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Aniversários

25 maio

Danna, Toshio, Alastar, Keileen e Rogar

A música corria pelo salão, o cheiro de comida impregnando toda a casa. As servas se apressavam de um lado para outro, conversas, pratos, talheres. A chuva de outono não permitiria a festa do lado de fora como ela gostaria, mas não havia do que reclamar. Aos dezesseis anos, era sua primeira festa de aniversário.

– A debutante não vai aproveitar a festa? – a conhecida voz falava atrás dela, amigável e carinhosa. – É o seu presente, afinal de contas.

– E eu nem tenho palavras para agradecê-lo, milorde. – Danna se virou, sorrindo largamente. Usava um vestido em tons de verde, ressaltando os olhos da mesma cor. Sardas pontilhavam o rosto e os ombros à mostra, os cabelos negros presos em uma trança-raiz, que, esperava-se, não se soltaria durante a noite.

– Apenas divirta-se, pequena. É o melhor obrigado que você pode me dar.

– Eu havia pensado em outra coisa…

Ela se aproximou, mordendo pouco discretamente o lábio inferior. Nos olhos, parcamente escondido pela maquiagem, desejo. Victor Aerathis, seu lorde e senhor, aquele que a salvara dos seus irmãos de criação. Galanteador, mulherengo e aventureiro famoso. E que, por algum motivo, ainda não a tomara nos braços e na cama.

– Desça para a festa, criança. – era assim como a chamava quando esses assuntos vinham à tona. – Depois nos falamos.

*****

A chuva castigava o vilarejo de meio de caminho impiedosamente, trazendo também pancadas de granizo. Uma das precipitações mais violentas acordou Danna, que se limitou a abrir os olhos. No abdômen, o ferimento do dia anterior ainda doía, e o corpo pedia descanso da longa viagem. Ao menos teria a desculpa para não continuarem a viajar.

Na verdade, queria voltar a dormir. Apagar pelo dia inteiro para que ele passasse logo. Era o dia do seu aniversário, o primeiro longe de Allania, de Redskull e de Victor, seus dois pais. A vida era mesmo cheia dessas pequenas ironias.

– Danna-chan? – a voz do oriental, sempre discreto e furtivo, do outro lado do quarto. Sentiu-o pousar a mão calejada no ombro com sardas e cicatrizes. – Já acordada?

– Pela bunda de Valkaria, como você sabe? – perguntou sem virar o rosto. Estava frio, estava sem ouro nos bolsos, no meio de um buraco lamacento que não merecia ser chamado de reino, e estava triste.

– Você… respira diferente. – limitou-se a responder, a expressão impassível, como sempre. Nunca conseguiria deixá-lo com raiva? – O tempo será pesado pelo resto do dia. Como está seu ferimento?

– Doendo. Não seguiremos viagem. E além disso, preciso reparar a armadura. Amanhã partimos.

– Me deixe ver.

Virou o corpo na cama, mal humorada. As bandagens avermelhadas de sangue indicavam a ferida ainda aberta. Toshio retirou o curativo com cuidado, os olhos puxados concentrados. Pressionou a área ao redor do corte que atravessara a cota de malha, recebendo um ranger de dentes em resposta. Doía.

– Uma pequena infecção. Nada grave, mas você precisa de repouso, e deve manter a ferida limpa.

– Você pode fazer isso?

Hai. – sem dizer mais nada, saiu, provavelmente para buscar o material. Danna sorriu, carinhosa. Ele reparava nas pequenas coisas, entonações de voz, verdades não ditas. Não perguntaria nada, ela tinha certeza. E talvez por isso, gostasse tanto da companhia dele.

*****

Victor atentava para os detalhes, e isso a agradava. A lareira acesa em uma noite particularmente fria de outono, e as mesas recostadas às paredes abriamespaço para a dança. O banquete já ia avançado e a música continuava. Chamar os artistas de bardos era bondade, mas eram músicos de algum talento. As chuvas enlamearam as estradas, e poucos se dispuseram a fazer a viagem.

Danna, porém, não se importava com aquilo. Estava radiante, dançando com Redskull, o cavaleiro enorme que a fazia de boneca no meio do salão. Àquela altura, já dançara com as amigas, com as servas que derramaram cerveja pelo chão e pelos vestidos, e entre os passos da dança improvisada, lançava olhares a um dos músicos, o mais apresentável deles. Tinha os cabelos nos ombros, escuros como a asa de um corvo, e um sorriso bonito. Só era um pouco magro demais. E entre os olhares, reconheceu nele a mesma expressão que dirigira a Victor antes da festa: desejo.

Talvez fosse divertido, afinal. Largou o pai, enorme e desajeitado, sentado a uma mesa e voltou ao salão. Lançara o desafio ao forasteiro, ao passo que, de soslaio, espiava lorde Victor. Ele era o presente que ela almeijava, mas, por enquanto, podia se contentar com o outro.

– Boa noite, jovem dama. Seu pai por acaso não vai brandir aquele machado enorme caso eu a convide para dançar, vai?

*****

Curativo refeito, humor melhorado. Não poderia celebrar seus vinte e três outonos com bardos e outros luxos, mas sabia que Victor gostaria de vê-la feliz. “Uma vez no inferno, dance com os diabos. Eles sabem fazer uma boa festa”, diria se estivesse ali. Certamente o inferno deveria ser um lugar melhor que Lannestul, mas Danna pensou que, em vida, seria o mais próximo do que ela chegaria.

Negociou com Eseld, a dona da estalagem em que estavam hospedados, um jantar com comida à vontade e um barril de cerveja por oito moedas de ouro. Mais as dez moedas do conserto da armadura, mais o que teria que pagar de estadia, e um par de novas roupas para viagem não fariam mal. É, precisaria arrumar um trabalho logo.

Mas era seu aniversário. Dar-se-ia ao luxo de não pensar sobre pragmatismos naquele dia.

– Chefa? – a voz de Keileen, chegando ao salão da estalagem, agora vazio. O andar gingado da ruiva denunciava que, apesar da pouca idade, ela já tinha visto muitas batalhas. – Tá melhor? Pode ser que a gente tenha trabalho.

