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A Caçadora

20 out

Essa foi a minha resposta a um pedido feito para um jogo de RPG, no cenário de Golarion, da Pathfinder (embora usando as regras do D&D 5ª edição). Tínhamos que pensar um desafio a ser superado por nossos personagens. Aproveitei para explicar narrativamente algumas características da raça da minha personagem – uma androide – e traços de personalidade descritos em ficha.

Créditos da imagem: DevBurmak

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Já era o terceiro dia enclausurados, e o vento continuava uivando lá fora. Do lado de dentro do abrigo improvisado, as coisas não iam muito bem. A chama da fogueira minguava, produzindo mais fumaça do que calor. Val, a menina mirrada e esquálida, finalmente dormia com uma respiração difícil depois de uma noite difícil. No inverno, a saúde fragilizada dela sempre piorava. Quando estavam em uma casa calefada, porém, podiam manter cuidados apropriados. Ali, ela tinha sorte de estar dormindo em um lugar seco.

Cibylla analisava a situação e os prospectos não eram bons. O mau tempo repentino pegou os três de surpresa, que pretendiam chegar a Tocha antes do inverno começar. Os suprimentos começavam a rarear, e se não conseguissem chegar em alguns dias, havia riscos de os três minguarem de fome. Passou pela sua cabeça a mórbida curiosidade da desnutrição. Como ela se sentiria se estivesse às portas da desativação por falta de nutrientes?

Lembrou-se das vezes em que foi desligada e estremeceu. Não, não deveria ser algo que merecesse sua atenção. Se muito, que servisse como o estímulo final para enfrentar o frio. O homem que agora respondia por Konir Baine olhava pela entrada da gruta. Cansaço nos olhos e no corpo, e algo mais que ela não conseguia entender. Algo que pesava nos ombros do homem, deixava-os encurvados, como nos tempos de antes, quando ambos respondiam à Liga Técnica de Numeria. Cibylla ainda não tinha uma palavra para aquele sentimento que via.

— Nossos suprimentos não vão durar mais do que dois dias – a mulher falou em seu tom invariável de voz.

— Eu ainda sei contar, Cibyl.

O apelido. Usado em raros momentos de intimidade entre os três, ou quando ele queria ser condescendente. Normalmente acontecia quando ele começava a ficar impaciente. Konir Baine estava descontente, embora a sutileza da mensagem não tenha atingido Cibylla como ele pretendia.

— Não insinuei que você tivesse perdido suas faculdades intelectuais, Konir. Era apenas uma análise factual, para concluir que eu sairei para caçar.

— Eu não quis… – desistindo de se explicar, ele apenas sorriu sem forças. Ainda esquecia que Cibylla não conseguia captar todas as nuances de tom, as particularidades do discurso humano. Ela só estava lidando com a situação na maneira que conhecia. – Mas como você pretende caçar alguma coisa nesse frio? Você faz alguma ideia do que fazer lá fora?

— Não. Mas entre nós três, tenho matematicamente mais chances de sucesso. Uma vez que a neve parou de cair, julgo que não devo me perder tão facilmente. Voltarei no fim do dia, com ou sem comida. Fique atento.

O estudioso não tinha argumentos para refutá-la. Apenas deu ombros, despediu-se com um redundante “tome cuidado” e viu a forma humaoide, alta e esbelta, de pele tão pálida quanto a neve e cabelos vermelho-vivo partir para o vento frio e cortante. Ele já sentiu medo várias vezes em sua vida, especialmente desde que deixara a Liga Técnica, mas sempre teve a sensação de que havia alguma coisa sob seu controle. Mas diante de um destino incerto, o horizonte se preenchendo de branco, um frio castigante e da comida no fim, ele passava a questionar as suas chances.

*****

Cibylla seguiu, afastando-se da gruta e rumando em direção a uns bosques que haviam encontrado no dia em que se abrigaram. Os pinheiros, que reconheceu pelo seu formato característico, e outras árvores de folhagem sempre verde estavam cobertos de neve. O sol brilhava timidamente, e ao tempo em que ela apreciava o fato de não ter que enfrentar o granizo caindo sobre sua cabeça e suas costas, a neve sob suas botas começava a derreter. Aparentemente três dias de nevasca não são o bastante para ela se tornar firme e não ceder sob seu peso.

Com olhos opacos, ela olhava ao redor. Atenta, ela procurava por algo, embora não soubesse exatamente o quê. Recostou-se em um tronco derrubado pelo vento forte, as raízes viradas para o céu como vários braços que tentaram se agarrar a um desfiladeiro, e sem saber exatamente como, soube que aquela árvore teria uma boa lenha para a fogueira. Passou as mãos cobertas por luvas pelos galhos secos e sem folhas – ela já estava morta antes que a ventania desse seu último golpe. Desde que cortasse apenas os galhos que não dormiram no gelo, poderia aproveitá-los.

Aparando a madeira de maneira diligente, outros pensamentos ocorreram a Cybilla. Alguma daquelas árvores teriam frutos secos, que poderiam ser assados e comidos durante a viagem sem esforço. Se uma vegetação tão frondosa havia se formado ali, poderia dar a sorte de encontrar tocas de alguns animais pequenos, embora seus rastros fossem mais complicados de encontrar, pois eles deveriam estar abrigados do frio. Se não encontrasse os refúgios, sabia como preparar algumas pequenas armadilhas. Assim, ela, Konir e Val poderiam passar mais um dia, aquecidos e alimentados de vegetais, e depois ela coletar alguma carne para a viagem.

A androide não sabia como aquelas coisas lhe chegaram à mente, mas quando terminou com a madeira, amarrou-a em um lugar alto o bastante para que não ficasse úmida no chão. Com uma postura que não era exatamente a sua, mas lhe veio de modo natural, Cibylla andou pelos caminhos emaranhados do bosque. Havia memorizado a direção do sol, e fez questão de deixar marcas de sua passagem nos galhos de árvore mais baixos. Instintivamente, evitou as copas mais pesadas, pois já que a neve começava a derreter, não queria ser surpreendida por pedaços de gelo caindo em sua cabeça. Até que ela encontrou rastros, quase como se refazendo seus passos, e não eram de pequenos animais.

Calçados. Botas um pouco maior do que as suas e recentes. Quem estaria andando tão longe de qualquer habitação em um inverno? Um caçador que, como eles, foi pego de surpresa pela neve? Mas quem iria tão longe de qualquer povoado para caçar? A não ser que essa pessoa tivesse alvos muito específicos em vista.

Há algumas semanas, os três fugiram às pressas de Chesed, onde nos últimos meses viveram uma vida relativamente tranquila. Na maior cidade de Numeria, os três conseguiram passar razoavelmente despercebidos. O Assistente Pauldris Grey cortou os cabelos, tingiu-os e virou Konir Baine; Val se passava por sua filha e aprendiz, e Cibylla, outrora Ajuda nº C-42, assumiu um novo nome. Quando se preparavam para passar seu segundo inverno na cidade, os cartazes de procurado começaram a aparecer, oferecendo recompensas absurdas em troca da captura de Konir/Pauldris, ou de provas de sua morte. Nenhuma das perspectivas a animava. Eles não tiveram escolha que não fugir às pressas.

