Arquivo | junho, 2012

Projeto “Adaptação e Leitura”: update #001

29 jun

Como, há alguns meses, postei por aqui uns esboços sobre uma ideia que estava me encafifando e algumas pessoas se interessaram, aqui vão alguns updates do projeto Adaptação e Leitura (rá, arrumei um nome. Não é um bom nome, mas é um nome de qualquer forma).

Como vocês se lembram (ou não), a ideia era, na etapa final, integrar o RPG, através do título Fiasco (publicado no Brasil pela Retropunk). Embora eu não tenha planos de usar os cenários oficiais, mas sim criar um mais adequado, eu ainda pretendo fazer isso, mas não sei se será possível, graças a dois fatores. Um deles, bem objetivo, é o tempo – as reuniões estão ocorrendo quinzenalmente, ao invés de semanalmente (por motivos de ambas as partes, meus e das alunas envolvidas), o que atrapalha um pouco o andamento. O outro, mais subjetivo, vou desenvolver aqui. Talvez uma alma iluminada possa me dar alguma sugestão.

Os primeiros encontros foram, na melhor das hipóteses, desanimadores. Vimos o filme (eu escolhi o Jogos Vorazes, Gary Ross, 2012, por achar que seria mais fácil guiar uma discussão no sentido de crítica às mídias de massa, e daí levar por um lado mais político/social) e a conversa posterior foi… superficial. As leituras não passavam do nível da narrativa, os elementos levantados como mais importantes também não passavam disso. Na melhor parte, houve uma comparação com Crepúsculo (ponto pra mim, pelo menos elas preferiram  Catniss a Bella).

Impossível dizer que não bateu aquele desânimo. Mas no caminho para casa (os ônibus e sua capacidade de fazer a gente pensar), ponderei algumas coisas e relativizei a situação: são crianças com um baixo nível de leitura, e que o contato com narrativas, na maioria das vezes, se limita a telenovelas e uns poucos textos das aulas de português. E elas estavam se esforçando, isso era notório. Então, nada mais justo e eu me esforçar também.

No encontro seguinte, peguei em um ponto do filme que acho particularmente interessante enquanto pessoa, e, por que não dizer, feminista (spoiler, mas só um pouquinho): “Ele está fazendo você parecer desejável, e isso atrai patrocinadores”, disse Haymitch, o mentor do casal protagonista. E assim, as coisas avançaram, passando pela representação do feminino/masculino em anúncios, consumismo e os papéis desenvolvidos pelas mulheres socialmente. E daí, a discussão fluiu melhor. Talvez por só haver meninas na faixa etária dos 13-14 anos, tenha sido mais fácil.

Agora, voltando ao segundo fator, que tem a ver com o RPG, lááá em cima no texto. Como eu disse no primeiro encontro com as alunas, eu quero formar leitores melhores (itálico para designar aquele efeito de destaque na voz). Quero pensar que, ano que vem, quando elas estiverem no ensino médio, elas possam se deparar com um texto e visualizar seus intertextos, seus subtextos. “Ler as entrelinhas”, como se diz por aí. Detectar as sutilezas do discurso jornalístico, as técnicas de argumentação, e usá-las, claro, ao seu favor no enriquecimento do senso crítico.

Certo, eu sou professora de português, é parte do meu trabalho querer isso. E a ideia de usar o RPG era, sim, incitar o lado lúdico, criativo, que também acho que seria de forte atuação no sentido de instigar o senso de leitura além das letras de um texto. Mas também há de se considerar a recepção do público à ideia. As discussões com as garotas estão claramente melhorando, mas não sei se a criação de uma história coletiva teria tanto sucesso.

Mas talvez eu esteja errada, e só fazendo tempestade em copo d’água. Terminada a leitura do primeiro livro,  Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Rocco Jovens Leitores), pretendo propor, inicialmente, uma redação. Dependendo de como as coisas acontecerem, vamos experimentando. E aí, como eu gosto de dizer, “a gente vê o que faz”.