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Com as próprias mãos

25 ago

– Você faria o mesmo se estivesse no meu lugar!

Não, Ariene não faria. Mas aquelas palavras reverberavam na sua mente, indo e voltando sem parar. Ariene Crownshield, cavaleira sagrada da Ordem do Cálice Prateado de Siamorphe, não venderia sua honra tentando matar alguém em troca de um punhado de moedas de ouro. Mas será que ela, nascida sem lar, sem ninguém que a ensinasse que valores deveria preservar, não se deixaria levar pela situação?

Segurou entre os dedos o cálice prateado, que usava sempre com tanto orgulho. Apertou-o forte, como se buscasse na deusa uma resposta para essas indagações. Não gostava da sensação de ter a vida de alguém em suas mãos – nunca se achou preparada para aquilo, na verdade. Já presenciara execuções antes – seu pai a preparara desde criança – mas isso não quer dizer que gostava de vê-las. Fechou os olhos azuis com força, como se tentasse apagar a lembrança, mas foi em vão.

**********

– Não vire o rosto, pequena. Seu pai está olhando você.

Quem lhe falava era Tersus, embora a criança não estivesse realmente dando importância a sua voz. Ariene não queria olhar, mas não conseguia tirar os olhos daquele a quem chamavam de traidor. Os ombros estavam caídos e marcas profundas adornavam o seu rosto, compondo o quadro de um derrotado. Não em combate, não em batalha… mas na vida. Profundas olheiras e olhos finos como linhas se esgueiravam pela multidão, como se não conseguissem encará-los. Ariene não desviou o olhar, e teve certeza: ele olhou para ela.

Mesmo nos dias de hoje, não conseguiu entender se ele buscava por ajuda ou pura redenção. Os olhos daquele homem eram de uma inexpressividade descomunal, mas ainda assim intensos como a pior das tempestades. Prendeu a respiração, e então ouviu a voz do seu pai soar acima do cochichar da multidão:

– Você, homem de armas conhecido por Saemon, foi acusado de traição para com seus companheiros de armas. Graças a informações, passada por você a comparsas dos exércitos da velha e corrupta corte, três valorosos guerreiros perderam suas vidas. Entre seus pertences, foi encontrada a quantia de trezentas moedas de ouro, cunhadas pelas formas da corte que você costumava combater. – pausou a fala por um instante, enrolando o pergaminho com as acusações. – O que tem a dizer em sua defesa?

Por um instante, o homem permaneceu calado, assim como a multidão. Seus olhos se viraram para seu acusador, Kelvan Crownshield, e Saemon apenas deu de ombros.

– Nada. Eu fiz tudo o que disse, meu senhor. Apenas me dê uma morte rápida.

A displicência do homem apenas irritou mais o lorde, e Ariene sabia disso. No entanto, ele manteve sua postura. Desembainhou sua espada bastarda, que refletiu por um instante a luz do sol, e disse:

– Pelo poder a mim investido, por mérito e berço, és declarado culpado, homem de armas Saemon.

***

Voltaram para o solar improvisado, em um silêncio quase mórbido. Ariene não conseguia parar de pensar nos olhos inertes daquele homem, e ainda assim tão intensos. E não conseguia também encarar seu pai. Como se adivinhasse seus pensamentos, Kelvan falou:

– Eu tive que fazer aquilo. Aquele homem cometeu um crime que matou três pais de família. É uma questão de justiça. E você deve acostumar-se com isso, minha filha. Um dia, você tomará conta desse lugar.

O silêncio perdurou até chegarem à casa. Ariene viu o pai dar-lhe as costas e dirigir ordens a alguns homens, e só então conseguiu dizer:

– E quem somos nós para julgar quando tirar a vida de alguém?

