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Monólogo

15 abr

nicole-sketch

Eu não sou melhor que ninguém.

Ver o corpo cair mudo na cama me fez perceber que eu não sou melhor que ninguém. Não sou melhor que meu pai, a quem tanto censurei em pensamento, por ser um líder do crimoe organizado – que hipócrita eu sou. De onde vinha, então, o dinheiro que sustentava minhas viagens à Europa? Definitivamente, eu não sou melhor que Don Giorgio. Caspita, eu não sou melhor nem que meus irmãos, que tão ferrenhamente seguiam os passos de meu pai. Ao menos eles não fechavam os olhos para o que realmente acontecia.

“Valorizar a vida, por saber o que há depois dela”. Mentira! Uma baboseira da qual eu tentava me convencer para conviver com a culpa que eu carrego. Uma auto-enganação, para que assim eu possa dormir à noite sem que meus pesadelos pulem na minha garganta. Mentira pura, falso escrúpulo. Eu não tenho sequer princípios. Eu matei um homem – e gostei disso.

Mas este homem, que agora não passa de matéria inerte, este homem foi o responsável por toda a desgraça que se abateu sobre a Família. Sobre a minha família. Um informante, Fellipo. E agora estava morto. E isso não me trará paz, mas me trouxe… prazer. Temporário, efêmero, tanto quanto a vida, mas ainda assim prazer. Há quanto tempo eu não fazia algo com tanta gana, tanta vontade…? Alguém para culpar, alguém para odiar por tudo o que estava acontecendo. Ele era o responsável pela morte do meu irmão, pela minha quase loucura. Quase? Alguém podia dizer que eu não já estou louca de fato?

Minhas mãos tremem, e eu tenho vontade de chorar. Talvez eu esteja louca de fato, talvez fosse melhor parar. Sair dali, fugir. Para onde eu não sei, não faço ideia. Para a minha família, eles cuidariam de mim, eles se importam comigo.  Que dizer ao meu pai, quando sair desse quartinho bolorento? Que ele está morto, que eu não vou mais ser assombrada, que eu o matei com a minha magia? O que ele vai pensar quando vislumbrar aquele corpo envelhecido, a pele quase solta nos ossos, a expressão de dor e pavor, os cabelos tão grisalhos? Veneno. Um novo tipo de veneno, eu direi, que envelhece o corpo da vítima. E a faz sofrer.

E ele sofreu, e gritou – Bruxa! Bruxa! – e continuou gritando de dor. Eu vi o medo, o pavor nos seus olhos, e eu gostei daquilo. As sombras, a sua própria sombra o caçava, o buscava, o tocava, distribuindo pelo seu tao frágil corpo os calafrios gélidos que lhe tiravam a vida.

Vida. A vida é supervalorizada. Eu estive do outro lado, e sei o que há. E não é nada de terrível. Do Outro Lado, a vida não importa, seus desejos não importam, seus afazeres de nada valem. Seus objetivos não passam de memórias de um mundo distante. A vida é apenas matéria inerte.

Tudo é matéria, afinal. Eu também serei. Todos serão.

Eu matei um homem. E Deus me perdoe, mas eu quero fazer isso de novo.

Essa é uma peça de ficção. Nicole é uma personagem de RPG em um jogo de Mage – The Awakening, com domínio sobre a esfera de Morte. Outras estórias dela apareceram aqui no blog, como vocês podem ver nos posts anteriores, mas para um esclarecimento rápido, Nicole é filha de um mafioso de Chicago, e há alguns meses seus irmãos foram atacados enquanto faziam um serviço para o pai. O mais velho morreu, e agora a assombra procurando por vingança contra o responsável pelo acontecido.

Cherry ‘n Blood – Parte I

16 out

As nuvens ameaçavam cair sobre a já cinzenta cidade de Chicago. As poucas pessoas que andavam pelo bairro residencial carregavam guarda-chuvas e pesadas capas, o que deixava a visão mais desanimadora. Nicole caminhava sem pressa, os tênis pisando em algumas poças de lama e o cabelo balançando ao vento incomum da primavera.

