu em disparada para a porta. Sentiu uma mão repleta de garras segurar-lhe a perna e levando-a ao chão.

Dessa vez, não consegui segurar a arma.

Gritando, acordou repleta de suor. Era o mesmo quarto, a lua brilhando lá fora, a brisa gentil a refrescar a pele suada.

Um sonho, mais uma vez. Enquanto acalmava o coração, que mais parecia uma parada militar desgovernada, uma dor aguda fez com que levasse a mão ao abdome.

Sentiu o líquido quente entre os dedos e o cheiro férreo subir-lhe as narinas. Sangue.

Os olhos azuis arregalados, olhou em volta. Flechas espalhadas, algumas cravadas na porta de madeira, outras quebradas conta a pedra das paredes.

Sufocou um grito, horrorizada. Eles estiveram ali. E não a esqueceram.

  • Keriann é uma personagem de um jogo de RPG, de uma campanha que está às portas do fim (chiuf!). Sei que a maioria das pessoas não vai entender muita coisa, afinal, é algo feito com o bonde andando, mas espero que agrade. Não parei para adicionar “legendas” nem comentários didáticos, porque, pessoalmente, acho isso muito chato.
  • Link da imagem: Nightmare, por Trixis.
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3 Respostas to “Demônios da Noite”

  1. Dan Ramos dezembro 1, 2010 às 2:40 am #

    Adorei! Embora dê dó da bichinha sofrer assim. O pior é que pra ela não tem muita melhora, vai ficar assim pro resto da vida. =P

    Vou te confessar que se não fosse o desgaste, não acabava a campanha nesse momento. =X

  2. demhg setembro 7, 2012 às 5:00 am #

    Eu naõ lir mais senti o crima

  3. denize setembro 7, 2012 às 5:03 am #

    EU AMEI SO QUE A MENINHA E LINDA

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