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Grilhões

12 jun

Bitter face, empty eyes.
There has been so many smiles.
(Vanished in Haze, Rage)

Uma dor intensa no peito a fez despertar aquela noite. Com lágrimas aos olhos, ela olhava confusa ao redor. Aos poucos, reconheceu o lugar. Era seu quarto, porém estava diferente. Não sabia identificar o quê, entretanto.

A cama vazia; estava sozinha. Estava? Olhou para o banheiro, a luz apagada. Não estava lá. Estaria com insônia mais uma vez?

Levantou-se, pisando no chão que deveria estar frio. Que horas deveriam ser? Três da manhã? O aquecedor estava ligado e não percebera?

Encontrou-o, como esperava, na varanda, olhando o céu. Ultimamente carregava aquele semblante: pensativo, levemente triste, certamente desnorteado. O que tanto o atormentava?

Andou pela sala de estar; ele não pareceu notá-la. A camisola arrastava-se muda pelo chão. Havia uma pasta aberta em cima da mesa – propostas de compra de imóvel. Onde estavam os porta-retratos com as fotos do casamento? Aqueles eram os mesmos móveis que escolhera?

Uma porta de vidro que ia do teto ao chão separava-os. Quando levantou a frágil mão para abri-la, percebeu que não podia tocá-la. Sangue rubro descia-lhe pelo braço, desaparecendo antes de pingar no assoalho.

Foi então que viu seu reflexo. E gritou alto o bastante para que ninguém a ouvisse.

**********

O jornal de um ano atrás, as páginas já amareladas pelo uso e pelo tempo. Em preto e branco, a foto e a nota anunciando o crime. No colo, fotos coloridas. Tirou-as da sala para que os outros pensassem que estava bem.

Não estava em absoluto. Ficaria um dia?

E ela, estaria bem? Rezava para que sim.

Levantou o olhar para o céu estrelado. Se tivesse filhos, diria que ela se tornou uma estrela no céu, de onde os observava. Mas não houve filhos nem estrelas. Apenas os grilhões e o vazio.

Permitiria que ela fosse embora um dia?

**********

Toda noite, ela despertava na cama. Molhada em seu próprio sangue.

Toda noite, ele ia até a varanda, o rosto molhado em lágrimas.

Toda noite, ela via o próprio reflexo. Aterrorizada, não conseguia chegar até ele.

Toda noite, as fotos, refletindo uma felicidade de outrora.

Dos dois lados do vidro, a dor da perda. E a incerteza do que aconteceria caso as lembranças fossem destruídas.

Meu texto do mês para a Liga Narrativa. O tema é Masmorras, calabouços e prisões. Fui um pouco além, mas…

Quis matar dois coelhos com uma bordoada só, e fazer um texto temático para o dia dos namorados. ; )

Definitivamente, eu preciso escrever algo com mais testoterona. Carros explodindo, pessoas se matando, coisas de macho. xD

Outros posts da Liga:

Erick – Morrendo pela boca

Sobre fantasmas e heróis

7 maio

All my heroes have now become ghosts
Sold their sorrow to the ones who paid the most
All my heroes are dead and gone
But they’re inside of me, they still live on

(Heroes – Shinedown)

Tudo começou com uma moça bonita batendo à sua porta. Falando alguma coisa sobre ser jornalista. Estaria mentindo se dissesse que escutou o que ela disse no começo. Algo sobre estar fazendo uma matéria a respeito dos acidentes na estrada.

E então ela usou a palavra: assombração. Fantasmas, e coisas assim. Então ele escutou. E contou o que sabia. Sobre o acidente que quase o matou, e que o fez ter medo de sair de casa desde então. Há quatro anos. E que ela, Rebecca, o fantasma, queria se vingar dele. Por motivos extra-conjugais.

Agora, sendo interrogado pela polícia, Richard nem mencionara a moça que lhe salvara a vida. Para eles, tudo não passaria de um satanista que profanou o túmulo da sua ex-namorada. No fim, restaram duas pessoas mortas: um rapaz, que Rebecca, manipulada, matara, e que seria arquivado sem solução; e um faxineiro que ele nunca vira na vida, mas que, de algum modo, controlava Rebecca.