Gostava de andar enquanto tentava compreender todas as mudanças ao seu redor. Apreciava ver o céu quando estava prestes a chover – fazia-na perceber como era pequena diante de outras coisas. Agachou-se para amarrar os cadarços – por isso que preferia botas – quando um vento forte trouxe um cheiro doce, suave embora impregnante. E poderia ter ficado ali, se uma voz desconhecida e o toque frio do cano de uma arma não a despertasse.

– Se levanta devagar, moça. Devagar como se nada tivesse acontecendo.

Cereja. O cheiro era cereja.

– Isso mesmo, belezinha. Continua andando.

Havia cerejeiras ali? Não conseguia ver nenhuma. Talvez elas estivessem longe. Pensar nas cerejeiras faziam com que não temesse tanto aquele sujeitinho. Era só um assalto, não precisava de medidas drásticas. E se precisasse… ela saberia o que fazer.

– Entra aqui, moça. E nem pense em fazer nada idiota.

Ainda em silêncio, Nicole entrou no beco. Se precisasse recorrer aos seus poderes, era melhor em um beco escuro e deserto do que em uma rua movimentada. Mas talvez não precisasse, talvez fosse só um assalto. Ali não havia vento, mas o cheiro parecia estar mais forte, tomando todo o local. Só então se atreveu a olhar seu agressor. Um rapaz de cabelos compridos e maltrapilho, igual a tantos outros.

– Dinheiro, celular, esse relógio legal… deixa tudo aí no chão.

E então novamente o vento, vindo de lugar nenhum dessa vez. O cheiro ficou cada vez mais forte, mais presente, quase palpável. E então ela pôde sentir: uma criatura de muito poder estava fazendo aquilo. Uma pontada de dor violenta fez suas pernas bambearem, e ela reconheceu tudo: o cheiro, o poder, aquela presença aterradora… um Oni.

– Mas que porra é essa?

A voz do rapaz soava distante agora, conforme a dor de cabeça aumentava. Queria mandá-lo embora, queria arremessar a bolsa longe para que ele simplesmente saísse dali, mas a dor a deixara quase sem forças. Sentia quase como se sua alma estivesse sendo sugada. Abriu a boca, tentando dizer que fosse embora, mas o que ouviu foi um grito alto, forte e aterrador, que gelou-lhe até as raízes dos dentes.

O rapaz olhava para os lados, desesperado, apontando a arma para o nada que o aterrorizava. Os olhos arregalados tentavam observar o nada, e à beira da inconsciência, Nicole podia ver exatamente a direção para onde o Oni seguia. E não era até ela.

Os ventos aumentavam cada vez mais e começavam a tomar forma. Círculos de vento se formavam entre Nicole e o rapaz, que já estava na entrada do beco, com a arma ainda apontada. Aos poucos o Oni foi tomando forma – uma armadura de placas enorme começava a aparecer, imaterial, mas nem por isso menos real ou perigosa. Apesar da dor, Nicole tentava se levantar – impediu que um desses se manifestasse uma vez, podia fazer de novo. E se tinha algo que prenderia a atenção de um oni, era sangue.

E sangue era o que ele buscava. Mas não o daquela tenra jovem recém-desperta para a magia, e sim o daquele anônimo. Barulhos de tiro soaram, mas foram abafados pelo vento enquanto as balas perfuraram o concreto e ali ficaram. Sua risada, no entanto, se sobressaiu a qualquer barulho que pudesse existir ali, conforme Kojiro avançava na direção daquele desconhecido. Suas longas garras trespassaram o corpo do rapaz ao meio, e o golpe que parecia não ter surtido efeito ao primeiro momento, mostrou sua eficácia logo em seguida: a pele do rapaz se abriu em três cortes longos e profundos, o sangue saindo em profusão, empoçando o corpo já sem vida do rapaz.

De joelhos, Nicole tentava realizar o que estava acontecendo. Seus olhos verdes arregalavam-se conforme a poça de sangue aumentava e se aproximava. Tocou no sangue, ainda quente, como se pudesse reverter aquilo.

– Nicole Perazzo, vim aqui por você.