– Trabalho do tipo que paga?

– E tem outro tipo de trabalho? – a meio-elfa sorriu, descontraída. – Mas eles querem falar com a chefa, pra variar. Ficaram de vir aqui no jantar.

– Bem, não vamos deixá-los esperando. Vamos até eles. – sorriu, levando a mão à espada. Não trataria de negócios em uma noite na qual provavelmente beberia até perder a memória. Não cairia bem a uma bem-nascida, afinal.

*****

Os lábios se roçando, o cheiro do vinho embalando o movimento dos dois corpos. A música minguava distante, a noite já alta, e com a maioria dos convidados dormindo. Os dois bailavam em outro ritmo, próprio, só deles, compassado, em um encaixe quase perfeito. Ele, experiente, explorava o corpo da jovem, passeando sem muita pressa. Ela, sedenta e agressiva, com o vigor e a impulsividade da juventude, mordia, cravava as unhas cuidadosamente tratadas para a noite do seu aniversário.

Abraçaram-se. No chão, as roupas finas de festa, desalinhadas e largadas, esquecidas. Aquele era o presente que desejava para a noite, que não poderia terminar melhor. A dança continuou, ávida, constante, crescente, inebriante. Danna mordeu os lábios, apertando-se mais no abraço e estremecendo. Fechou os olhos e se entregou ao momento, como nunca fizera antes. Amou-o. E sabia que, de alguma forma, ele também a amara.

*****

– Por que nós ganhamos comida de graça hoje? – a voz do guerreiro retumbava à mesa. Rogar era um homem inegavelmente grande, com mais músculos do que cérebro, e dono de uma habilidade inegável com o machado. – Podiam arrumar umas mulheres também!

– Eu não gostaria de mulheres. – protestou Kei, já alta pela bebida. – Ficaria satisfeita com uns homens diferentes dos feiosos de sempre. E por que você não vai atrás de umas mulheres pra você e pro chifrudinho aqui?

O “chifrudinho” era Alastar, o que Danna sabia ser tiefling, um herdeiro distante dos demônios que caminharam pelo mundo há séculos. Victor havia lhe falado brevemente sobre eles, o bastante para ela saber que eles são tão maus quanto qualquer pessoa. Ou seja: podem ir do melhor ao pior. E Alastar tinha olhos tão torturados que Danna imaginava que ele não lhes faria mal.

– Eu acho que posso escolher as mulheres sozinho, sem a ajuda de Rogar. – comentou o arcano, claramente sóbrio. O capuz cobria-lhe os relevos na testa, mas eventualmente deixava notar os olhos brilhantes.

– Mas eu posso lhe dar uns bons conselhos, mago! Eu já falei sobre a pérola?

As conversas continuaram, e Danna sorria. O ferimento dormente pela bebida. Para os próximos dias, trabalho. Para a noite, que mal começara, um banquete e diversão. Não podia reclamar, apenas torcia que, diferente das outras bebedeiras, aquela não terminasse com cadeiras e ossos quebrados.

– Danna-chan? – a voz sempre baixa de Toshio. – Podemos conversar?

– Conversar ou… conversar?

– Ambos… se você quiser. – respondeu com um meio sorriso.

– Eu não poderia pensar em um final de noite melhor. – concluiu com um sorriso largo.

Essa é a minha participação na Liga Narrativa (que devia ter sido de abril, mas… enfim), com o tema de Festas. Danna é uma personagem de um jogo de RPG guiado pelo Dan Ramos, autor também da ilustração acima. Danna Aerathis é a filha bastarda de Victor, que descobriu sua herança na ocasião da morte do pai.  Após conflitos com o governo do reino, que  não a reconhecia como filha legítima para herdar as terras, fugiu e hoje vive vendendo sua espada. Você pode ler outros contos sobre ela aqui e aqui.

Outros membros da Liga que participaram da brincadeira:

Italo – Cylon Party

Mário (Jagunço) – Diálogos Feéricos

Marlon – Fim de festa

A boa filha

8 fev

“Todos os anões podem ser bastardos, mas nem todos os bastardos precisam ser anões”.

(Tyrion Lannister, A Game of Thrones)

Indecisa, a garota segurou o cabo da espada com as duas mãos. Seu pai, um homem enorme e de uma farta barba ruiva, manejava o machado grande com uma naturalidade invejável, enquanto ela mal conseguia levantar a lâmina. Não era uma moça franzina, pelo contrário. Alta, tinha pernas fortes e bem torneadas, mas sempre foi um pouco desajeitada. Longos cabelos negros pendiam amarrados em uma trança, enquanto os olhos verdes iam do machado ao rosto do pai. Sabia que ele queria que ela fosse capaz de se proteger; a guerra se aproximava e, apesar de servir a um lorde, não poderiam prever quando seria necessário brandir uma espada.

– É assim que você vai lutar pela sua vida, mocinha? – a voz do pai retumbava, em um tom diferente do habitual. Estava sério como não costumava ser. Normalmente expansivo e bem humorado, Redskull parecia levar aquele treino como um dever a cumprir. Com um golpe rápido, prendeu a lâmina da espada no machado e, sem esforço, desarmou-a. A espada caiu com um baque seco no chão afofado pela chuva do dia anterior. – Você já estaria dividida em três pedaços agora. Vamos, pegue a espada. De novo.

Danna deu um olhar desconfiado para o machado do pai enquanto se abaixava, quase não notando os passos que se aproximavam. Se havia aprendido alguma coisa sobre lutas é que não podia se distrair; os hematomas do treino anterior ainda não a deixavam dormir bem. Claro que seu pai não a machucaria de verdade, mas ele adorava pregar peças, “como uma amostra do que pode acontecer em uma batalha real”.

