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Fulfilled

8 abr

Abriu os olhos para a escuridão como tantas outras vezes. A cabeça rodopiava pelas paredes do quarto – estava no quarto? Não sabia dizer ainda. Seu corpo doía e tremia como nunca antes. Já havia se machucado antes em serviço, não era novidade. Mas diferente das outras vezes, trazia um sorriso no rosto.

Lembranças da noite passada afloravam na mente confusa. Houve uma luta, embora ela não lembrasse bem o que aconteceu. Só devia ter apanhado bastante.

Sorriu, e o sorriso logo se transformou em gargalhada. E quando a caça se torna caçador?

Não importava. Ele conseguiu deixá-la assim. Estava feliz. Preenchida. Alimentada. Completa.

O gosto férreo do sangue tornava a aparecer na boca. Relembrando o momento, ela ainda se deliciava. Não poderia descrever se quisesse. E por que deveria se preocupar com palavras? Ninguém entenderia. Ninguém precisava entender.

O sangue vertia suavemente do pequeno corte nos lábios. Ela não entendeu a princípio; não deveria ser a presa? Mas não questionou. E ao provar, soube que não poderia desejar algo diferente. Depois de tanto tempo, finalmente preencheu o vazio que tanto a atormentara. Cada gota de sangue fazia-a tremer dos pés à cabeça. Prazer. Excitação. Adrenalina. Rápido. Forte. Intenso. E profundamente errado.

Naquele momento, soube que não havia nada igual. Soube que estava perdida.

E mesmo na lembrança, deleitava-se. Apesar da dor e dos ferimentos, era imbatível. Ninguém ou nada poderia detê-la.

A cabeça girou mais uma vez. Não se levantaria tão cedo.

Um lapso de sanidade: estava indo longe demais. Tinha que parar com aquilo. Seria capaz?

Mais um da Liga Narrativa, dessa vez seguindo o conselho de um amigo. O tema de março (que eu estou descaradamente postando em abril) foi Banquetes. Abaixo, os outros que resolveram se refestelar. E o desenho é claramente inspirado na Lust, de Full Metal Alchemist.

Aniversário de Namoro – Roleplayer

O Segundo Gosto – O Feudo

Fome – Juca’s Blog

A luz que queima os olhos – Parte final

26 mar

Parte 1 aqui.

As luzes da árvore de Natal passaram para as luzes vermelhas e azuis das sirenes da polícia. Catteryn se viu observada por uma multidão de curiosos conforme era levada para uma das viaturas. Na multidão, reconheceu o homem que salvara sua vida.

– Acha que pode falar sobre o que aconteceu? Não está cansada, mocinha?

A voz era de uma mulher; a sala era de interrogatório. Detetive Bennet, ela podia ver no crachá que trazia uma foto antiga da mulher com quem falava. O braço estava fortemente enfaixado, mas três rastros de sangue se viam pela gaze.

Catteryn queria falar; talvez assim, parte da dor fosse embora. Talvez falar a ajudasse a entender o que aconteceu.

Acordara no meio da noite. Desceu as escadas, pensando que surpreenderia o pai comendo os biscoitos da árvore de Natal, e encontrou o copo quebrado. Na sala, viu primeiro a mão da aliança; Depois, o seu pai, caído, inerte. E então a voz da mãe, parecendo implorar a alguém.

– E o que ela disse?

Não lembrava. As palavras não tiveram nenhum sentido, Lembrava-se apenas das vozes, e da pessoa que atacara a sua mãe. Não viu nada, apenas uma forma que tentou agarrá-la. E então alguém chegou atirando.

– Você viu o homem? Os policiais disseram que você falou de um negro. Poderia descrevê-lo?

Veio-lhe à mente a imagem do homem que a observava na multidão. Era alto, usava uma jaqueta pesada, coturnos militares e uma calça jeans surrada. Tinha o rosto marcado e um cabelo curto, estilo militar. Ele lhe salvara a vida. Mas não adiantaria dizer isso à detetive Bennet. Eles queriam um culpado; e o primeiro a ser procurado seria o negro que entrou na sua casa atirando.

– Não, estava escuro. Ele só gritou que eu ficasse lá e saiu correndo atrás do… do outro.

