Archive | maio, 2011

Aniversários

25 maio

Danna, Toshio, Alastar, Keileen e Rogar

A música corria pelo salão, o cheiro de comida impregnando toda a casa. As servas se apressavam de um lado para outro, conversas, pratos, talheres. A chuva de outono não permitiria a festa do lado de fora como ela gostaria, mas não havia do que reclamar. Aos dezesseis anos, era sua primeira festa de aniversário.

– A debutante não vai aproveitar a festa? – a conhecida voz falava atrás dela, amigável e carinhosa. – É o seu presente, afinal de contas.

– E eu nem tenho palavras para agradecê-lo, milorde. – Danna se virou, sorrindo largamente. Usava um vestido em tons de verde, ressaltando os olhos da mesma cor. Sardas pontilhavam o rosto e os ombros à mostra, os cabelos negros presos em uma trança-raiz, que, esperava-se, não se soltaria durante a noite.

– Apenas divirta-se, pequena. É o melhor obrigado que você pode me dar.

– Eu havia pensado em outra coisa…

Ela se aproximou, mordendo pouco discretamente o lábio inferior. Nos olhos, parcamente escondido pela maquiagem, desejo. Victor Aerathis, seu lorde e senhor, aquele que a salvara dos seus irmãos de criação. Galanteador, mulherengo e aventureiro famoso. E que, por algum motivo, ainda não a tomara nos braços e na cama.

– Desça para a festa, criança. – era assim como a chamava quando esses assuntos vinham à tona. – Depois nos falamos.

*****

A chuva castigava o vilarejo de meio de caminho impiedosamente, trazendo também pancadas de granizo. Uma das precipitações mais violentas acordou Danna, que se limitou a abrir os olhos. No abdômen, o ferimento do dia anterior ainda doía, e o corpo pedia descanso da longa viagem. Ao menos teria a desculpa para não continuarem a viajar.

Na verdade, queria voltar a dormir. Apagar pelo dia inteiro para que ele passasse logo. Era o dia do seu aniversário, o primeiro longe de Allania, de Redskull e de Victor, seus dois pais. A vida era mesmo cheia dessas pequenas ironias.

– Danna-chan? – a voz do oriental, sempre discreto e furtivo, do outro lado do quarto. Sentiu-o pousar a mão calejada no ombro com sardas e cicatrizes. – Já acordada?

– Pela bunda de Valkaria, como você sabe? – perguntou sem virar o rosto. Estava frio, estava sem ouro nos bolsos, no meio de um buraco lamacento que não merecia ser chamado de reino, e estava triste.

– Você… respira diferente. – limitou-se a responder, a expressão impassível, como sempre. Nunca conseguiria deixá-lo com raiva? – O tempo será pesado pelo resto do dia. Como está seu ferimento?

– Doendo. Não seguiremos viagem. E além disso, preciso reparar a armadura. Amanhã partimos.

– Me deixe ver.

Virou o corpo na cama, mal humorada. As bandagens avermelhadas de sangue indicavam a ferida ainda aberta. Toshio retirou o curativo com cuidado, os olhos puxados concentrados. Pressionou a área ao redor do corte que atravessara a cota de malha, recebendo um ranger de dentes em resposta. Doía.

– Uma pequena infecção. Nada grave, mas você precisa de repouso, e deve manter a ferida limpa.

– Você pode fazer isso?

Hai. – sem dizer mais nada, saiu, provavelmente para buscar o material. Danna sorriu, carinhosa. Ele reparava nas pequenas coisas, entonações de voz, verdades não ditas. Não perguntaria nada, ela tinha certeza. E talvez por isso, gostasse tanto da companhia dele.

*****

Victor atentava para os detalhes, e isso a agradava. A lareira acesa em uma noite particularmente fria de outono, e as mesas recostadas às paredes abriamespaço para a dança. O banquete já ia avançado e a música continuava. Chamar os artistas de bardos era bondade, mas eram músicos de algum talento. As chuvas enlamearam as estradas, e poucos se dispuseram a fazer a viagem.

Danna, porém, não se importava com aquilo. Estava radiante, dançando com Redskull, o cavaleiro enorme que a fazia de boneca no meio do salão. Àquela altura, já dançara com as amigas, com as servas que derramaram cerveja pelo chão e pelos vestidos, e entre os passos da dança improvisada, lançava olhares a um dos músicos, o mais apresentável deles. Tinha os cabelos nos ombros, escuros como a asa de um corvo, e um sorriso bonito. Só era um pouco magro demais. E entre os olhares, reconheceu nele a mesma expressão que dirigira a Victor antes da festa: desejo.

Talvez fosse divertido, afinal. Largou o pai, enorme e desajeitado, sentado a uma mesa e voltou ao salão. Lançara o desafio ao forasteiro, ao passo que, de soslaio, espiava lorde Victor. Ele era o presente que ela almeijava, mas, por enquanto, podia se contentar com o outro.

– Boa noite, jovem dama. Seu pai por acaso não vai brandir aquele machado enorme caso eu a convide para dançar, vai?