– Redskull, é desse jeito que você pretende ensiná-la? – a voz era inconfundível. Victor Aerathis se aproximava calmamente, usando roupas de montaria. Mesmo vestindo roupas mais simples e resistentes, mantinha um porte nobre, altivo. Era o senhor daquelas terras, embora às vezes, só às vezes, Danna esquecesse isso. Não era raro encontrá-lo junto aos trabalhadores, bebendo uma cerveja barata e soltando galanteios para as mulheres. – Desse jeito vai fazer a menina perder uma mão, ou coisa pior!

– Oras, e quem você pensa que é para se meter nos assuntos da minha filha? – em tom brincalhão, trocaram apertos de mão e um breve abraço. Aquele tipo de lealdade, entre escudeiro e senhor, talvez ela nunca entendesse. Mas enchia-se de um orgulho besta ao ver a relação que o pai mantinha com aquele homem. Redskull, um grandalhão simplório, muitas vezes aconselhava Victor na administração das terras, dando-lhe uma opinião honesta sobre o que acontecia. E aquilo vinha funcionando muito bem, pelo que sabia.

– Vou deixá-los a sós, se me permitem. – despediu-se, fazendo uma mesura ao lorde. – Sei que têm assuntos a tratar. As lições podem ficar para amanhã, papai.

– Na verdade, pequena Danna, vim pedir os préstimos do seu pai. Algumas questões estão incomodando nas terras ao sul, e preciso que ele resolva isso pessoalmente. Eu mesmo iria, mas há uma comitiva para chegar daqui a alguns dias e sei que seu pai não gosta de lidar com a corte. – os dois trocaram um olhar breve, porém expressivo.– Você partirá pela manhã, sir. Passarei os detalhes mais tarde, no jantar.

– Pai, me leve com você! – pediu Danna. A ausência do pai significava a retomada dos maus tratos em casa. Sua madrasta, uma mulher reclamona, aproveitava as frequentes viagens do marido para usá-la como a criada que não tinha. – Eu não quero ficar aqui com aquela… mulher. E como eu vou aprender a lutar se você não fica uma semana em casa?

– Você está louca, menina? É perigoso! Imagina se acontece alg-

– Eu não quero ficar com aquela bruxa! – viu-se quase gritar. Não costumava desobedecê-lo, mas aquela mulher a enervava. Recebeu um olhar pesado do pai e respondeu em silêncio, os maxilares travados. Relaxou apenas quando ouviu Victor dizer:

– Eu não posso obrigar Redskull a levá-la, mas posso compensá-la, se me permitir. Sou um professor melhor que o seu pai, isso eu garanto. Não gostaria de ficar uns dias hospedada em minha casa?

**********

Anos depois, Danna entenderia porque Victor Aerathis, um dos heróis do reino de Allania, tinha tanta afeição por ela. E não era o mesmo interesse que ele demonstrava às outras mulheres a quem proferia tantos galanteios. Era algo diferente, embora ela não conseguisse precisar realmente. Durante aquela semana, tudo o que fez foi deleitar-se com a casa senhorial, o quarto tão mais limpo e arrumado que o seu, e com a companhia nos treinos de espada.

Quando a comitiva da corte chegou ao feudo, Danna descobriu porque Victor mandara Redskull para fora. Era um duelo, porém um duelo diplomático. “Negociações agressivas”, como o lorde definiu dias depois, enquanto conversavam bebendo vinho. Apesar de estar presente no jantar, vestindo roupas que não eram suas – e por isso um pouco curtas demais – não chegou a opinar sobre o assunto. A comitiva queria que Victor despendesse parte de seus homens para uma missão de reconhecimento. Ora, a Coroa não tinha pessoas especializadas nesse tipo de tarefa?

Outra pessoa à mesa roubava-lhe a atenção. Talvez como bandeira de paz, alguns nobres menores da corte vieram junto com a comitiva. Um rapaz dirigia-lhe olhares corteses, embora claramente interessados. Era uma moça bonita e sabia disso. Sabia também que aquele jovem não procurava nada além de alguém para aquecer-lhe a cama depois do jantar. Considerou aquilo um desafio. Se ele queria, que viesse buscar.

**********

Mais tarde aquela noite, Danna tentava passar sorrateira pelo corredor dos quartos designados aos hóspedes. Jon, esse era o nome do rapaz, ressonava profundamente àquela altura. Concentrada que estava tentando não fazer barulho, só percebeu que estava acompanhada quando sentiu a mão no seu ombro desnudo usando o conhecido sinete, um toque com o qual já estava familiarizada, seguida de uma discreta tosse forçada. Victor.

Tentou pensar em pelo menos três histórias diferentes, nenhuma delas muito convincente. Porcarias, porcarias, porcarias. Enrolada no lençol e segurando o vestido, ensaiou sua expressão mais natural o possível. Mentir seria de pouca valia. Devagar, virou-se para o lorde, e optou pelo caminho mais honesto.

– Eu… espero não ter desapontado-o, senhor.

– E por que desapontaria? Qual o problema de buscar uma noite prazerosa? – abriu um sorriso largo, os caninos proeminentes. – Não há nada de errado nisso. Fico feliz que alguém tenha conseguido algo essa noite. Se divertiu?

– Er… sim… mas… o senhor pode não contar nada pro meu pai? Não acho que ele ia ficar exatamente feliz comigo se… hã, souber do que…

– Estou certo de que seu pai não ia ficar chateado se souber o que aconteceu aqui. – falou Victor, em um tom carinhoso. – Mas não se preocupe, não contarei nada a Redskull. Comentar as aventuras de uma dama não é a postura de um cavalheiro.

**********

Quatro anos depois, foi com um senso de urgência que entrou novamente no solar senhorial. Sem se preocupar muito com cortesia ou boas maneiras, correu aos atropelos para o quarto. Alguns criados cercavam-no, deitado no leito, tentando de alguma forma parar o inevitável. Vitimado por um veneno inoportuno, destilado por uma criatura invejosa e pérfida, Victor Aerathis falecia sem um herdeiro legítimo.

