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A morte da autora

26 jan

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– E então, o que fazemos agora?

Katiane olhou para aqueles ao seu redor. Nem em um milhão de anos teria pensado em uma reunião tão bizarra – e ela que achava que a sua história era bizarra, inconsciente e sem sentido. Na sua frente, a mulher de cabelos castanhos, óculos quadrados e roupas de pelo menos cinco anos jazia inconsciente. Estava completamente à mercê deles.

– Peraí, a gente não vai dar uma de Frankenstein, né? – perguntou uma outra, que afastava o cigarro fumegante com um braço metálico. Vinha de uma história de ficção científica cyberpunk, e tinha um nome que parecia uma onomatopéia. – Aquela besteira toda de se voltar contra o criador e tudo o mais?

– Frankenstein não era o monstro, era o cientista – corrigiu Katiane, impaciente. – Não me pergunte como eu sei disso, ok? Só fui escrita assim.

– Apesar de eu adorar o tropo literário criatura contra criador, – uma voz suave levantou-se, e uma moça loira, jovem e muito bela saiu das sombras. Nas mãos, ela trazia uma pequena harpa, e no rosto, estava armada de um sorriso plácido. – eu não acredito que esse deveria ser nosso caminho. Alguém nessa assembleia se perguntou o que aconteceria conosco se ela perecesse? Afinal, somos criações dela, e só existimos aqui, não?

Um momento de silêncio, enquanto a moça se sentava, triunfante. Mais seres, entre outras mulheres, ora usando armaduras de metal, alguns poucos homens, e outras criaturas que pareciam ter saído de algum compêndio bizarro se aglomeravam. Como cabia tanta gente na cabeça daquela mulher?

– Eu acho que a gente faz “puf”, né? Tipo, desaparece, zé-fi-ni?

– Seria c’est fini – uma outra moça, de formas arredondadas, apareceu do nada. Ela guardava uma semelhança assustadora com a mulher adormecida, embora tivesse uma aparência catunesca. – Eu aprendi umas palavras em francês, e pareço legal, mas sou revisora. Ei, não me olhem assim, vocês realmente achavam que ela não tinha uma espécie de auto-representação na cabeça dela? Quem vocês acham que organiza essa bagunça toda aqui? Fantasmas invisíveis?
– Ei, senti uma pontada de preconceito contra nós, seres incorpóreos. Temos nosso espaço aqui também!

E a algazarra começou. Problemas começaram a ser comparados – o tempo em inatividade de cada um, esquecidos naquele multiverso variado e sempre inacabado; os péssimos textos escritos, ou aqueles que tinham ainda seu valor; os que foram reescritos e revisados se colocando acima dos outros, abandonados ainda em forma de rascunho. Os ânimos se exaltavam, a algazarra aumentava e antes que se alguém tentasse argumentar, uma horda de personagens fictícios marcharam em direção à mulher que dormia um sono leve.

Pararam diante dela, incertos. Valeria a pena? E o que aconteceria com eles? Estar em um limbo de personagens não escritos seria um destino melhor do que uma espécie de pós-vida de ficções perdidas?

Não seria dessa vez que descobririam.

—–

– Eu tenho certeza de que não foi isso que Roland Barthes quis dizer com “A Morte do Autor”. Mas fica a referência e a recomendação aí pra quem interessar.

– Que 2014 seja um ano criativo. E melhor que esse texto (o que não deve ser muito difícil).

– Créditos da imagem: desenhos de Camilla Guedes.  (portfolio)

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Tag/Meme/Caderno de perguntas.

6 mar

Oi, tudo bem? Como vão vocês?

O lugar, claro, está um lixo. Recoberto de teias de aranhas e, se eu procurar bastante, vou achar umas traças e outros bichos desagradáveis por aí.

Como fui obrigada ameaçada coagida persuadida a seguir esse meme por uma *insira aqui palavras de baixo calão* amiga, resolvi aparecer e postar umas perguntinhas básicas e irrelevantes sobre o blog, que eu não atualizo a eras geológicas.

1- Qual o nome do seu blog? E que assuntos ele aborda?

Brainsstorm, com SS, porque algum sacana pegou esse domínio do wordpress e nunca atualizou. Aborda qualquer coisa que eu ache conveniente, entre os quais destaco literatura, cinema, opiniões irrelevantes sobre o resto mundo e afins.

2- Como escolheu o nome do blog?

