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A Caçadora

20 out

Essa foi a minha resposta a um pedido feito para um jogo de RPG, no cenário de Golarion, da Pathfinder (embora usando as regras do D&D 5ª edição). Tínhamos que pensar um desafio a ser superado por nossos personagens. Aproveitei para explicar narrativamente algumas características da raça da minha personagem – uma androide – e traços de personalidade descritos em ficha.

Créditos da imagem: DevBurmak

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Já era o terceiro dia enclausurados, e o vento continuava uivando lá fora. Do lado de dentro do abrigo improvisado, as coisas não iam muito bem. A chama da fogueira minguava, produzindo mais fumaça do que calor. Val, a menina mirrada e esquálida, finalmente dormia com uma respiração difícil depois de uma noite difícil. No inverno, a saúde fragilizada dela sempre piorava. Quando estavam em uma casa calefada, porém, podiam manter cuidados apropriados. Ali, ela tinha sorte de estar dormindo em um lugar seco.

Cibylla analisava a situação e os prospectos não eram bons. O mau tempo repentino pegou os três de surpresa, que pretendiam chegar a Tocha antes do inverno começar. Os suprimentos começavam a rarear, e se não conseguissem chegar em alguns dias, havia riscos de os três minguarem de fome. Passou pela sua cabeça a mórbida curiosidade da desnutrição. Como ela se sentiria se estivesse às portas da desativação por falta de nutrientes?

Lembrou-se das vezes em que foi desligada e estremeceu. Não, não deveria ser algo que merecesse sua atenção. Se muito, que servisse como o estímulo final para enfrentar o frio. O homem que agora respondia por Konir Baine olhava pela entrada da gruta. Cansaço nos olhos e no corpo, e algo mais que ela não conseguia entender. Algo que pesava nos ombros do homem, deixava-os encurvados, como nos tempos de antes, quando ambos respondiam à Liga Técnica de Numeria. Cibylla ainda não tinha uma palavra para aquele sentimento que via.

— Nossos suprimentos não vão durar mais do que dois dias – a mulher falou em seu tom invariável de voz.

— Eu ainda sei contar, Cibyl.

O apelido. Usado em raros momentos de intimidade entre os três, ou quando ele queria ser condescendente. Normalmente acontecia quando ele começava a ficar impaciente. Konir Baine estava descontente, embora a sutileza da mensagem não tenha atingido Cibylla como ele pretendia.

— Não insinuei que você tivesse perdido suas faculdades intelectuais, Konir. Era apenas uma análise factual, para concluir que eu sairei para caçar.

— Eu não quis… – desistindo de se explicar, ele apenas sorriu sem forças. Ainda esquecia que Cibylla não conseguia captar todas as nuances de tom, as particularidades do discurso humano. Ela só estava lidando com a situação na maneira que conhecia. – Mas como você pretende caçar alguma coisa nesse frio? Você faz alguma ideia do que fazer lá fora?

— Não. Mas entre nós três, tenho matematicamente mais chances de sucesso. Uma vez que a neve parou de cair, julgo que não devo me perder tão facilmente. Voltarei no fim do dia, com ou sem comida. Fique atento.

O estudioso não tinha argumentos para refutá-la. Apenas deu ombros, despediu-se com um redundante “tome cuidado” e viu a forma humaoide, alta e esbelta, de pele tão pálida quanto a neve e cabelos vermelho-vivo partir para o vento frio e cortante. Ele já sentiu medo várias vezes em sua vida, especialmente desde que deixara a Liga Técnica, mas sempre teve a sensação de que havia alguma coisa sob seu controle. Mas diante de um destino incerto, o horizonte se preenchendo de branco, um frio castigante e da comida no fim, ele passava a questionar as suas chances.

*****

Cibylla seguiu, afastando-se da gruta e rumando em direção a uns bosques que haviam encontrado no dia em que se abrigaram. Os pinheiros, que reconheceu pelo seu formato característico, e outras árvores de folhagem sempre verde estavam cobertos de neve. O sol brilhava timidamente, e ao tempo em que ela apreciava o fato de não ter que enfrentar o granizo caindo sobre sua cabeça e suas costas, a neve sob suas botas começava a derreter. Aparentemente três dias de nevasca não são o bastante para ela se tornar firme e não ceder sob seu peso.

Com olhos opacos, ela olhava ao redor. Atenta, ela procurava por algo, embora não soubesse exatamente o quê. Recostou-se em um tronco derrubado pelo vento forte, as raízes viradas para o céu como vários braços que tentaram se agarrar a um desfiladeiro, e sem saber exatamente como, soube que aquela árvore teria uma boa lenha para a fogueira. Passou as mãos cobertas por luvas pelos galhos secos e sem folhas – ela já estava morta antes que a ventania desse seu último golpe. Desde que cortasse apenas os galhos que não dormiram no gelo, poderia aproveitá-los.

Aparando a madeira de maneira diligente, outros pensamentos ocorreram a Cybilla. Alguma daquelas árvores teriam frutos secos, que poderiam ser assados e comidos durante a viagem sem esforço. Se uma vegetação tão frondosa havia se formado ali, poderia dar a sorte de encontrar tocas de alguns animais pequenos, embora seus rastros fossem mais complicados de encontrar, pois eles deveriam estar abrigados do frio. Se não encontrasse os refúgios, sabia como preparar algumas pequenas armadilhas. Assim, ela, Konir e Val poderiam passar mais um dia, aquecidos e alimentados de vegetais, e depois ela coletar alguma carne para a viagem.

A androide não sabia como aquelas coisas lhe chegaram à mente, mas quando terminou com a madeira, amarrou-a em um lugar alto o bastante para que não ficasse úmida no chão. Com uma postura que não era exatamente a sua, mas lhe veio de modo natural, Cibylla andou pelos caminhos emaranhados do bosque. Havia memorizado a direção do sol, e fez questão de deixar marcas de sua passagem nos galhos de árvore mais baixos. Instintivamente, evitou as copas mais pesadas, pois já que a neve começava a derreter, não queria ser surpreendida por pedaços de gelo caindo em sua cabeça. Até que ela encontrou rastros, quase como se refazendo seus passos, e não eram de pequenos animais.

Calçados. Botas um pouco maior do que as suas e recentes. Quem estaria andando tão longe de qualquer habitação em um inverno? Um caçador que, como eles, foi pego de surpresa pela neve? Mas quem iria tão longe de qualquer povoado para caçar? A não ser que essa pessoa tivesse alvos muito específicos em vista.

Há algumas semanas, os três fugiram às pressas de Chesed, onde nos últimos meses viveram uma vida relativamente tranquila. Na maior cidade de Numeria, os três conseguiram passar razoavelmente despercebidos. O Assistente Pauldris Grey cortou os cabelos, tingiu-os e virou Konir Baine; Val se passava por sua filha e aprendiz, e Cibylla, outrora Ajuda nº C-42, assumiu um novo nome. Quando se preparavam para passar seu segundo inverno na cidade, os cartazes de procurado começaram a aparecer, oferecendo recompensas absurdas em troca da captura de Konir/Pauldris, ou de provas de sua morte. Nenhuma das perspectivas a animava. Eles não tiveram escolha que não fugir às pressas.

Seguiram o Rio Selen com uma caravana de pessoas que não faziam muitas perguntas, desde que nenhum deles se provasse um fardo. Eram também pessoas animadas, sempre dispostas a contarem histórias, pertencentes a eles ou não. Esperavam que a velocidade de sua fuga tivesse espantado quaisquer caçadores de recompensas, mas aquelas evidências provavam o contrário. Alguém muito determinado estava bem próximo de encontrá-los, e Cibylla não permitiria aquilo.

Com cuidado, ela levantou o capuz e seguiu os rastros. Evitando fazer barulho, calculou bem seus próprios passos, pois qualquer movimento em falso poderia entregar sua posição. Não soube precisar o tempo que caminhou pela vegetação, mas não importava.

Seus movimentos eram calculados, quase tão frios quanto o vendo forte que balançava a folhagem. Se a postura cuidadosa no início da caminhada lhe parecia estranha, agora tudo lhe era natural. Como um livro antigo, encontrado em meio a uma estante empoeirada, que você começa a ler apenas para lembrar que conhecia a história de muito tempo atrás. Quando?