– Meu senhor, Redskull disse que…

– Pro inferno com as formalidades, pequena. – a voz era fraca e rouca. A pele, antes com um bronzeado natural, agora empalidecia. Victor parecia bem mais velho deitado no leito, debilitado e fraco. Os cabelos negros esparramados nos travesseiros, as mãos, antes com apenas calos da empunhadura do sabre, agora ressecadas. E pensar que há poucas horas… – Sim, eu queria ver você. Gostaria de ter dito tudo isso antes, mas… espero que possa me perdoar um dia.

Com esforço, ele se colocou sentado. Chamou uma das criadas que lhe trouxe uma pequena caixa dourada, ricamente entalhada e abriu-a com alguma dificuldade. Dentro, um rubi brilhava, preso a uma corrente prateada. Apesar da fraqueza, Danna notou que ele olhava a joia com um sorriso nostálgico no rosto.

– Esse pendante… era da sua mãe. Ela pediu que eu entregasse pra você, filha.

Sem ação, a jovem o encarava, os grandes olhos verdes arregalados. Não sabia se chorava, se explodia de raiva, se terminava de matá-lo. Filha? Por isso o cuidado, o carinho, a atenção, os presentes, os treinamentos. Era uma bastarda. As mãos de dedos longos trêmulas seguraram a pequena caixa e, sem que percebesse, lágrimas caíram-lhe pelo rosto. Como pôde não notar isso antes? A semelhança era clara àquela altura: a pele levemente bronzeada, os cabelos negros e brilhantes, o mesmo sorriso largo de caninos pontiagudos…

Com reverência e ainda em silêncio, passou o pendante pelo pescoço. Ele sorriu e antes de tornar a deitar-se, com um gesto, pediu que a criada lhe trouxesse uma espada de lâmina longa, com um rubi semelhante incrustado. A arma brilhava à fraca luz, mas mostrava-se como recém-forjada. Uma espada bastarda.

– Mais uma das promessas que sua mãe me fez cumprir. Você deveria aprender o caminho da espada, e isso você fez muito bem. – um acesso de tosse violento o interrompeu. Não teria muito tempo, sabia disso. – Procure pela pedra sangrenta. Ela ficará orgulhosa de você, tanto quanto eu.

**********

Danna ouvira histórias de bastardos atormentados e infelizes. Não teve uma infância feliz, mas conforme dava passos resolutos em direção à casa de Redskull, cultivava um orgulho que não sabia bem explicar o porquê. Não era uma filha legítima, não sabia em era sua mãe, foi enganada por toda sua vida. Não deveria estar feliz, e não estava. Saber que era filha de um nobre e que teve sua paternidade renegada pelas politicagens e convenções sociais, porém, preencheu-a de uma esperança inexplicável. A infância dura e difícil teve seus motivos. Sua madrasta a detestava não porque era filha de um primeiro casamento, mas por ter sangue nobre. Redskull era leal a seu senhor, e nem uma filha poderia se intrometer nisso. Segurava a espada embainhada quando ouviu gritos vindos da casa. Tomada pelo mesmo senso de urgência de antes, correu para dentro do lugar.

– Você o matou, sua cadela miserável! – gritava Redskull, o rosto tão vermelho quando os cabelos e a barba farta. – Matou os senhores dessa terra! Matou lady Aleena! Você tem ideia do que fez, mulher?! Você tem ideia?!

– Sim, eu matei eles! – a mulher de meia idade berrava de volta. – Matei aquela putinha que brincava de ser nobre com quem você se deitava, matei aquele marido frouxo que não conseguia satisfazer a própria esposa! E o melhor, meu marido, é que tudo vai cair sobre os seus ombros! Você era o escudeiro dele! Você foi a última pessoa a vê-lo, enquanto enchiam a cara com vinho! Você cuidava das montarias dela! Você vai pagar pelo que fez com a minha vida, seu maldito!

Com uma tapa forte, a mulher caiu sonoramente no chão, derrubando uma cadeira. Redskull era um homem enorme, e não costumava pensar muito antes de fazer qualquer coisa, principalmente se tomado pela raiva. Danna tentou pensar nas implicações dos acontecimentos daquela noite, mas não teve muito tempo. Só sabia que o escudeiro leal de seu pai pagaria pelos crimes de uma desgraçada. E aquela criatura matou seu pai. Danna merecia sua vingança.

– Redskull! – gritou a plenos pulmões. Não conseguiria chamar a atenção de outra forma. O grito pareceu-lhe mais um rugido, como se externasse seus mais primitivos instintos. Os dois voltaram os olhares para ela, parada ali na porta, segurando a espada bastarda. – Vá embora daqui. Ela é minha.

O guerreiro logo se recompôs da surpresa, mas a mulher, não. Caída no chão, ela ali continuou, encarando a outrora enteada.

– Você me ouviu. Vá embora daqui, fuja dessas terras. Você vai ser visto como culpado, não importa o que se diga. Ela pagará pelo que fez.

********

Com a lembrança do sangue da madrasta na espada, Danna recebeu os mensageiros da Coroa em um jantar simples. Não demorou até que as notícias do assassinato de Victor corressem, e foi com os modos que aprendeu com o pai que recebeu os enviados para “negociações agressivas”.

– Então, senhorita, há de convir que está em uma situação delicada aqui.

– Apenas não entendo o porquê. Há testemunhas aqui que podem garantir o testemunho de meu pai a respeito do parentesco. Como ele não teve herdeiros-

– Sem querer macular a memória do lorde Victor Aerathis, sabia-se que ele era dado a galanteios. Então, como não garantir que outros na mesma situação que você apareça? A Coroa teria um problema familiar a resolver que apenas mancharia a reputação de um herói reconhecido pelo rei, e levaria anos, talvez décadas. Além disso, a palavra de um homem moribundo não será de valia para o julgamento da causa. – falou o mensageiro em tom definitivo. – Mas é claro que podemos pensar em alguma compensação, como um casamento com o futuro dignatário…

– Meu caro, acho que não nos entendemos aqui. – interrompeu a jovem, levantando-se, as mãos apoiadas na mesa de madeira. – Essas terras são minhas por direito, e se a Coroa não reconhece isso, eu não me importo de lutar pelo que é meu. Meus homens vão escoltá-lo às suas montarias.

