Arquivo | maio, 2014

O sapo

8 maio

Imagem

Meus pais sempre quiseram uma piscina dentro de casa. Enquanto morávamos em apartamento, esse era um sonho impossível, claro. Então nos mudamos para uma casa, e durante muito tempo, outras prioridades foram se sobrepondo. Quase duas décadas depois, com as facilidades de um cartão de crédito e um dinheiro guardado, eles colocaram uma piscina em casa.

Em seguida, vieram os “acessórios”: umas pedras coloridas das quais não sei o nome, plantas adornando os arredores, cadeiras de plástico para tornar o ambiente mais palatável até para aqueles que não quisessem se aventurar nos profundos cento e cinquenta centímetros de água tratada e clarificada. Como qualquer ambiente de uma casa, com o passar dos anos, a piscina passou a ter sua decoração particular. Até que veio o sapo.

Um sapo de cerâmica de mais de um palmo de altura, com assustadores olhos de bolas de gude. Ele tinha um tom de amarelo doentio, com manchas amarronzadas pelo corpo. “É para dar sorte”, dizia a minha mãe. “Ele é pavoroso”, foi a minha resposta.

Eis que ao sapo recém-chegado é dado um lugar de honra: em uma das pontas da piscina, com o intuito de pregar peças aos desavisados que atravessassem o tanque em um único mergulho e emergissem do outro lado – porque a piscina é pequena assim. A ideia foi minha, admito. E ela me rendeu boas risadas.

“Credo, achei que fosse de verdade”, disse uma tia ao conhecê-lo. Rimos e continuamos. Tornou-se um tipo de tradição “prestar honras” ao sapo, sempre após o primeiro mergulho. Uma espécie de pequeno deus do lar, a escultura parecia aumentar, conforme seu ego era alimentado pelos pequenos gestos de respeito. Ela continuava do mesmo tamanho, claro, mas havia algo de… inquietante.

Afastei-me do ambiente, convencendo-me que guardava muito trabalho para os fins de semana, muitas leituras, ou jogos de vídeo-game. A verdade é que o sapo me deixava desconfortável, como se suas bolas de gude me seguissem pelo ambiente. Para o resto das pessoas, porém, era só um… sapo. De cerâmica. Até que um dia ele se revelou.

Era tarde, tão tarde que já dava para fazer aquela piada de “cedo do outro dia”, mas ainda estava escuro. Depois de me despedir dos meus amigos, fui fechar os portões, com todas as luzes acesas, claro. Quando eu já me afastava do quintal, vi algo ganhando forma com o canto dos olhos.

Pensando ser alguma espécie de intruso, quis verificar, embora qualquer pessoa com bom senso devesse se afastar dali. Puxei um dos espetos de churrasco meio enferrujados que ficavam próximos à porta (“Cuidado! E-eu vou te ameaçar com… tétano?”) e tentei notar, entre a grade já trancada, quem estaria andando no quintal da minha casa, perto da piscina. Pude notar uma forma escura se mexendo entre as plantas, sem fazer barulho algum, porém.

Pensei em dar a volta na casa, mas no tempo que eu levasse para fazer isso, quem quer que estivesse lá poderia ir embora ou, pior, notar minha movimentação. Sem perceber, prendi minha respiração, e segurei o cabo do espeto na tentativa de parar a tremedeira. Qual era mesmo o mantra de Arya? “O medo corta mais do que a espada… coisa nenhuma, o medo te ajuda a manter viva, menina, corre daí!”.

Fiquei, e finalmente consegui divisar o que se mexia na área da piscina. A estatueta do sapo continuava ali, parada, encarando a água que se mexia levemente ao sabor da brisa leve. Atrás dele, uma forma muito mais alta, ultrapassando as paredes da minha casa, levantava-se como se despertando de um sono profundo. As papadas negras de sombra subiam e desciam, subiam e desciam, no mais puro silêncio. O único brilho em todo o corpo da criatura gigante estava nos seus olhos, que refletiam azuis no tanque diante dele.

Paralisada, continuei a observá-lo. O que quer que fosse aquilo, já tinha me notado, como pude atestar pelo olhar que a criatura dirigiu para mim. Abaixando a cabeça, ele me encarou. Engoli em seco, muda de pânico, até que ele saltou. Não desengonçado, como a maioria dos sapos, mas com uma precisão inimaginável para um ser daquele tamanho. Sem peso, ele se apoiou no telhado acima de mim, como se quisesse guiar meu olhar pro verdadeiro perigo que ali espreitava.

Era uma noite sem lua, então eu contava apenas com as estrelas e minhas lentes de míope. No entanto, uma forma de asas e patas que pareciam querer agarrar a minha casa, como uma ave predatória, fazia voos em círculo. O sapo estava dando combate à outra forma, e, assim, protegendo a nossa casa.

Corri para o jardim, de onde eu esperava ter uma visão melhor. Sem saber exatamente o porquê, ainda segurava o espeto de churrasco, mas as duas formas de sombra travavam sua luta na altura da viga mais alta da casa. Assustada e fascinada, tentei escalar o muro, para ficar numa altura mais próxima do telhado, mas quando estava a meio caminho de subi-lo, senti uma presença cair no jardim de grama orvalhada.

De alguma forma que eu não consegui entender, o sapo havia se engalfinhado com o pássaro, e a luta estava feroz. O invasor parecia se mexer de maneira convulsiva, enquanto o outro tentava sufocá-lo de alguma forma. Encolhida contra o muro, não podia tentar sair dali, correndo o risco de ser atingida no meio do combate. Afinal, o que eu poderia fazer?

O sapo soltou uma espécie de coaxar alto quando o bico da criatura o atingiu no olho, e o anfíbio, talvez em dor, libertou seu inimigo do abraço. O pássaro, porém, já devia estar bastante machucado, e levantou um voo desengonçado, desaparecendo no céu escuro. Quando desci o olhar de volta para a casa, vi o sapo saltar de volta para o telhado, e depois desaparecer, provavelmente retornando para seu invólucro de cerâmica.

Ofegante, fechei todos os portões, deixei o espeto em cima da mesa e fui para o quarto. Dormi vencida pelo cansaço, e, no outro dia, relutei em ir para o quintal, embora já acreditasse que tudo não tivesse passado de um sonho muito estranho. Já quase esquecera do evento quando ouvi minha mãe dizer:

– Ué, cadê o olho do sapo? Filha, cê viu ele por aí?