Chegou ao acampamento. Alojada contra a encosta da margem de um córrego, uma tenda de couro grosso. Restos de uma fogueira, protegidos da neve com um círculo de pedras. Do outro lado da corrente de água, um cavalo não a notara, distraído com uma porção de comida. Nenhum outro barulho além do vento, da água, e do ocasional relinchar do animal. Quem quer que fosse aquela pessoa, não estava em casa. Isso deu a Cibylla a oportunidade de confirmar suas suspeitas.

Primeiro, afastou o animal, para que ele não entregasse sua posição. Uma sela de boa qualidade, arreios hidratados e bem cuidados. Era alguém experiente. O quadrúpede, porém, estava cansado e arfava pesadamente, e não ofereceu resistência quando foi guiado um pouco mais para longe, onde haveria mais comida.  Na tenda, encontrou alguns suprimentos que lhe seriam úteis, e a prova que estava esperando: cartazes com o rosto de Pauldris Grey estampado. Cibylla não deixou de se espantar com a diferença entre as duas pessoas. Olhos encavados, com grandes olheiras, e uma barba desgrenhada. Ele já fora tão velho assim? Teria ela mudado tanto também?

Seu primeiro pensamento foi o de pegar os suprimentos que pudesse e fugir, talvez até o com animal. Mas não, isso seria um erro. Cibylla não sabia montar, e deixaria um rastro muito fácil de seguir. Acabaria entregando a posição de todos, possibilitando que aquele indivíduo os surpreendesse quando estivessem vulneráveis. Ela iria preparar uma armadilha.

*****

No alto de uma árvore, ela resetava o arco com cuidado. A figura seguiu os passos do cavalo, como Cibylla esperava. À pouca distância, pôde analisar melhor o seu alvo. Altura mediana, passadas cuidadosas, compleição física acima da média. Uma barba espessa cobria-lhe o rosto, mas uma cicatriz profunda descia-lhe pela face esquerda, ficando oculta por um tapa-olho. Ele andava com a experiência de anos de ofício, e pelas armas que carregava, a androide sabia que um embate direto seria arriscado.

Prendendo a respiração, esperou que ele se aproximasse mais do animal. Torcia que seus rastros estivessem bem cobertos, e mais importante, que ele não percebesse a corda tesa, oculta por folhagens e galhos secos que ela retirou às pressas das árvores. Contou cada passo, um após o outro, devagar… e a corda se rompeu.

Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o caçador ouviu um estalar de madeira alto, um zumbido de flecha e uma montanha branca de gelo e neve caiu sobre ele. O homem ainda tentou rolar no chão, mas não conseguiu reagir a tempo e ficou soterrado. Cibylla pulou para o chão, sabendo que não tinha o tempo a seu favor, e foi tentar amarrá-lo.

Por muito pouco conseguiu evitar o pior do golpe de um machado na direção da sua perna. Sentiu a lâmina atravessar o couro da bota e chegar à pele, tingindo a neve de vermelho. Não era estranha à dor, mas o ardor do ferimento a colocou em ressalva. Com um golpe preciso do sabre cortou o pulso do caçador, que gritou de dor e quase se engasgou com a neve que lhe entrara pela boca.

A refrega foi rápida. Caído e soterrado, o caçador era um alvo vulnerável. Mas não foi sem esforço que Cibylla o amarrou à árvore. Aproveitando-se do seu tamanho, ele resistia e bufava, e só depois de um golpe bem aplicado entre as pernas ele se limitou a gemer.

— Devo supor que você veio até tão longe pela recompensa, não é?

— Sua puta barata, eu vou acabar com você!

— Você não quer perder o outro olho, quer? — ela se abaixou, encarando o homem. Na mão direita, o sabre ameaçava o pescoço do homenzarrão. Na esquerda, a lâmina da adaga roçava próxima da orelha. Aquela não era a sua voz, o seu tom monocórdico. Era ameaçador, carregado de malícia e frieza. — Ou posso arrancar as falanges dos seus dedos. Com sorte, o gelo e o frio vão estancar seu sangramento, e você poderá fugir. Mas não acho que o resto de sua vida vai ser bem mais difícil…

O homem respondeu com o silêncio, desafiando-a. Uma ameaça não realizada seria vazia e ineficiente, e ela não hesitou. Com uma precisão que ela não sabia possuir, cravou a lâmina menor na parte interna do dedo indicador do sujeito, que berrou de dor e raiva, e depois, gemeu de resignação.

— Há outros… Atrás de vocês. Do mago e da menina. Você é um bônus. Seu… Mestre, Gartoni…

— Eu não tenho mais mestres. E você, homem caolho de nove dedos, vai nos deixar em paz. E vai dar o recado para os outros. Nós não vamos nos curvar à Liga. Está claro?

Depois de alguns segundos, o homem assentiu. A mulher sorriu, um sorriso calculado e cruel. Com o cabo da adaga, desferiu um golpe forte na cabeça do homem, que tombou inconsciente. Sem pressa, embalou os suprimentos, a tenda, e não esqueceu o cavalo, uma ajuda muito bem vinda pelo resto da viagem.

Quando deu por si, guiava o cavalo pelos arreios, com a tenda e os suprimentos amarrados. Ela não sabia explicar o que tinha acontecido, como por alguns momentos ela parecia estar assistindo às suas próprias ações. Seria como um sonho?

Não soube explicar. Quando Konir perguntou onde ela tinha conseguido todas aquelas coisas, ela deu de ombros e disse que não se preocupasse. Ele não tocou no assunto de novo. E no dia seguinte, bem alimentados e aquecidos, seguiram viagem.

O sapo

8 maio

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Meus pais sempre quiseram uma piscina dentro de casa. Enquanto morávamos em apartamento, esse era um sonho impossível, claro. Então nos mudamos para uma casa, e durante muito tempo, outras prioridades foram se sobrepondo. Quase duas décadas depois, com as facilidades de um cartão de crédito e um dinheiro guardado, eles colocaram uma piscina em casa.

Em seguida, vieram os “acessórios”: umas pedras coloridas das quais não sei o nome, plantas adornando os arredores, cadeiras de plástico para tornar o ambiente mais palatável até para aqueles que não quisessem se aventurar nos profundos cento e cinquenta centímetros de água tratada e clarificada. Como qualquer ambiente de uma casa, com o passar dos anos, a piscina passou a ter sua decoração particular. Até que veio o sapo.

Um sapo de cerâmica de mais de um palmo de altura, com assustadores olhos de bolas de gude. Ele tinha um tom de amarelo doentio, com manchas amarronzadas pelo corpo. “É para dar sorte”, dizia a minha mãe. “Ele é pavoroso”, foi a minha resposta.

Eis que ao sapo recém-chegado é dado um lugar de honra: em uma das pontas da piscina, com o intuito de pregar peças aos desavisados que atravessassem o tanque em um único mergulho e emergissem do outro lado – porque a piscina é pequena assim. A ideia foi minha, admito. E ela me rendeu boas risadas.

“Credo, achei que fosse de verdade”, disse uma tia ao conhecê-lo. Rimos e continuamos. Tornou-se um tipo de tradição “prestar honras” ao sapo, sempre após o primeiro mergulho. Uma espécie de pequeno deus do lar, a escultura parecia aumentar, conforme seu ego era alimentado pelos pequenos gestos de respeito. Ela continuava do mesmo tamanho, claro, mas havia algo de… inquietante.

Afastei-me do ambiente, convencendo-me que guardava muito trabalho para os fins de semana, muitas leituras, ou jogos de vídeo-game. A verdade é que o sapo me deixava desconfortável, como se suas bolas de gude me seguissem pelo ambiente. Para o resto das pessoas, porém, era só um… sapo. De cerâmica. Até que um dia ele se revelou.

Era tarde, tão tarde que já dava para fazer aquela piada de “cedo do outro dia”, mas ainda estava escuro. Depois de me despedir dos meus amigos, fui fechar os portões, com todas as luzes acesas, claro. Quando eu já me afastava do quintal, vi algo ganhando forma com o canto dos olhos.