– Tudo bem, não se preocupe. Se você lembrar de alguma coisa, qualquer coisa, pode nos procurar. – a mulher forçou um sorriso, talvez por pena. – E esse seu braço, não está ponteado por quê?

– O médico falou algo sobre uma infecção. Disse que ia demorar a sarar.

Ela não fazia idéia do quanto.

**********

Estava correndo. O peito arfava, suas pernas parecendo não conhecer limites para o esforço. Sentia nos pés o sangue ainda quente do pai.

Olhou para trás, mas já não havia luz. A árvore de Natal estava derrubada, e a escuridão era quase palpável. Apenas ouvia a respiração e os passos arranhando o assoalho. Estava perto, muito perto, cada vez mais perto.

Continuou correndo, mas ele a alcançou. Segurou-a pelo braço e uma dor lancinante percorreu-lhe o corpo. Não conseguia mais se mover, não havia mais porque. Olhos amarelados, fendidos como os de um gato, a encaravam, deliciados com o medo da menina. Catteryn gritou, sabendo que ninguém a escutaria. E acordou.

– Outro pesadelo, menina?

Os faróis do carro iluminavam a estrada. A escuridão se estendia, e as luzes da cidade já não podiam ser vistas pelo retrovisor. Pela manhã, já estariam fora do Texas. Kate olhou para motorista pelo retrovisor: sisudo e sério, o homem negro de cabelo curto não devolvia o olhar.

– É, outro pesadelo. – respondeu. – Gregor, como você sabia… daquela coisa que nos atacou?

– Ocorrências parecidas anteriormente. Agora volte a deitar no banco. A última coisa que eu preciso é ser acusado de sequestro.

Kate afundou no banco revestido de couro. Era um carro velho, mas os bancos eram confortáveis. Os pesadelos não parariam, e tinha certeza, embora não soubesse o porquê, que a coisa voltaria um dia. Não estava segura com seus tios, não estaria segura sozinha. Gregor, ao menos, parecia saber um pouco mais. Mas não era do tipo que falava muito.

Não importava. Ela teria muito tempo para pedir explicações.

A luz que queima os olhos – Parte 1

14 fev

Acordou de repente, abrindo os olhos azuis para a noite escura. Algum barulho a fez despertar, embora não soubesse exatamente o quê. Deve ter sido seu pai – ele sempre insistia em deixar leite e biscoitos para que Papai Noel tivesse o que comer quando viesse deixar os presentes. Cateryn já era bem grandinha para saber que seu próprio pai era quem comia os biscoitos.

Talvez se o surpreendesse, ele desistiria dessa baboseira. Ela já tinha catorze anos, afinal. Sonolenta, esfregou os olhos e levantou-se. Olhou para o relógio na parede; passava das três da manhã. Descalça, a garota saiu do quarto.

Estava tudo escuro no andar de cima. Cateryn não se incomodava – era acostumada a fazer aquele caminho quando acordava à noite para ir ao banheiro. No fim do corredor, viu a porta do quarto dos pais aberta. Deviam estar no andar de baixo então.

Começou a descer as escadas devagar. De maneira indireta, as luzes da árvore de Natal iluminavam o caminho. Verde, amarela e vermelha; verde, amarela e vermelha.

Um barulho chamou-lhe a atenção: som de passos no andar de baixo, arrastando-se com um leve arranhar no assoalho. Não reconheceu os sons – teria mais alguém em casa? Apreensiva, a garota continuou a descer os degraus.

Faltando pouco para chegar ao hall, a luz vermelha da decoração natalina refletiu sobre os pedaços de vidro no chão. Um copo quebrado, o leite derramado, os biscoitos espalhados.

Sentiu o coração disparar dentro do peito. Algo muito errado estava acontecendo. Com cuidado, terminou de descer as escadas e desviou dos cacos de vidro.

Vindo da sala, ouviu um barulho abafado, como se algo pesado tivesse caído no tapete. Temerosa, Cateryn virou-se na direção da sala, e a iluminação parca permitiu-a ver apenas uma mão inerte no chão; no anelar, uma aliança dourada. Era seu pai.