**********

– Ele não carrega o mal no coração. – disse por fim Arienne, e só então percebeu que demorara a tomar sua decisão.
– Preciso lembrar-lhe, minha noiva, que este homem tentou matar você? E foi uma tentativa premeditada? – a voz de Victarion se fez soar. – De acordo com as leis de Tethyr…
– Nós não estamos em Tethyr. – lembrou Vance, que era a favor de deixar o homem vivo.
– E mesmo de acordo com as leis dos homens do mar, traição a esse nível é passível de punição com morte. Arienne, eu negociei sua vida por duzentas moedas…
– Os deuses decidirão. – a jovem disse, e ouvir sua própria voz a deixou mais segura de si. – Se ele aceitar, largue-o no mar. Não estamos tão longe de terra firme, e qualquer provação que passar será o suficiente para que repense suas ações. Se, do contrário, ele perecer, teremos adiado o inevitável. Agora, se me derem licença, vou para os meus aposentos.

*****

Na manhã seguinte, os homens foram levados para o convés, para receber sua punição diante de todos – o exemplo também era uma ótima forma de coagir os membros de uma tripulação, a capitã lhe explicara. E assim era em qualquer lugar.
Aquele que mentira no intuito de salvar a vida teve uma morte rápida pelas lâminas de Vance. O outro, por sua vez, foi lançado na imensidão do mar, e se sobreviveu ou não a paladina não poderia dizer. No entanto, tinha a sensação de que a justiça, de fato, havia sido feita.

A Queda – Última Parte

22 jul

Olhando para baixo, viu um grande poço circular, que borbulhava algo parecido com lava. Sentiu-se sendo baixada lentamente, e então discerniu o que a esperava lá em baixo: sangue fervente, borbulhante. Em desespero, começou a se debater, mesmo que parte de si soubesse ser em vão. Ouviu pequenas risadas entre os flagelados, assim como as erynies. Seus pulsos se feriam cada vez mais, embora fosse a última coisa na qual pensasse agora. Queria se livrar daquilo; queria, de um modo infantil, estar sonhando e acordar assustada, suando. Entretanto, aquilo era real – bem real. Logo ela poderia provar.

Seus pés tocaram o líquido quente – e ela gritou. Dobrou os joelhos, enquanto as correntes continuavam baixando sonoramente. As risadas as erynies ecoavam nos seus ouvidos, enquanto as palavras do irmão retumbavam em sua mente. Não era aquilo que queria – era tão errado assim desejar um pouco de justiça? Será que evitar o conflito entre duas raças, e um grande derramamento de sangue, valeria tão alto preço?

Seu grito ecoou mais uma vez, quando, mesmo encolhida e com o corpo já dolorido, sentiu o sangue fervente tocar-lhe a pele novamente. Com os braços esticados e o corpo reteso há tanto, não conseguiu resistir – mergulhou as pernas até a altura do joelho, conhecendo o significado de dor lancinante. O sangue quente machucava a pele, pele que sabia ser alma, e Aila desejava que fosse uma dor ainda maior, e que lhe tirasse a vida de uma vez. Pensou em quantas pessoas não haviam passado por aquele tormento, em quantos gritos já não haviam ecoado naquela sala.

As risadas diminuíram, mas não os gritos da barda. Sentia a corrente estremecer a cada vez que desciam assim como podia sentir as batidas desesperadas do seu coração. De modo vão, tentava agarrar-se às boas lembranças: os momentos bons com Ahlan, seu tutor e amante, e da sensação de abraçar Vanir, aquele elfo bondoso por quem guardava tanto carinho. O que eles pensariam se soubessem daquilo?

Submersa até a cintura, ainda tinha forças para se debater, embora quisesse ter forças para se libertar, ou não mais tê-las e acabar logo com aquele sofrimento. A dor era terrivelmente constante. A garganta secava, mas não parava de gritar, e nem poderia, pois a dor não deixava. A corrente baixava cada vez mais, emergindo-a lentamente, e chacoalhares metálicos soavam violentos, acompanhando os gritos desesperados da jovem.