Pensando ser alguma espécie de intruso, quis verificar, embora qualquer pessoa com bom senso devesse se afastar dali. Puxei um dos espetos de churrasco meio enferrujados que ficavam próximos à porta (“Cuidado! E-eu vou te ameaçar com… tétano?”) e tentei notar, entre a grade já trancada, quem estaria andando no quintal da minha casa, perto da piscina. Pude notar uma forma escura se mexendo entre as plantas, sem fazer barulho algum, porém.

Pensei em dar a volta na casa, mas no tempo que eu levasse para fazer isso, quem quer que estivesse lá poderia ir embora ou, pior, notar minha movimentação. Sem perceber, prendi minha respiração, e segurei o cabo do espeto na tentativa de parar a tremedeira. Qual era mesmo o mantra de Arya? “O medo corta mais do que a espada… coisa nenhuma, o medo te ajuda a manter viva, menina, corre daí!”.

Fiquei, e finalmente consegui divisar o que se mexia na área da piscina. A estatueta do sapo continuava ali, parada, encarando a água que se mexia levemente ao sabor da brisa leve. Atrás dele, uma forma muito mais alta, ultrapassando as paredes da minha casa, levantava-se como se despertando de um sono profundo. As papadas negras de sombra subiam e desciam, subiam e desciam, no mais puro silêncio. O único brilho em todo o corpo da criatura gigante estava nos seus olhos, que refletiam azuis no tanque diante dele.

Paralisada, continuei a observá-lo. O que quer que fosse aquilo, já tinha me notado, como pude atestar pelo olhar que a criatura dirigiu para mim. Abaixando a cabeça, ele me encarou. Engoli em seco, muda de pânico, até que ele saltou. Não desengonçado, como a maioria dos sapos, mas com uma precisão inimaginável para um ser daquele tamanho. Sem peso, ele se apoiou no telhado acima de mim, como se quisesse guiar meu olhar pro verdadeiro perigo que ali espreitava.

Era uma noite sem lua, então eu contava apenas com as estrelas e minhas lentes de míope. No entanto, uma forma de asas e patas que pareciam querer agarrar a minha casa, como uma ave predatória, fazia voos em círculo. O sapo estava dando combate à outra forma, e, assim, protegendo a nossa casa.

Corri para o jardim, de onde eu esperava ter uma visão melhor. Sem saber exatamente o porquê, ainda segurava o espeto de churrasco, mas as duas formas de sombra travavam sua luta na altura da viga mais alta da casa. Assustada e fascinada, tentei escalar o muro, para ficar numa altura mais próxima do telhado, mas quando estava a meio caminho de subi-lo, senti uma presença cair no jardim de grama orvalhada.

De alguma forma que eu não consegui entender, o sapo havia se engalfinhado com o pássaro, e a luta estava feroz. O invasor parecia se mexer de maneira convulsiva, enquanto o outro tentava sufocá-lo de alguma forma. Encolhida contra o muro, não podia tentar sair dali, correndo o risco de ser atingida no meio do combate. Afinal, o que eu poderia fazer?

O sapo soltou uma espécie de coaxar alto quando o bico da criatura o atingiu no olho, e o anfíbio, talvez em dor, libertou seu inimigo do abraço. O pássaro, porém, já devia estar bastante machucado, e levantou um voo desengonçado, desaparecendo no céu escuro. Quando desci o olhar de volta para a casa, vi o sapo saltar de volta para o telhado, e depois desaparecer, provavelmente retornando para seu invólucro de cerâmica.

Ofegante, fechei todos os portões, deixei o espeto em cima da mesa e fui para o quarto. Dormi vencida pelo cansaço, e, no outro dia, relutei em ir para o quintal, embora já acreditasse que tudo não tivesse passado de um sonho muito estranho. Já quase esquecera do evento quando ouvi minha mãe dizer:

– Ué, cadê o olho do sapo? Filha, cê viu ele por aí?

Despertar

2 jun

– Liberdade. Você me promete?

Sorriu com a resposta que só ele poderia ouvir. Olhos fechados, os cabelos brincando com o vento, agradecendo o afago que recebiam. O corpo frágil parecia também querer ser levado embora, vestido apenas com o retalho branco que usava há muito tempo. Tanto que já não conseguia precisar. Meses, dias, semanas. Anos, talvez?

Continuou sorrindo diante da própria tolice. Nada daquilo importaria mais. O céu abria-se diante dos seus olhos, agora abertos, agora capazes de ver. Uma calma real o invadiu, sensação da qual já não lembrava. Carregando uma certeza absoluta, talvez pela primeira vez na vida, lançou o corpo para fora da janela.

****

Foi com esforço que se levantou aquela manhã – efeito dos remédios, tinha certeza. Demorava cada vez mais a acordar, e era sempre um sono limpo, apenas ele e a escuridão. Ainda por cima, passava o resto do dia sonolento. Pensava que, qualquer dia desses, poderia não despertar de novo. A ideia não o desagradava de todo; depois dos remédios, as visões diminuíram, era verdade. Mas também minguava seu interesse por qualquer outra coisa: leitura, estudo, pessoas. Vivia em um estado que não se importava se estava ali ou não.

E se era assim, por que simplesmente não parava de tomá-los?

Paulo tinha medo, esse era o motivo. Medo do que o espelho lhe guardava, do que os sonhos lhe reservavam quando voltasse a tê-los. Medo que escondia sob os cabelos negros, quase sempre desgrenhados. Sob as roupas desleixadas, amassadas e sem muito cuidado. Sob sua incapacidade de encarar espelhos.

Detestava-os. Evitava encará-los por mais tempo do que o necessário, pois, sempre que se distraía com sua própria imagem, eles estavam lá. Às vezes, de relance, fortuitos. Em outras, a visão era aterradora demais para que fizesse qualquer sentido.

Os olhos azuis encaravam o computador, exibindo a tela padrão do programa da loja de sua tia. O toque gelado na sua mão o fez estremecer e voltar a si. Automático, pegou a maquineta de código de barras e efetuou a venda. São R$ 53,29, senhora. Conferiu o troco duas vezes. Tenha um bom dia.
Fingiu não notar o olhar preocupado da tia do outro lado do balcão. Sabia que ela o chamara para trabalhar apenas para tirá-lo de casa, de onde não saía desde que o tratamento havia começado. Olhou-a e forçou um sorriso rápido. Ela pareceu constrangida, mas retribuiu o gesto.

– Como está se saindo, querido?

– Me atrapalhei com os cartões, mas acho que está tudo bem. – respondeu, voltando o olhar para o monitor. Gostava da tia, e a semelhança com a mãe até o divertia, mas não acreditava que se importava com o que ela pensava.

– Não é disso que eu estou falando. Seu empenho eu posso ver, Paulo. Mas… – parou, como se procurasse as palavras. Inspirou brevemente e continuou. – Mas como você está se saindo aqui fora?

– Eu estou bem, tia. – olhou-a de volta, o mais normal que poderia parecer. O que exatamente ela queria dizer com “aqui fora”? – Não precisa se preocupar, eu estou bem. Quando não estiver, a senhora vai saber.

– E o trabalho? – Léia perguntou depois de algum tempo, sem conseguir disfarçar o constrangimento.

– É chato, repetitivo, mas ajuda a ocupar a cabeça.

****

Sob chuva, voltaram para casa aquele dia. Os fones de ouvido isolavam-no da MPB da tia, do barulho do motor e o mantinham acordado. A sonolência chegou repentina, e a chuva não ajudava. O fone de ouvido também inibia qualquer tentativa de socialização de Léia, o que já era grande consolo.

Despediu-se quando o carro parou e não esperou a resposta. Correu para o portão, sacando as chaves do bolso, e entrou em casa meio molhado. Sem se preocupar em cumprimentar ninguém, foi para o quarto. Tirou os tênis sem desamarrar os cadarços e desabou no colchão. Logo foi abençoado pela inconsciência do sono.

****

Os pés roçavam a terra afofada, afundando-se nela sem cerimônia. O cheiro de terra molhada invadia-lhe as narinas, indicando que devia ter chovido há pouco tempo. A lua erguia-se enorme no céu, banhando em prata as gotas de água na folhagem espessa da floresta que se abria diante dos seus olhos.

Os sonhos haviam voltado. Sabia que as visões também.