Ser filho de um juiz, nessas horas, ajuda. Sabia que tudo daria certo. E nem precisou falar de nenhum fantasma. Quando foi liberado, pegou o celular e mandou uma mensagem.

**********

Kate conseguia entender um fantasma vingativo. O que não quer dizer que gostasse deles, mas conseguia entendê-los. Eles tinham um motivo para voltar do além e buscar vingança, ou proteger alguém, ou qualquer coisa assim. Não precisavam ser bons motivos, mas eles tinham.

Mas as pessoas, bem, essas ela estava longe de entender.

Diante do espelho enferrujado do banheiro, ela olhava o hematoma no rosto. Uma mancha roxa se espalhava próxima à orelha. Inventaria uma desculpa qualquer.

No braço, um ferimento mais profundo, feito à faca. A mesma faça usada para abrir cortes do corpo de Rebecca, o fantasma vingativo que, meio sem querer, Kate destruíra. Depois de meio vidro de álcool derramado e muitas caretas de dor, ela esperava que estivesse limpo.

Fantasmas existiam; ela testemunhou. E o rapaz, que tentou tão desesperadamente salvar, seria enterrado amanhã.
Com cuidado, enfaixou o braço. Precisava ficar discreto o bastante para que ninguém notasse sob a roupa. Tinha certeza que se fosse a um hospital levaria alguns pontos, mas esse era um luxo que não podia ter.

– Você fez o que podia. – ouviu Gregor dizer atrás de si. Quase pulou de susto, o que só a fez apertar mais o curativo.
– Não fiz nada. Quatro pessoas morreram graças a isso tudo. – “Inclusive a única que eu achava que valia a pena salvar”, pensou em dizer.
– Pelo menos você não está fazendo companhia a eles.

O toque do telefone a impediu de dar uma resposta adequada, provavelmente envolvendo alguns palavrões.  Era uma mensagem. E, pela primeira vez na noite, sorriu.

Obrigado por me salvar. Richard.

Bem, não é o conto no qual eu estava trabalhando, mas tem a ver com o Hunter High School, certo? Estou desculpada? ;D

Mais um tema da Liga Narrativa – e o de Maio (que espantosamente eu estou postando antes do meio do mês!) é Herói.  E eu ainda estou no aguardo dos textos do pessoal. =]

Synthetics

24 abr

“So take me down to the cities of the future
Everybody’s happy and I fell at home”

(Infected Mushroom, Cities of the Future)

Os prédios levantavam-se pela paisagem, como uma tentativa fracassada de alcançar o céu. Olhou para cima e tudo o que pôde ver foi uma grande massa cinzenta carregada e suja. Não sabia de que cor era o céu. Nunca o viu, embora alguns registros antigos que juntavam poeira digital em algum museu virtual o mostrasse de diferentes cores dependendo da hora do dia.

Aquilo não lhe fazia sentido. Como pode algo tão imenso e inalcançável variar de cor de maneira natural? As modelos de propaganda – olhou para o lado e viu um imenso outdoor luminoso, mostrando uma ocidental de cabelos multicoloridos oferecendo indecorosamente um refrigerante – colocavam implantes para que seus cabelos ilusoriamente perfeitos mudassem de cor de acordo com os humores. Quanto ao céu, devia ser algo com a incidência de luz natural.

Percebeu a bobagem que estava dizendo. Que diferença fazia saber a cor do firmamento? Não ganharia dinheiro com aquela informação. Não poderia cobrar favores de ninguém com aquilo. Informação descartável.

“Como eu”, pensou.

Olhou mais uma vez o pequeno terminal e viu o verme espalhar-se pela Rede como uma praga bíblica. As informações alcançariam seus destinos, e o caos se instalaria em breve. A velocidade com que tudo se espalhava pela Rede era increvelmente surpreendente.

“Está fazendo a coisa certa”, ouviu mais uma vez a voz dizer na sua mente. Já não importava se era certo ou não. Era o que queria fazer.

Ouviu atrás de si a porta sendo violentamente aberta. Sorriu. Aquilo não adiantaria, não mais. Antes que pudessem atirar com balas que destruiriam seu ser – como aprendera tão recentemente – artificial, as luzes apagaram por toda a Megalópole. O Blecaute teve início.

Os tiros soaram.