Quando era mais nova, Cateryn sempre perguntava por que a aliança do seu pai era diferente da que sua mãe usava. Cada vez ouvia uma história diferente, até que sua mãe contou, por fim, que seu pai perdera a aliança personalizada no dia seguinte ao casamento, na piscina do hotel. E agora ele estava ali, caído, com o pijama ensangüentado e os olhos vidrados. Morto.

Teve vontade de gritar, mas a garganta estava travada. Sabia que não deveria continuar ali, mas o que fazer? Chamar a polícia? Sair correndo pela rua, pedindo ajuda? Tudo o que conseguiu fazer foi ficar ali parada, olhando em choque o corpo sem vida.

Sentiu lágrimas descerem pelo seu rosto, e ouviu um soluçar baixinho. Estava chorando? Uma voz familiar, então, se fez soar pela sala. Vinha de trás do sofá, perto da sala de jantar, onde, há apenas algumas horas, foi feita a ceia de natal com alguns parentes. As palavras não faziam sentido, apenas a voz fez a garota andar. Era sua mãe.

– Por favor… nos deixe em paz… leve apenas a criança e nos deixe em paz…

Cateryn andou, autômata, na direção dos sons. Sua mãe estava viva? Sentiu o pé descalço pisar no sangue empoçado do pai; ainda estava quente. Colocou a mão sobre o sofá felpudo e ouviu outro sussurro ininteligível. Não era a voz da sua mãe. Não era nenhuma voz que pudesse reconhecer. Não parecia sequer uma voz, na verdade, mas a cadência com que falava indicava isso. Ouviu, ainda, um grito baixo e sufocado da mãe. Só então conseguiu virar o corpo para ver o que estava acontecendo.

A pouca luz amarela provida pela árvore não a permitiu discernir muita coisa. Cateryn viu sua mãe com o pescoço numa posição estranha e impossível para quem estivesse vivo. Em cima dela, havia alguém curvado sobre o corpo da mulher. Parecendo surpreso, a pessoa olhou para a garota. A luz da árvore refletiu em olhos amarelos e fendidos, como olhos de gato.

E como um gato diante de um carro, Cateryn estava. As pernas pesaram, seus músculos se retesaram. Seu braço ainda estava apoiado no sofá; sentia o tecido felpudo entre os dedos, o sangue viscoso do pai entre os dedos dos pés.  O que quer que fosse, estava se aproximando. O que quer que fosse, estendia o braço para agarrá-la.

O barulho de um tiro a fez acordar mais uma vez aquela noite. O desconhecido recuou, não antes de segurar-lhe pelo braço com dedos afiados como garras. A garota gritou, de dor e de medo, e outro tiro ecoou, dessa vez bem mais próximo. Cateryn sentiu o braço livre e correu sem saber para onde. Atrás do sofá, viu um homem alto e negro usando uma pistola prateada. Com uma voz grave, o homem gritou:

– Fique aí!

E foi só o que ele teve tempo de dizer. O que ouviu depois foi o som da janela sendo quebrada e os passos se afastando.  Uma dor lancinante vinha do braço, e o que conseguiu fazer foi se encolher no sofá e chorar. Estava só.

Toda história tem um começo. Hoje, trago o início da história de Kate, conforme os posts anteriores do blog. E aproveitando a oportunidade, é minha contribuição para a Liga Narrativa, aglomeração de blogueiros contadores de histórias. O tema desse mês é Começos. Abaixo você pode conferir outros que também estão na brincadeira:

Começos – Armageddon

Verbos – Jagunço

Quando a Luz vacila na Escuridão

28 set

Kate Empty SketchO despertador tocava. Pela terceira vez. Precisava acordar. Ir à escola. Prometera a Greg. E as aparências. Precisavam ser mantidas.

Não tinha vontade. Olhar para aquelas caras insossas, aquelas pessoas que não sabiam de nada. A sala inteira, o time inteiro. Ah, o time. Terça-feira? Tinha treino hoje, droga. Cheerleading. Não agüentava mais a Jennyfer. Nem aquelas outras que a seguiam como uma ninhada de patos. Quack quack. Katherine deixara aqueles dias para trás há muito.