Apesar de costumadas àquele espetáculo, a vã esperança demonstrada perturbava algumas erynies. Talvez porque fizesse vir à tona memórias de quando aquilo aconteceu a elas. Outras olhavam curiosas, achando que havia algo de irônico em ver alguém de sangue celestial ser transformado em demônio.

Aila prendeu a respiração, e fechou os olhos, conforme sentiu-se afundar completamente no poço de sangue. Tentava levantar o rosto, mas graças à dor, já não conseguia fazê-lo. Sentiu o corpo completamente submerso, enquanto ainda tentava forçar os braços para elevar-se acima do nível do poço. Em vão.

Logo seu peito começou a doer, e ela sentiu que precisava de ar. Sabia o que iria acontecer, mas não pôde resistir e relaxou os pulmões, expirando toda e qualquer esperança de vida. Abriu os olhos e viu apenas o vermelho forte diante de si, e sentiu-os ardendo. Tentou gritar, e além de ter seu grito abafado, sentiu o gosto do sangue quente e viscoso descendo pela garganta, queimando-lhe as entranhas.

A corrente foi parando lentamente, até não mais se movimentar.

Silêncio no calabouço.

As roldanas foram mais uma vez ativadas, e logo a corrente foi subindo, mostrando uma Aila de tez bem mais pálida, cabelos loiros encharcados de sangue, e asas escarlates a saírem do alto das costas, com sangue pingando por toda a sua extensão.

Nenhum movimento.

Até que ela inspira sonoramente. Renascida.

Abriu os olhos, outrora de um violeta misterioso, possuindo agora um brilho estranho, capazes de se destacarem sozinhos na escuridão. Da boca vertia um sorriso. Maligno. Cruel. Demoníaco.

A Queda – Parte V

30 jun

Parte 1: aqui.

Parte 2: aqui.

Parte 3: aqui.

Parte 4: aqui.

Don\'t you wish your girlfriend was \

Se não fossem as circunstâncias, a visão seria impressionante. A grande torre era completamente feita de metal – as paredes, o chão, as escadas. As altas e opressoras paredes incandescentes se mostravam praticamente intransponíveis. Estátuas de metal, das mais variadas temáticas, decoravam o lugar, que também trazia inscrições em baixo relevo, brilhando incandescentes.

Andaram até um lance de escadas que desciam em espiral, dando em outra porta de metal maciço, entalhada com motivos infernais. Imaginava a quantidade de magias de proteção que deveriam haver naquele lugar, desencorajando qualquer possibilidade de fuga. Desceram por vários andares, e na maioria deles Aila pôde reconhecer claramente algumas armadilhas mágicas. E se mesmo seus olhos destreinados puderam notar, quantas deveriam ter?.

– Nova serva?

A voz era grave e profunda, e a barda não deixou de sentir repulsa quando viu quem a emitia. Era também um demônio daquela espécie, embora possuísse asas das mais negras possíveis. Tinha braços e pernas fortes, e sua pele era repleta de cicatrizes – algumas tão antigas que se mostravam esbranquiçadas pelo tempo. Nos dedos brilhavam anéis vários, e um par de braceletes adornava os braços fortes. Ela caminhou sem cerimônias na direção da barda, que instintivamente recuou. A acompanhante assentiu em silêncio, afastando-se da jovem. A erynies de asas negras examinava a barda atentamente, olhando cada detalhe de sua anatomia.

– Esquálida e patética… venha comigo.

Desceram mais um lance de escadas, e Aila pôde finalmente vislumbrar o que imaginava ser o inferno em um só momento: pessoas acorrentadas às paredes, algumas gemendo sem forças, e outras sequer pareciam respirar. As paredes pareciam decoradas com atrocidades das mais diversas, embora a jovem não conseguisse desviar o olhar. Sendo puxada, a barda teve seus braços envoltos por algemas grossas e enferrujadas. A cada momento, a certeza de que percorria um caminho sem volta apunhalava seu coração.