Sentiu o vidro se esfacelar com o peso do seu corpo, e caíu vertiginosamente.

Longe dali, no escuro, alguém sorriu.

O céu continuava cinzento, pesado e sujo.

Eu jurei pra mim mesma que o próximo post de ficção seria relativo ao Hunter High School. Mas a culpa é do @_jagunco_. Cortem-lhe a cabeça. ;D

Texto de abril (olha, dessa vez estou em dia!) da Liga Narrativa. O tema da vez é Vida Cyberpunk (na verdade, era só Cyberpunk, mas alguém acrescentou um Vida aê. ;P).  Outros que já participaram da brincadeira:

Marlon – Segunda-Feira

Mário – Caos 283

Fulfilled

8 abr

Abriu os olhos para a escuridão como tantas outras vezes. A cabeça rodopiava pelas paredes do quarto – estava no quarto? Não sabia dizer ainda. Seu corpo doía e tremia como nunca antes. Já havia se machucado antes em serviço, não era novidade. Mas diferente das outras vezes, trazia um sorriso no rosto.

Lembranças da noite passada afloravam na mente confusa. Houve uma luta, embora ela não lembrasse bem o que aconteceu. Só devia ter apanhado bastante.

Sorriu, e o sorriso logo se transformou em gargalhada. E quando a caça se torna caçador?

Não importava. Ele conseguiu deixá-la assim. Estava feliz. Preenchida. Alimentada. Completa.

O gosto férreo do sangue tornava a aparecer na boca. Relembrando o momento, ela ainda se deliciava. Não poderia descrever se quisesse. E por que deveria se preocupar com palavras? Ninguém entenderia. Ninguém precisava entender.

O sangue vertia suavemente do pequeno corte nos lábios. Ela não entendeu a princípio; não deveria ser a presa? Mas não questionou. E ao provar, soube que não poderia desejar algo diferente. Depois de tanto tempo, finalmente preencheu o vazio que tanto a atormentara. Cada gota de sangue fazia-a tremer dos pés à cabeça. Prazer. Excitação. Adrenalina. Rápido. Forte. Intenso. E profundamente errado.

Naquele momento, soube que não havia nada igual. Soube que estava perdida.

E mesmo na lembrança, deleitava-se. Apesar da dor e dos ferimentos, era imbatível. Ninguém ou nada poderia detê-la.

A cabeça girou mais uma vez. Não se levantaria tão cedo.

Um lapso de sanidade: estava indo longe demais. Tinha que parar com aquilo. Seria capaz?

Mais um da Liga Narrativa, dessa vez seguindo o conselho de um amigo. O tema de março (que eu estou descaradamente postando em abril) foi Banquetes. Abaixo, os outros que resolveram se refestelar. E o desenho é claramente inspirado na Lust, de Full Metal Alchemist.

Aniversário de Namoro – Roleplayer

O Segundo Gosto – O Feudo

Fome – Juca’s Blog

A luz que queima os olhos – Parte 1

14 fev

Acordou de repente, abrindo os olhos azuis para a noite escura. Algum barulho a fez despertar, embora não soubesse exatamente o quê. Deve ter sido seu pai – ele sempre insistia em deixar leite e biscoitos para que Papai Noel tivesse o que comer quando viesse deixar os presentes. Cateryn já era bem grandinha para saber que seu próprio pai era quem comia os biscoitos.

Talvez se o surpreendesse, ele desistiria dessa baboseira. Ela já tinha catorze anos, afinal. Sonolenta, esfregou os olhos e levantou-se. Olhou para o relógio na parede; passava das três da manhã. Descalça, a garota saiu do quarto.

Estava tudo escuro no andar de cima. Cateryn não se incomodava – era acostumada a fazer aquele caminho quando acordava à noite para ir ao banheiro. No fim do corredor, viu a porta do quarto dos pais aberta. Deviam estar no andar de baixo então.

Começou a descer as escadas devagar. De maneira indireta, as luzes da árvore de Natal iluminavam o caminho. Verde, amarela e vermelha; verde, amarela e vermelha.

Um barulho chamou-lhe a atenção: som de passos no andar de baixo, arrastando-se com um leve arranhar no assoalho. Não reconheceu os sons – teria mais alguém em casa? Apreensiva, a garota continuou a descer os degraus.