Não teve tempo para ponderar, porém. Primeiro, uivos, seguidos de um latidos indicando altos e em diferentes tons. Relinchares altos, trote desesperado de cavalos e um leve tremor sob seus pés indicaram-lhe que precisava fugir dali. Sem entender bem o porquê, correu para a mata.

É um sonho, repetia para si mesmo, enquanto corria desesperado. E sonhos não precisam fazer sentido. Logo acordaria em cima da cama, e estaria tudo bem.  Os galhos se quebrando sob seus pés, ou machucando seu rosto e braços, o faziam duvidar dessa certeza tão óbvia. Sentia o suor escorrendo, grudando no corpo inteiro; o calor abafado no coração da floresta, ausente de vento; a profusão de galhos e folhagens que pareciam querer atrapalhar-lhe a fuga.

Fugia. De quê? Não se atrevia a olhar, não queria constatar o óbvio: estava enlouquecendo. Vozes se juntaram aos relinchos, cada vez mais altos, mais próximos. Quase podia sentir o hálito quente dos animais na nuca. Risadas, gritos, grunhidos. Clangor de metal, emitindo um zunido que parecia capaz de estourar-lhe os tímpanos. Eles estavam vindo, e ele precisava sair dali.

Continuou correndo, adentrando cada vez mais na floresta, que se fechava ao seu redor. Poucos eram os raios de luz que conseguiam atravessar as folhagens pesadas. Com esforço, Paulo puxava o ar para os pulmões, arfando. O desespero o impediu de ver as altas raízes de uma árvore enquanto corria. Tropeçou e caiu sonoramente no chão.

Com os olhos arregalados de terror, vislumbrou seus algozes. O líder, uma criatura enorme, com o dorso de um cavalo e o resto do corpo de homem, encarava-o com um sorriso perverso de ódio. Olhos vermelhos e fumegantes, um rosto quadrado e largo. Em uma das mãos, uma espada de lâmina larga que emitia um estranho brilho azulado.

Atrás, seu séquito. Mais cavaleiros montados, cobertos da cabeça aos pés por um manto escuro moldado das sombras da noite. Outros monstros a pé, com a pele esverdeada e cheia de pústulas, de mãos desproporcionalmente grandes, com garras que se arrastavam na areia enlameada. Cães enormes, de patas esquálidas e olhos de um brilho azul faiscante.

– Finalmente nos encontramos, Alberon! – o líder cuspia as palavras numa voz retumbante. – E dessa vez sua magia simplória não o salvará.

– O que quer de mim? – Paulo gritou, a voz esganiçada pelo medo e pelo cansaço. – Me deixe em paz! Saiam daqui!

O pé doía de forma aguda, e sentia o sangue escorrer de um ferimento no calcanhar. A queda havia sido mais grave do que imaginava. As criaturas o encaravam, cercando-o, aproximando-se lentamente. Um dos cães avançou com um salto, abrindo a bocarra na direção do rosto do rapaz. Por instinto, Paulo levantou o braço, e sentiu as presas arranhando a pele. O líder, porém, tomou a frente, impedindo o avanço dos outros.

– Ele é só meu!

Rapidamente, o ser com patas de cavalo brandiu a espada colossal, descendo a arma na direção do peito do rapaz. Uma outra voz, claramente feminina, proferiu palavras em um idioma desconhecido, mas estranhamente familiar para Paulo. Um raio flamejante então cortou o ar, iluminando toda a turba por alguns instantes, e atingindo a criatura, que berrou de dor. O golpe, porém, ainda atingiu seu alvo.

Paulo sentiu a lâmina zunir pelo ar e cortar sua carne na altura do abdômen sem muito esforço. A dor o atingiu de súbito, intensa e incapacitante. Afundou o corpo na terra suja, gritando de dor. À distância, vislumbrou uma mulher em um vestido vermelho e cabelos compridos vindo em sua direção. Quem seria? Não sabia, mas estendeu-lhe a mão debilmente, antes de cair inconsciente mais uma vez.

****

Arrastava-se para a parte interna do castelo, embora a luta prosseguisse fora das muralhas. Lorde Alberon estava prestes a morrer, sabia disso. Seu sangue, sua essência mágica se esvaía em abundância do ferimento no abdômen. Ferro frio, uma liga rara de couro de dragão e ferro convencional.

Segurando-o por um dos braços, sua esposa, Promethea. Uma fada, a mais bela de todas, ajudava-o. Sua expressão denotava claramente a preocupação e o medo que carregava. Temia pelo Reino, pela batalha, e pelo seu marido. Mas sabia o que precisava ser feito, e sabia das consequências se não o fizesse.

Os olhos cor de âmbar do lorde feérico passeavam pela enorme sala decorada com os símbolos mágicos adequados. Tudo perfeito, tudo correto. Ele mesmo preparara, dias atrás, o ritual. Os augúrios sobre sua queda não falharam. Os outros magistas estavam ali, a postos para começar, apenas aguardando a invocação inicial.

Derramou-se no chão, sem forças para ficar de pé. Respirou fundo e, no tom mais alto que pôde, proferiu as palavras do complicado encantamento. Seu corpo feérico, sidhe, pereceria como toda matéria sem essência. Sua alma imortal, porém, não seria presa a uma arma vulgar de ferro frio. Estaria a salvo, em um plano longe dali, alojada no corpo de um mortal humano que carregasse, em suas veias, seu nome. No momento certo, despertaria.

****

Paulo acordou gritando para o quarto, de dor e de medo. Então, realmente não passava de um sonho. Gargalhou sozinho da situação. A floresta, a perseguição, nada além de um sonho perturbado.

A porta foi aberta estrondosamente. Sua mãe, descabelada, olheiras e a camisola desajeitada no corpo. Viu a expressão de horror crescer no rosto dela, mas não entendia por que. Puxou o ar para explicar e sentiu o líquido rubro espalhar-se pelo colchão. Seu sangue, de um ferimento na barriga. O pé esquerdo, certamente quebrado. A janela aberta dava para o jardim, e a lua ia alta no céu, indiferente.

****

O corpo, numa posição impossível, esfriava com a madrugada. O médico, agachado, preparava o corpo para colocá-lo na maca. Encarou os olhos azuis de Paulo e suspirou pesadamente. A morte, às vezes, podia ser a libertação.

  • Créditos da imagem: Tatsu-subaru
  • Um doce pra quem advinhar as referências. 😉

Aniversários

25 maio

Danna, Toshio, Alastar, Keileen e Rogar

A música corria pelo salão, o cheiro de comida impregnando toda a casa. As servas se apressavam de um lado para outro, conversas, pratos, talheres. A chuva de outono não permitiria a festa do lado de fora como ela gostaria, mas não havia do que reclamar. Aos dezesseis anos, era sua primeira festa de aniversário.

– A debutante não vai aproveitar a festa? – a conhecida voz falava atrás dela, amigável e carinhosa. – É o seu presente, afinal de contas.

– E eu nem tenho palavras para agradecê-lo, milorde. – Danna se virou, sorrindo largamente. Usava um vestido em tons de verde, ressaltando os olhos da mesma cor. Sardas pontilhavam o rosto e os ombros à mostra, os cabelos negros presos em uma trança-raiz, que, esperava-se, não se soltaria durante a noite.

– Apenas divirta-se, pequena. É o melhor obrigado que você pode me dar.

– Eu havia pensado em outra coisa…

Ela se aproximou, mordendo pouco discretamente o lábio inferior. Nos olhos, parcamente escondido pela maquiagem, desejo. Victor Aerathis, seu lorde e senhor, aquele que a salvara dos seus irmãos de criação. Galanteador, mulherengo e aventureiro famoso. E que, por algum motivo, ainda não a tomara nos braços e na cama.

– Desça para a festa, criança. – era assim como a chamava quando esses assuntos vinham à tona. – Depois nos falamos.

*****

A chuva castigava o vilarejo de meio de caminho impiedosamente, trazendo também pancadas de granizo. Uma das precipitações mais violentas acordou Danna, que se limitou a abrir os olhos. No abdômen, o ferimento do dia anterior ainda doía, e o corpo pedia descanso da longa viagem. Ao menos teria a desculpa para não continuarem a viajar.

Na verdade, queria voltar a dormir. Apagar pelo dia inteiro para que ele passasse logo. Era o dia do seu aniversário, o primeiro longe de Allania, de Redskull e de Victor, seus dois pais. A vida era mesmo cheia dessas pequenas ironias.