*****

Curativo refeito, humor melhorado. Não poderia celebrar seus vinte e três outonos com bardos e outros luxos, mas sabia que Victor gostaria de vê-la feliz. “Uma vez no inferno, dance com os diabos. Eles sabem fazer uma boa festa”, diria se estivesse ali. Certamente o inferno deveria ser um lugar melhor que Lannestul, mas Danna pensou que, em vida, seria o mais próximo do que ela chegaria.

Negociou com Eseld, a dona da estalagem em que estavam hospedados, um jantar com comida à vontade e um barril de cerveja por oito moedas de ouro. Mais as dez moedas do conserto da armadura, mais o que teria que pagar de estadia, e um par de novas roupas para viagem não fariam mal. É, precisaria arrumar um trabalho logo.

Mas era seu aniversário. Dar-se-ia ao luxo de não pensar sobre pragmatismos naquele dia.

– Chefa? – a voz de Keileen, chegando ao salão da estalagem, agora vazio. O andar gingado da ruiva denunciava que, apesar da pouca idade, ela já tinha visto muitas batalhas. – Tá melhor? Pode ser que a gente tenha trabalho.

– Trabalho do tipo que paga?

– E tem outro tipo de trabalho? – a meio-elfa sorriu, descontraída. – Mas eles querem falar com a chefa, pra variar. Ficaram de vir aqui no jantar.

– Bem, não vamos deixá-los esperando. Vamos até eles. – sorriu, levando a mão à espada. Não trataria de negócios em uma noite na qual provavelmente beberia até perder a memória. Não cairia bem a uma bem-nascida, afinal.

*****

Os lábios se roçando, o cheiro do vinho embalando o movimento dos dois corpos. A música minguava distante, a noite já alta, e com a maioria dos convidados dormindo. Os dois bailavam em outro ritmo, próprio, só deles, compassado, em um encaixe quase perfeito. Ele, experiente, explorava o corpo da jovem, passeando sem muita pressa. Ela, sedenta e agressiva, com o vigor e a impulsividade da juventude, mordia, cravava as unhas cuidadosamente tratadas para a noite do seu aniversário.

Abraçaram-se. No chão, as roupas finas de festa, desalinhadas e largadas, esquecidas. Aquele era o presente que desejava para a noite, que não poderia terminar melhor. A dança continuou, ávida, constante, crescente, inebriante. Danna mordeu os lábios, apertando-se mais no abraço e estremecendo. Fechou os olhos e se entregou ao momento, como nunca fizera antes. Amou-o. E sabia que, de alguma forma, ele também a amara.

*****

– Por que nós ganhamos comida de graça hoje? – a voz do guerreiro retumbava à mesa. Rogar era um homem inegavelmente grande, com mais músculos do que cérebro, e dono de uma habilidade inegável com o machado. – Podiam arrumar umas mulheres também!

– Eu não gostaria de mulheres. – protestou Kei, já alta pela bebida. – Ficaria satisfeita com uns homens diferentes dos feiosos de sempre. E por que você não vai atrás de umas mulheres pra você e pro chifrudinho aqui?

O “chifrudinho” era Alastar, o que Danna sabia ser tiefling, um herdeiro distante dos demônios que caminharam pelo mundo há séculos. Victor havia lhe falado brevemente sobre eles, o bastante para ela saber que eles são tão maus quanto qualquer pessoa. Ou seja: podem ir do melhor ao pior. E Alastar tinha olhos tão torturados que Danna imaginava que ele não lhes faria mal.

– Eu acho que posso escolher as mulheres sozinho, sem a ajuda de Rogar. – comentou o arcano, claramente sóbrio. O capuz cobria-lhe os relevos na testa, mas eventualmente deixava notar os olhos brilhantes.

– Mas eu posso lhe dar uns bons conselhos, mago! Eu já falei sobre a pérola?

As conversas continuaram, e Danna sorria. O ferimento dormente pela bebida. Para os próximos dias, trabalho. Para a noite, que mal começara, um banquete e diversão. Não podia reclamar, apenas torcia que, diferente das outras bebedeiras, aquela não terminasse com cadeiras e ossos quebrados.

– Danna-chan? – a voz sempre baixa de Toshio. – Podemos conversar?

– Conversar ou… conversar?

– Ambos… se você quiser. – respondeu com um meio sorriso.

– Eu não poderia pensar em um final de noite melhor. – concluiu com um sorriso largo.

Essa é a minha participação na Liga Narrativa (que devia ter sido de abril, mas… enfim), com o tema de Festas. Danna é uma personagem de um jogo de RPG guiado pelo Dan Ramos, autor também da ilustração acima. Danna Aerathis é a filha bastarda de Victor, que descobriu sua herança na ocasião da morte do pai.  Após conflitos com o governo do reino, que  não a reconhecia como filha legítima para herdar as terras, fugiu e hoje vive vendendo sua espada. Você pode ler outros contos sobre ela aqui e aqui.

Outros membros da Liga que participaram da brincadeira:

Italo – Cylon Party

Mário (Jagunço) – Diálogos Feéricos

Marlon – Fim de festa