Haunted – Parte III

28 abr

“Yeah, though I walk through the valley of rape and despair
With head high and eyes alert
I tread on a plane of many
We who are of good nature and intention,
But cannot touch on the dark
Recesses of memory
And pain learned, so come walk
With me, feel the pain,
And release it…”

Sickman – Alice in Chains

– E o que você acha que pode ter causado essa… alucinação?

Don Perazzo era um homem prático, racional, e quando conveniente, extremamente frio. Ver a única pessoa restante da família sangrando em profusão no chão do banheiro poderia ter deixado qualquer um fora de si, mas não o Don. Ela tentara se matar, assim como a mãe. E ele deveria saber o porquê.

– Pode ter sido qualquer coisa. Uma perturbação. Uma lembrança traumática do passado. O uso de alguma…

– Droga? Como heroína? Ou outra dessas coisas?

– Esperamos os resultados dos exames, mas não acredito que ela estivesse drogada, senhor. Talvez levemente embriagada. Agora se me der licença, preciso ir.

Olhou para a filha inerte no leito do hospital, agora parecendo tranqüila. Não conseguia esquecer dos seus gritos e do sangue espalhado pelo banheiro. Escritas no chão, com seu próprio sangue, as palavras: Me ajude. Don Perazzo não sabia o que estava acontecendo, mas iria descobrir. Agora tinha trabalho a fazer.

**********

“Has no one told you she’s not breathing?”

Hello – Evanescence

Olhos verdes piscavam à luz branca do apartamento. Conforme sua visão voltava ao foco, Nicole destinguia uma bolsa de sangue ligada por uma agulha ao seu braço. Ela sabia muito bem de onde vinha aquele sangue. Olhou para o lado, esperando encontrar seu pai, mas ele não estava ali.

– Deve estar resolvendo alguma coisa.

Não gostava de hospitais. Desde aquela tarde na igreja passou a evitá-los. Todos os dias morriam pessoas, e quando isso acontecia por perto, ela podia senti-los. E por mais que quisesse se acostumar, não conseguia. Mas ao menos ela não tinha mais medo da morte. Talvez vê-la tantas vezes, de modos tão diferentes, a tenha deixado fleumática. A cirurgia no braço começava a comichar. A anestesia deveria estar perdendo o efeito, afinal.

– Também não consegue dormir?

Se não estivesse tonta demais, Nicole teria pulado da cama. A voz vinha de uma garota, de longos cabelos cacheados, vestindo uma camisola de hospital não muito diferente da que usava. A menina balançava os pés debilmente na cama ao lado da de Nicole. Olheiras profundas decoravam seu rosto magro, e os lábios descascavam. Não precisava olhar muito para saber que a menina tinha leucemia. E que não tinha muita esperança de melhorar.

– Eu só consigo dormir quando a minha mãe vem me ver. Você também é assim? – a garota continuou, agora mais interessada.

– Mais ou menos. – respondeu Nicole. Substituindo “mãe” por “calmantes” a frase ficaria mais ou menos verdadeira. – Você… está aí faz tempo?

– Vi quando trouxeram você. Havia um homem alto, forte e parecia preocupado. Seu pai, não é?

Nicole não respondeu, nem poderia. O que uma criança poderia estar fazendo fora da ala infantil, ainda por cima naquele estado? Uma olhada mais atenta no apartamento deixava claro que aquele não era um quarto coletivo, portanto ela não deveria estar ali. Tentou se colocar sentada, mas uma tontura repentina fez com que continuasse prostrada na cama. E mais uma vez, não tinha como sair dali.

– Você não devia estar aqui. – com a voz fraca, foi tudo o que conseguia dizer.

– Mas só você é quem pode falar comigo, Nicole. – e já não era a voz da menina, e sim a mesma voz que escutara no banheiro. Masculina, forte e grave.

– Rick… o que quer?

– Saber. O que aconteceu comigo. Por que eu ainda estou aqui. Por que só você consegue me ver. Eu estou morto, não é?

Ela daria uma gargalhada se não estivesse tão tonta. Ele estava fazendo isso também, ou era só o efeito da anestesia? Ou a idéia de estar presa em um filme de terror classe B, com corpos sendo possuídos por fantasmas? Mas sempre se surpreendeu com a capacidade de Richard dizer o óbvio.

Si, fratello. Tu stai morto. E o que você quer de mim?