Seguiram o Rio Selen com uma caravana de pessoas que não faziam muitas perguntas, desde que nenhum deles se provasse um fardo. Eram também pessoas animadas, sempre dispostas a contarem histórias, pertencentes a eles ou não. Esperavam que a velocidade de sua fuga tivesse espantado quaisquer caçadores de recompensas, mas aquelas evidências provavam o contrário. Alguém muito determinado estava bem próximo de encontrá-los, e Cibylla não permitiria aquilo.

Com cuidado, ela levantou o capuz e seguiu os rastros. Evitando fazer barulho, calculou bem seus próprios passos, pois qualquer movimento em falso poderia entregar sua posição. Não soube precisar o tempo que caminhou pela vegetação, mas não importava.

Seus movimentos eram calculados, quase tão frios quanto o vendo forte que balançava a folhagem. Se a postura cuidadosa no início da caminhada lhe parecia estranha, agora tudo lhe era natural. Como um livro antigo, encontrado em meio a uma estante empoeirada, que você começa a ler apenas para lembrar que conhecia a história de muito tempo atrás. Quando?

Chegou ao acampamento. Alojada contra a encosta da margem de um córrego, uma tenda de couro grosso. Restos de uma fogueira, protegidos da neve com um círculo de pedras. Do outro lado da corrente de água, um cavalo não a notara, distraído com uma porção de comida. Nenhum outro barulho além do vento, da água, e do ocasional relinchar do animal. Quem quer que fosse aquela pessoa, não estava em casa. Isso deu a Cibylla a oportunidade de confirmar suas suspeitas.

Primeiro, afastou o animal, para que ele não entregasse sua posição. Uma sela de boa qualidade, arreios hidratados e bem cuidados. Era alguém experiente. O quadrúpede, porém, estava cansado e arfava pesadamente, e não ofereceu resistência quando foi guiado um pouco mais para longe, onde haveria mais comida.  Na tenda, encontrou alguns suprimentos que lhe seriam úteis, e a prova que estava esperando: cartazes com o rosto de Pauldris Grey estampado. Cibylla não deixou de se espantar com a diferença entre as duas pessoas. Olhos encavados, com grandes olheiras, e uma barba desgrenhada. Ele já fora tão velho assim? Teria ela mudado tanto também?

Seu primeiro pensamento foi o de pegar os suprimentos que pudesse e fugir, talvez até o com animal. Mas não, isso seria um erro. Cibylla não sabia montar, e deixaria um rastro muito fácil de seguir. Acabaria entregando a posição de todos, possibilitando que aquele indivíduo os surpreendesse quando estivessem vulneráveis. Ela iria preparar uma armadilha.

*****

No alto de uma árvore, ela resetava o arco com cuidado. A figura seguiu os passos do cavalo, como Cibylla esperava. À pouca distância, pôde analisar melhor o seu alvo. Altura mediana, passadas cuidadosas, compleição física acima da média. Uma barba espessa cobria-lhe o rosto, mas uma cicatriz profunda descia-lhe pela face esquerda, ficando oculta por um tapa-olho. Ele andava com a experiência de anos de ofício, e pelas armas que carregava, a androide sabia que um embate direto seria arriscado.

Prendendo a respiração, esperou que ele se aproximasse mais do animal. Torcia que seus rastros estivessem bem cobertos, e mais importante, que ele não percebesse a corda tesa, oculta por folhagens e galhos secos que ela retirou às pressas das árvores. Contou cada passo, um após o outro, devagar… e a corda se rompeu.

Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o caçador ouviu um estalar de madeira alto, um zumbido de flecha e uma montanha branca de gelo e neve caiu sobre ele. O homem ainda tentou rolar no chão, mas não conseguiu reagir a tempo e ficou soterrado. Cibylla pulou para o chão, sabendo que não tinha o tempo a seu favor, e foi tentar amarrá-lo.

Por muito pouco conseguiu evitar o pior do golpe de um machado na direção da sua perna. Sentiu a lâmina atravessar o couro da bota e chegar à pele, tingindo a neve de vermelho. Não era estranha à dor, mas o ardor do ferimento a colocou em ressalva. Com um golpe preciso do sabre cortou o pulso do caçador, que gritou de dor e quase se engasgou com a neve que lhe entrara pela boca.

A refrega foi rápida. Caído e soterrado, o caçador era um alvo vulnerável. Mas não foi sem esforço que Cibylla o amarrou à árvore. Aproveitando-se do seu tamanho, ele resistia e bufava, e só depois de um golpe bem aplicado entre as pernas ele se limitou a gemer.

— Devo supor que você veio até tão longe pela recompensa, não é?

— Sua puta barata, eu vou acabar com você!

— Você não quer perder o outro olho, quer? — ela se abaixou, encarando o homem. Na mão direita, o sabre ameaçava o pescoço do homenzarrão. Na esquerda, a lâmina da adaga roçava próxima da orelha. Aquela não era a sua voz, o seu tom monocórdico. Era ameaçador, carregado de malícia e frieza. — Ou posso arrancar as falanges dos seus dedos. Com sorte, o gelo e o frio vão estancar seu sangramento, e você poderá fugir. Mas não acho que o resto de sua vida vai ser bem mais difícil…

O homem respondeu com o silêncio, desafiando-a. Uma ameaça não realizada seria vazia e ineficiente, e ela não hesitou. Com uma precisão que ela não sabia possuir, cravou a lâmina menor na parte interna do dedo indicador do sujeito, que berrou de dor e raiva, e depois, gemeu de resignação.

— Há outros… Atrás de vocês. Do mago e da menina. Você é um bônus. Seu… Mestre, Gartoni…

— Eu não tenho mais mestres. E você, homem caolho de nove dedos, vai nos deixar em paz. E vai dar o recado para os outros. Nós não vamos nos curvar à Liga. Está claro?

Depois de alguns segundos, o homem assentiu. A mulher sorriu, um sorriso calculado e cruel. Com o cabo da adaga, desferiu um golpe forte na cabeça do homem, que tombou inconsciente. Sem pressa, embalou os suprimentos, a tenda, e não esqueceu o cavalo, uma ajuda muito bem vinda pelo resto da viagem.

Quando deu por si, guiava o cavalo pelos arreios, com a tenda e os suprimentos amarrados. Ela não sabia explicar o que tinha acontecido, como por alguns momentos ela parecia estar assistindo às suas próprias ações. Seria como um sonho?

Não soube explicar. Quando Konir perguntou onde ela tinha conseguido todas aquelas coisas, ela deu de ombros e disse que não se preocupasse. Ele não tocou no assunto de novo. E no dia seguinte, bem alimentados e aquecidos, seguiram viagem.

Aniversários

25 maio

Danna, Toshio, Alastar, Keileen e Rogar

A música corria pelo salão, o cheiro de comida impregnando toda a casa. As servas se apressavam de um lado para outro, conversas, pratos, talheres. A chuva de outono não permitiria a festa do lado de fora como ela gostaria, mas não havia do que reclamar. Aos dezesseis anos, era sua primeira festa de aniversário.