Por uns dias, achou que poderia voltar àquela vida. Ou quase. Sabia que coisas espreitavam às escuras. Conhecia a verdade, ou parte dela. Mas quando chegou naquela cidadezinha, quando voltou à escola, quando se inscreveu para os testes, chegou quase a acreditar que aquela poderia ser a sua vida. Estudar. Faculdade. E tomar cuidado quando saísse por aí.

E veio aquele… espírito. Aquela fantasma atormentada. O fantasma de uma líder de torcida, pode? Kate estranhou, Greg não estava na cidade. Foi o seu primeiro trabalho. E aquela criatura, aquela coisa arruinou a vida de tanta gente… quantos não morreram? Quantos ela não deixou morrer para fazer alguma coisa?

Ela chorou, por uma semana ou mais. Revia Eric morrer, e ela inerte, impotente, entorpecida. Mas ela salvou pessoas. A própria Jennyfer, que nunca vai saber disso. O jogador de futebol; como era o nome dele mesmo? Ele estava bem agora. Ela ajudou alguém, no final das contas. Doeu, mas conseguiu superar. Greg estava lá. Imaginava o que ele não teria visto, quantos não teriam morrido diante dele.

Kate poderia ter morrido se ele não tivesse chegado à tempo, anos antes. Quantos anos? Parecia algo tão distante agora…

Ele a ajudou. Ele a levou para investigar os casos de pessoas que estavam brigando e se matando por motivos banais. Ela descobriu a boate. E lá conheceu aquele demônio.

Linda. Linda, sensual e provocante. A DJ da boate parecia ter sido desenhada por um Milo Manara. Kate nunca pensara na possibilidade, mas vê-la ali, tão dedicada, apaixonada e estonteante não a fez pensar duas vezes. E ela percebera seu olhar.

No dia seguinte, entraram no lugar. Kate e Greg, disfarçados, fizeram uma sondagem. E à noite, Kate voltara. E se deixou levar para o quarto. Era uma súcubo – e o exorcismo tinha que ser perfeito. Nada podia dar errado.

Mas deu. Ela era poderosa, e resistiu. Resistiu do jeito que poderia fazer: fazendo-a sentir um prazer forte, intenso, agudo, dolorosamente bom, e indescritível. Com um olhar. Apenas com as intenções que sua essência infernal trouxe à terra.

Naquela noite, Kate matou alguém. Era a sacerdotisa, quem trouxera aquela criatura das profundezas. Não a consolava pensar que era necessário. Ela matou alguém. Apontou a arma, puxou o gatilho e viu a mulher cair no chão. Mas não foi o que mais lamentou aquela noite.

Fez o exorcismo. Deixou-a ir embora. Fez com que ela fosse embora, de volta para o inferno, talvez. Mas desejou aquela sensação, aquele prazer pecaminoso uma vez mais. Mais. Queria mais, e de novo, e mais, e cada vez mais. Aquela intensidade, as ondas reverberando pelo seu corpo jovem e rijo e tenso. Desde aquela noite, era a única coisa que desejava.

E buscou, e buscava, e busca. Continua procurando. Apenas uma casca vazia, era como se sentia. E de que adiantava viver assim? Nada era interessante. Nada dava vontade. Bebeu, transou com tantos naquelas semanas que não podia nem contar. Contar. Contar a quem? Quem a entenderia? Não podia. E ainda buscava.

O despertador tocou. Pela quarta vez. Ou quinta? Não conseguia contar. Não podia contar. A ninguém. Olhou pela janela: o sol iluminava e esquentava seu quarto. Não tinha vontade de ir. Mas precisava. Encher a cabeça. A cabeça com conversas inúteis, planos inúteis, assuntos inúteis, pessoas inúteis. Nenhuma delas a preenchia. Nenhuma delas lhe servia.

Odiaria cada minuto daquele dia. Odiaria a si, àquele vazio, a si. Relutante, desligou o despertador e se levantou.

Texto que escrevi para uma personagem de Hunter: The Vigil. E para comemorar os dois anos de um blog quase abandonado.

O despertador tocava. Pela terceira vez. Precisava acordar. Ir à escola. Prometera a Greg. E as aparências. Precisavam ser mantidas.