Ideia de um amigo meu, Italo. Eu ia usar algo bem clichê, como Mais um blog de Allana, mas ele achou que Brainstorm parecia comigo. E cá estamos.

3- Porque você criou o blog?

Se eu descobrir, aviso.

Ok. Eu queria um espaço meu, que não dependesse de nenhuma “linha editorial”, e que eu pudesse fazer uma das coisas que eu mais gosto da vida, que é escrever. Sobre o que quer que eu quisesse. E apesar de eu abandoná-lo a maior parte do tempo, vem funcionando razoavelmente bem.

4- Onde você encontra inspiração para as postagens do blog?

Atualmente, em lugar nenhum. Se eu encontrasse, postaria mais, creiam.

5- Qual o público que mais acessa o seu blog, masculino ou feminino?

Não tenho a menor ideia. E nem faço muita questão de saber, na verdade.

6- Além do blog exerce outra atividade? Se sim, qual?

Sou secretária executiva na UFPB, recentemente ingressei no doutorado em Letras pela mesma instituição, sou leitora carnívora de romances, livros e quadrinhos, jogo RPG, tento manter uma rotina de exercícios, criadora de mundos utópicos, e presidente de uma associação imaginária de personagens de ficção. Ok, a última é mentira.

7- Em quais redes sociais você divulga o seu blog?

Facebook e Twitter, em caráter muito eventual.

8- Quando você começou o blog, enfrentou algum tipo de problema?

Nos primórdios da blogagem, tive medo de me expor muito. Hoje ainda enfrento um tanto disso, mas é muito mais paranoia que outra coisa.

9- Atualmente, qual a sua dificuldade em manter o blog?

Assunto, inspiração e tempo. Não nessa ordem.

10- Você incentiva outros blogs que estão começando, escrevendo comentários positivos ou inscrevendo-se no blog?

Sinto que deveria, mas não. Raramente comento por não achar que aquilo vale a pena ser dito.

11- Como você administra o seu tempo para poder dedicar-se ao blog?

“Se dedicar ao blog” e “Allana” numa mesma frase, não existe.

12- Ser blogueira é uma profissão?

Tem quem diga que é, né? Não pra mim, definitivamente. Não teria a disciplina ou a criativade de fazer disso uma profissão decente.

13- Como você lida com as críticas?

Normalmente, bem. Mas ando muito desgastada de discussões, então, se eu tiver contato privado com a pessoa, costumo levar uma boa conversa.

14- Qual a sua experiência mais agradável e a sua experiência mais desagradável em relação ao blog?

As agradáveis são sempre relativas aos comentários dos textos de ficção que eu escrevo. Gosto de feedback, gosto de ver as impressões dos leitores compartilhadas. Mas a verdade é que eu sou péssima de marketing pessoal, e não sei bem como fazer isso. xD Quanto às desagradáveis, não teve nada que valha a pena comentar, mas não estou isenta delas.

E eu vou poupar as gerações futuras de repassar isso para alguém. :p

Errar é humanas. Permanecer no erro é exatas.

5 out

Tropecei essa semana nessa notícia, e fiquei matutando aquilo no meu tempo livre. Não discordo dos dados apresentados, nem da necessidade de mão de obra qualificada nas áreas de ciências exatas que se configura no país, mas o que me assombraram foram os comentários.

“Interpretar um texto é mais fácil que resolver uma equação matemática”

Vejam essa pérola da sabedoria! Parafraseando uma amiga, então fale-me mais sobre a qualidade infalível da nossa educação hoje em dia. Interpretar um texto é, certamente, mais fácil para mim, que, além de ter uma grande afinidade com a área, tem também alguma experiência no assunto.  E, preciso salientar, sempre tive uma enorme dificuldade em desenvolver raciocínios lógico-matemáticos, desde os primeiros anos de estudo.

Não, eu não acredito em talento nato. Ninguém nasce sabendo de nada, seja desenhar, cantar, dançar ou escrever. No entanto, todos temos afinidades, áreas que nos interessam mais e que nas quais vamos procurar desenvolver melhor nossas aptidões.

E, pasmem, há não muito tempo atrás eu cheguei a soltar uma pérola de sabedoria semelhante, mas no sentido contrário. “Em exatas você sabe o que esperar; ou você chega naquele resultado ou não. Em humanas, não é assim. Você faz e torce para estar certo”. Daí levei um tapa na cara moral de um amigo (que dificilmente vai lembrar dessa conversa) e me toquei da bobagem que estava dizendo.