– Danna-chan? – a voz do oriental, sempre discreto e furtivo, do outro lado do quarto. Sentiu-o pousar a mão calejada no ombro com sardas e cicatrizes. – Já acordada?

– Pela bunda de Valkaria, como você sabe? – perguntou sem virar o rosto. Estava frio, estava sem ouro nos bolsos, no meio de um buraco lamacento que não merecia ser chamado de reino, e estava triste.

– Você… respira diferente. – limitou-se a responder, a expressão impassível, como sempre. Nunca conseguiria deixá-lo com raiva? – O tempo será pesado pelo resto do dia. Como está seu ferimento?

– Doendo. Não seguiremos viagem. E além disso, preciso reparar a armadura. Amanhã partimos.

– Me deixe ver.

Virou o corpo na cama, mal humorada. As bandagens avermelhadas de sangue indicavam a ferida ainda aberta. Toshio retirou o curativo com cuidado, os olhos puxados concentrados. Pressionou a área ao redor do corte que atravessara a cota de malha, recebendo um ranger de dentes em resposta. Doía.

– Uma pequena infecção. Nada grave, mas você precisa de repouso, e deve manter a ferida limpa.

– Você pode fazer isso?

Hai. – sem dizer mais nada, saiu, provavelmente para buscar o material. Danna sorriu, carinhosa. Ele reparava nas pequenas coisas, entonações de voz, verdades não ditas. Não perguntaria nada, ela tinha certeza. E talvez por isso, gostasse tanto da companhia dele.

*****

Victor atentava para os detalhes, e isso a agradava. A lareira acesa em uma noite particularmente fria de outono, e as mesas recostadas às paredes abriamespaço para a dança. O banquete já ia avançado e a música continuava. Chamar os artistas de bardos era bondade, mas eram músicos de algum talento. As chuvas enlamearam as estradas, e poucos se dispuseram a fazer a viagem.

Danna, porém, não se importava com aquilo. Estava radiante, dançando com Redskull, o cavaleiro enorme que a fazia de boneca no meio do salão. Àquela altura, já dançara com as amigas, com as servas que derramaram cerveja pelo chão e pelos vestidos, e entre os passos da dança improvisada, lançava olhares a um dos músicos, o mais apresentável deles. Tinha os cabelos nos ombros, escuros como a asa de um corvo, e um sorriso bonito. Só era um pouco magro demais. E entre os olhares, reconheceu nele a mesma expressão que dirigira a Victor antes da festa: desejo.

Talvez fosse divertido, afinal. Largou o pai, enorme e desajeitado, sentado a uma mesa e voltou ao salão. Lançara o desafio ao forasteiro, ao passo que, de soslaio, espiava lorde Victor. Ele era o presente que ela almeijava, mas, por enquanto, podia se contentar com o outro.

– Boa noite, jovem dama. Seu pai por acaso não vai brandir aquele machado enorme caso eu a convide para dançar, vai?

*****

Curativo refeito, humor melhorado. Não poderia celebrar seus vinte e três outonos com bardos e outros luxos, mas sabia que Victor gostaria de vê-la feliz. “Uma vez no inferno, dance com os diabos. Eles sabem fazer uma boa festa”, diria se estivesse ali. Certamente o inferno deveria ser um lugar melhor que Lannestul, mas Danna pensou que, em vida, seria o mais próximo do que ela chegaria.

Negociou com Eseld, a dona da estalagem em que estavam hospedados, um jantar com comida à vontade e um barril de cerveja por oito moedas de ouro. Mais as dez moedas do conserto da armadura, mais o que teria que pagar de estadia, e um par de novas roupas para viagem não fariam mal. É, precisaria arrumar um trabalho logo.

Mas era seu aniversário. Dar-se-ia ao luxo de não pensar sobre pragmatismos naquele dia.

– Chefa? – a voz de Keileen, chegando ao salão da estalagem, agora vazio. O andar gingado da ruiva denunciava que, apesar da pouca idade, ela já tinha visto muitas batalhas. – Tá melhor? Pode ser que a gente tenha trabalho.

– Trabalho do tipo que paga?

– E tem outro tipo de trabalho? – a meio-elfa sorriu, descontraída. – Mas eles querem falar com a chefa, pra variar. Ficaram de vir aqui no jantar.

– Bem, não vamos deixá-los esperando. Vamos até eles. – sorriu, levando a mão à espada. Não trataria de negócios em uma noite na qual provavelmente beberia até perder a memória. Não cairia bem a uma bem-nascida, afinal.

*****

Os lábios se roçando, o cheiro do vinho embalando o movimento dos dois corpos. A música minguava distante, a noite já alta, e com a maioria dos convidados dormindo. Os dois bailavam em outro ritmo, próprio, só deles, compassado, em um encaixe quase perfeito. Ele, experiente, explorava o corpo da jovem, passeando sem muita pressa. Ela, sedenta e agressiva, com o vigor e a impulsividade da juventude, mordia, cravava as unhas cuidadosamente tratadas para a noite do seu aniversário.

Abraçaram-se. No chão, as roupas finas de festa, desalinhadas e largadas, esquecidas. Aquele era o presente que desejava para a noite, que não poderia terminar melhor. A dança continuou, ávida, constante, crescente, inebriante. Danna mordeu os lábios, apertando-se mais no abraço e estremecendo. Fechou os olhos e se entregou ao momento, como nunca fizera antes. Amou-o. E sabia que, de alguma forma, ele também a amara.

*****

– Por que nós ganhamos comida de graça hoje? – a voz do guerreiro retumbava à mesa. Rogar era um homem inegavelmente grande, com mais músculos do que cérebro, e dono de uma habilidade inegável com o machado. – Podiam arrumar umas mulheres também!

– Eu não gostaria de mulheres. – protestou Kei, já alta pela bebida. – Ficaria satisfeita com uns homens diferentes dos feiosos de sempre. E por que você não vai atrás de umas mulheres pra você e pro chifrudinho aqui?

O “chifrudinho” era Alastar, o que Danna sabia ser tiefling, um herdeiro distante dos demônios que caminharam pelo mundo há séculos. Victor havia lhe falado brevemente sobre eles, o bastante para ela saber que eles são tão maus quanto qualquer pessoa. Ou seja: podem ir do melhor ao pior. E Alastar tinha olhos tão torturados que Danna imaginava que ele não lhes faria mal.

– Eu acho que posso escolher as mulheres sozinho, sem a ajuda de Rogar. – comentou o arcano, claramente sóbrio. O capuz cobria-lhe os relevos na testa, mas eventualmente deixava notar os olhos brilhantes.

– Mas eu posso lhe dar uns bons conselhos, mago! Eu já falei sobre a pérola?

As conversas continuaram, e Danna sorria. O ferimento dormente pela bebida. Para os próximos dias, trabalho. Para a noite, que mal começara, um banquete e diversão. Não podia reclamar, apenas torcia que, diferente das outras bebedeiras, aquela não terminasse com cadeiras e ossos quebrados.

– Danna-chan? – a voz sempre baixa de Toshio. – Podemos conversar?

– Conversar ou… conversar?

– Ambos… se você quiser. – respondeu com um meio sorriso.

– Eu não poderia pensar em um final de noite melhor. – concluiu com um sorriso largo.

Essa é a minha participação na Liga Narrativa (que devia ter sido de abril, mas… enfim), com o tema de Festas. Danna é uma personagem de um jogo de RPG guiado pelo Dan Ramos, autor também da ilustração acima. Danna Aerathis é a filha bastarda de Victor, que descobriu sua herança na ocasião da morte do pai.  Após conflitos com o governo do reino, que  não a reconhecia como filha legítima para herdar as terras, fugiu e hoje vive vendendo sua espada. Você pode ler outros contos sobre ela aqui e aqui.

Outros membros da Liga que participaram da brincadeira:

Italo – Cylon Party

Mário (Jagunço) – Diálogos Feéricos

Marlon – Fim de festa

A boa filha

8 fev

“Todos os anões podem ser bastardos, mas nem todos os bastardos precisam ser anões”.

