Arquivo | Cyberpunk RSS feed for this section

[The Liquid State] Cairo, 2082

29 set

“Somos governados por demônios de mentira. Por trás dos fantoches estão as garras escuras e verdadeiras”.

– Ditado cairota.

Cheguei de Londres há dois meses e ainda não acredito no que vejo. A grande Cairo abriga 68 milhões de almas, distribuídas em catorze cidadelas separadas por níveis de segurança (duas de baixa, cinco de média, seis de alta e o Centro Administrativo). Suas torres se espalham por todo o horizonte, dos dois lados do Nilo, em uma imensidão de presas negras contra o céu enevoado e morto. Controlada pelo Comitê Saariano, um aglomerado de representantes de governos europeus e asiáticos, eleitos por seus próprios parlamentos e enviados à África a cada oito anos, a megalópole é o centro financeiro do arrasado continente africano. De suas ferrovias e portos partem os carregamentos de minério, madeira, peles, e órgãos clonados, frutos de subimportações das nações do sul. A eles, chegam implantes, medicamentos, veículos e armas, produzidos aos bilhões em unidades industriais sediadas no Mediterrâneo e nas Estações de Produção do deserto da Arábia. Os equipamentos, de segunda, terceira e quarta categorias, são o estimulo precário enviado pelas maiores nações para a manutenção das condições no Saara.

Desde a década de 2040, os conflitos étnicos e políticos converteram a região em um pesadelo administrativo. Ainda assim, as minas de metadióxido de silício e o tráfego intermitente (e ilegal) de órgãos clonados e células tronco embrionárias (indispensáveis na fabricação de componentes de ajustamento e anti-rejeição de implantes) mantêm o interesse das corporações. Sabedores disso, facções religiosas islâmicas – expulsas da cidade há décadas – e grupos paramilitares de inspiração nacionalista têm transformado toda a região norte do continente em uma área de tensão. As únicas forças militares legais continuam sendo a Força de Segurança Continental (controlada diretamente pelo Comitê) e a Marinha Francesa. Além destas, contudo, a cidade abriga centenas de mercenários vindos de todas as partes. Enquanto as forças legais precisam medir poder com o terrorismo regional, os grupos ilegais atuam junto a corporações locais ou mesmo sob as ordens do Comitê a fim de resolver “problemas de casa”.

Abaixo das torres escuras das indústrias de reciclagem de água e conversão de quartzo, o Cairo é um pesadelo. 87% da população (entre imigrantes, refugiados do centro-sul africano e mão-de-obra das minas saarianas) vive sob condições de pobreza extrema. A força policial local é  composta por destacamentos militares da FSC sem treinamento para a função (mas com considerável tratamento para o combate). Imensas construções em ruínas, incompletas ou semi-destruídas por bombardeios três décadas atrás, servem de abrigo para milhões de famílias. Mercados precários transferem comida entre as cidadelas, mas estes são controlados por cartéis de atravessadores. A prostituição (real ou virtual) é extremamente comum, assim como a venda ilegal de implantes ultrapassados, drogas de aceleração (para o uso nas conexões com a Rede) e medicamentos ainda em fase de testes, contrabandeados ou introduzidos secretamente por empresas farmacêuticas. Para coroar a maldição faraônica que ainda a permeia, não é fácil deixar este lugal. A FSC controla cuidadosa e obcessivamente o tráfego para dentro e fora da cidade. O receio do Comitê para com o roubo de mercadorias, a fuga de mercenários e de seus próprios soldados serve para fazer da Cidade, uma prisão murada pelo pavor. Por quanto tempo, nós, civilizados, nos calaremos diante das atrocidades produzidas em nome do futuro? Por quanto tempo o
silêncio será mantido na terra da Esfinge?

Post identificado e censurado pelo Quadro Monitor em 21.2.2082.

Identificação do N.I.P. fonte: 00344033.2333.2345021.32033.949724.99.78

Secretaria de Seleção Informativa

Departamento de Registros de Rede

SubComitê Saariano de Gestão Urbana

Post escrito pelo Mário (aquele que… ok, eu vou parar!) para ambientação no cenário. Espero que curtam! =D Criei uma categoria à parte, para facilitar o acompanhamento de quem quiser ler com o bonde andando.