– A debutante não vai aproveitar a festa? – a conhecida voz falava atrás dela, amigável e carinhosa. – É o seu presente, afinal de contas.

– E eu nem tenho palavras para agradecê-lo, milorde. – Danna se virou, sorrindo largamente. Usava um vestido em tons de verde, ressaltando os olhos da mesma cor. Sardas pontilhavam o rosto e os ombros à mostra, os cabelos negros presos em uma trança-raiz, que, esperava-se, não se soltaria durante a noite.

– Apenas divirta-se, pequena. É o melhor obrigado que você pode me dar.

– Eu havia pensado em outra coisa…

Ela se aproximou, mordendo pouco discretamente o lábio inferior. Nos olhos, parcamente escondido pela maquiagem, desejo. Victor Aerathis, seu lorde e senhor, aquele que a salvara dos seus irmãos de criação. Galanteador, mulherengo e aventureiro famoso. E que, por algum motivo, ainda não a tomara nos braços e na cama.

– Desça para a festa, criança. – era assim como a chamava quando esses assuntos vinham à tona. – Depois nos falamos.

*****

A chuva castigava o vilarejo de meio de caminho impiedosamente, trazendo também pancadas de granizo. Uma das precipitações mais violentas acordou Danna, que se limitou a abrir os olhos. No abdômen, o ferimento do dia anterior ainda doía, e o corpo pedia descanso da longa viagem. Ao menos teria a desculpa para não continuarem a viajar.

Na verdade, queria voltar a dormir. Apagar pelo dia inteiro para que ele passasse logo. Era o dia do seu aniversário, o primeiro longe de Allania, de Redskull e de Victor, seus dois pais. A vida era mesmo cheia dessas pequenas ironias.

– Danna-chan? – a voz do oriental, sempre discreto e furtivo, do outro lado do quarto. Sentiu-o pousar a mão calejada no ombro com sardas e cicatrizes. – Já acordada?

– Pela bunda de Valkaria, como você sabe? – perguntou sem virar o rosto. Estava frio, estava sem ouro nos bolsos, no meio de um buraco lamacento que não merecia ser chamado de reino, e estava triste.

– Você… respira diferente. – limitou-se a responder, a expressão impassível, como sempre. Nunca conseguiria deixá-lo com raiva? – O tempo será pesado pelo resto do dia. Como está seu ferimento?

– Doendo. Não seguiremos viagem. E além disso, preciso reparar a armadura. Amanhã partimos.

– Me deixe ver.

Virou o corpo na cama, mal humorada. As bandagens avermelhadas de sangue indicavam a ferida ainda aberta. Toshio retirou o curativo com cuidado, os olhos puxados concentrados. Pressionou a área ao redor do corte que atravessara a cota de malha, recebendo um ranger de dentes em resposta. Doía.

– Uma pequena infecção. Nada grave, mas você precisa de repouso, e deve manter a ferida limpa.

– Você pode fazer isso?

Hai. – sem dizer mais nada, saiu, provavelmente para buscar o material. Danna sorriu, carinhosa. Ele reparava nas pequenas coisas, entonações de voz, verdades não ditas. Não perguntaria nada, ela tinha certeza. E talvez por isso, gostasse tanto da companhia dele.

*****

Victor atentava para os detalhes, e isso a agradava. A lareira acesa em uma noite particularmente fria de outono, e as mesas recostadas às paredes abriamespaço para a dança. O banquete já ia avançado e a música continuava. Chamar os artistas de bardos era bondade, mas eram músicos de algum talento. As chuvas enlamearam as estradas, e poucos se dispuseram a fazer a viagem.

Danna, porém, não se importava com aquilo. Estava radiante, dançando com Redskull, o cavaleiro enorme que a fazia de boneca no meio do salão. Àquela altura, já dançara com as amigas, com as servas que derramaram cerveja pelo chão e pelos vestidos, e entre os passos da dança improvisada, lançava olhares a um dos músicos, o mais apresentável deles. Tinha os cabelos nos ombros, escuros como a asa de um corvo, e um sorriso bonito. Só era um pouco magro demais. E entre os olhares, reconheceu nele a mesma expressão que dirigira a Victor antes da festa: desejo.

Talvez fosse divertido, afinal. Largou o pai, enorme e desajeitado, sentado a uma mesa e voltou ao salão. Lançara o desafio ao forasteiro, ao passo que, de soslaio, espiava lorde Victor. Ele era o presente que ela almeijava, mas, por enquanto, podia se contentar com o outro.

– Boa noite, jovem dama. Seu pai por acaso não vai brandir aquele machado enorme caso eu a convide para dançar, vai?

*****

Curativo refeito, humor melhorado. Não poderia celebrar seus vinte e três outonos com bardos e outros luxos, mas sabia que Victor gostaria de vê-la feliz. “Uma vez no inferno, dance com os diabos. Eles sabem fazer uma boa festa”, diria se estivesse ali. Certamente o inferno deveria ser um lugar melhor que Lannestul, mas Danna pensou que, em vida, seria o mais próximo do que ela chegaria.

Negociou com Eseld, a dona da estalagem em que estavam hospedados, um jantar com comida à vontade e um barril de cerveja por oito moedas de ouro. Mais as dez moedas do conserto da armadura, mais o que teria que pagar de estadia, e um par de novas roupas para viagem não fariam mal. É, precisaria arrumar um trabalho logo.

Mas era seu aniversário. Dar-se-ia ao luxo de não pensar sobre pragmatismos naquele dia.

– Chefa? – a voz de Keileen, chegando ao salão da estalagem, agora vazio. O andar gingado da ruiva denunciava que, apesar da pouca idade, ela já tinha visto muitas batalhas. – Tá melhor? Pode ser que a gente tenha trabalho.

– Trabalho do tipo que paga?

– E tem outro tipo de trabalho? – a meio-elfa sorriu, descontraída. – Mas eles querem falar com a chefa, pra variar. Ficaram de vir aqui no jantar.

– Bem, não vamos deixá-los esperando. Vamos até eles. – sorriu, levando a mão à espada. Não trataria de negócios em uma noite na qual provavelmente beberia até perder a memória. Não cairia bem a uma bem-nascida, afinal.

*****

Os lábios se roçando, o cheiro do vinho embalando o movimento dos dois corpos. A música minguava distante, a noite já alta, e com a maioria dos convidados dormindo. Os dois bailavam em outro ritmo, próprio, só deles, compassado, em um encaixe quase perfeito. Ele, experiente, explorava o corpo da jovem, passeando sem muita pressa. Ela, sedenta e agressiva, com o vigor e a impulsividade da juventude, mordia, cravava as unhas cuidadosamente tratadas para a noite do seu aniversário.

Abraçaram-se. No chão, as roupas finas de festa, desalinhadas e largadas, esquecidas. Aquele era o presente que desejava para a noite, que não poderia terminar melhor. A dança continuou, ávida, constante, crescente, inebriante. Danna mordeu os lábios, apertando-se mais no abraço e estremecendo. Fechou os olhos e se entregou ao momento, como nunca fizera antes. Amou-o. E sabia que, de alguma forma, ele também a amara.