(Tyrion Lannister, A Game of Thrones)

Indecisa, a garota segurou o cabo da espada com as duas mãos. Seu pai, um homem enorme e de uma farta barba ruiva, manejava o machado grande com uma naturalidade invejável, enquanto ela mal conseguia levantar a lâmina. Não era uma moça franzina, pelo contrário. Alta, tinha pernas fortes e bem torneadas, mas sempre foi um pouco desajeitada. Longos cabelos negros pendiam amarrados em uma trança, enquanto os olhos verdes iam do machado ao rosto do pai. Sabia que ele queria que ela fosse capaz de se proteger; a guerra se aproximava e, apesar de servir a um lorde, não poderiam prever quando seria necessário brandir uma espada.

– É assim que você vai lutar pela sua vida, mocinha? – a voz do pai retumbava, em um tom diferente do habitual. Estava sério como não costumava ser. Normalmente expansivo e bem humorado, Redskull parecia levar aquele treino como um dever a cumprir. Com um golpe rápido, prendeu a lâmina da espada no machado e, sem esforço, desarmou-a. A espada caiu com um baque seco no chão afofado pela chuva do dia anterior. – Você já estaria dividida em três pedaços agora. Vamos, pegue a espada. De novo.

Danna deu um olhar desconfiado para o machado do pai enquanto se abaixava, quase não notando os passos que se aproximavam. Se havia aprendido alguma coisa sobre lutas é que não podia se distrair; os hematomas do treino anterior ainda não a deixavam dormir bem. Claro que seu pai não a machucaria de verdade, mas ele adorava pregar peças, “como uma amostra do que pode acontecer em uma batalha real”.

– Redskull, é desse jeito que você pretende ensiná-la? – a voz era inconfundível. Victor Aerathis se aproximava calmamente, usando roupas de montaria. Mesmo vestindo roupas mais simples e resistentes, mantinha um porte nobre, altivo. Era o senhor daquelas terras, embora às vezes, só às vezes, Danna esquecesse isso. Não era raro encontrá-lo junto aos trabalhadores, bebendo uma cerveja barata e soltando galanteios para as mulheres. – Desse jeito vai fazer a menina perder uma mão, ou coisa pior!

– Oras, e quem você pensa que é para se meter nos assuntos da minha filha? – em tom brincalhão, trocaram apertos de mão e um breve abraço. Aquele tipo de lealdade, entre escudeiro e senhor, talvez ela nunca entendesse. Mas enchia-se de um orgulho besta ao ver a relação que o pai mantinha com aquele homem. Redskull, um grandalhão simplório, muitas vezes aconselhava Victor na administração das terras, dando-lhe uma opinião honesta sobre o que acontecia. E aquilo vinha funcionando muito bem, pelo que sabia.

– Vou deixá-los a sós, se me permitem. – despediu-se, fazendo uma mesura ao lorde. – Sei que têm assuntos a tratar. As lições podem ficar para amanhã, papai.

– Na verdade, pequena Danna, vim pedir os préstimos do seu pai. Algumas questões estão incomodando nas terras ao sul, e preciso que ele resolva isso pessoalmente. Eu mesmo iria, mas há uma comitiva para chegar daqui a alguns dias e sei que seu pai não gosta de lidar com a corte. – os dois trocaram um olhar breve, porém expressivo.– Você partirá pela manhã, sir. Passarei os detalhes mais tarde, no jantar.

– Pai, me leve com você! – pediu Danna. A ausência do pai significava a retomada dos maus tratos em casa. Sua madrasta, uma mulher reclamona, aproveitava as frequentes viagens do marido para usá-la como a criada que não tinha. – Eu não quero ficar aqui com aquela… mulher. E como eu vou aprender a lutar se você não fica uma semana em casa?

– Você está louca, menina? É perigoso! Imagina se acontece alg-

– Eu não quero ficar com aquela bruxa! – viu-se quase gritar. Não costumava desobedecê-lo, mas aquela mulher a enervava. Recebeu um olhar pesado do pai e respondeu em silêncio, os maxilares travados. Relaxou apenas quando ouviu Victor dizer:

– Eu não posso obrigar Redskull a levá-la, mas posso compensá-la, se me permitir. Sou um professor melhor que o seu pai, isso eu garanto. Não gostaria de ficar uns dias hospedada em minha casa?

**********

Anos depois, Danna entenderia porque Victor Aerathis, um dos heróis do reino de Allania, tinha tanta afeição por ela. E não era o mesmo interesse que ele demonstrava às outras mulheres a quem proferia tantos galanteios. Era algo diferente, embora ela não conseguisse precisar realmente. Durante aquela semana, tudo o que fez foi deleitar-se com a casa senhorial, o quarto tão mais limpo e arrumado que o seu, e com a companhia nos treinos de espada.

Quando a comitiva da corte chegou ao feudo, Danna descobriu porque Victor mandara Redskull para fora. Era um duelo, porém um duelo diplomático. “Negociações agressivas”, como o lorde definiu dias depois, enquanto conversavam bebendo vinho. Apesar de estar presente no jantar, vestindo roupas que não eram suas – e por isso um pouco curtas demais – não chegou a opinar sobre o assunto. A comitiva queria que Victor despendesse parte de seus homens para uma missão de reconhecimento. Ora, a Coroa não tinha pessoas especializadas nesse tipo de tarefa?

Outra pessoa à mesa roubava-lhe a atenção. Talvez como bandeira de paz, alguns nobres menores da corte vieram junto com a comitiva. Um rapaz dirigia-lhe olhares corteses, embora claramente interessados. Era uma moça bonita e sabia disso. Sabia também que aquele jovem não procurava nada além de alguém para aquecer-lhe a cama depois do jantar. Considerou aquilo um desafio. Se ele queria, que viesse buscar.

**********

Mais tarde aquela noite, Danna tentava passar sorrateira pelo corredor dos quartos designados aos hóspedes. Jon, esse era o nome do rapaz, ressonava profundamente àquela altura. Concentrada que estava tentando não fazer barulho, só percebeu que estava acompanhada quando sentiu a mão no seu ombro desnudo usando o conhecido sinete, um toque com o qual já estava familiarizada, seguida de uma discreta tosse forçada. Victor.

Tentou pensar em pelo menos três histórias diferentes, nenhuma delas muito convincente. Porcarias, porcarias, porcarias. Enrolada no lençol e segurando o vestido, ensaiou sua expressão mais natural o possível. Mentir seria de pouca valia. Devagar, virou-se para o lorde, e optou pelo caminho mais honesto.

– Eu… espero não ter desapontado-o, senhor.

– E por que desapontaria? Qual o problema de buscar uma noite prazerosa? – abriu um sorriso largo, os caninos proeminentes. – Não há nada de errado nisso. Fico feliz que alguém tenha conseguido algo essa noite. Se divertiu?

– Er… sim… mas… o senhor pode não contar nada pro meu pai? Não acho que ele ia ficar exatamente feliz comigo se… hã, souber do que…

– Estou certo de que seu pai não ia ficar chateado se souber o que aconteceu aqui. – falou Victor, em um tom carinhoso. – Mas não se preocupe, não contarei nada a Redskull. Comentar as aventuras de uma dama não é a postura de um cavalheiro.

**********

Quatro anos depois, foi com um senso de urgência que entrou novamente no solar senhorial. Sem se preocupar muito com cortesia ou boas maneiras, correu aos atropelos para o quarto. Alguns criados cercavam-no, deitado no leito, tentando de alguma forma parar o inevitável. Vitimado por um veneno inoportuno, destilado por uma criatura invejosa e pérfida, Victor Aerathis falecia sem um herdeiro legítimo.

– Meu senhor, Redskull disse que…

– Pro inferno com as formalidades, pequena. – a voz era fraca e rouca. A pele, antes com um bronzeado natural, agora empalidecia. Victor parecia bem mais velho deitado no leito, debilitado e fraco. Os cabelos negros esparramados nos travesseiros, as mãos, antes com apenas calos da empunhadura do sabre, agora ressecadas. E pensar que há poucas horas… – Sim, eu queria ver você. Gostaria de ter dito tudo isso antes, mas… espero que possa me perdoar um dia.

Com esforço, ele se colocou sentado. Chamou uma das criadas que lhe trouxe uma pequena caixa dourada, ricamente entalhada e abriu-a com alguma dificuldade. Dentro, um rubi brilhava, preso a uma corrente prateada. Apesar da fraqueza, Danna notou que ele olhava a joia com um sorriso nostálgico no rosto.