Antes que pudesse pronunciar qualquer ordem aos seus guardas, o mensageiro viu-se cercado. Os guardas do feudo apontavam lanças e espadas para a escolta, enquanto dois deles colocaram-se de lado do arauto, flanqueando-o. Naquela noite, Danna aprendeu que com palavras, se começa uma guerra.

**********

Depois de quase um mês de cerco, ela sabia que perderia. Houve poucas baixas, mas a fome e a sensação de enclausuramento minavam as forças dos homens, e a sua própria. Mas ela sabia também que a Coroa não estava interessada em perder mais homens de armas em tempos de guerra: eles buscavam por ela, e somente ela. Um bode expiatório, alguém para culpar e responsabilizar. Em uma noite, mandou que os soldados se rendessem sem resistência. Deixara um cavalo preparado para a fuga e, após ter a certeza de que seus homens ficaram bem, fugiu. No pescoço, o pendante rubro. Na bainha, a espada que aprendeu a usar com o pai. No coração, a certeza de que um dia voltaria ali e retomaria o que era seu.

  • Prelúdio da minha personagem para o jogo do Daniel Ramos. Uma ideia que era para ser pequena e acabou ganhando mais páginas do que deveria. ;]

Demônios da Noite

1 dez

As vozes se tornaram habituais. De gritos, tornaram-se sussurros, rastejando pelas entranhas de sua mente. Keriann não sabia o que era pior. Os gritos eram assustadores, mas ininteligíveis. Já o que aquelas criaturas sussurravam, ah, ela compreendia muito bem. Mate-os, eles não merecem sua confiança. Traidores. São demônios. Querem eviscerar seu corpo e mente, seu rosto, seu arco. Retese seu arco, espere-os cair de cansaço e atire. Atire. Atire. Faça-os ouvir a canção do inferno através da corda do seu arco. Atire. Mate.

Os sonhos, certamente, eram os piores momentos do dia. Passou a dormir apenas quando o cansaço a exauria, e acordar ao primeiro raio de sol da manhã. Via as criaturas disformes saírem das sombras, lançando seus longos braços e garras e pústulas em sua direção. A sensação de estar presa, amarrada a um leito de sangue, carne e entranhas. Gritava, gritava alto, sentia a garganta ressecar da sua própria voz, mas como das outras vezes, ninguém a ouvia. Até escutar a voz familiar de Lyon chamando seu nome. Primeiro, como um sussurro inaudível. Depois, como a chama de uma vela no meio da escuridão profunda: trêmula, fraca, e, no entanto, ainda a guiá-la. E então, acordava.

Naquela noite, sabia que não seria diferente. Nos becos da cidade de pedra e madeira e tijolos e mercadores e guardas, as formas rastejavam. Eles não estavam lá, sabia que não estavam, ou era o que queria acreditar. No coração de Portsmouth, reino que não mantinha boas relações com Bielefeld, a arqueira olhava desconfiada. Na casa de Lady Rowena, esposa de Darius Drakkan, homem que aprendera a odiar, e a quem agora todos pareciam dever favores ou estar aliados, na casa daquela bela mulher, não seria diferente, ela sabia. As criaturas, os chamados demônios da tormenta, poderiam estar em qualquer lugar. Keriann sabia disso.

Olhando da sacada da janela, viu os criados colocarem os cavalos para dentro. O pequeno pátio abrigava alguns guardas, e à distância, aproximava-se um pequeno destacamento. Guiando-o, um cavaleiro vestindo armadura e peles. Howell – um dos dois esposos de Vento. Criaturas da Tormenta poderiam não estar naquela morada, mas outros diabos intangíveis abrigavam-se nos recantos das paredes decoradas, como orgulho e ciúme.

Resolveu esperar. Tinha seus próprios problemas para enfrentar aquela noite.

Para devolver parte da sanidade da arqueira, Vento, nome druídico da mulher que conheceu por Aillah, teve que abrir mão de sua própria. Keriann sabia disso, e agora as duas partilhavam visões que ninguém mais poderia entender. Mas o que Vento teve foi apenas um vislumbre da Loucura e do Terror.

Sorriu, consolada. Seria melhor assim. Não desejava nada daquilo para ninguém.

Deitou-se na cama confortável, com lençóis imaculadamente limpos. Encarava o teto de pedra do solar, imaginando o trabalho que deveria ter sido construir aquele lugar, considerado “modesto” por sua dona. Modesta. Modesta era a cabana em que morara, há… um ano atrás? Dois anos? Já não podia precisar o tempo. Resolveu que viveria dia após dia, conforme as coisas fossem acontecendo.

Fechou os olhos, exausta. Queria que a Noite levasse seus tormentos embora, queria partir, para onde? Não importava, não mais. Não haveria lugar para ela, haveria? Talvez não devesse ter saído da ilha… não, a ilha não, aquele lugar não. Mas e se perdesse o controle de novo, e se levantasse o arco para eles, mas não seria capaz de fazer isso, não, não seria. Keriann, a pobre criança? Criança? Já não era criança há muito tempo, e sabia disso. Sabia. Sabia que eles estavam lá, à espreita, esperando que dormisse, que fechasse os olhos, que não resistisse ao cansaço e adormecesse…

Um ranger de porta a trouxe de volta à realidade. Os lençóis em desalinho comprovaram que estivera dormindo, mas não mais. Procurou o arco às cegas, no meio da Noite densa e escura, a Noite que envolvera todo o quarto enquanto ela dormia. Maldição.

Sussurros. Envolveu o arco com a mão e encontrou a aljava. Pelo leve barulho que fazia, pôde deduzir a localização do seu alvo, e como caçadora, antes que pudesse pensar, a corda balançava, a seta disparada, o gesto tão natural. Não conseguiu evitar de sorrir ao grito agonizante da criatura.

Mas haviam outros, e seus sentidos falharam em percebê-los.