[The Liquid State] Niah – I

20 set

Niah – Diário 0100
Neurovideo nº 17:32:16:08:20:11

Preparo o rifle para mais uma missão, a rotina diária. Desmonto, limpo, lubrifico, checo os componentes de integração com o olho biônico. O quinto componente da segunda fileira continua dando um problema de incompatibilidade. Rejeição genética. Foi o quinto técnico que disse isso, e o quinto a afirmar que não tem jeito de me consertar. O último ainda veio dizer que eu deveria nascer de novo em um corpo menos defeituoso.

Minha resposta se resumiu a um soco na cara com o braço artificial. Deve ter rendido uns dentes a menos ao paspalho. Pf, nascer de novo. Eu renasci quando acordei naquela maca imunda pelo meu próprio sangue, sem um braço e cega de um olho. Um corpo novo, porém, não seria nada mal.

– Niah? – a voz irritantemente serena de Kojito. – Está pronta?

Levanto o olhar da arma e termino de montá-la, com um clique sonoro. Com a mão de carne, tiro o cabelo revolto da testa – preto, fino e ondulado, como o da minha mãe. O asiático me encara com aqueles olhos puxados que não revelam nada do que ele está pensando e sorri.

– Vai ser um trabalho fácil. Só precisamos matar o chefão do tráfico na região, quando ele sair da reunião. Ele é um sujeito descuidado, você vai notá-lo logo.

– Você disse uma coisa parecida da outra vez. E isso terminou comigo sendo arremessada para o outro lado da rua.

– Seu bom humor me impressiona – ainda sorrindo, ele se aproxima. – Algo te perturba, pequena?

Houve um tempo que eu gostava quando ele me chamava assim. Não mais, embora em não saiba bem o motivo. Afinal, eu continuo pequena. E ele só quer demonstrar algum tipo de… carinho, acho, em relação a mim. Mas o apelido faz eu me sentir ainda menor, fraca, debilitada, como no dia em que ele me encontrou, com um braço quebrado em dezesseis pedaços e quase morta. Mas o maldito japa, que na verdade é coreano, embora isso não faça diferença nenhuma no fim de mundo que é o Cairo, o maldito me conhece, e sabe quando algo não está bem.

– Só sinto que… algo vai dar errado. Um pressentimento.

Ele abre um sorriso sereno, que deveria me acalmar, mas acaba me enervando. Agacha-se diante de mim, aproxima o rosto e me beija. Não consigo mentir ao meu próprio corpo e relutando no início, mas de bom grado, cedo. Primeiro, o contato é frio e distante, como ele agia comigo quando acordei do coma. Mas logo vem a sensação familiar, o aconchego, e, com a mordida no lábio, a promessa do que poderia vir mais tarde.

– Vai ficar tudo bem, Niah. Apenas se concentre. Mantenha o foco. Pela manhã, você estará rindo de si mesma.

*****

Correndo da explosão, concluo que deveria dar mais valor à minha intuição. Era pra ser um trabalho fácil, mas alguém tinha nos delatado. Eles sabiam de todas as nossas posições, e nos desmantelaram com uma eficiência incrível. Perdemos pouco, porém. E àquela altura, repensando melhor os acontecimentos do dia, eu até fazia alguma ideia de quem era. Massao.

Desde quando ele chegara, três semanas atrás, cheio de referências e recomendações, eu desconfiei. Uma coceira nos dedos de carne, um nó na boca do estômago. Dias depois, conversando com Kojito, ele disse que aquilo poderia ser intuição, mas que provavelmente era só alguma comida estragada. Ou as drogas, vai saber.

Bem, ele estava errado, e eu estou certa dessa vez. Mas o que valia a palavra de uma viciada em stims, amante de um dos chefes, cujo trabalho era aquecer a cama dele e atirar de vez em quando? Caminhando para o chiqueiro que o novato chamava de quarto, eu penso bem nas palavras a serem usadas. Não posso falhar, não agora.