Logo apareceram outras erynies, que a despiram sem a menor cerimônia. Os presos olhavam curiosos, enquanto outros agradeciam a algum deus por aquilo não estar acontecendo com eles. Vertiginosamente, Aila olhou por toda a sala, desejando alguém que pudesse ajudá-la. Cercada de criaturas que não conhecia e diante de um destino nefasto, se sentiu completamente sozinha. Baixinho, fez uma prece de perdão.

Sentiu-se sendo levantada, e escutou o barulho de correntes sendo movimentadas por um antigo sistema de roldanas. Completamente desnuda de corpo, sentia-se cada vez mais desprovida de espírito. Conforme subia, sentiu arranhões no pulso, causados pelas algemas, enquanto filetes de sangue escorriam por seus braços, fazendo um contraste irônico: sangue vermelho em carne branca. Fechou os olhos, até que ouviu as correntes pararem. Olhou para baixo, e não queria nem imaginar o que a aguardava.

A Queda – Parte IV

26 jun

Parte 1: aqui.

Parte 2: aqui.

Parte 3: aqui.

A mulher tocou a barda no ombro, que sentiu a conhecida magia de teletransporte. Estava agora próxima às muralhas, mas isso não a preocupava agora. Reconheceu o irmão, com suas grandes e exuberantes asas felpudas e esbranquiçadas, lutando entre demônios que pareciam estar realizando um ataque à Necrópole de Kelemvor.

– Ele está em problemas. Vamos ajudá-lo.

Aila assentiu silenciosamente, e iniciou uma canção épica, que conhecia desde criança. Logo suas palavras soaram nos corações dos soldados de Kelemvor, e Alexander não tardou a reconhecer a irmã. Se não estivesse tão ocupado, teria se perguntado como ela teria chegado até ali. Com as esperanças renovadas, desferiu um ataque certeiro no seu oponente.

Se não conhecesse seu irmão, Aila poderia dizer que ele procedia dos planos celestiais: alto, forte e com cabelos loiros que desciam até os ombros. As linhas do rosto eram definidas, extremamente semelhantes às do pai, que sequer chegou a conhecer, e acompanhadas por olhos azuis límpidos e claros, capazes de enxergar o mal no coração das pessoas. Do alto das costas, surgiam duas asas felpudas e brancas, manifestação recente de sua herança celestial. Asas essas que acabavam de ser feridas por um raio de fogo concentrado, lançado dos olhos do construto com o qual combatia.

Era uma criatura bizarra, que possuía um corpo semelhante ao de uma aranha de órbitas vazias. Claramente artificial, se prostrava ameaçadora diante de Alexander, que, portando uma grande espada brilhante, desferiu dois ataques nas patas da criatura, mas que pouco pareceram afetá-la. A desconhecida de cabelos vermelhos bateu levemente as asas, elevando-se um pouco, e logo em seguida tensionou o arco,disparando duas flechas na direção do construto. Uma delas se crava no chão, enquanto a outra, com sua ponta flamejante, acerta o alvo.

Então um som semelhante a uma corneta soou ao longe, e a horda demoníaca entendeu aquilo como sinal de retirada. O construto, instruído para essas situações, desceu suas grandes pinças aracnídeas e prendeu Alexander, sem muita dificuldade, e logo iniciou sua caminhada. Aila então iniciou uma nova e breve canção, invocando um hipogrifo, vindo dos planos de Sune. Em celestial, num tom um tanto desesperado, ordenou que atacasse a criatura. Enquanto isso, a mulher realizou dois tiros certeiros, um deles entrando na órbita vazia do construto, que em seguida caiu inanimado no chão. A barda respirou aliviada, cancelando a magia e agradecendo à Senhora dos Cabelos de Fogo, enquanto seu irmão alçava vôo em direção à jovem.