Rápido como o vento que agora entrava uivando pela janela, sentiu-se ser arremessada contra a parede. O ar escapou-lhe dos pulmões, mas conseguiu manter o arco em punho. O pescoço agarrado pelo braço esquálido da criatura, Keriann podia sentir os nós dos dedos apertando-lhe as artérias. Não tinha espaço para atirar, mas o bom caçador sabe que não é apenas com flechas que se abate uma presa.

Os braços livres, levantou o arco na direção do rosto de quem a agarrava e sentiu-o fraquejar. Rapidamente se livrou dos dedos nodosos e caiu no chão, tateando em busca das setas que se espalharam pelo tapete. Agarrou quantas encontrou e com a velocidade adquirida nos campos de batalha, saltou uma saraivada por todo o quarto. Gritos e grunhidos cortaram-lhe os ouvidos, e pensando ter ganhado tempo, saiu em disparada para a porta. Sentiu uma mão repleta de garras segurar-lhe a perna e levando-a ao chão.

Dessa vez, não consegui segurar a arma.

Gritando, acordou repleta de suor. Era o mesmo quarto, a lua brilhando lá fora, a brisa gentil a refrescar a pele suada.

Um sonho, mais uma vez. Enquanto acalmava o coração, que mais parecia uma parada militar desgovernada, uma dor aguda fez com que levasse a mão ao abdome.

Sentiu o líquido quente entre os dedos e o cheiro férreo subir-lhe as narinas. Sangue.

Os olhos azuis arregalados, olhou em volta. Flechas espalhadas, algumas cravadas na porta de madeira, outras quebradas conta a pedra das paredes.

Sufocou um grito, horrorizada. Eles estiveram ali. E não a esqueceram.

  • Keriann é uma personagem de um jogo de RPG, de uma campanha que está às portas do fim (chiuf!). Sei que a maioria das pessoas não vai entender muita coisa, afinal, é algo feito com o bonde andando, mas espero que agrade. Não parei para adicionar “legendas” nem comentários didáticos, porque, pessoalmente, acho isso muito chato.
  • Link da imagem: Nightmare, por Trixis.

Finding yourself out

19 jan

Keriann - hair

Descansar, mesmo que fosse em uma cabana simplória numa noite fria, era muito reconfortante. Keriann sentia as pernas cansadas da viagem, e os ferimentos causados pelo combate inusitado da noite. Deitada no saco de dormir, olhava para sua mão direita, encarando a cicatriz profunda deixada pela adaga de Leona. A seus pés, Summer fechava os olhos, como se compartilhasse a inquietação da arqueira.

Mas não era a luta o que lhe atormentava aquela noite – no final das contas, encontrar Gawden, o ancião do vilarejo, foi até providencial. E os sortilégios curativos que ele performara foram o bastante para aplacar a dor física. O que inquietava sua cabeça, impedindo-a de dormir, eram as palavras ferinas do bardo: “uma cadelinha sem pensamentos próprios que o obedecia sem hesitar”.

Por mais que a ideia a incomodasse, aquela foi a única verdade que Adrian proferira durante toda a noite. Keriann sempre escutava o que Lyon dizia, sempre seguia seus conselhos, e não hesitava em retesar o arco quando ele pedia. Soldados bem treinados muitas vezes desobedeciam a seus capitães, em prol de si mesmos. Mesmo animais de caça fugiam dos seus donos às vezes. E quanto a ela? Mesmo quando discordava das opiniões do guerreiro, ela o seguiu.

E agora, Keriann se perguntava o porquê. Qual o motivo? Mesmo quando ele abandonou a todos – perseguindo loucamente os captores de Aillah, que por coincidência triste do destino eram liderados por Leona, irmã de Lyon – mesmo assim, ela o seguiu, sem hesitar. E não era por conta de Profecia alguma. Na verdade, a arqueira já esquecera-se daquilo há muito. Era outra coisa, incondicional, espontânea e que ela não conseguia explicar nem a si mesma.

– Pela Dama… eu não acredito que eu amo este homem.

O choque da descoberta a deixou pasma por algum tempo, não poderia medir. Repassava em mente os momentos, as conversas nas noites de guarda, os treinamentos, o desabafo no castelo de Clampot. Olhou para Lyon, deitado no saco de dormir. Estaria dormindo? Deveria contar a ele?

Claro que não, que ideia. Lyon era casado, estava prestes a ter um filho, e apesar dos pesares, parecia gostar da esposa. Não seria certo. E seria correto abrir mão de seus próprios sentimentos? Ser obrigada a casar foi o que a fez fugir de casa. No entanto, correr o risco de destruir uma família prestes a se formar não parecia a melhor coisa a se fazer. Guardar suas inquietações seria nobre, certamente. Mas era o que desejava?

Virou para o outro lado, encarando a parede. Podia estar confundindo os sentimentos. Não era a primeira vez que isso acontecia. Podia ter sido levada a acreditar naquilo, graças às bravatas ácidas do bardo. “Uma cadelinha sem pensamentos próprios”. Suspirou fundo. Sejá lá o que fosse, era melhor guardar para si.

Levantou-se, impaciente. Não conseguiria dormir agora, apesar do cansaço. Sorrateira, andou para onde estava Lyon, o meio-elfo de cabelos loiros que causava sua insônia. Definitivamente estava dormindo. A respiração ritmada, o peito subindo e descendo cadenciado…

A arqueira se aproximou, sentindo o coração acelerar dentro do peito. Os curtos cabelos cacheados caíram para frente, e então ela parou, com medo de que o roçar das madeixas acordasse o guerreiro. Ficou naquela posição não sabe por quanto tempo, indecisa sobre o que fazer. Pareceu uma eternidade até que resolveu se levantar. Voltou para o seu saco de dormir, resignada. Não, não era a coisa certa a se fazer. Chacoalhou a cabeça, como sempre fazia quando queria esquecer alguma coisa, e fechou os olhos. Amanhã seria um dia longo.