– Niah? – ele me olha, espantado, a pele negra quase se escondendo no uniforme.

– Tem um minuto?

– Claro. Kojito quer algo de mim?

– Ele não, mas eu quero saber o que porra aconteceu naquele trabalho – é minha única carta. Se eu estiver errada, estarei fora do bando, muito provavelmente morta. Mas se estiver certa… – Eles sabiam de tudo ao nosso respeito, e muitos se machucaram. Eu quase morri. E você, estranhamente, mal apareceu na ação.

– Eu estava ocupado, cuidando de um outro grupo deles que aparec… Eu não devo satisfações pra você, pirralha. Só porque você abre as pernas pra um dos chefes acha que pode vir aqui e falar assim comigo?

Sorrio, e ele se desarma. Àquela distância, o cyberware ocular me permite notar os mínimos detalhes da sua expressão, as gotículas de suor se formando, apesar do frio, e a leve tremida nos lábios escuros. Ele sabe que eu sei, e então, só
então, eu me afasto.

– O que você quer, vadia?

– É pro governo que você trabalha? Com aquela quantidade de referências forjadas, você não é um mané qualquer.

O silêncio o denuncia mais uma vez. Eu me aproveito.

– Um corpo novo, que funcione, como esses que os milicos no topo da pirâmide usam. Me arranje isso, e logo, ou eu conto tudo, e você vai desejar morrer.

Como se nada estivesse acontecendo, volto para a mesa comunal. Nenhum dos chefes está lá, o que me dá tempo para pensar. Estou prestes a me juntar com um rato, um delator, e, assim, me tornar uma cúmplice. Há tempo de desfazer, eu posso contar para K, mas… é a minha chance de me tornar inteira de novo, sem defeitos.

Viro um copo de uma bebida que desce queimando. Não preciso saber o nome, preciso apenas… não me arrepender.

Projeto cyberpunk escrito a quatro mãos com o Jagunço (vulgo, Mário Benevides). Mais coisas em breve. ;D

Synthetics

24 abr

“So take me down to the cities of the future
Everybody’s happy and I fell at home”

(Infected Mushroom, Cities of the Future)

Os prédios levantavam-se pela paisagem, como uma tentativa fracassada de alcançar o céu. Olhou para cima e tudo o que pôde ver foi uma grande massa cinzenta carregada e suja. Não sabia de que cor era o céu. Nunca o viu, embora alguns registros antigos que juntavam poeira digital em algum museu virtual o mostrasse de diferentes cores dependendo da hora do dia.

Aquilo não lhe fazia sentido. Como pode algo tão imenso e inalcançável variar de cor de maneira natural? As modelos de propaganda – olhou para o lado e viu um imenso outdoor luminoso, mostrando uma ocidental de cabelos multicoloridos oferecendo indecorosamente um refrigerante – colocavam implantes para que seus cabelos ilusoriamente perfeitos mudassem de cor de acordo com os humores. Quanto ao céu, devia ser algo com a incidência de luz natural.

Percebeu a bobagem que estava dizendo. Que diferença fazia saber a cor do firmamento? Não ganharia dinheiro com aquela informação. Não poderia cobrar favores de ninguém com aquilo. Informação descartável.

“Como eu”, pensou.

Olhou mais uma vez o pequeno terminal e viu o verme espalhar-se pela Rede como uma praga bíblica. As informações alcançariam seus destinos, e o caos se instalaria em breve. A velocidade com que tudo se espalhava pela Rede era increvelmente surpreendente.

“Está fazendo a coisa certa”, ouviu mais uma vez a voz dizer na sua mente. Já não importava se era certo ou não. Era o que queria fazer.

Ouviu atrás de si a porta sendo violentamente aberta. Sorriu. Aquilo não adiantaria, não mais. Antes que pudessem atirar com balas que destruiriam seu ser – como aprendera tão recentemente – artificial, as luzes apagaram por toda a Megalópole. O Blecaute teve início.

Os tiros soaram.

Sentiu o vidro se esfacelar com o peso do seu corpo, e caíu vertiginosamente.

Longe dali, no escuro, alguém sorriu.

O céu continuava cinzento, pesado e sujo.