*****

– Por que nós ganhamos comida de graça hoje? – a voz do guerreiro retumbava à mesa. Rogar era um homem inegavelmente grande, com mais músculos do que cérebro, e dono de uma habilidade inegável com o machado. – Podiam arrumar umas mulheres também!

– Eu não gostaria de mulheres. – protestou Kei, já alta pela bebida. – Ficaria satisfeita com uns homens diferentes dos feiosos de sempre. E por que você não vai atrás de umas mulheres pra você e pro chifrudinho aqui?

O “chifrudinho” era Alastar, o que Danna sabia ser tiefling, um herdeiro distante dos demônios que caminharam pelo mundo há séculos. Victor havia lhe falado brevemente sobre eles, o bastante para ela saber que eles são tão maus quanto qualquer pessoa. Ou seja: podem ir do melhor ao pior. E Alastar tinha olhos tão torturados que Danna imaginava que ele não lhes faria mal.

– Eu acho que posso escolher as mulheres sozinho, sem a ajuda de Rogar. – comentou o arcano, claramente sóbrio. O capuz cobria-lhe os relevos na testa, mas eventualmente deixava notar os olhos brilhantes.

– Mas eu posso lhe dar uns bons conselhos, mago! Eu já falei sobre a pérola?

As conversas continuaram, e Danna sorria. O ferimento dormente pela bebida. Para os próximos dias, trabalho. Para a noite, que mal começara, um banquete e diversão. Não podia reclamar, apenas torcia que, diferente das outras bebedeiras, aquela não terminasse com cadeiras e ossos quebrados.

– Danna-chan? – a voz sempre baixa de Toshio. – Podemos conversar?

– Conversar ou… conversar?

– Ambos… se você quiser. – respondeu com um meio sorriso.

– Eu não poderia pensar em um final de noite melhor. – concluiu com um sorriso largo.

Essa é a minha participação na Liga Narrativa (que devia ter sido de abril, mas… enfim), com o tema de Festas. Danna é uma personagem de um jogo de RPG guiado pelo Dan Ramos, autor também da ilustração acima. Danna Aerathis é a filha bastarda de Victor, que descobriu sua herança na ocasião da morte do pai.  Após conflitos com o governo do reino, que  não a reconhecia como filha legítima para herdar as terras, fugiu e hoje vive vendendo sua espada. Você pode ler outros contos sobre ela aqui e aqui.

Outros membros da Liga que participaram da brincadeira:

Italo – Cylon Party

Mário (Jagunço) – Diálogos Feéricos

Marlon – Fim de festa

A boa filha

8 fev

“Todos os anões podem ser bastardos, mas nem todos os bastardos precisam ser anões”.

(Tyrion Lannister, A Game of Thrones)

Indecisa, a garota segurou o cabo da espada com as duas mãos. Seu pai, um homem enorme e de uma farta barba ruiva, manejava o machado grande com uma naturalidade invejável, enquanto ela mal conseguia levantar a lâmina. Não era uma moça franzina, pelo contrário. Alta, tinha pernas fortes e bem torneadas, mas sempre foi um pouco desajeitada. Longos cabelos negros pendiam amarrados em uma trança, enquanto os olhos verdes iam do machado ao rosto do pai. Sabia que ele queria que ela fosse capaz de se proteger; a guerra se aproximava e, apesar de servir a um lorde, não poderiam prever quando seria necessário brandir uma espada.

– É assim que você vai lutar pela sua vida, mocinha? – a voz do pai retumbava, em um tom diferente do habitual. Estava sério como não costumava ser. Normalmente expansivo e bem humorado, Redskull parecia levar aquele treino como um dever a cumprir. Com um golpe rápido, prendeu a lâmina da espada no machado e, sem esforço, desarmou-a. A espada caiu com um baque seco no chão afofado pela chuva do dia anterior. – Você já estaria dividida em três pedaços agora. Vamos, pegue a espada. De novo.

Danna deu um olhar desconfiado para o machado do pai enquanto se abaixava, quase não notando os passos que se aproximavam. Se havia aprendido alguma coisa sobre lutas é que não podia se distrair; os hematomas do treino anterior ainda não a deixavam dormir bem. Claro que seu pai não a machucaria de verdade, mas ele adorava pregar peças, “como uma amostra do que pode acontecer em uma batalha real”.

– Redskull, é desse jeito que você pretende ensiná-la? – a voz era inconfundível. Victor Aerathis se aproximava calmamente, usando roupas de montaria. Mesmo vestindo roupas mais simples e resistentes, mantinha um porte nobre, altivo. Era o senhor daquelas terras, embora às vezes, só às vezes, Danna esquecesse isso. Não era raro encontrá-lo junto aos trabalhadores, bebendo uma cerveja barata e soltando galanteios para as mulheres. – Desse jeito vai fazer a menina perder uma mão, ou coisa pior!

– Oras, e quem você pensa que é para se meter nos assuntos da minha filha? – em tom brincalhão, trocaram apertos de mão e um breve abraço. Aquele tipo de lealdade, entre escudeiro e senhor, talvez ela nunca entendesse. Mas enchia-se de um orgulho besta ao ver a relação que o pai mantinha com aquele homem. Redskull, um grandalhão simplório, muitas vezes aconselhava Victor na administração das terras, dando-lhe uma opinião honesta sobre o que acontecia. E aquilo vinha funcionando muito bem, pelo que sabia.

– Vou deixá-los a sós, se me permitem. – despediu-se, fazendo uma mesura ao lorde. – Sei que têm assuntos a tratar. As lições podem ficar para amanhã, papai.

– Na verdade, pequena Danna, vim pedir os préstimos do seu pai. Algumas questões estão incomodando nas terras ao sul, e preciso que ele resolva isso pessoalmente. Eu mesmo iria, mas há uma comitiva para chegar daqui a alguns dias e sei que seu pai não gosta de lidar com a corte. – os dois trocaram um olhar breve, porém expressivo.– Você partirá pela manhã, sir. Passarei os detalhes mais tarde, no jantar.

– Pai, me leve com você! – pediu Danna. A ausência do pai significava a retomada dos maus tratos em casa. Sua madrasta, uma mulher reclamona, aproveitava as frequentes viagens do marido para usá-la como a criada que não tinha. – Eu não quero ficar aqui com aquela… mulher. E como eu vou aprender a lutar se você não fica uma semana em casa?

– Você está louca, menina? É perigoso! Imagina se acontece alg-

– Eu não quero ficar com aquela bruxa! – viu-se quase gritar. Não costumava desobedecê-lo, mas aquela mulher a enervava. Recebeu um olhar pesado do pai e respondeu em silêncio, os maxilares travados. Relaxou apenas quando ouviu Victor dizer:

– Eu não posso obrigar Redskull a levá-la, mas posso compensá-la, se me permitir. Sou um professor melhor que o seu pai, isso eu garanto. Não gostaria de ficar uns dias hospedada em minha casa?