Não olhe para trás

22 set
Never look back because it hurts

Never look back because it hurts

A batalha estava acabada, assim como a jovem arqueira. Seus olhos azuis encaravam a floresta que servira como campo de batalha: soldados arrastando corpos e feridos, outros vasculhando os pertences de um colega. “Vou levar pra mulher dele”, ainda pôde ouvi-lo falar. “Mulher e filhos”.

Mesmo tendo conseguido o que queriam – bater em retirada, depois do ataque mal sucedido a Camelerd – Keriann tinha a sensação de que muito mais havia se perdido aquela noite: Lyon, marido de Aillah e pai de uma criança ainda por vir; Leão da Montanha, guerreiro bérnio que, ironicamente, morrera defendendo os felden; e seu pai.

Não podia dizer quanto tempo ficou olhando aquela cena – nem importava realmente. Os outros carregavam os corpos dos seus conhecidos, e Keriann olhava para o que restara do seu pai. Quando o viu pela última vez, não imaginara que o reencontro seria assim.

Fechou os olhos, e lágrimas desciam pelo rosto sujo da batalha. Ela viu quando o exército de mortos corria para a floresta, ignorando galhos ou quaisquer obstáculos. Incansáveis e implacáveis, eles pareciam invencíveis. Mas o pior foi perceber que boa parte deles usava as roupas dos homens que morreram no ataque à cidade: as forças negras a serviço de Drakkan os trouxeram para lutar mais uma vez, sem vontade própria, apenas com o desejo instintivo de matar.

Mas em uma batalha, quem pode pensar diferente?

E Keriann lutou. As mãos calejadas dispararam flechas como nunca, e ela mal pôde sentir quando a luva se desfez mais uma vez e os dedos começaram a sangrar. Os desmortos continuavam a desferir seus golpes, ploriferando morte e corrupção, e ela continuava a atirar, os sons da corda fazendo-a não pensar nos gritos de dor dos soldados. Até perceber que a parede de escudos estava prestes a se romper, e os soldados protegiam os feridos.

Atirou mais uma vez e largou o arco, sacando a Matadora de Bruxas, que Dorgauth entregara-lhe. Se servia para matar bruxas, daria descanso aos mortos também. Lutou. Teria continuado se não percebesse um brilho incomum na altura do peito do desmorto: um pingente prateado balançava, mostrando um cálice com uma linha dourada no topo e algumas inscrições.

De longe, ela reconheceria aquela jóia que seu pai costumava segurar com tanto afinco enquanto orava. Levantou os olhos para ver o rosto de quem estava prestes a atacar: era seu pai, os cabelos castanhos, agora imundos; os olhos azuis, de quem herdara os seus, sem o brilho da vida; a pele seca e esbranquiçada; e um grande ferimento de espada na altura do pescoço. Seu pai, tornado um desmorto pelos servos de Drakkan. Seu pai.

Largou a espada, mais por inércia que por desejo. Como aquilo era possível? Como?! Quis gritar, quis impedir os outros de lutarem, mas sabia que já era tarde. Enfrentara desmortos antes, e sabia que eles já não eram as pessoas de antes. Queria abraçá-lo, mas sabia que não podia. Os soldados gritavam, pedindo ajuda, pedindo que lutasse, mas naquele momento era impossível. Inerte e impotente, era como se sentia. Como deixou aquilo acontecer?

Mas naquela noite, os mortos não paravam. E ele continuou, avançando em sua direção, segurando uma espada que não era dele. Brandiu a lâmina sem muita força, atingindo a arqueira na altura do estômago. Ignorou a dor do ferimento porque alguma outra coisa lhe doía ainda mais. Seria a alma?

Não teve tempo para pensar: os outros soldados atacaram-no, cumprindo seu dever. E o que podia fazer a respeito? Conseguiram defender os feridos, era o que importava. E agora correram para ajudar os outros soldados em batalha. Era o que ela deveria fazer também, mas só conseguia pensar em um responsável por tudo aquilo: Drakkan.

Mas a batalha já havia terminado. Os homens marchavam, cansados, para longe de Camelerd. A época do plantio começara, e se não quisessem morrer de fome tinham que trabalhar no campo. Estabelecia-se assim uma trégua temporária, para que os dois lados se preparem para o que estar por vir. Nada daquilo importava para Keriann.

Diante de si, um túmulo improvisado: passara o resto da noite em lágrimas, preparando a cova, já que não havia nada mais o que fazer. Enterrou junto com ele seus pertences, exceto o símbolo sagrado da Dama, que agora brilhava no seu peito. Agora já não havia o que chorar. Levantou o capuz, olhou para a distante fortaleza que diminuía conforme a distância aumentava, e fez uma última prece à Dama.

– É uma promessa: não descansarei enquanto não matar você, Drakkan.

Lembranças

19 maio

Aquilo tinha tudo para dar errado.

Um grupo de batedores, pequeno, aproximava-se da fortaleza. A noite avançava vermelha – tudo naquele lugar tinha, para Akane, algo de vermelho – e tudo o que eles tinham que fazer era conseguir informações o suficiente para que pudessem preparar um ataque. Aquele forte tinha que ser tomado.
Os cabelos alaranjados emolduravam o rosto tenso da guerreira, que se aproximava entre as árvores o mais silenciosamente possível. Podia ouvir o leve roçar dos soldados que a acompanhavam. Ou talvez eles nem estivessem fazendo barulho de fato, talvez fosse apenas a tensão.

Medo. Era isso que sentia. Mas achava bom – não ter medo de demônios e diabos era algo de se estranhar. Na bainha, A Ladra das Nove Vidas parecia pulsar, como se pedisse por sangue. Para se sentir melhor, segurou a guarda conforme andava. Não ajudou.

– E o que fazemos agora?

Um sussurro a fez voltar para si. Era um dos homens. Akane encarou a muralha, procurando uma brecha, uma falha, qualquer coisa… até que viu. Era uma saída na muralha lateral, onde provavelmente eram eliminados os dejetos. Talvez ali eles não chamassem a atenção. É, talvez desse certo.