Eu jurei pra mim mesma que o próximo post de ficção seria relativo ao Hunter High School. Mas a culpa é do @_jagunco_. Cortem-lhe a cabeça. ;D

Texto de abril (olha, dessa vez estou em dia!) da Liga Narrativa. O tema da vez é Vida Cyberpunk (na verdade, era só Cyberpunk, mas alguém acrescentou um Vida aê. ;P).  Outros que já participaram da brincadeira:

Marlon – Segunda-Feira

Mário – Caos 283

Wired

4 jan

NOTA: Essa história começou a alguns meses, depois que eu li o Neuromancer, de William Gibson. Eu tenho algumas idéias em mente, mas preciso colocá-las no papel – tenho uma dificuldade incrível de me concentrar quando escrevo no computador. Mas não se preocupem: o caso de Wired e Case está planejado.  Você pode ler a primeira parte aqui, neste link.

Um 2009 próspero e cheio de todas as coisas boas que todos desejam. 🙂

A consciência ia e vinha, junto com a dor. Wired abriu os olhos várias vezes, e tinha a impressão de ver alguém. Mas então a dor voltava, e o desmaio parecia muito mais atraente. No entanto, o efeito dos anestésicos já havia acabado, e a dor a impedia de dormir. De olhos fechados, Wired ouvia a conversa.

– Case, quem é essa mulher?
– Não sei. Tava trabalhando pro mesmo cara que eu. Por quê?
– Que tipo de coisa ela faz?
– É uma tecnauta. Pega informação ali, vende aqui, invade uns bancos de dados. Peixe pequeno, até onde eu sei.
– Hm, é só… ela tem muita coisa. Implantes. Muitos. E caros.
– Eu não sou pago para fazer perguntas, nem você, até onde eu sei. – uma pequena pausa na fala, enquanto pensava um pouco a respeito. – Caros, você disse? Podem ser reaproveitados? Digo, caso ela…

Wired deu um leve sorriso, divertindo-se com a própria desgraça. Sentia um comichão na altura do ombro, e se lembrou do primeiro tiro que levara. O que a incomodava agora era o ferimento na barriga. Onde tinha enfiado aquele dermo? A voz era fraca, mas sabia que eles poderiam ouvir.

– Sabem, eu posso pagar bem mais do que essas porcarias. Mas não é como se eu estivesse em condições de… negociar, não é?
– Isso depende. A posição, na verdade, a gente acerta depois. E quem me garante que você não está mentindo?
– Por que você acha que aqueles capangas, inclusive você, estavam me perseguindo? Todos eles queriam negociar uma orgia com uma tecnauta, por acaso?
– Case, o que você… – Chad começou a falar, mas foi interrompido pelo colega.
– Que você roubou alguma coisa daquele imbecil lá atrás não é novidade, japinha. E é claro que deve valer alguma coisa, pra você ter saído correndo daquele jeito estúpido.
– Você não é tão burro quanto eu pensei. E se for mais esperto, deve saber também que eu preciso levar isso aqui pra pessoa certa, não é?
– E você precisa de ajuda para isso, certo?
– Bingo.

E de novo a dor – fazia tempo que não levava um tiro. Trabalhar para um único empregador podia tornar as pessoas sedentárias, afinal de contas. Mas Wired sabia que aquela boa vida não iria durar por muito tempo. Sabia que cada vez que se conectava à matrix, eles se aproximavam dela. Estava na hora de passar o segredo adiante. Sentindo as pálpebras pesarem, continuou:

– Eu preciso do meu equipamento, está no meu apartamento. Preciso que você traga até mim.
– Acha que ainda está lá, japa? Aqueles capangas já devem ter limpado o lugar.
– Acredite, eles são mais burros do que você imagina. Atrás da cama, você vai achar um leitor digital, disfarçado pelo sistema de refrigeração. Arranque a tampa e traga até aqui, certo?
– E o que faz você ter certeza de que eu não vou te trair?
– Você vai voltar pra cobrar o que eu te devo.

A japa tinha razão. Case voltaria. Mas para cobrar outras coisas além da dívida: respostas.