**********

Anos depois, Danna entenderia porque Victor Aerathis, um dos heróis do reino de Allania, tinha tanta afeição por ela. E não era o mesmo interesse que ele demonstrava às outras mulheres a quem proferia tantos galanteios. Era algo diferente, embora ela não conseguisse precisar realmente. Durante aquela semana, tudo o que fez foi deleitar-se com a casa senhorial, o quarto tão mais limpo e arrumado que o seu, e com a companhia nos treinos de espada.

Quando a comitiva da corte chegou ao feudo, Danna descobriu porque Victor mandara Redskull para fora. Era um duelo, porém um duelo diplomático. “Negociações agressivas”, como o lorde definiu dias depois, enquanto conversavam bebendo vinho. Apesar de estar presente no jantar, vestindo roupas que não eram suas – e por isso um pouco curtas demais – não chegou a opinar sobre o assunto. A comitiva queria que Victor despendesse parte de seus homens para uma missão de reconhecimento. Ora, a Coroa não tinha pessoas especializadas nesse tipo de tarefa?

Outra pessoa à mesa roubava-lhe a atenção. Talvez como bandeira de paz, alguns nobres menores da corte vieram junto com a comitiva. Um rapaz dirigia-lhe olhares corteses, embora claramente interessados. Era uma moça bonita e sabia disso. Sabia também que aquele jovem não procurava nada além de alguém para aquecer-lhe a cama depois do jantar. Considerou aquilo um desafio. Se ele queria, que viesse buscar.

**********

Mais tarde aquela noite, Danna tentava passar sorrateira pelo corredor dos quartos designados aos hóspedes. Jon, esse era o nome do rapaz, ressonava profundamente àquela altura. Concentrada que estava tentando não fazer barulho, só percebeu que estava acompanhada quando sentiu a mão no seu ombro desnudo usando o conhecido sinete, um toque com o qual já estava familiarizada, seguida de uma discreta tosse forçada. Victor.

Tentou pensar em pelo menos três histórias diferentes, nenhuma delas muito convincente. Porcarias, porcarias, porcarias. Enrolada no lençol e segurando o vestido, ensaiou sua expressão mais natural o possível. Mentir seria de pouca valia. Devagar, virou-se para o lorde, e optou pelo caminho mais honesto.

– Eu… espero não ter desapontado-o, senhor.

– E por que desapontaria? Qual o problema de buscar uma noite prazerosa? – abriu um sorriso largo, os caninos proeminentes. – Não há nada de errado nisso. Fico feliz que alguém tenha conseguido algo essa noite. Se divertiu?

– Er… sim… mas… o senhor pode não contar nada pro meu pai? Não acho que ele ia ficar exatamente feliz comigo se… hã, souber do que…

– Estou certo de que seu pai não ia ficar chateado se souber o que aconteceu aqui. – falou Victor, em um tom carinhoso. – Mas não se preocupe, não contarei nada a Redskull. Comentar as aventuras de uma dama não é a postura de um cavalheiro.

**********

Quatro anos depois, foi com um senso de urgência que entrou novamente no solar senhorial. Sem se preocupar muito com cortesia ou boas maneiras, correu aos atropelos para o quarto. Alguns criados cercavam-no, deitado no leito, tentando de alguma forma parar o inevitável. Vitimado por um veneno inoportuno, destilado por uma criatura invejosa e pérfida, Victor Aerathis falecia sem um herdeiro legítimo.

– Meu senhor, Redskull disse que…

– Pro inferno com as formalidades, pequena. – a voz era fraca e rouca. A pele, antes com um bronzeado natural, agora empalidecia. Victor parecia bem mais velho deitado no leito, debilitado e fraco. Os cabelos negros esparramados nos travesseiros, as mãos, antes com apenas calos da empunhadura do sabre, agora ressecadas. E pensar que há poucas horas… – Sim, eu queria ver você. Gostaria de ter dito tudo isso antes, mas… espero que possa me perdoar um dia.

Com esforço, ele se colocou sentado. Chamou uma das criadas que lhe trouxe uma pequena caixa dourada, ricamente entalhada e abriu-a com alguma dificuldade. Dentro, um rubi brilhava, preso a uma corrente prateada. Apesar da fraqueza, Danna notou que ele olhava a joia com um sorriso nostálgico no rosto.

– Esse pendante… era da sua mãe. Ela pediu que eu entregasse pra você, filha.

Sem ação, a jovem o encarava, os grandes olhos verdes arregalados. Não sabia se chorava, se explodia de raiva, se terminava de matá-lo. Filha? Por isso o cuidado, o carinho, a atenção, os presentes, os treinamentos. Era uma bastarda. As mãos de dedos longos trêmulas seguraram a pequena caixa e, sem que percebesse, lágrimas caíram-lhe pelo rosto. Como pôde não notar isso antes? A semelhança era clara àquela altura: a pele levemente bronzeada, os cabelos negros e brilhantes, o mesmo sorriso largo de caninos pontiagudos…

Com reverência e ainda em silêncio, passou o pendante pelo pescoço. Ele sorriu e antes de tornar a deitar-se, com um gesto, pediu que a criada lhe trouxesse uma espada de lâmina longa, com um rubi semelhante incrustado. A arma brilhava à fraca luz, mas mostrava-se como recém-forjada. Uma espada bastarda.

– Mais uma das promessas que sua mãe me fez cumprir. Você deveria aprender o caminho da espada, e isso você fez muito bem. – um acesso de tosse violento o interrompeu. Não teria muito tempo, sabia disso. – Procure pela pedra sangrenta. Ela ficará orgulhosa de você, tanto quanto eu.

**********

Danna ouvira histórias de bastardos atormentados e infelizes. Não teve uma infância feliz, mas conforme dava passos resolutos em direção à casa de Redskull, cultivava um orgulho que não sabia bem explicar o porquê. Não era uma filha legítima, não sabia em era sua mãe, foi enganada por toda sua vida. Não deveria estar feliz, e não estava. Saber que era filha de um nobre e que teve sua paternidade renegada pelas politicagens e convenções sociais, porém, preencheu-a de uma esperança inexplicável. A infância dura e difícil teve seus motivos. Sua madrasta a detestava não porque era filha de um primeiro casamento, mas por ter sangue nobre. Redskull era leal a seu senhor, e nem uma filha poderia se intrometer nisso. Segurava a espada embainhada quando ouviu gritos vindos da casa. Tomada pelo mesmo senso de urgência de antes, correu para dentro do lugar.

– Você o matou, sua cadela miserável! – gritava Redskull, o rosto tão vermelho quando os cabelos e a barba farta. – Matou os senhores dessa terra! Matou lady Aleena! Você tem ideia do que fez, mulher?! Você tem ideia?!

– Sim, eu matei eles! – a mulher de meia idade berrava de volta. – Matei aquela putinha que brincava de ser nobre com quem você se deitava, matei aquele marido frouxo que não conseguia satisfazer a própria esposa! E o melhor, meu marido, é que tudo vai cair sobre os seus ombros! Você era o escudeiro dele! Você foi a última pessoa a vê-lo, enquanto enchiam a cara com vinho! Você cuidava das montarias dela! Você vai pagar pelo que fez com a minha vida, seu maldito!