Com passos rápidos, o grupo se aproximou da muralha. Nada de errado. Uma forçada rápida na grade e a passagem estava aberta. A guerreira esperou que os outros chegassem, esperou que passassem e só então entrou no túnel.

A escuridão logo se apoderou da visão de Akane, que tropeçou um pouco até se encontrar. Os olhos se acostumaram aos poucos, e então ela pôde divisar os vultos dos homens. Tentou ignorar o cheiro, e apoiando-se nas paredes seguiu. Dez passos, quinze passos, e ela pôde divisar uma fraca luz adiante. Por um momento aquilo a animou, até que pôde ver que alguém trazia aquela iluminação.

Luz que se aproximava, ganhando forma e tamanho, e trazendo calor. A explosão repentina que se seguiu mal deu tempo para Akane esquivar-se com um salto rápido pára trás, levando apenas breves escoriações. Mas o cheiro de carne queimada, juntamente com os gritos dos outros, indicavam que eles não tiveram tanta sorte.

<- Achou que podia entrar aqui de maneira tão fácil, Estrangeira?> – a voz parecia ressoar por todos os lados. E logo em seguida uma escuridão quase palpável tomou conta do pequeno corredor. Como detestava magos. Prendeu a respiração por alguns segundos, o suficiente para deduzir a localização o conjurador pelo ruído dos seus passos.
<- Ao que parece, eu posso. Acha que esses truques baratos vão me impedir, arcano?>
<- Prove então dos seus artifícios de bárbaros, Forasteira.>

E então sentiu uma movimentação muito próxima. Por muito pouco desviou de um golpe de espada, e bolqueou outro com o escudo. Perder homens em uma missão de reconhecimento não tinha nada de anormal, mas ser morta por eles não parecia nada agradável. Movimentou-se para onde achava que era a saída, e por instinto desembanhou a espada.

Não soube se demorou demais a reagir, mas o fato é que não conseguiu explicar realmente o que aconteceu depois. A Ladra das Nove Vidas, sentindo-se liberta da bainha, parecia guiar os golpes. O primeiro foi aberto, e atingiu o soldado entre algumas costelas. Com o braço esquerdo, desviou um outro golpe que mal percebera, mas o movimento deixou o flanco esquerdo desprotegido. E então o terceiro soldado atacou-a, descendo a lâmina pela perna e encaixando-a exatamente na parte traseira da rótula.

O grito de dor e raiva incontida parece ter preenchido todo o forte, e ao invés de debilitar a guerreira, a dor pareceu excitá-la ainda mais. Fazendo a lâmina descrever um círculo, atingiu seu oponente na altura da bacia, fazendo-o cair de joelhos. O segundo golpe era desnecessário, mas nada a faria parar naquele momento. Como se soubesse exatamente o que fazer, retirou a espada já coberta de sangue e desceu a lâmina pouco acima da clavícula. O sangue espirrou-lhe no rosto, mas Akane não parecia se importar com isso.

******

– E o que aconteceu depois? – perguntou o rapaz, impressionado. – Você devia ter perdido a perna, ou não ser capaz de mexê-la…
– Magias de cura fazem milagres, Colin. Mas eu não me lembro. Me deixei levar. – os olhos verdes da guerreira pareciam se arrepender de ter contado a história. – Eu disse que não seriam boas histórias.
– Não, não é isso. Mas é impressionante ouvir tudo o que aconteceu… E essa aqui? Como conseguiu?

Retalhos – I

17 dez

As sandálias de couro pisavam levemente a grama ainda molhada pela recente chuva de outono, enquanto os olhos azuis de Keriann vasculhavam o chão, em busca de qualquer sinal. Mal tivera tempo de se trocar, ou sequer de trazer Summer consigo, mas isso não importava muito agora: trazia seu arco longo, um saco de flechas e aquilo deveria bastar.

Afastara-se de Dorgauth e Aenarion, que seguiam pistas em direção ao solar de Beolláin, chefe do vilarejo. E se havia mais de uma pessoa, devem ter ido para lugares diferentes. Para despistar uma possível perseguição? Contava que não fossem inteligentes assim.

Lyon fora envenenado, às vésperas do seu casamento com Aillah, e por mais que as suspeitas fossem óbvias, eles precisavam de provas. Howell, filho de Beolláin, amigo de infância da druidisa, por pouco não matou Lyon em um combate singular. Estranho pensar que ele tentaria envenená-lo – nas histórias que ouvia de sua avó Nan, Keriann sempre associava venenos a bruxas e a mulheres más. Os homens de verdade matavam seus inimigos com suas próprias armas. E até o momento, não tinha motivos para duvidar da honra de Howell.

O desespero, no entanto, fazia as pessoas agirem de modo estranho.

Chacoalhou a cabeça, como se quisesse afastar esses pensamentos. O que ela devia fazer agora era seguir os rastros. Era uma caçadora, aquele era seu ofício. Se prezava tanto assim por seus amigos, se queria evitar que Fox ou Dorgauth fizessem alguma bobagem, que fizesse algo útil. As marcas a levaram até o rio que abastecia a cidade, e pelo qual Maelgrin viajava usando seu barco. Imaginava o que ele teria visto nela para cortejá-la.

– Inferno, detesto quando eles fazem isso. Se ao menos Summer estivesse aqui…

Atravessou a água, orando para que sua presa não tivesse seguido a corrente. E aparentemente, os deuses estavam ao seu lado: não tardou à caçadora reencontrar as marcas do outro lado, nas margens lamacentas. Apoiando-se no arco, subiu o pequeno declive e continou seu caminho. O que viu, no entanto, a fez parar.

Indubitavelmente, os rastros seguiam até a cabana de Maelgrin, que até então acreditava ser seu amante. Refez o caminho para ter certeza, mas não restavam dúvidas. Engoliu em seco, deu as costas para a cabana e resolveu retornar. Havia um terceiro rastro a seguir. Esperava não se surpreender tanto com o que poderia encontrar depois. Enquanto caminhava, imaginava como faria aquele homem confessar se teve alguma coisa a ver com tudo aquilo.