– Esse pendante… era da sua mãe. Ela pediu que eu entregasse pra você, filha.

Sem ação, a jovem o encarava, os grandes olhos verdes arregalados. Não sabia se chorava, se explodia de raiva, se terminava de matá-lo. Filha? Por isso o cuidado, o carinho, a atenção, os presentes, os treinamentos. Era uma bastarda. As mãos de dedos longos trêmulas seguraram a pequena caixa e, sem que percebesse, lágrimas caíram-lhe pelo rosto. Como pôde não notar isso antes? A semelhança era clara àquela altura: a pele levemente bronzeada, os cabelos negros e brilhantes, o mesmo sorriso largo de caninos pontiagudos…

Com reverência e ainda em silêncio, passou o pendante pelo pescoço. Ele sorriu e antes de tornar a deitar-se, com um gesto, pediu que a criada lhe trouxesse uma espada de lâmina longa, com um rubi semelhante incrustado. A arma brilhava à fraca luz, mas mostrava-se como recém-forjada. Uma espada bastarda.

– Mais uma das promessas que sua mãe me fez cumprir. Você deveria aprender o caminho da espada, e isso você fez muito bem. – um acesso de tosse violento o interrompeu. Não teria muito tempo, sabia disso. – Procure pela pedra sangrenta. Ela ficará orgulhosa de você, tanto quanto eu.

**********

Danna ouvira histórias de bastardos atormentados e infelizes. Não teve uma infância feliz, mas conforme dava passos resolutos em direção à casa de Redskull, cultivava um orgulho que não sabia bem explicar o porquê. Não era uma filha legítima, não sabia em era sua mãe, foi enganada por toda sua vida. Não deveria estar feliz, e não estava. Saber que era filha de um nobre e que teve sua paternidade renegada pelas politicagens e convenções sociais, porém, preencheu-a de uma esperança inexplicável. A infância dura e difícil teve seus motivos. Sua madrasta a detestava não porque era filha de um primeiro casamento, mas por ter sangue nobre. Redskull era leal a seu senhor, e nem uma filha poderia se intrometer nisso. Segurava a espada embainhada quando ouviu gritos vindos da casa. Tomada pelo mesmo senso de urgência de antes, correu para dentro do lugar.

– Você o matou, sua cadela miserável! – gritava Redskull, o rosto tão vermelho quando os cabelos e a barba farta. – Matou os senhores dessa terra! Matou lady Aleena! Você tem ideia do que fez, mulher?! Você tem ideia?!

– Sim, eu matei eles! – a mulher de meia idade berrava de volta. – Matei aquela putinha que brincava de ser nobre com quem você se deitava, matei aquele marido frouxo que não conseguia satisfazer a própria esposa! E o melhor, meu marido, é que tudo vai cair sobre os seus ombros! Você era o escudeiro dele! Você foi a última pessoa a vê-lo, enquanto enchiam a cara com vinho! Você cuidava das montarias dela! Você vai pagar pelo que fez com a minha vida, seu maldito!

Com uma tapa forte, a mulher caiu sonoramente no chão, derrubando uma cadeira. Redskull era um homem enorme, e não costumava pensar muito antes de fazer qualquer coisa, principalmente se tomado pela raiva. Danna tentou pensar nas implicações dos acontecimentos daquela noite, mas não teve muito tempo. Só sabia que o escudeiro leal de seu pai pagaria pelos crimes de uma desgraçada. E aquela criatura matou seu pai. Danna merecia sua vingança.

– Redskull! – gritou a plenos pulmões. Não conseguiria chamar a atenção de outra forma. O grito pareceu-lhe mais um rugido, como se externasse seus mais primitivos instintos. Os dois voltaram os olhares para ela, parada ali na porta, segurando a espada bastarda. – Vá embora daqui. Ela é minha.

O guerreiro logo se recompôs da surpresa, mas a mulher, não. Caída no chão, ela ali continuou, encarando a outrora enteada.

– Você me ouviu. Vá embora daqui, fuja dessas terras. Você vai ser visto como culpado, não importa o que se diga. Ela pagará pelo que fez.

********

Com a lembrança do sangue da madrasta na espada, Danna recebeu os mensageiros da Coroa em um jantar simples. Não demorou até que as notícias do assassinato de Victor corressem, e foi com os modos que aprendeu com o pai que recebeu os enviados para “negociações agressivas”.

– Então, senhorita, há de convir que está em uma situação delicada aqui.

– Apenas não entendo o porquê. Há testemunhas aqui que podem garantir o testemunho de meu pai a respeito do parentesco. Como ele não teve herdeiros-

– Sem querer macular a memória do lorde Victor Aerathis, sabia-se que ele era dado a galanteios. Então, como não garantir que outros na mesma situação que você apareça? A Coroa teria um problema familiar a resolver que apenas mancharia a reputação de um herói reconhecido pelo rei, e levaria anos, talvez décadas. Além disso, a palavra de um homem moribundo não será de valia para o julgamento da causa. – falou o mensageiro em tom definitivo. – Mas é claro que podemos pensar em alguma compensação, como um casamento com o futuro dignatário…

– Meu caro, acho que não nos entendemos aqui. – interrompeu a jovem, levantando-se, as mãos apoiadas na mesa de madeira. – Essas terras são minhas por direito, e se a Coroa não reconhece isso, eu não me importo de lutar pelo que é meu. Meus homens vão escoltá-lo às suas montarias.

Antes que pudesse pronunciar qualquer ordem aos seus guardas, o mensageiro viu-se cercado. Os guardas do feudo apontavam lanças e espadas para a escolta, enquanto dois deles colocaram-se de lado do arauto, flanqueando-o. Naquela noite, Danna aprendeu que com palavras, se começa uma guerra.

**********

Depois de quase um mês de cerco, ela sabia que perderia. Houve poucas baixas, mas a fome e a sensação de enclausuramento minavam as forças dos homens, e a sua própria. Mas ela sabia também que a Coroa não estava interessada em perder mais homens de armas em tempos de guerra: eles buscavam por ela, e somente ela. Um bode expiatório, alguém para culpar e responsabilizar. Em uma noite, mandou que os soldados se rendessem sem resistência. Deixara um cavalo preparado para a fuga e, após ter a certeza de que seus homens ficaram bem, fugiu. No pescoço, o pendante rubro. Na bainha, a espada que aprendeu a usar com o pai. No coração, a certeza de que um dia voltaria ali e retomaria o que era seu.

  • Prelúdio da minha personagem para o jogo do Daniel Ramos. Uma ideia que era para ser pequena e acabou ganhando mais páginas do que deveria. ;]

Demônios da Noite

1 dez

As vozes se tornaram habituais. De gritos, tornaram-se sussurros, rastejando pelas entranhas de sua mente. Keriann não sabia o que era pior. Os gritos eram assustadores, mas ininteligíveis. Já o que aquelas criaturas sussurravam, ah, ela compreendia muito bem. Mate-os, eles não merecem sua confiança. Traidores. São demônios. Querem eviscerar seu corpo e mente, seu rosto, seu arco. Retese seu arco, espere-os cair de cansaço e atire. Atire. Atire. Faça-os ouvir a canção do inferno através da corda do seu arco. Atire. Mate.

Os sonhos, certamente, eram os piores momentos do dia. Passou a dormir apenas quando o cansaço a exauria, e acordar ao primeiro raio de sol da manhã. Via as criaturas disformes saírem das sombras, lançando seus longos braços e garras e pústulas em sua direção. A sensação de estar presa, amarrada a um leito de sangue, carne e entranhas. Gritava, gritava alto, sentia a garganta ressecar da sua própria voz, mas como das outras vezes, ninguém a ouvia. Até escutar a voz familiar de Lyon chamando seu nome. Primeiro, como um sussurro inaudível. Depois, como a chama de uma vela no meio da escuridão profunda: trêmula, fraca, e, no entanto, ainda a guiá-la. E então, acordava.