Hoje agradeço por haver pessoas interessadas e dedicadas na área de exatas, que me permitem usar os produtos inventados por elas. Assim como agradeço aos pedagogos, com seus estudos sobre o ensino; aos historiadores, que desencavam essas coisas tão legais e interessantes de se estudar; dentre outros. E destaco: profissionais qualificados são importantes em qualquer área: letras, sociologia, antropologia, história, física, matemática, engenharia, computação e tantas outras. E um profissional qualificado não dominará apenas a sua área de conhecimento. De que adianta um programador que não saiba escrever um e-mail para um cliente? E não adianta dizer que, por escrever em Java, você não precisa conseguir se expressar. Tenho medo do dia em que você for tentar vender um produto dentro de uma empresa.

Lembro-me também de uma outra conversa, essa há (minha nossa!) quase 10 anos atrás, quando eu passei no vestibular para Letras. “Mas, Allana… Letras?”. Eu dei de ombros e sorri: “É, eu sei, vou ser professora e pobre”. E véi, na boa, não me arrependo não. E até onde eu sei, nem os alunos que tropeçaram em mim no caminho.

O que eu gosto em um livro

17 jul

Não raramente, colegas e amigos recorrem a mim para recomendar (ou não) esse ou aquele livro. Não posso mentir que isso me deixa feliz e lisonjeada. Lisonjeada por alguém me considerar como algum tipo de referência em alguma coisa, e feliz por poder recomendar livros dos quais realmente gostei, ou poder descascar alguns que realmente não valem o tempo investido na leitura.

Mas certo dia, isso me fez pensar: e o que me faz gostar de um livro? Ou, talvez o mais importante, o que me faz detestá-lo? Conhecer nossos critérios de avaliação diz um bocado sobre nós mesmos. Então, cheguei, mais ou menos, a essas conclusões.

1. Linguagem

Talvez por força da profissão, um livro me ganha logo de cara se ele tiver algum trabalho interessante de linguagem. Costumo dizer que leio livros ruins se forem bem escritos, mas não consigo terminar um mediano/bom se não me interessar pelo trabalho de texto do autor. Isso pode soar meio elitista, mas eu penso que a leitura (com exceção daquelas obrigatórias) deve ser prazerosa. A utilização de metáforas, ou muitas vezes um jeito diferente de expressar esse ou aquele personagem, são coisas que me fazem ter o prazer de passar as páginas e chegar ao desfecho de um livro.

Exemplo disso pra mim é Stephen King, e até mesmo J. K. Rowling. King não é assim tão original nas suas tramas de terror; há elementos ali presentes em diversos livros dele, como a casa mal assombrada, o escritor com bloqueio criativo, o pequeno povoado isolado de tudo. Você não precisa ir até o fim para realmente saber como vai terminar. No entanto seu domínio de narrativa, de fechadas de capítulos (cliffhangers!) é muito bom. Dos livros que li dele, devorei quase todos. Mas não posso dizer, nem de longe, que são os melhores que li.

2. Personagens

Um livro ruim pode se salvar pelos seus personagens, se eles forem… cativantes o bastante. Personagens bons podem levar uma história ruim, em qualquer mídia. Quem nunca assistiu um filme ruim até o final para saber o destino de um personagem X? Isso, eu acredito, se dá por vários fatores, entre eles a identificação e a verossimilhança de um personagem conforme sua construção pelo autor.

Como o Batman, seja nos quadrinhos ou nos filmes (não os últimos do Nolan, devemos ressaltar). Cansei de contar os filmes sofríveis que o homem-morcego me fez passar, ou as histórias ruins das revistas mensais. Mas ele, na mão de escritores certos, tem tanto o que falar e identificar, que eu suporto, como toda fangirl.

Personagens ruins também podem comprometer um bom trabalho de escrita e de trama. Podemos tirar como exemplo o protagonista Shadow, de Deuses Americanos (Neil Gaiman; livro muito bom, por sinal): bidimensional, pouco motivado, que perto dos seus coadjuvantes, perde totalmente o brilho.

3. Ritmo

Ritmo narrativo, pra mim, é uma coisa difícil de explicar e definir. Nossa geração, no geral, é acostumada à fórmula de ritmo do cinema hollywoodiano (herói parte pra aventura, seja de bom grado ou de forma traumática – momentos de explicação e descoberta, onde o vilão é apresentado – evolução do herói – herói derrota grande mal, clímax da narrativa – epílogo), o que pode causar estranhamento quando lida com narrativas mais fragmentadas, ou que não seguem bem essa estrutura. Certamente esse não é meu problema.