Não tinha vontade. Olhar para aquelas caras insossas, aquelas pessoas que não sabiam de nada. A sala inteira, o time inteiro. Ah, o time. Terça-feira? Tinha treino hoje, droga. Cheerleading. Não agüentava mais a Jennyfer. Nem aquelas outras que a seguiam como uma ninhada de patos. Quack quack. Katherine deixara aqueles dias para trás há muito.

Por uns dias, achou que poderia voltar àquela vida. Ou quase. Sabia que coisas espreitavam às escuras. Conhecia a verdade, ou parte dela. Mas quando chegou naquela cidadezinha, quando voltou à escola, quando se inscreveu para os testes, chegou quase a acreditar que aquela poderia ser a sua vida. Estudar. Faculdade. E tomar cuidado quando saísse por aí.

E veio aquele… espírito. Aquela fantasma atormentada. O fantasma de uma líder de torcida, pode? Kate estranhou, Greg não estava na cidade. Foi o seu primeiro trabalho. E aquela criatura, aquela coisa arruinou a vida de tanta gente… quantos não morreram? Quantos ela não deixou morrer para fazer alguma coisa?

Ela chorou, por uma semana ou mais. Revia Eric morrer, e ela inerte, impotente, entorpecida. Mas ela salvou pessoas. A própria Jennyfer, que nunca vai saber disso. O jogador de futebol; como era o nome dele mesmo? Ele estava bem agora. Ela ajudou alguém, no final das contas. Doeu, mas conseguiu superar. Greg estava lá. Imaginava o que ele não teria visto, quantos não teriam morrido diante dele.

Kate poderia ter morrido se ele não tivesse chegado à tempo, anos antes. Quantos anos? Parecia algo tão distante agora…

Ele a ajudou. Ele a levou para investigar os casos de pessoas que estavam brigando e se matando por motivos banais. Ela descobriu a boate. E lá conheceu aquele demônio.

Linda. Linda, sensual e provocante. A DJ da boate parecia ter sido desenhada por um Milo Manara. Kate nunca pensara na possibilidade, mas vê-la ali, tão dedicada, apaixonada e estonteante não a fez pensar duas vezes. E ela percebera seu olhar.

No dia seguinte, entraram no lugar. Kate e Greg, disfarçados, fizeram uma sondagem. E à noite, Kate voltara. E se deixou levar para o quarto. Era uma súcubo – e o exorcismo tinha que ser perfeito. Nada podia dar errado.

Mas deu. Ela era poderosa, e resistiu. Resistiu do jeito que poderia fazer: fazendo-a sentir um prazer forte, intenso, agudo, dolorosamente bom, e indescritível. Com um olhar. Apenas com as intenções que sua essência infernal trouxe à terra.

Naquela noite, Kate matou alguém. Era a sacerdotisa, quem trouxera aquela criatura das profundezas. Não a consolava pensar que era necessário. Ela matou alguém. Apontou a arma, puxou o gatilho e viu a mulher cair no chão. Mas não foi o que mais lamentou aquela noite.

Fez o exorcismo. Deixou-a ir embora. Fez com que ela fosse embora, de volta para o inferno, talvez. Mas desejou aquela sensação, aquele prazer pecaminoso uma vez mais. Mais. Queria mais, e de novo, e mais, e cada vez mais. Aquela intensidade, as ondas reverberando pelo seu corpo jovem e rijo e tenso. Desde aquela noite, era a única coisa que desejava.

E buscou, e buscava, e busca. Continua procurando. Apenas uma casca vazia, era como se sentia. E de que adiantava viver assim? Nada era interessante. Nada dava vontade. Bebeu, transou com tantos naquelas semanas que não podia nem contar. Contar. Contar a quem? Quem a entenderia? Não podia. E ainda buscava.

O despertador tocou. Pela quarta vez. Ou quinta? Não conseguia contar. Olhou pela janela: o sol iluminava e esquentava seu quarto. Não tinha vontade de ir. Mas precisava. Encher a cabeça. A cabeça com conversas inúteis, planos inúteis, assuntos inúteis, pessoas inúteis. Nenhuma delas a preenchia. Nenhuma delas lhe servia.