Com uma tapa forte, a mulher caiu sonoramente no chão, derrubando uma cadeira. Redskull era um homem enorme, e não costumava pensar muito antes de fazer qualquer coisa, principalmente se tomado pela raiva. Danna tentou pensar nas implicações dos acontecimentos daquela noite, mas não teve muito tempo. Só sabia que o escudeiro leal de seu pai pagaria pelos crimes de uma desgraçada. E aquela criatura matou seu pai. Danna merecia sua vingança.

– Redskull! – gritou a plenos pulmões. Não conseguiria chamar a atenção de outra forma. O grito pareceu-lhe mais um rugido, como se externasse seus mais primitivos instintos. Os dois voltaram os olhares para ela, parada ali na porta, segurando a espada bastarda. – Vá embora daqui. Ela é minha.

O guerreiro logo se recompôs da surpresa, mas a mulher, não. Caída no chão, ela ali continuou, encarando a outrora enteada.

– Você me ouviu. Vá embora daqui, fuja dessas terras. Você vai ser visto como culpado, não importa o que se diga. Ela pagará pelo que fez.

********

Com a lembrança do sangue da madrasta na espada, Danna recebeu os mensageiros da Coroa em um jantar simples. Não demorou até que as notícias do assassinato de Victor corressem, e foi com os modos que aprendeu com o pai que recebeu os enviados para “negociações agressivas”.

– Então, senhorita, há de convir que está em uma situação delicada aqui.

– Apenas não entendo o porquê. Há testemunhas aqui que podem garantir o testemunho de meu pai a respeito do parentesco. Como ele não teve herdeiros-

– Sem querer macular a memória do lorde Victor Aerathis, sabia-se que ele era dado a galanteios. Então, como não garantir que outros na mesma situação que você apareça? A Coroa teria um problema familiar a resolver que apenas mancharia a reputação de um herói reconhecido pelo rei, e levaria anos, talvez décadas. Além disso, a palavra de um homem moribundo não será de valia para o julgamento da causa. – falou o mensageiro em tom definitivo. – Mas é claro que podemos pensar em alguma compensação, como um casamento com o futuro dignatário…

– Meu caro, acho que não nos entendemos aqui. – interrompeu a jovem, levantando-se, as mãos apoiadas na mesa de madeira. – Essas terras são minhas por direito, e se a Coroa não reconhece isso, eu não me importo de lutar pelo que é meu. Meus homens vão escoltá-lo às suas montarias.

Antes que pudesse pronunciar qualquer ordem aos seus guardas, o mensageiro viu-se cercado. Os guardas do feudo apontavam lanças e espadas para a escolta, enquanto dois deles colocaram-se de lado do arauto, flanqueando-o. Naquela noite, Danna aprendeu que com palavras, se começa uma guerra.

**********

Depois de quase um mês de cerco, ela sabia que perderia. Houve poucas baixas, mas a fome e a sensação de enclausuramento minavam as forças dos homens, e a sua própria. Mas ela sabia também que a Coroa não estava interessada em perder mais homens de armas em tempos de guerra: eles buscavam por ela, e somente ela. Um bode expiatório, alguém para culpar e responsabilizar. Em uma noite, mandou que os soldados se rendessem sem resistência. Deixara um cavalo preparado para a fuga e, após ter a certeza de que seus homens ficaram bem, fugiu. No pescoço, o pendante rubro. Na bainha, a espada que aprendeu a usar com o pai. No coração, a certeza de que um dia voltaria ali e retomaria o que era seu.

  • Prelúdio da minha personagem para o jogo do Daniel Ramos. Uma ideia que era para ser pequena e acabou ganhando mais páginas do que deveria. ;]

Demônios da Noite

1 dez

As vozes se tornaram habituais. De gritos, tornaram-se sussurros, rastejando pelas entranhas de sua mente. Keriann não sabia o que era pior. Os gritos eram assustadores, mas ininteligíveis. Já o que aquelas criaturas sussurravam, ah, ela compreendia muito bem. Mate-os, eles não merecem sua confiança. Traidores. São demônios. Querem eviscerar seu corpo e mente, seu rosto, seu arco. Retese seu arco, espere-os cair de cansaço e atire. Atire. Atire. Faça-os ouvir a canção do inferno através da corda do seu arco. Atire. Mate.

Os sonhos, certamente, eram os piores momentos do dia. Passou a dormir apenas quando o cansaço a exauria, e acordar ao primeiro raio de sol da manhã. Via as criaturas disformes saírem das sombras, lançando seus longos braços e garras e pústulas em sua direção. A sensação de estar presa, amarrada a um leito de sangue, carne e entranhas. Gritava, gritava alto, sentia a garganta ressecar da sua própria voz, mas como das outras vezes, ninguém a ouvia. Até escutar a voz familiar de Lyon chamando seu nome. Primeiro, como um sussurro inaudível. Depois, como a chama de uma vela no meio da escuridão profunda: trêmula, fraca, e, no entanto, ainda a guiá-la. E então, acordava.

Naquela noite, sabia que não seria diferente. Nos becos da cidade de pedra e madeira e tijolos e mercadores e guardas, as formas rastejavam. Eles não estavam lá, sabia que não estavam, ou era o que queria acreditar. No coração de Portsmouth, reino que não mantinha boas relações com Bielefeld, a arqueira olhava desconfiada. Na casa de Lady Rowena, esposa de Darius Drakkan, homem que aprendera a odiar, e a quem agora todos pareciam dever favores ou estar aliados, na casa daquela bela mulher, não seria diferente, ela sabia. As criaturas, os chamados demônios da tormenta, poderiam estar em qualquer lugar. Keriann sabia disso.

Olhando da sacada da janela, viu os criados colocarem os cavalos para dentro. O pequeno pátio abrigava alguns guardas, e à distância, aproximava-se um pequeno destacamento. Guiando-o, um cavaleiro vestindo armadura e peles. Howell – um dos dois esposos de Vento. Criaturas da Tormenta poderiam não estar naquela morada, mas outros diabos intangíveis abrigavam-se nos recantos das paredes decoradas, como orgulho e ciúme.

Resolveu esperar. Tinha seus próprios problemas para enfrentar aquela noite.

Para devolver parte da sanidade da arqueira, Vento, nome druídico da mulher que conheceu por Aillah, teve que abrir mão de sua própria. Keriann sabia disso, e agora as duas partilhavam visões que ninguém mais poderia entender. Mas o que Vento teve foi apenas um vislumbre da Loucura e do Terror.

Sorriu, consolada. Seria melhor assim. Não desejava nada daquilo para ninguém.

Deitou-se na cama confortável, com lençóis imaculadamente limpos. Encarava o teto de pedra do solar, imaginando o trabalho que deveria ter sido construir aquele lugar, considerado “modesto” por sua dona. Modesta. Modesta era a cabana em que morara, há… um ano atrás? Dois anos? Já não podia precisar o tempo. Resolveu que viveria dia após dia, conforme as coisas fossem acontecendo.