Mas um livro, assim como qualquer outra mídia de entretenimento, precisa “se vender”. Então, por mais paciente que seja o leitor, ele não vai esperar até a página 150 de um romance de 430 páginas para “as coisas começarem a acontecer”. E esse é realmente um ponto importante para mim enquanto leitora. A narrativa pode ser cadenciada, lenta e quase se arrastando, mas é necessário que ela “ande”. Gosto de ter a ideia de que alcancei alguma coisa ao fim de um capítulo, ou de um arco de capítulos.

Um exemplo feliz nesse sentido é Patrick Rothfuss, autor d’As Crônicas do Matador do Rei. Ainda estou lendo o primeiro livro, O nome do vento, mas posso dizer que ele tem um bom personagem (que é um super-homem no sentido de que ele faz de tudo um pouco, mas ainda assim é humano o bastante), um ótimo trabalho de linguagem e um ritmo bem arrastado, mas que nos passa a impressão de que as coisas estão acontecendo, apesar de ter um início demorado.

4. Trama

Pra mim, a trama muitas vezes pode ser mediana para ruim, desde que os outros elementos estejam presentes. Claro que um livro bem escrito, com bons personagens, bem cadenciado e com uma trama bem feita e amarrada é um ótimo investimento de tempo e dinheiro, mas sou honesta em dizer que poucos são assim. Mesmo entre os meus livros preferidos eu posso citar pontos nos quais eles podiam ser melhores (porque eles sempre podem).

Não que a trama deva ser considerada como um elemento menor por qualquer autor, muito pelo contrário. Mas o fato é que eu, como leitora/espectadora, estou disposta a fazer vista grossa para pontos não tão importantes em uma história se outros aspectos me chamarem muito a atenção.

E vocês? Conseguem ler um livro mal escrito se ele tiver uma boa história? Quais elementos chamam a atenção quando avaliam um texto?

Projeto “Adaptação e Leitura”: update #001

29 jun

Como, há alguns meses, postei por aqui uns esboços sobre uma ideia que estava me encafifando e algumas pessoas se interessaram, aqui vão alguns updates do projeto Adaptação e Leitura (rá, arrumei um nome. Não é um bom nome, mas é um nome de qualquer forma).

Como vocês se lembram (ou não), a ideia era, na etapa final, integrar o RPG, através do título Fiasco (publicado no Brasil pela Retropunk). Embora eu não tenha planos de usar os cenários oficiais, mas sim criar um mais adequado, eu ainda pretendo fazer isso, mas não sei se será possível, graças a dois fatores. Um deles, bem objetivo, é o tempo – as reuniões estão ocorrendo quinzenalmente, ao invés de semanalmente (por motivos de ambas as partes, meus e das alunas envolvidas), o que atrapalha um pouco o andamento. O outro, mais subjetivo, vou desenvolver aqui. Talvez uma alma iluminada possa me dar alguma sugestão.

Os primeiros encontros foram, na melhor das hipóteses, desanimadores. Vimos o filme (eu escolhi o Jogos Vorazes, Gary Ross, 2012, por achar que seria mais fácil guiar uma discussão no sentido de crítica às mídias de massa, e daí levar por um lado mais político/social) e a conversa posterior foi… superficial. As leituras não passavam do nível da narrativa, os elementos levantados como mais importantes também não passavam disso. Na melhor parte, houve uma comparação com Crepúsculo (ponto pra mim, pelo menos elas preferiram  Catniss a Bella).

Impossível dizer que não bateu aquele desânimo. Mas no caminho para casa (os ônibus e sua capacidade de fazer a gente pensar), ponderei algumas coisas e relativizei a situação: são crianças com um baixo nível de leitura, e que o contato com narrativas, na maioria das vezes, se limita a telenovelas e uns poucos textos das aulas de português. E elas estavam se esforçando, isso era notório. Então, nada mais justo e eu me esforçar também.

No encontro seguinte, peguei em um ponto do filme que acho particularmente interessante enquanto pessoa, e, por que não dizer, feminista (spoiler, mas só um pouquinho): “Ele está fazendo você parecer desejável, e isso atrai patrocinadores”, disse Haymitch, o mentor do casal protagonista. E assim, as coisas avançaram, passando pela representação do feminino/masculino em anúncios, consumismo e os papéis desenvolvidos pelas mulheres socialmente. E daí, a discussão fluiu melhor. Talvez por só haver meninas na faixa etária dos 13-14 anos, tenha sido mais fácil.