Naquela noite, sabia que não seria diferente. Nos becos da cidade de pedra e madeira e tijolos e mercadores e guardas, as formas rastejavam. Eles não estavam lá, sabia que não estavam, ou era o que queria acreditar. No coração de Portsmouth, reino que não mantinha boas relações com Bielefeld, a arqueira olhava desconfiada. Na casa de Lady Rowena, esposa de Darius Drakkan, homem que aprendera a odiar, e a quem agora todos pareciam dever favores ou estar aliados, na casa daquela bela mulher, não seria diferente, ela sabia. As criaturas, os chamados demônios da tormenta, poderiam estar em qualquer lugar. Keriann sabia disso.

Olhando da sacada da janela, viu os criados colocarem os cavalos para dentro. O pequeno pátio abrigava alguns guardas, e à distância, aproximava-se um pequeno destacamento. Guiando-o, um cavaleiro vestindo armadura e peles. Howell – um dos dois esposos de Vento. Criaturas da Tormenta poderiam não estar naquela morada, mas outros diabos intangíveis abrigavam-se nos recantos das paredes decoradas, como orgulho e ciúme.

Resolveu esperar. Tinha seus próprios problemas para enfrentar aquela noite.

Para devolver parte da sanidade da arqueira, Vento, nome druídico da mulher que conheceu por Aillah, teve que abrir mão de sua própria. Keriann sabia disso, e agora as duas partilhavam visões que ninguém mais poderia entender. Mas o que Vento teve foi apenas um vislumbre da Loucura e do Terror.

Sorriu, consolada. Seria melhor assim. Não desejava nada daquilo para ninguém.

Deitou-se na cama confortável, com lençóis imaculadamente limpos. Encarava o teto de pedra do solar, imaginando o trabalho que deveria ter sido construir aquele lugar, considerado “modesto” por sua dona. Modesta. Modesta era a cabana em que morara, há… um ano atrás? Dois anos? Já não podia precisar o tempo. Resolveu que viveria dia após dia, conforme as coisas fossem acontecendo.

Fechou os olhos, exausta. Queria que a Noite levasse seus tormentos embora, queria partir, para onde? Não importava, não mais. Não haveria lugar para ela, haveria? Talvez não devesse ter saído da ilha… não, a ilha não, aquele lugar não. Mas e se perdesse o controle de novo, e se levantasse o arco para eles, mas não seria capaz de fazer isso, não, não seria. Keriann, a pobre criança? Criança? Já não era criança há muito tempo, e sabia disso. Sabia. Sabia que eles estavam lá, à espreita, esperando que dormisse, que fechasse os olhos, que não resistisse ao cansaço e adormecesse…

Um ranger de porta a trouxe de volta à realidade. Os lençóis em desalinho comprovaram que estivera dormindo, mas não mais. Procurou o arco às cegas, no meio da Noite densa e escura, a Noite que envolvera todo o quarto enquanto ela dormia. Maldição.

Sussurros. Envolveu o arco com a mão e encontrou a aljava. Pelo leve barulho que fazia, pôde deduzir a localização do seu alvo, e como caçadora, antes que pudesse pensar, a corda balançava, a seta disparada, o gesto tão natural. Não conseguiu evitar de sorrir ao grito agonizante da criatura.

Mas haviam outros, e seus sentidos falharam em percebê-los.

Rápido como o vento que agora entrava uivando pela janela, sentiu-se ser arremessada contra a parede. O ar escapou-lhe dos pulmões, mas conseguiu manter o arco em punho. O pescoço agarrado pelo braço esquálido da criatura, Keriann podia sentir os nós dos dedos apertando-lhe as artérias. Não tinha espaço para atirar, mas o bom caçador sabe que não é apenas com flechas que se abate uma presa.

Os braços livres, levantou o arco na direção do rosto de quem a agarrava e sentiu-o fraquejar. Rapidamente se livrou dos dedos nodosos e caiu no chão, tateando em busca das setas que se espalharam pelo tapete. Agarrou quantas encontrou e com a velocidade adquirida nos campos de batalha, saltou uma saraivada por todo o quarto. Gritos e grunhidos cortaram-lhe os ouvidos, e pensando ter ganhado tempo, saiu em disparada para a porta. Sentiu uma mão repleta de garras segurar-lhe a perna e levando-a ao chão.

Dessa vez, não consegui segurar a arma.

Gritando, acordou repleta de suor. Era o mesmo quarto, a lua brilhando lá fora, a brisa gentil a refrescar a pele suada.

Um sonho, mais uma vez. Enquanto acalmava o coração, que mais parecia uma parada militar desgovernada, uma dor aguda fez com que levasse a mão ao abdome.

Sentiu o líquido quente entre os dedos e o cheiro férreo subir-lhe as narinas. Sangue.

Os olhos azuis arregalados, olhou em volta. Flechas espalhadas, algumas cravadas na porta de madeira, outras quebradas conta a pedra das paredes.

Sufocou um grito, horrorizada. Eles estiveram ali. E não a esqueceram.

  • Keriann é uma personagem de um jogo de RPG, de uma campanha que está às portas do fim (chiuf!). Sei que a maioria das pessoas não vai entender muita coisa, afinal, é algo feito com o bonde andando, mas espero que agrade. Não parei para adicionar “legendas” nem comentários didáticos, porque, pessoalmente, acho isso muito chato.
  • Link da imagem: Nightmare, por Trixis.

Destiny

12 mar

As escamas avermelhadas brilhavam à luz bruxuleante das tochas do salão. O templo, dedicado a Bahamut, era sempre iluminado, mesmo que não houvesse ninguém presente. O draconato em vestes cerimoniais dirigia-lhe um olhar grave e austero, como faria com qualquer devoto que lhe procurasse. Isso não incomodaria Sonja se não fosse por um detalhe: ele era seu pai.

– Você sabe que precisa fazer isso, Sonja.

– E por que eu devo ir à terra dos humanos? Eu sou uma guerreira, não uma diplomata.

– Está questionando os meus desígnios, Sonja? Os desígnios de Bahamut?

– Não, sacerdote.  – as palavras saíam-lhe à contragosto. Sabia que boa parte dos “desígnios divinos” vem da vontade daqueles que professam a religião. E sabia o que estava por trás das intenções de seu pai: ele a queria longe, convivendo com os humanos. E por quê?

– Ótimo. Então prepare suas armas, pois sua viagem começa amanhã, antes mesmo que a aurora desponte.

– E o que devo procurar entre eles?

Afastando-se do altar consagrado ao grande deus dragão, o sacerdote olhou-a com uma expressão que Sonja não pode identificar. Compaixão? Seria ele capaz disso? Com um andar solene, quase ritualístico, o draconato aproximou-se da filha.

– Algo grande está prestes a acontecer, Sonja. As visões são incertas, difusas e imprecisas, mas não são boas. E acredite ou não, eu vi você em meus sonhos.

Aquilo alarmou a draconata – os desígnios muitas vezes eram manipulados, mas Sonja já presenciara enquanto alguns descendentes de dragões tinham visões de fatos futuros. Ela engoliu em seco, encarando o pai.

– E no seu sonho, eu morro?

A ausência de palavras bastou para responder a pergunta. Instantes de silêncio se passaram, embora a guerreira não pudesse precisar quanto tempo exatamente. Mas por que deveria se alarmar? Não seria a morte o destino de todas as criaturas, afinal?

– Eu estava em batalha?

– Sim. – a voz poderosa ecoava pelo salão vazio.

– E você está me mandando para a terra dos humanos, para me poupar de tal destino?

– Você não entende, criança insolente. Acredite: é o melhor para você.

– E se eu não for?

– Se não for por vontade própria, eu a exilarei do nosso povo. É o que quer? Deixar os seus desonrada, sem valor? Agora obedeça-me e vá preparar seus pertences para a viagem. Haverá um banquete de despedida.

A guerreira deixou o salão, irritada e impotente. Até compreendia seu pai, mas se algo tão grande e perigoso era iminente de acontecer ao seu povo, ela preferia estar entre os seus e morrer entre eles. Mas não tinha escolha agora.

Enquanto isso, o sacerdote via a filha afastar-se, desaparecendo de sua visão. Nem em séculos ela seria capaz de compreendê-lo, mas seria melhor assim. O poderoso deus dragão o alertou, e ele não recusaria seus conselhos. Mal sabiam os dois que haviam desencandeado os fatos que culminariam no destino final da draconata: a fortaleza do Pendor das Sombras.