Fechou os olhos, exausta. Queria que a Noite levasse seus tormentos embora, queria partir, para onde? Não importava, não mais. Não haveria lugar para ela, haveria? Talvez não devesse ter saído da ilha… não, a ilha não, aquele lugar não. Mas e se perdesse o controle de novo, e se levantasse o arco para eles, mas não seria capaz de fazer isso, não, não seria. Keriann, a pobre criança? Criança? Já não era criança há muito tempo, e sabia disso. Sabia. Sabia que eles estavam lá, à espreita, esperando que dormisse, que fechasse os olhos, que não resistisse ao cansaço e adormecesse…

Um ranger de porta a trouxe de volta à realidade. Os lençóis em desalinho comprovaram que estivera dormindo, mas não mais. Procurou o arco às cegas, no meio da Noite densa e escura, a Noite que envolvera todo o quarto enquanto ela dormia. Maldição.

Sussurros. Envolveu o arco com a mão e encontrou a aljava. Pelo leve barulho que fazia, pôde deduzir a localização do seu alvo, e como caçadora, antes que pudesse pensar, a corda balançava, a seta disparada, o gesto tão natural. Não conseguiu evitar de sorrir ao grito agonizante da criatura.

Mas haviam outros, e seus sentidos falharam em percebê-los.

Rápido como o vento que agora entrava uivando pela janela, sentiu-se ser arremessada contra a parede. O ar escapou-lhe dos pulmões, mas conseguiu manter o arco em punho. O pescoço agarrado pelo braço esquálido da criatura, Keriann podia sentir os nós dos dedos apertando-lhe as artérias. Não tinha espaço para atirar, mas o bom caçador sabe que não é apenas com flechas que se abate uma presa.

Os braços livres, levantou o arco na direção do rosto de quem a agarrava e sentiu-o fraquejar. Rapidamente se livrou dos dedos nodosos e caiu no chão, tateando em busca das setas que se espalharam pelo tapete. Agarrou quantas encontrou e com a velocidade adquirida nos campos de batalha, saltou uma saraivada por todo o quarto. Gritos e grunhidos cortaram-lhe os ouvidos, e pensando ter ganhado tempo, saiu em disparada para a porta. Sentiu uma mão repleta de garras segurar-lhe a perna e levando-a ao chão.

Dessa vez, não consegui segurar a arma.

Gritando, acordou repleta de suor. Era o mesmo quarto, a lua brilhando lá fora, a brisa gentil a refrescar a pele suada.

Um sonho, mais uma vez. Enquanto acalmava o coração, que mais parecia uma parada militar desgovernada, uma dor aguda fez com que levasse a mão ao abdome.

Sentiu o líquido quente entre os dedos e o cheiro férreo subir-lhe as narinas. Sangue.

Os olhos azuis arregalados, olhou em volta. Flechas espalhadas, algumas cravadas na porta de madeira, outras quebradas conta a pedra das paredes.

Sufocou um grito, horrorizada. Eles estiveram ali. E não a esqueceram.

  • Keriann é uma personagem de um jogo de RPG, de uma campanha que está às portas do fim (chiuf!). Sei que a maioria das pessoas não vai entender muita coisa, afinal, é algo feito com o bonde andando, mas espero que agrade. Não parei para adicionar “legendas” nem comentários didáticos, porque, pessoalmente, acho isso muito chato.
  • Link da imagem: Nightmare, por Trixis.

A luz que queima os olhos – Parte final

26 mar

Parte 1 aqui.

As luzes da árvore de Natal passaram para as luzes vermelhas e azuis das sirenes da polícia. Catteryn se viu observada por uma multidão de curiosos conforme era levada para uma das viaturas. Na multidão, reconheceu o homem que salvara sua vida.

– Acha que pode falar sobre o que aconteceu? Não está cansada, mocinha?

A voz era de uma mulher; a sala era de interrogatório. Detetive Bennet, ela podia ver no crachá que trazia uma foto antiga da mulher com quem falava. O braço estava fortemente enfaixado, mas três rastros de sangue se viam pela gaze.

Catteryn queria falar; talvez assim, parte da dor fosse embora. Talvez falar a ajudasse a entender o que aconteceu.

Acordara no meio da noite. Desceu as escadas, pensando que surpreenderia o pai comendo os biscoitos da árvore de Natal, e encontrou o copo quebrado. Na sala, viu primeiro a mão da aliança; Depois, o seu pai, caído, inerte. E então a voz da mãe, parecendo implorar a alguém.

– E o que ela disse?

Não lembrava. As palavras não tiveram nenhum sentido, Lembrava-se apenas das vozes, e da pessoa que atacara a sua mãe. Não viu nada, apenas uma forma que tentou agarrá-la. E então alguém chegou atirando.

– Você viu o homem? Os policiais disseram que você falou de um negro. Poderia descrevê-lo?

Veio-lhe à mente a imagem do homem que a observava na multidão. Era alto, usava uma jaqueta pesada, coturnos militares e uma calça jeans surrada. Tinha o rosto marcado e um cabelo curto, estilo militar. Ele lhe salvara a vida. Mas não adiantaria dizer isso à detetive Bennet. Eles queriam um culpado; e o primeiro a ser procurado seria o negro que entrou na sua casa atirando.

– Não, estava escuro. Ele só gritou que eu ficasse lá e saiu correndo atrás do… do outro.

– Tudo bem, não se preocupe. Se você lembrar de alguma coisa, qualquer coisa, pode nos procurar. – a mulher forçou um sorriso, talvez por pena. – E esse seu braço, não está ponteado por quê?

– O médico falou algo sobre uma infecção. Disse que ia demorar a sarar.

Ela não fazia idéia do quanto.

**********

Estava correndo. O peito arfava, suas pernas parecendo não conhecer limites para o esforço. Sentia nos pés o sangue ainda quente do pai.

Olhou para trás, mas já não havia luz. A árvore de Natal estava derrubada, e a escuridão era quase palpável. Apenas ouvia a respiração e os passos arranhando o assoalho. Estava perto, muito perto, cada vez mais perto.

Continuou correndo, mas ele a alcançou. Segurou-a pelo braço e uma dor lancinante percorreu-lhe o corpo. Não conseguia mais se mover, não havia mais porque. Olhos amarelados, fendidos como os de um gato, a encaravam, deliciados com o medo da menina. Catteryn gritou, sabendo que ninguém a escutaria. E acordou.

– Outro pesadelo, menina?

Os faróis do carro iluminavam a estrada. A escuridão se estendia, e as luzes da cidade já não podiam ser vistas pelo retrovisor. Pela manhã, já estariam fora do Texas. Kate olhou para motorista pelo retrovisor: sisudo e sério, o homem negro de cabelo curto não devolvia o olhar.

– É, outro pesadelo. – respondeu. – Gregor, como você sabia… daquela coisa que nos atacou?

– Ocorrências parecidas anteriormente. Agora volte a deitar no banco. A última coisa que eu preciso é ser acusado de sequestro.

Kate afundou no banco revestido de couro. Era um carro velho, mas os bancos eram confortáveis. Os pesadelos não parariam, e tinha certeza, embora não soubesse o porquê, que a coisa voltaria um dia. Não estava segura com seus tios, não estaria segura sozinha. Gregor, ao menos, parecia saber um pouco mais. Mas não era do tipo que falava muito.

Não importava. Ela teria muito tempo para pedir explicações.