Agora, voltando ao segundo fator, que tem a ver com o RPG, lááá em cima no texto. Como eu disse no primeiro encontro com as alunas, eu quero formar leitores melhores (itálico para designar aquele efeito de destaque na voz). Quero pensar que, ano que vem, quando elas estiverem no ensino médio, elas possam se deparar com um texto e visualizar seus intertextos, seus subtextos. “Ler as entrelinhas”, como se diz por aí. Detectar as sutilezas do discurso jornalístico, as técnicas de argumentação, e usá-las, claro, ao seu favor no enriquecimento do senso crítico.

Certo, eu sou professora de português, é parte do meu trabalho querer isso. E a ideia de usar o RPG era, sim, incitar o lado lúdico, criativo, que também acho que seria de forte atuação no sentido de instigar o senso de leitura além das letras de um texto. Mas também há de se considerar a recepção do público à ideia. As discussões com as garotas estão claramente melhorando, mas não sei se a criação de uma história coletiva teria tanto sucesso.

Mas talvez eu esteja errada, e só fazendo tempestade em copo d’água. Terminada a leitura do primeiro livro,  Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Rocco Jovens Leitores), pretendo propor, inicialmente, uma redação. Dependendo de como as coisas acontecerem, vamos experimentando. E aí, como eu gosto de dizer, “a gente vê o que faz”.

Cinco músicas ruins que eu gosto

8 maio

Baseando-me em um post de Vinícius, resolvi compartilhar meu terrível gosto musical enumerando as cinco piores músicas que eu gosto. Sei que todo mundo tem isso, por mais que não tenha coragem de admitir: existe aquela música que assombra seu celular, ou sua playlist no computador, e você não tem coragem de exorcizá-la porque gosta dela de verdade.

Certo? Certo? Não…? Okay… .__.

1. Livin la vida loca – Ricky Martin

Quem me trouxe essa música de volta dos confis obscuros da adolescência foi Shrek 2, há uns bons anos atrás. Daí é uma presença mais ou menos constante na minha playlist. Pela batida, pelo ritmo, pela mistura tosca de espanhol com inglês.

2. Everybody’s fool – Evanescence

Outra música zumbi dos recônditos dos anos teen. A verdade é que tem outras músicas do primeiro CD de Evanescence que escuto até hoje, mas como queria ampliar meu leque de músicas ruins, resolvi usar essa como exemplo.

3. Cities of the future – Infected Mushroom

Essa música, pra mim, representa todo um feeling cyberpunk: a batida rápida, as variações de ritmo, e serve de trilha sonora perfeita pra maioria das coisas cyberpunk que eu leio. E o pedacinho de letra dela também tem tudo a ver. Mas que eu não veria isso ao vivo, hmn, não veria.

E convenhamos, não é todo mundo que curte um psytrance loucão, né?

4. Driving to nowhere – Hadouken

Piadas a parte (Shoryuken!), conheci essa banda através do meu namorado, Nino, e é outra que não sai dos dispositivos móveis. Eu não sei se é exatamente ruim, mas como música eletrônica sofre diversos tipos de ojeriza randômicas, resolvi listá-la aqui. Gosto do ritmo, da batida, e penso em pelo menos três começos de pequenos contos quando escuto essa. Um dia escrevo.

5. Girl’s not grey – AFI

Porque eu gosto de cantar arruinar essa música no Rock Band.

UPDATE:

6. Miss Independent – Ne-Yo

Gosto de clipes com historinha, gosto de músicas com uma batida diferente, e não costumo gostar de rap e adjacências musicais. Mas tenho um irmão mais novo (aquele que você sempre culpa por quebrar o que quer que seja na sua casa) que tem um gosto um tanto terrível diferente do meu. E entre os cantores do ramo, gosto de pensar que Ne-Yo é o menos mal. Na verdade, isso é só desculpa e eu gosto dessa música.

7. Killing Loneliness – H.I.M.

Traduz essa música e Reginaldo Rossi canta lindamente, ao lado de Joelma do Calypso. E olha pra esse cara. Precisa de mais?

8. Head up high – Firewind

Jogue algumas palavras-chave num saco, balance, puxe algumas e você tem uma música de Firewind (que foi muito feliz em um cover de Maniac). Certeza que eles fizeram álbuns inteiros assim, brincando de Bingo do Metal.