– Aila, como… chegou até aqui? Como descobriu onde eu estava?
– Ela veio comigo, Alexander Ilindiel, paladino de Torm. – falou sem esperar a resposta da barda, e em um tom repentinamente frio. Tornando o olhar para a jovem, continuou: – Seja breve com suas despedidas.
– Despedidas…? Aila, do que este demônio está falando?
– De-demônio? – gaguejou a jovem, estarrecida.
– Ela virá comigo, paladino. – a voz firme e seca da erynies cortava os ouvidos de Alex. – Serão concedidos a ela os poderes para fazer a justiça que lhe foi negada.
– E você vem me falar de justiça, criatura infernal? Justamente você? – aumentou o tom de voz, e levou o olhar para a sua irmã – E você, onde estava com a cabeça quando ouviu as palavras dessa mulher? O que deu em você, Aila?
– Você não vê, Alex?! – gritou a barda – Eu não sabia de nada! E diferente de você, eu não posso discernir se há maldade no coração de alguém apenas olhando para ela! Além do mais… eu…
– Agora é tarde, paladino. Ela não poderá quebrar o Pacto que fez comigo. – falou a erynies – Ela terá as recompensas conforme o acordo: poderá fazer justiça a quem a matou, e será capaz de resolver os problemas terrenos pelos quais pereceu. Para tanto…
– Eu não acredito que você fez isso, Aila! – explodiu Alexander, desesperado. – Acha que essa é a verdadeira forma da justiça? Acha que é assim que se faz o bem, barganhando com demônios?!

A barda não conseguia sequer falar. Agora havia entendido tudo perfeitamente, tão claro como a água. Sentia as pernas tremerem e o coração acelerado, principalmente por saber que não haveria volta. Em um impulso, abraçou o irmão, enquanto se policiava para não chorar. Desatento a isso, ele correspondeu ao abraço, enquanto sussurrava:

– Eu não acredito, Aila. Minha irmã, como pôde? Como? Por quê?
– Então essas serão suas últimas palavras a sua irmã, Alexander Ilindiel?
– Eu tenho todo o direito de passar um sermão na minha irmã, demônio! Cale-se!
– É assim que você quer que ela se lembre de você?

Soltando-se do abraço do irmão, Aila levantou o rosto, encarando-o com o par de olhos violetas banhados em lágrimas.

– Eu também fiz isso por você, Alex.
– Venha, Aila. – chamou a erynies. – Quanto a você, paladino, espero não vê-lo nunca mais.
– O mesmo não posso dizer de você, demônio. E Aila, eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.

A erynies segurou a barda pelo braço, desaparecendo logo em seguida. Ainda tentando digerir o que aconteceu, Alexander deixou-se cair sentado, sentindo o rosto ser aquecido por lágrimas furtivas, enquanto dizia:

– … nem que isso custe a minha vida.

Enquanto caminhava na direção de uma grande torre de brilho metálico, Aila sentiu novas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. As últimas palavras que ouvira de Alex ainda ecoavam-lhe na mente:

“- Eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”

Em outras palavras, ele seria capaz de matá-la, se preciso fosse.

– Entre, Aila.

A Queda – Parte 3

5 jun

LEIAM A PARTE 1 AQUI! E A PARTE 2 AQUI!

Aila estava confusa. Havia perecido pela lâmina daquele machado, e claro que faria alguma coisa se pudesse. Mas aqueles eram desígnios divinos: ele receberia seu descanso eterno, assim como ela também. Insegura, a jovem olhou para a mulher, que até então nem se preocupara em dizer o seu nome.

– Mas… esta justiça não deve ser feita pelas minhas mãos. Isso não é correto. Não… não sou eu quem decido isso.
– E se eu disser que a sua morte e a dos seus amigos foi em vão? O exército de orcs ainda se concentra na região, e em breve os elfos da cidade de Sylvan receberão retaliações. Você sabe que eles não poderão resistir. E você poderia evitar esse derramamento de sangue inútil. Não era isso que você queria em vida, Aila Ilindiel?
– Esses assuntos… já não me concernem. – respondeu a barda, embora não estivesse tão segura de suas palavras. – Eu morri em prol dessa causa. Esses fatos… já não me dizem respeito.