Odiaria cada minuto daquele dia. Odiaria a si, àquele vazio, a si. Relutante, desligou o despertador e se levantou.

Monólogo

15 abr

nicole-sketch

Eu não sou melhor que ninguém.

Ver o corpo cair mudo na cama me fez perceber que eu não sou melhor que ninguém. Não sou melhor que meu pai, a quem tanto censurei em pensamento, por ser um líder do crimoe organizado – que hipócrita eu sou. De onde vinha, então, o dinheiro que sustentava minhas viagens à Europa? Definitivamente, eu não sou melhor que Don Giorgio. Caspita, eu não sou melhor nem que meus irmãos, que tão ferrenhamente seguiam os passos de meu pai. Ao menos eles não fechavam os olhos para o que realmente acontecia.

“Valorizar a vida, por saber o que há depois dela”. Mentira! Uma baboseira da qual eu tentava me convencer para conviver com a culpa que eu carrego. Uma auto-enganação, para que assim eu possa dormir à noite sem que meus pesadelos pulem na minha garganta. Mentira pura, falso escrúpulo. Eu não tenho sequer princípios. Eu matei um homem – e gostei disso.

Mas este homem, que agora não passa de matéria inerte, este homem foi o responsável por toda a desgraça que se abateu sobre a Família. Sobre a minha família. Um informante, Fellipo. E agora estava morto. E isso não me trará paz, mas me trouxe… prazer. Temporário, efêmero, tanto quanto a vida, mas ainda assim prazer. Há quanto tempo eu não fazia algo com tanta gana, tanta vontade…? Alguém para culpar, alguém para odiar por tudo o que estava acontecendo. Ele era o responsável pela morte do meu irmão, pela minha quase loucura. Quase? Alguém podia dizer que eu não já estou louca de fato?

Minhas mãos tremem, e eu tenho vontade de chorar. Talvez eu esteja louca de fato, talvez fosse melhor parar. Sair dali, fugir. Para onde eu não sei, não faço ideia. Para a minha família, eles cuidariam de mim, eles se importam comigo.  Que dizer ao meu pai, quando sair desse quartinho bolorento? Que ele está morto, que eu não vou mais ser assombrada, que eu o matei com a minha magia? O que ele vai pensar quando vislumbrar aquele corpo envelhecido, a pele quase solta nos ossos, a expressão de dor e pavor, os cabelos tão grisalhos? Veneno. Um novo tipo de veneno, eu direi, que envelhece o corpo da vítima. E a faz sofrer.

E ele sofreu, e gritou – Bruxa! Bruxa! – e continuou gritando de dor. Eu vi o medo, o pavor nos seus olhos, e eu gostei daquilo. As sombras, a sua própria sombra o caçava, o buscava, o tocava, distribuindo pelo seu tao frágil corpo os calafrios gélidos que lhe tiravam a vida.

Vida. A vida é supervalorizada. Eu estive do outro lado, e sei o que há. E não é nada de terrível. Do Outro Lado, a vida não importa, seus desejos não importam, seus afazeres de nada valem. Seus objetivos não passam de memórias de um mundo distante. A vida é apenas matéria inerte.

Tudo é matéria, afinal. Eu também serei. Todos serão.

Eu matei um homem. E Deus me perdoe, mas eu quero fazer isso de novo.

Essa é uma peça de ficção. Nicole é uma personagem de RPG em um jogo de Mage – The Awakening, com domínio sobre a esfera de Morte. Outras estórias dela apareceram aqui no blog, como vocês podem ver nos posts anteriores, mas para um esclarecimento rápido, Nicole é filha de um mafioso de Chicago, e há alguns meses seus irmãos foram atacados enquanto faziam um serviço para o pai. O mais velho morreu, e agora a assombra procurando por vingança contra o responsável pelo acontecido.

Um conto de Natal

20 dez

“I know you’re still there

Watching me, hunting me”

(Evanescence, Haunted)

Era uma noite de Natal. Na rua, barulhos de carros – já eram poucos, mas de vez em quando os faróis acesos iluminavam momentaneamente o quarto da jovem. Ao telefone, o tom da voz era suave, quase em deleite – como era bom aproveitar as descobertas da adolescência. Quando se veriam? Amanhã, depois do almoço. Sempre depois do Natal havia um almoço em família, e ela não poderia faltar.