9. Savior – Rise Against

A vantagem de ouvir Rise Against é desligar o cérebro e deixar tocar no player aleatoriamente. As músicas são todas iguais, não? E alguém pode me dizer qual é a da polga de bichos de pelúcia?

10. Misery Business – Paramore

Quanto mais eu vejo esse clipe, menos sentido ele faz. É um ciclo vicioso, certeza.

Celulares e a invasão de privacidade

12 abr

Verdade seja dita, nunca gostei muito de celulares. Quando comecei a trabalhar – e, por conseguinte, passar o dia fora de casa, numa fase tão tosca idílica que é a adolescência – meus pais tentaram me empurrar um aparelho herdado por eles. Foi um hábito difícil de adquirir: eu esquecia o bendito em casa, desligava para assistir às aulas e esquecia de ligar quando saía, colocava no silencioso e não lembrava de olhá-lo…

Tudo bem que o aparelho era um trambolho: ele já estava ultrapassado quando me passaram a herança. Tecnologia, essa danadinha, sempre fazendo você desejar o último lançamento do que quer que seja. Mas não era por uma vaidade adolescente imbecil (bem, eu era adolescente, e certamente era imbecil, mas não a esse ponto). O que eu realmente detestava era a capacidade que o celular dava aos outros de me encontrar em qualquer lugar, a qualquer momento, e a suposta obrigação em atendê-lo.

Eu, menina revolucionária, via apenas a opressão naquilo, e as reclamações de quando eu não atendia celular. Os perigos do mundo exterior não tinham entrado ainda na cabecinha vazia – é fácil passar o dia fora, experimentar alguma liberdade e não avisar aos pais que você vai sair com uns colegas de sala para almoçar. Na minha mente simplista, todo mundo sabia onde eu estava: ou no trabalho, ou na escola, ou em casa. Não me ocorria que, caso eu passasse mal, sofresse algum acidente ou qualquer coisa parecida, podia ligar para os meus pais chorando e pedindo para alguém me buscar. Pensava no celular como um invasor do espaço individual, e continuo achando.

Evito ligar para pessoas porque, intimamente, sinto estar incomodando. Sou eu quem quer falar com você, e não o contrário. Essa pessoa pode estar dormindo, divagando no banheiro, tendo momentos íntimos com namorado(a), e tá lá o bendito do celular tocando. Ligo para meus chefes porque não tenho lá muita escolha (questões urgentes que demandam a comunicação, por exemplo), e porque eles me deram essa liberdade. Mas não o faço de bom grado, e posso listar diversos exemplos.

Já me ligaram de duas e meia da manhã (me acordando de um sono muito bom, devo destacar) alegando que tinham anotado meu número em um programa de rádio. Obviamente mentira. Ou o sujeito tinha trocado um dígito e a azarada fui eu, ou é algum infeliz sem coração para ligar de madrugada para mim. Pior foi saber que, depois de umas frases mal educadas, ele ainda insistiu em me ligar. Salvei o número como “Não atenda nem no apocalipse zumbi” e passei a ignorar as chamadas.

(Tenho alguns números salvos na agenda com alcunhas semelhantes, como “Cara chato vendedor de seguros”. Nem lembro de todas as ocorrências, mas quando vejo um “não atenda”, silencio o toque e continuo a fazer o que quer que eu esteja fazendo. E vivo muito bem, obrigada).

Uma colega já deu meu número como referência para o financiamento do carro, e me ligou por volta das seis da manhã de um sábado para informar o fato. Mais uma vez, eu estava dormindo, e de uma daquelas noites bem tardias. Sorte dela que a financeira nunca resolveu me ligar; de vingança, diria que nunca a vi na vida. Ou que era uma caloteira, coisa parecida. Seria criativa.

Há ainda os cassos clássicos que de tão corriqueiros aprendemos a ignorar: no cinema, na aula, e longe da sua casinha de sapê. No meio de uma reunião, você esquece de ativar o modo silencioso e o tema de Game of Thrones toca nas alturas. Seu chefe, simpático, pergunta: “Ah, você assiste também?”. Incovenientes cotidianos que minam sua boa vontade e seu bom humor. Pelo menos, o meu bom humor.

Há quem diga que isso é falta de educação. Penso que, na verdade, a fina arte da etiqueta não estava pronta para receber essa possibilidade de conexão entre as pessoas, tão imediata, tão possível em qualquer lugar. Mas consensos surgem a partir de necessidades, não de possibilidades. E se não começarmos a nos policiar, a tendência é sempre piorar.