Archive | junho, 2011

Despertar

2 jun

– Liberdade. Você me promete?

Sorriu com a resposta que só ele poderia ouvir. Olhos fechados, os cabelos brincando com o vento, agradecendo o afago que recebiam. O corpo frágil parecia também querer ser levado embora, vestido apenas com o retalho branco que usava há muito tempo. Tanto que já não conseguia precisar. Meses, dias, semanas. Anos, talvez?

Continuou sorrindo diante da própria tolice. Nada daquilo importaria mais. O céu abria-se diante dos seus olhos, agora abertos, agora capazes de ver. Uma calma real o invadiu, sensação da qual já não lembrava. Carregando uma certeza absoluta, talvez pela primeira vez na vida, lançou o corpo para fora da janela.

****

Foi com esforço que se levantou aquela manhã – efeito dos remédios, tinha certeza. Demorava cada vez mais a acordar, e era sempre um sono limpo, apenas ele e a escuridão. Ainda por cima, passava o resto do dia sonolento. Pensava que, qualquer dia desses, poderia não despertar de novo. A ideia não o desagradava de todo; depois dos remédios, as visões diminuíram, era verdade. Mas também minguava seu interesse por qualquer outra coisa: leitura, estudo, pessoas. Vivia em um estado que não se importava se estava ali ou não.

E se era assim, por que simplesmente não parava de tomá-los?

Paulo tinha medo, esse era o motivo. Medo do que o espelho lhe guardava, do que os sonhos lhe reservavam quando voltasse a tê-los. Medo que escondia sob os cabelos negros, quase sempre desgrenhados. Sob as roupas desleixadas, amassadas e sem muito cuidado. Sob sua incapacidade de encarar espelhos.

Detestava-os. Evitava encará-los por mais tempo do que o necessário, pois, sempre que se distraía com sua própria imagem, eles estavam lá. Às vezes, de relance, fortuitos. Em outras, a visão era aterradora demais para que fizesse qualquer sentido.

Os olhos azuis encaravam o computador, exibindo a tela padrão do programa da loja de sua tia. O toque gelado na sua mão o fez estremecer e voltar a si. Automático, pegou a maquineta de código de barras e efetuou a venda. São R$ 53,29, senhora. Conferiu o troco duas vezes. Tenha um bom dia.
Fingiu não notar o olhar preocupado da tia do outro lado do balcão. Sabia que ela o chamara para trabalhar apenas para tirá-lo de casa, de onde não saía desde que o tratamento havia começado. Olhou-a e forçou um sorriso rápido. Ela pareceu constrangida, mas retribuiu o gesto.

– Como está se saindo, querido?

– Me atrapalhei com os cartões, mas acho que está tudo bem. – respondeu, voltando o olhar para o monitor. Gostava da tia, e a semelhança com a mãe até o divertia, mas não acreditava que se importava com o que ela pensava.

– Não é disso que eu estou falando. Seu empenho eu posso ver, Paulo. Mas… – parou, como se procurasse as palavras. Inspirou brevemente e continuou. – Mas como você está se saindo aqui fora?

– Eu estou bem, tia. – olhou-a de volta, o mais normal que poderia parecer. O que exatamente ela queria dizer com “aqui fora”? – Não precisa se preocupar, eu estou bem. Quando não estiver, a senhora vai saber.

– E o trabalho? – Léia perguntou depois de algum tempo, sem conseguir disfarçar o constrangimento.

– É chato, repetitivo, mas ajuda a ocupar a cabeça.

****

Sob chuva, voltaram para casa aquele dia. Os fones de ouvido isolavam-no da MPB da tia, do barulho do motor e o mantinham acordado. A sonolência chegou repentina, e a chuva não ajudava. O fone de ouvido também inibia qualquer tentativa de socialização de Léia, o que já era grande consolo.

Despediu-se quando o carro parou e não esperou a resposta. Correu para o portão, sacando as chaves do bolso, e entrou em casa meio molhado. Sem se preocupar em cumprimentar ninguém, foi para o quarto. Tirou os tênis sem desamarrar os cadarços e desabou no colchão. Logo foi abençoado pela inconsciência do sono.

****

Os pés roçavam a terra afofada, afundando-se nela sem cerimônia. O cheiro de terra molhada invadia-lhe as narinas, indicando que devia ter chovido há pouco tempo. A lua erguia-se enorme no céu, banhando em prata as gotas de água na folhagem espessa da floresta que se abria diante dos seus olhos.

Os sonhos haviam voltado. Sabia que as visões também.

Não teve tempo para ponderar, porém. Primeiro, uivos, seguidos de um latidos indicando altos e em diferentes tons. Relinchares altos, trote desesperado de cavalos e um leve tremor sob seus pés indicaram-lhe que precisava fugir dali. Sem entender bem o porquê, correu para a mata.

É um sonho, repetia para si mesmo, enquanto corria desesperado. E sonhos não precisam fazer sentido. Logo acordaria em cima da cama, e estaria tudo bem.  Os galhos se quebrando sob seus pés, ou machucando seu rosto e braços, o faziam duvidar dessa certeza tão óbvia. Sentia o suor escorrendo, grudando no corpo inteiro; o calor abafado no coração da floresta, ausente de vento; a profusão de galhos e folhagens que pareciam querer atrapalhar-lhe a fuga.