A luz que queima os olhos – Parte 1

14 fev

Acordou de repente, abrindo os olhos azuis para a noite escura. Algum barulho a fez despertar, embora não soubesse exatamente o quê. Deve ter sido seu pai – ele sempre insistia em deixar leite e biscoitos para que Papai Noel tivesse o que comer quando viesse deixar os presentes. Cateryn já era bem grandinha para saber que seu próprio pai era quem comia os biscoitos.

Talvez se o surpreendesse, ele desistiria dessa baboseira. Ela já tinha catorze anos, afinal. Sonolenta, esfregou os olhos e levantou-se. Olhou para o relógio na parede; passava das três da manhã. Descalça, a garota saiu do quarto.

Estava tudo escuro no andar de cima. Cateryn não se incomodava – era acostumada a fazer aquele caminho quando acordava à noite para ir ao banheiro. No fim do corredor, viu a porta do quarto dos pais aberta. Deviam estar no andar de baixo então.

Começou a descer as escadas devagar. De maneira indireta, as luzes da árvore de Natal iluminavam o caminho. Verde, amarela e vermelha; verde, amarela e vermelha.

Um barulho chamou-lhe a atenção: som de passos no andar de baixo, arrastando-se com um leve arranhar no assoalho. Não reconheceu os sons – teria mais alguém em casa? Apreensiva, a garota continuou a descer os degraus.

Faltando pouco para chegar ao hall, a luz vermelha da decoração natalina refletiu sobre os pedaços de vidro no chão. Um copo quebrado, o leite derramado, os biscoitos espalhados.

Sentiu o coração disparar dentro do peito. Algo muito errado estava acontecendo. Com cuidado, terminou de descer as escadas e desviou dos cacos de vidro.

Vindo da sala, ouviu um barulho abafado, como se algo pesado tivesse caído no tapete. Temerosa, Cateryn virou-se na direção da sala, e a iluminação parca permitiu-a ver apenas uma mão inerte no chão; no anelar, uma aliança dourada. Era seu pai.

Quando era mais nova, Cateryn sempre perguntava por que a aliança do seu pai era diferente da que sua mãe usava. Cada vez ouvia uma história diferente, até que sua mãe contou, por fim, que seu pai perdera a aliança personalizada no dia seguinte ao casamento, na piscina do hotel. E agora ele estava ali, caído, com o pijama ensangüentado e os olhos vidrados. Morto.

Teve vontade de gritar, mas a garganta estava travada. Sabia que não deveria continuar ali, mas o que fazer? Chamar a polícia? Sair correndo pela rua, pedindo ajuda? Tudo o que conseguiu fazer foi ficar ali parada, olhando em choque o corpo sem vida.

Sentiu lágrimas descerem pelo seu rosto, e ouviu um soluçar baixinho. Estava chorando? Uma voz familiar, então, se fez soar pela sala. Vinha de trás do sofá, perto da sala de jantar, onde, há apenas algumas horas, foi feita a ceia de natal com alguns parentes. As palavras não faziam sentido, apenas a voz fez a garota andar. Era sua mãe.

– Por favor… nos deixe em paz… leve apenas a criança e nos deixe em paz…

Cateryn andou, autômata, na direção dos sons. Sua mãe estava viva? Sentiu o pé descalço pisar no sangue empoçado do pai; ainda estava quente. Colocou a mão sobre o sofá felpudo e ouviu outro sussurro ininteligível. Não era a voz da sua mãe. Não era nenhuma voz que pudesse reconhecer. Não parecia sequer uma voz, na verdade, mas a cadência com que falava indicava isso. Ouviu, ainda, um grito baixo e sufocado da mãe. Só então conseguiu virar o corpo para ver o que estava acontecendo.

A pouca luz amarela provida pela árvore não a permitiu discernir muita coisa. Cateryn viu sua mãe com o pescoço numa posição estranha e impossível para quem estivesse vivo. Em cima dela, havia alguém curvado sobre o corpo da mulher. Parecendo surpreso, a pessoa olhou para a garota. A luz da árvore refletiu em olhos amarelos e fendidos, como olhos de gato.

E como um gato diante de um carro, Cateryn estava. As pernas pesaram, seus músculos se retesaram. Seu braço ainda estava apoiado no sofá; sentia o tecido felpudo entre os dedos, o sangue viscoso do pai entre os dedos dos pés.  O que quer que fosse, estava se aproximando. O que quer que fosse, estendia o braço para agarrá-la.

O barulho de um tiro a fez acordar mais uma vez aquela noite. O desconhecido recuou, não antes de segurar-lhe pelo braço com dedos afiados como garras. A garota gritou, de dor e de medo, e outro tiro ecoou, dessa vez bem mais próximo. Cateryn sentiu o braço livre e correu sem saber para onde. Atrás do sofá, viu um homem alto e negro usando uma pistola prateada. Com uma voz grave, o homem gritou:

– Fique aí!

E foi só o que ele teve tempo de dizer. O que ouviu depois foi o som da janela sendo quebrada e os passos se afastando.  Uma dor lancinante vinha do braço, e o que conseguiu fazer foi se encolher no sofá e chorar. Estava só.

Toda história tem um começo. Hoje, trago o início da história de Kate, conforme os posts anteriores do blog. E aproveitando a oportunidade, é minha contribuição para a Liga Narrativa, aglomeração de blogueiros contadores de histórias. O tema desse mês é Começos. Abaixo você pode conferir outros que também estão na brincadeira:

Começos – Armageddon

Verbos – Jagunço

Hunter High School

2 jan

O projeto Hunter High School surgiu, como a maioria das coisas que eu postei aqui, baseado em um jogo de RPG. Kate é a minha personagem de um jogo-teste do Hunter: The Vigil, da White Wolf.

A premissa do Hunter não é novidade: uma pessoa normal descobre que há coisas na escuridão: vampiros, fantasmas, lobisomens, demônios e o que mais sua imaginação conseguir produzir. Séries como Sobrenatural, Arquivo X e mesmo Buffy já trazem essa abordagem. Mas o tema é atraente e o livro é, em particular, muito inspirador.

Já o Hunter High School, que nada mais é do que uma compilação de pequenos contos, desenhos e o que mais me der na telha, parte de uma premissa semelhante: uma adolescente de vidinha normal descobre, de uma maneira traumática, que monstros caminham por aí. E daí aparecem as dificuldades de tentar conciliar uma vida normal com caçadas noturnas.

Entre as coisas que eu pretendo fazer, estão perfis de personagem (como esse da Kate), mapas dos lugares mais importantes, e coisas assim. Além, claro, de textos e desenhos. Se isso não der em lugar nenhum, pelo menos é uma boa forma de passar o tempo. E de ressuscitar o blog.

O projeto tem um caráter extremamente pessoal: é algo para me dedicar no tempo livre (ou simplesmente para não pensar em coisas como estudo e trabalho), além de um exercício criativo. RPG é um jogo de contar histórias, afinal. E por que não compartilhá-las?

Um feliz 2010 para todos os 1d4-3 (no mínimo de 1) leitores do blog. Que seja cheio de realizações, conquistas e tudo o mais.