Arquivo | abril, 2012

Celulares e a invasão de privacidade

12 abr

Verdade seja dita, nunca gostei muito de celulares. Quando comecei a trabalhar – e, por conseguinte, passar o dia fora de casa, numa fase tão tosca idílica que é a adolescência – meus pais tentaram me empurrar um aparelho herdado por eles. Foi um hábito difícil de adquirir: eu esquecia o bendito em casa, desligava para assistir às aulas e esquecia de ligar quando saía, colocava no silencioso e não lembrava de olhá-lo…

Tudo bem que o aparelho era um trambolho: ele já estava ultrapassado quando me passaram a herança. Tecnologia, essa danadinha, sempre fazendo você desejar o último lançamento do que quer que seja. Mas não era por uma vaidade adolescente imbecil (bem, eu era adolescente, e certamente era imbecil, mas não a esse ponto). O que eu realmente detestava era a capacidade que o celular dava aos outros de me encontrar em qualquer lugar, a qualquer momento, e a suposta obrigação em atendê-lo.

Eu, menina revolucionária, via apenas a opressão naquilo, e as reclamações de quando eu não atendia celular. Os perigos do mundo exterior não tinham entrado ainda na cabecinha vazia – é fácil passar o dia fora, experimentar alguma liberdade e não avisar aos pais que você vai sair com uns colegas de sala para almoçar. Na minha mente simplista, todo mundo sabia onde eu estava: ou no trabalho, ou na escola, ou em casa. Não me ocorria que, caso eu passasse mal, sofresse algum acidente ou qualquer coisa parecida, podia ligar para os meus pais chorando e pedindo para alguém me buscar. Pensava no celular como um invasor do espaço individual, e continuo achando.

Evito ligar para pessoas porque, intimamente, sinto estar incomodando. Sou eu quem quer falar com você, e não o contrário. Essa pessoa pode estar dormindo, divagando no banheiro, tendo momentos íntimos com namorado(a), e tá lá o bendito do celular tocando. Ligo para meus chefes porque não tenho lá muita escolha (questões urgentes que demandam a comunicação, por exemplo), e porque eles me deram essa liberdade. Mas não o faço de bom grado, e posso listar diversos exemplos.

Já me ligaram de duas e meia da manhã (me acordando de um sono muito bom, devo destacar) alegando que tinham anotado meu número em um programa de rádio. Obviamente mentira. Ou o sujeito tinha trocado um dígito e a azarada fui eu, ou é algum infeliz sem coração para ligar de madrugada para mim. Pior foi saber que, depois de umas frases mal educadas, ele ainda insistiu em me ligar. Salvei o número como “Não atenda nem no apocalipse zumbi” e passei a ignorar as chamadas.

(Tenho alguns números salvos na agenda com alcunhas semelhantes, como “Cara chato vendedor de seguros”. Nem lembro de todas as ocorrências, mas quando vejo um “não atenda”, silencio o toque e continuo a fazer o que quer que eu esteja fazendo. E vivo muito bem, obrigada).

Uma colega já deu meu número como referência para o financiamento do carro, e me ligou por volta das seis da manhã de um sábado para informar o fato. Mais uma vez, eu estava dormindo, e de uma daquelas noites bem tardias. Sorte dela que a financeira nunca resolveu me ligar; de vingança, diria que nunca a vi na vida. Ou que era uma caloteira, coisa parecida. Seria criativa.

Há ainda os cassos clássicos que de tão corriqueiros aprendemos a ignorar: no cinema, na aula, e longe da sua casinha de sapê. No meio de uma reunião, você esquece de ativar o modo silencioso e o tema de Game of Thrones toca nas alturas. Seu chefe, simpático, pergunta: “Ah, você assiste também?”. Incovenientes cotidianos que minam sua boa vontade e seu bom humor. Pelo menos, o meu bom humor.

Há quem diga que isso é falta de educação. Penso que, na verdade, a fina arte da etiqueta não estava pronta para receber essa possibilidade de conexão entre as pessoas, tão imediata, tão possível em qualquer lugar. Mas consensos surgem a partir de necessidades, não de possibilidades. E se não começarmos a nos policiar, a tendência é sempre piorar.

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