Faltando pouco para chegar ao hall, a luz vermelha da decoração natalina refletiu sobre os pedaços de vidro no chão. Um copo quebrado, o leite derramado, os biscoitos espalhados.

Sentiu o coração disparar dentro do peito. Algo muito errado estava acontecendo. Com cuidado, terminou de descer as escadas e desviou dos cacos de vidro.

Vindo da sala, ouviu um barulho abafado, como se algo pesado tivesse caído no tapete. Temerosa, Cateryn virou-se na direção da sala, e a iluminação parca permitiu-a ver apenas uma mão inerte no chão; no anelar, uma aliança dourada. Era seu pai.

Quando era mais nova, Cateryn sempre perguntava por que a aliança do seu pai era diferente da que sua mãe usava. Cada vez ouvia uma história diferente, até que sua mãe contou, por fim, que seu pai perdera a aliança personalizada no dia seguinte ao casamento, na piscina do hotel. E agora ele estava ali, caído, com o pijama ensangüentado e os olhos vidrados. Morto.

Teve vontade de gritar, mas a garganta estava travada. Sabia que não deveria continuar ali, mas o que fazer? Chamar a polícia? Sair correndo pela rua, pedindo ajuda? Tudo o que conseguiu fazer foi ficar ali parada, olhando em choque o corpo sem vida.

Sentiu lágrimas descerem pelo seu rosto, e ouviu um soluçar baixinho. Estava chorando? Uma voz familiar, então, se fez soar pela sala. Vinha de trás do sofá, perto da sala de jantar, onde, há apenas algumas horas, foi feita a ceia de natal com alguns parentes. As palavras não faziam sentido, apenas a voz fez a garota andar. Era sua mãe.

– Por favor… nos deixe em paz… leve apenas a criança e nos deixe em paz…

Cateryn andou, autômata, na direção dos sons. Sua mãe estava viva? Sentiu o pé descalço pisar no sangue empoçado do pai; ainda estava quente. Colocou a mão sobre o sofá felpudo e ouviu outro sussurro ininteligível. Não era a voz da sua mãe. Não era nenhuma voz que pudesse reconhecer. Não parecia sequer uma voz, na verdade, mas a cadência com que falava indicava isso. Ouviu, ainda, um grito baixo e sufocado da mãe. Só então conseguiu virar o corpo para ver o que estava acontecendo.

A pouca luz amarela provida pela árvore não a permitiu discernir muita coisa. Cateryn viu sua mãe com o pescoço numa posição estranha e impossível para quem estivesse vivo. Em cima dela, havia alguém curvado sobre o corpo da mulher. Parecendo surpreso, a pessoa olhou para a garota. A luz da árvore refletiu em olhos amarelos e fendidos, como olhos de gato.

E como um gato diante de um carro, Cateryn estava. As pernas pesaram, seus músculos se retesaram. Seu braço ainda estava apoiado no sofá; sentia o tecido felpudo entre os dedos, o sangue viscoso do pai entre os dedos dos pés.  O que quer que fosse, estava se aproximando. O que quer que fosse, estendia o braço para agarrá-la.

O barulho de um tiro a fez acordar mais uma vez aquela noite. O desconhecido recuou, não antes de segurar-lhe pelo braço com dedos afiados como garras. A garota gritou, de dor e de medo, e outro tiro ecoou, dessa vez bem mais próximo. Cateryn sentiu o braço livre e correu sem saber para onde. Atrás do sofá, viu um homem alto e negro usando uma pistola prateada. Com uma voz grave, o homem gritou:

– Fique aí!

E foi só o que ele teve tempo de dizer. O que ouviu depois foi o som da janela sendo quebrada e os passos se afastando.  Uma dor lancinante vinha do braço, e o que conseguiu fazer foi se encolher no sofá e chorar. Estava só.

Toda história tem um começo. Hoje, trago o início da história de Kate, conforme os posts anteriores do blog. E aproveitando a oportunidade, é minha contribuição para a Liga Narrativa, aglomeração de blogueiros contadores de histórias. O tema desse mês é Começos. Abaixo você pode conferir outros que também estão na brincadeira:

Começos – Armageddon

Verbos – Jagunço