Fugia. De quê? Não se atrevia a olhar, não queria constatar o óbvio: estava enlouquecendo. Vozes se juntaram aos relinchos, cada vez mais altos, mais próximos. Quase podia sentir o hálito quente dos animais na nuca. Risadas, gritos, grunhidos. Clangor de metal, emitindo um zunido que parecia capaz de estourar-lhe os tímpanos. Eles estavam vindo, e ele precisava sair dali.

Continuou correndo, adentrando cada vez mais na floresta, que se fechava ao seu redor. Poucos eram os raios de luz que conseguiam atravessar as folhagens pesadas. Com esforço, Paulo puxava o ar para os pulmões, arfando. O desespero o impediu de ver as altas raízes de uma árvore enquanto corria. Tropeçou e caiu sonoramente no chão.

Com os olhos arregalados de terror, vislumbrou seus algozes. O líder, uma criatura enorme, com o dorso de um cavalo e o resto do corpo de homem, encarava-o com um sorriso perverso de ódio. Olhos vermelhos e fumegantes, um rosto quadrado e largo. Em uma das mãos, uma espada de lâmina larga que emitia um estranho brilho azulado.

Atrás, seu séquito. Mais cavaleiros montados, cobertos da cabeça aos pés por um manto escuro moldado das sombras da noite. Outros monstros a pé, com a pele esverdeada e cheia de pústulas, de mãos desproporcionalmente grandes, com garras que se arrastavam na areia enlameada. Cães enormes, de patas esquálidas e olhos de um brilho azul faiscante.

– Finalmente nos encontramos, Alberon! – o líder cuspia as palavras numa voz retumbante. – E dessa vez sua magia simplória não o salvará.

– O que quer de mim? – Paulo gritou, a voz esganiçada pelo medo e pelo cansaço. – Me deixe em paz! Saiam daqui!

O pé doía de forma aguda, e sentia o sangue escorrer de um ferimento no calcanhar. A queda havia sido mais grave do que imaginava. As criaturas o encaravam, cercando-o, aproximando-se lentamente. Um dos cães avançou com um salto, abrindo a bocarra na direção do rosto do rapaz. Por instinto, Paulo levantou o braço, e sentiu as presas arranhando a pele. O líder, porém, tomou a frente, impedindo o avanço dos outros.

– Ele é só meu!

Rapidamente, o ser com patas de cavalo brandiu a espada colossal, descendo a arma na direção do peito do rapaz. Uma outra voz, claramente feminina, proferiu palavras em um idioma desconhecido, mas estranhamente familiar para Paulo. Um raio flamejante então cortou o ar, iluminando toda a turba por alguns instantes, e atingindo a criatura, que berrou de dor. O golpe, porém, ainda atingiu seu alvo.

Paulo sentiu a lâmina zunir pelo ar e cortar sua carne na altura do abdômen sem muito esforço. A dor o atingiu de súbito, intensa e incapacitante. Afundou o corpo na terra suja, gritando de dor. À distância, vislumbrou uma mulher em um vestido vermelho e cabelos compridos vindo em sua direção. Quem seria? Não sabia, mas estendeu-lhe a mão debilmente, antes de cair inconsciente mais uma vez.

****

Arrastava-se para a parte interna do castelo, embora a luta prosseguisse fora das muralhas. Lorde Alberon estava prestes a morrer, sabia disso. Seu sangue, sua essência mágica se esvaía em abundância do ferimento no abdômen. Ferro frio, uma liga rara de couro de dragão e ferro convencional.

Segurando-o por um dos braços, sua esposa, Promethea. Uma fada, a mais bela de todas, ajudava-o. Sua expressão denotava claramente a preocupação e o medo que carregava. Temia pelo Reino, pela batalha, e pelo seu marido. Mas sabia o que precisava ser feito, e sabia das consequências se não o fizesse.

Os olhos cor de âmbar do lorde feérico passeavam pela enorme sala decorada com os símbolos mágicos adequados. Tudo perfeito, tudo correto. Ele mesmo preparara, dias atrás, o ritual. Os augúrios sobre sua queda não falharam. Os outros magistas estavam ali, a postos para começar, apenas aguardando a invocação inicial.

Derramou-se no chão, sem forças para ficar de pé. Respirou fundo e, no tom mais alto que pôde, proferiu as palavras do complicado encantamento. Seu corpo feérico, sidhe, pereceria como toda matéria sem essência. Sua alma imortal, porém, não seria presa a uma arma vulgar de ferro frio. Estaria a salvo, em um plano longe dali, alojada no corpo de um mortal humano que carregasse, em suas veias, seu nome. No momento certo, despertaria.

****

Paulo acordou gritando para o quarto, de dor e de medo. Então, realmente não passava de um sonho. Gargalhou sozinho da situação. A floresta, a perseguição, nada além de um sonho perturbado.

A porta foi aberta estrondosamente. Sua mãe, descabelada, olheiras e a camisola desajeitada no corpo. Viu a expressão de horror crescer no rosto dela, mas não entendia por que. Puxou o ar para explicar e sentiu o líquido rubro espalhar-se pelo colchão. Seu sangue, de um ferimento na barriga. O pé esquerdo, certamente quebrado. A janela aberta dava para o jardim, e a lua ia alta no céu, indiferente.

****

O corpo, numa posição impossível, esfriava com a madrugada. O médico, agachado, preparava o corpo para colocá-lo na maca. Encarou os olhos azuis de Paulo e suspirou pesadamente. A morte, às vezes, podia ser a libertação.

  • Créditos da imagem: Tatsu-subaru
  • Um doce pra quem advinhar as referências. 😉