Mas já era tarde – o relógio apontava quase duas da manhã. Seu pai poderia acordar e vir com aquela conversa mole na qual todos os pais são peritos. Evitando a tábua do assoalho que rangia, passou para o corredor sem dificuldade, onde guardou o telefone sem fazer barulho. Quando voltava para o quarto, ouviu um barulho vindo da cozinha – um barulho surdo, abafado, como alguém que tentava andar em silêncio. Seria seu pai que se levantara, para beber água ou coisa assim?

Enquanto preparava mentalmente uma desculpa para estar de pé, a garota se dirigia à escada de madeira que levava à sala de estar. A iluminação era quase nula, provida pelas luzes coloridas e alternadas da árvore de Natal. No entanto, mesmo à pouca luz, percebeu a sombra que se avultuava, oriunda da cozinha. E algo a dizia que aquilo não podia ser bom.

Assustada, seu primeiro instinto foi correr de volta ao quarto. Sentiu o coração acelerar, mas mordeu o lábio e tentou andar sem fazer barulho. Voltaria ao telefone, chamaria a polícia e se esconderia no escritório do pai. Dessa vez, porém, não conseguiu evitar a tábua que rangia. E então o vulto a percebeu.

O homem virou na direção de Catelyn e a parca iluminação revelou um sorriso assustador, com dentes demais e inumanamente largo. Um cheiro forte acompanhava-o, inebriando o olfato da garota: enxofre? Assustada, tudo o que conseguiu fazer foi gritar.

Enquanto o desconhecido parecia deleitar-se com o grito agudo da jovem, seu pai saiu do quarto. Gritou alguma coisa para Catelyn – chamar a polícia? Fugir? Não pôde distinguir – e foi na direção do invasor, apenas para ser arremessado violentamente escada abaixo. Entre o apagar e acender das luzes da árvore, vislumbrou os olhos do desconhecido: fendidos, olhos de gato.

Parte de si gritava que deveria correr, que fosse embora. Buscar por ajuda ou simplesmente tentar sobreviver. Mas simplesmente não podia: algo parecia travar-lhe os movimentos. O medo, talvez? Parecia algo mais. Aqueles olhos…
Tinham um brilho próprio, aqueles olhos. Mesmo na escuridão quase absoluta do lugar, Catelyn podia ver as fendas vermelhas que brilhavam incandescentes. E daqueles olhos ela não esqueceria, mesmo que sobrevivesse àquilo. Quem era aquele homem? O que ele queria, afinal?

Cada vez que as luzes se acendiam, ele se aproximava cada vez mais. Num ímpeto de coragem, ou talvez loucura, Catelyn tentou correr para seu quarto. A mão da criatura, no entanto, alcançou seu braço, e a jovem sentiu como se garras lhe perfurassem a pele, rasgando a carne. Gritou mais uma vez, um misto de dor e pânico, e começou a correr.
Trancou a porta apressada, enquanto pensava no que fazer. O invasor começou a arranhar a porta, emitindo uma risada sufocada, em profundo divertimento. Catelyn olhou para a janela, a única saída, e sabia que era uma boa queda até o chão. Mas não tinha escolha – fez força para levantar a vidraça e sem pensar duas vezes, pulou no quintal.

Uma dor aguda no pé indicava que talvez tivesse quebrado algo – mas não se importou. Correu desesperada pela rua mal iluminada, mas estranhamente mais confortável do que o interior de sua própria casa. A cada passo que dava, esperava deixar para trás tudo o que aconteceu. Como explicaria aquilo? Continuou correndo. Olhando para trás, ainda pôde divisar a forma da criatura, olhando-a sorrindo da janela.

Cherry ‘n Blood – Parte I

16 out

As nuvens ameaçavam cair sobre a já cinzenta cidade de Chicago. As poucas pessoas que andavam pelo bairro residencial carregavam guarda-chuvas e pesadas capas, o que deixava a visão mais desanimadora. Nicole caminhava sem pressa, os tênis pisando em algumas poças de lama e o cabelo balançando ao vento incomum da primavera.