Em um ímpeto de coragem, sentido estar indo contra todas as suas vontades, deu as costas à desconhecida. Não sabia quem ela era, mas parecia uma criatura celestial – as feições harmoniosas, agora entristecidas, apunhalavam a barda. Sentia como se tivesse ferido uma beleza até então imaculada, até que novas palavras da mulher alada a fizeram parar mais uma vez:

– E se eu disser que o seu irmão gêmeo, Alexander Ilindiel, também pereceu do mesmo golpe que tirou a sua vida?

Então se recordou do par de anéis de platina que comprou com a insistência do irmão. Em questão de segundos lembrou-se da prece que Alex havia feito, momentos antes de iniciar o combate, explicando que os ferimentos que Aila viesse a sofrer seriam partilhados por ele.

“-E não pense em protestar. Quero proteger você.”

– Você está dizendo… que… ele morreu… por minha causa…?

A mulher não respondeu, e nem precisava fazê-lo. Mais uma vez, Aila levou a mão ao local onde deveria estar o ferimento, e imaginou a dor que seu irmão, um guerreiro santo, treinado para servir a Torm, sentira. E a morte dele teria sido tão vã quando a sua.

– Ele… está aqui? Nesse lugar?
– Sim, está.
– Leve-me até ele! Leve-me até ele e… e então terá sua resposta.
– Infelizmente, as coisas não funcionam assim, Aila. Meus patronos lutam pela justiça verdadeira. A justiça que você também deseja. Você não deve me temer.

Passaram-se alguns minutos de silêncio que pareciam se estender por uma eternidade. Estava dividida entre o que acreditava ser a ordem celestial e o que seu coração desejava. Queria ser capaz ignorar aquele pedido, mas quem quer que tivesse mandado aquela mulher parecia compartilhar dos desejos de Aila. Respirou fundo e quebrou o silêncio que perdurará até então:

– Eu aceito. Leve-me até meu irmão.

A Queda – Parte 2

2 jun

LEIA A PARTE 1 AQUI!

Levantou a cabeça, atordoada. Então… estava morta. Olhou outra vez ao seu redor, enquanto buscava nas profundezas de sua mente informações sobre o destino daqueles que morrem. Talvez tivesse até conseguido recordar de mais detalhes, se não tivesse percebido diversos outros seres esbranquiçados como ela, vagando aparentemente sem destino. Almas sem corpos, e provavelmente tão confusas quanto ela.

Tentou desvencilhar a visão, e concentrar seus pensamentos. O que as diversas conversas em estalagens e tavernas poderiam revelar-lhe agora? Lembrou-se de uma conversa com um nobre da cidade de Waterdeep, que desejava muito mais do que um vinho quente para aquecê-lo aquela noite.

“- Segundo o que me disse um sacerdote do Senhor dos Mortos, as almas são levadas ao Plano da Fuga, regido pela neutralidade de Kelemvor. Lá, as almas aguardam até que um enviado do deus ao qual seus votos eram dedicados viessem buscá-lo.

‘Entretanto, as almas dos descrentes têm um destino nefasto: são levadas para proteger a Cidadela dos Mortos, onde passam a eternidade a serviço do deus”.

Um sussurro que parecia produzido pelos ventos trouxe Aila de volta. Ao longe, pôde observar uma enorme cidadela, de altas torres e muralhas, esbranquiçadas. Desnorteada e emaranhada em seus pensamentos, a barda de longas madeixas loiras seguiu até a famosa Necrópole.

Kelemvor - Deus da Morte

Kelemvor – Deus da Morte

E se a sua fé não fosse o suficiente? E se o que ela fizera em nome da Senhora dos Cabelos de Fogo não fosse o bastante? Sune, a deusa da beleza e do amor, pregava o auxílio aos outros, para que eles também fossem dignos de conhecer os encantos da paixão. Aila não havia sido muito ativa em sua busca nos últimos tempos, mas outras causas demandaram-lhe a atenção. E estava certa de que havia promovido o nome da deusa. E sim, isso deveria bastar. A Senhora dos Cabelos de Fogo saberia recompensá-la. Com a confiança renovada, a barda continuou o caminho, embora ainda incerta de onde ele fosse acabar.