Gostava de andar enquanto tentava compreender todas as mudanças ao seu redor. Apreciava ver o céu quando estava prestes a chover – fazia-na perceber como era pequena diante de outras coisas. Agachou-se para amarrar os cadarços – por isso que preferia botas – quando um vento forte trouxe um cheiro doce, suave embora impregnante. E poderia ter ficado ali, se uma voz desconhecida e o toque frio do cano de uma arma não a despertasse.

– Se levanta devagar, moça. Devagar como se nada tivesse acontecendo.

Cereja. O cheiro era cereja.

– Isso mesmo, belezinha. Continua andando.

Havia cerejeiras ali? Não conseguia ver nenhuma. Talvez elas estivessem longe. Pensar nas cerejeiras faziam com que não temesse tanto aquele sujeitinho. Era só um assalto, não precisava de medidas drásticas. E se precisasse… ela saberia o que fazer.

– Entra aqui, moça. E nem pense em fazer nada idiota.

Ainda em silêncio, Nicole entrou no beco. Se precisasse recorrer aos seus poderes, era melhor em um beco escuro e deserto do que em uma rua movimentada. Mas talvez não precisasse, talvez fosse só um assalto. Ali não havia vento, mas o cheiro parecia estar mais forte, tomando todo o local. Só então se atreveu a olhar seu agressor. Um rapaz de cabelos compridos e maltrapilho, igual a tantos outros.

– Dinheiro, celular, esse relógio legal… deixa tudo aí no chão.

E então novamente o vento, vindo de lugar nenhum dessa vez. O cheiro ficou cada vez mais forte, mais presente, quase palpável. E então ela pôde sentir: uma criatura de muito poder estava fazendo aquilo. Uma pontada de dor violenta fez suas pernas bambearem, e ela reconheceu tudo: o cheiro, o poder, aquela presença aterradora… um Oni.

– Mas que porra é essa?

A voz do rapaz soava distante agora, conforme a dor de cabeça aumentava. Queria mandá-lo embora, queria arremessar a bolsa longe para que ele simplesmente saísse dali, mas a dor a deixara quase sem forças. Sentia quase como se sua alma estivesse sendo sugada. Abriu a boca, tentando dizer que fosse embora, mas o que ouviu foi um grito alto, forte e aterrador, que gelou-lhe até as raízes dos dentes.

O rapaz olhava para os lados, desesperado, apontando a arma para o nada que o aterrorizava. Os olhos arregalados tentavam observar o nada, e à beira da inconsciência, Nicole podia ver exatamente a direção para onde o Oni seguia. E não era até ela.

Os ventos aumentavam cada vez mais e começavam a tomar forma. Círculos de vento se formavam entre Nicole e o rapaz, que já estava na entrada do beco, com a arma ainda apontada. Aos poucos o Oni foi tomando forma – uma armadura de placas enorme começava a aparecer, imaterial, mas nem por isso menos real ou perigosa. Apesar da dor, Nicole tentava se levantar – impediu que um desses se manifestasse uma vez, podia fazer de novo. E se tinha algo que prenderia a atenção de um oni, era sangue.

E sangue era o que ele buscava. Mas não o daquela tenra jovem recém-desperta para a magia, e sim o daquele anônimo. Barulhos de tiro soaram, mas foram abafados pelo vento enquanto as balas perfuraram o concreto e ali ficaram. Sua risada, no entanto, se sobressaiu a qualquer barulho que pudesse existir ali, conforme Kojiro avançava na direção daquele desconhecido. Suas longas garras trespassaram o corpo do rapaz ao meio, e o golpe que parecia não ter surtido efeito ao primeiro momento, mostrou sua eficácia logo em seguida: a pele do rapaz se abriu em três cortes longos e profundos, o sangue saindo em profusão, empoçando o corpo já sem vida do rapaz.

De joelhos, Nicole tentava realizar o que estava acontecendo. Seus olhos verdes arregalavam-se conforme a poça de sangue aumentava e se aproximava. Tocou no sangue, ainda quente, como se pudesse reverter aquilo.

– Nicole Perazzo, vim aqui por você.