Conforme se aproximava da cidade, pôde divisar melhor os contornos das muralhas, e seus ouvidos filtraram o que julgava até então ser o uivo do vento: gritos e lamentos, vindo das muralhas – das almas descrentes, que não aceitavam divindade alguma como salvadora. Então era assim que os descrentes passavam a eternidade?

Assustada, sentiu as pernas fraquejarem. Nem mesmo o mais devoto dos homens conseguiria se deparar com algo assim e manter-se inabalável. Instintivamente, sem conseguir desviar o olhar dos rostos de todas aquelas pessoas, afastou-se, tropeçando logo em seguida. Abalada demais para levantar-se, tentou se arrastar, quando uma voz feminina e suave surpreendeu-a:

– Aila Ilindiel, seu lugar não é aqui.

Virou o rosto, surpreendendo-se com a visão: uma mulher belíssima, de traços harmoniosos e delicados, pele pálida e longos cabelos vermelhos estendia a mão, em um gesto benévolo de ajuda. Do alto de suas costas saiam felpudas asas num tom escarlate, e a mulher esboçava um leve sorriso tranqüilizador. Em frangalhos, Aila aceitou a ajuda, e ambas seguiram para longe da muralha.

– Como sabe o meu nome?
– Eu sei de muitas coisas, Aila. E você já sabe o que aconteceu, não?

A jovem demorou um pouco, relutante em aceitar o fato, e assentiu com a cabeça silenciosamente. “Ótimo”, ouviu a desconhecida sussurrar.

– Então você sabe também o que acontece com as almas a partir de agora, não é? – sem esperar a resposta, continuou: – Sabe que aquele responsável por sua morte, aquele orc de nome Tarûk, também está morto? E que em breve estará recebendo sua recompensa? A recompensa por ter espalhado toda aquela destruição, por ter causado dor a tantas pessoas.

Aquelas palavras fizeram Aila parar a sua caminhada. Claro, se ele de fato morrera, sua alma seria recompensada por seu deus monstruoso. Discretamente, a desconhecida sorriu ao ver a reação da barda. Estava chegando aonde queria. Confiante, continuou seu discurso:

– Sim, ele estará recebendo dons por ter matado tantas pessoas, e por ter disseminado a morte entre os elfos da Alta Floresta. Isso é o que você considera justiça, Aila Ilindiel?
– E… o que eu posso fazer para impedir?
– Junte-se a mim. Eu concederei os poderes para que você faça a justiça necessária.

A Queda – Parte 1

1 jun

Suas pernas andavam de modo autômato, acompanhando a mulher que ainda a pouco parecia querer ajudá-la. Ainda estarrecida, Aila Ilindiel tentava compreender o que fizera. Estava diante de uma grande torre, feita completamente de metal e ricamente trabalhada. Atravessou portões também em metal maciço, e descia escadas que não pareciam terminar. Não atentava para os detalhes da construção que a cercava, atordoada que estava. A cada passo que dava, reminiscências dos últimos acontecimentos vinham à tona.

**********

Abriu os olhos lentamente, e a paisagem era o que poderia se chamar de peculiar. Um céu completamente cinzento abria-se ao horizonte, e planícies igualmente cinzentas pareciam estender-se infinitamente. Conforme ia despertando, sua mente trazia às claras o que havia acontecido: o golpe de machado fatal que espatifou suas vértebras, perpetrado por aquele monstro bárbaro sanguinário, fazendo-a perecer sem agonia.

Instintivamente levou a mão ao local do ferimento, e viu que nada havia. Foi então que atinou a olhar para si mesma, vislumbrando-se em seus trajes preferidos, e os fatos clareavam-se cada vez mais: a pele, sem tom, provava o que sua mente se recusava a aceitar. Estava morta.