Vendetta. Daqueles que me mataram. Dos que acabaram com a nossa família.

Os olhos da menina estavam opacos, e ela não respirava. Como ela não percebera antes? Talvez tenha se passado apenas alguns minutos desde seu último suspiro. A mão pequena e gélida tocou desajeitada o lugar do ferimento no pulso, fazendo a gaze se tingir levemente de vermelho.

– Scusa. Não queria.

– Deixe a garota agora. Deve haver alguém preocupado com ela.

Trôpega, a menina saiu do quarto. E ali, sozinha, Nicole pensava a respeito do que faria dali por diante. Vendetta, a palavra ressoava-lhe nos ouvidos, conforme a tontura ia e voltava. Como poderia explicar aquilo ao Don? Talvez não devesse, afinal, todos esses anos ele lutou para que Nicole não se envolvesse. Impossível – ela sempre fora parte da família.

Haunted – Parte II

27 abr

TLEC.

Esse foi o barulho que fez o interruptor quando Nicole entrou no banheiro acendendo a luz. As paredes revestidas de cerâmica branca já estavam meio fofas, mas o cômodo era limpo e organizado. Suspirou, cansada de mais um dia de trabalho, e distraidamente se despiu, largando as roupas de qualquer jeito no chão. Olhou de relance para o pequeno espelho ovalado mas logo desviou o olhar. Detestava aquelas sardas, por mais que quase ninguém as notasse. Faziam-na parecer uma adolescente.

Ligou o chuveiro e deixou que a água banhasse seu corpo desnudo. Nada como um banho quente depois de uma tarde inteira tendo que aturar uma excursão escolar na galeria. “Você finge que explica algo, eles sequer fingem que prestam atenção, e você ainda precisa responder perguntas imbecis. Nem parece que eu fui assim um dia”, pensava, esperando que a água levasse seus aborrecimentos ralo abaixo.

Fechou os olhos para retirar o xampu e percebeu que uma escuridão repentina tomou conta do banheiro. Levou a mão a uma das paredes, buscando apoio, mas a luz voltou. “Ufa, achei que tivesse queimado… de novo”. A oscilação continuou, e logo Nicole percebeu que não era um fenômeno puramente elétrico. Fechou os olhos novamente, e desligou a ducha, temendo algo mais sério.

Um calafrio súbito desceu-lhe pela espinha, e a jovem continuava de olhos fechados. Não queria ver, não de novo…

Igualmente repentino um vento forte invade o cômodo fechado, derrubando vidros de produtos diversos. A oscilação na lâmpada continuava incessante, cada vez mais rápida. Nicole tremia, e não era de frio. Por instinto tapou os ouvidos, mas em sua desorientação escorregou no chão, caindo indefesa. Não resistiria por muito tempo, e logo se ouviu gritando:

– O que você quer?! O que diabos você quer de mim?!

O box abriu-se estrondosamente, certamente rachando o vidro temperado em algumas partes. A jovem encolheu as pernas, abraçando-se. Seu maxilar tremia, e todo o seu corpo parecia suar frio, suor se misturando à água. Mas não conseguia desviar o olhar.

Conforme a lâmpada acendia e apagava, no espelho ovalado Nicole via sendo escrito com o vapor da água quente: Ajude-me. Logo abaixo, rompendo o branco da cerâmica, viu as letras se formando, dessa vez em sangue: AGORA!

E como aqueles pensamentos que nos ocorrem nos momentos mais importunos, veio à sua cabeça: “De onde vem esse sangue?” Seguindo o rastro do líquido vermelho com os olhos, percebeu a origem: do seu lado, um pedaço da embalagem de sabonete líquido estava suja de sangue, enquanto seu pulso esquerdo sangrava abundantemente.

Seu impulso foi gritar, e, irracional que estava, esfregava o ferimento. Trêmula e em pânico, a respiração lhe faltava, e a hemorragia não parava. Via seu sangue escorrer livremente – como podia ter tanto sangue assim? – até que uma fagulha de sensatez a atinou para tentar estancar o ferimento. Puxando uma toalha, tentou improvisar um curativo, quando vozes ecoaram na sua mente:

– Ajuda… eu preciso… de você… tortura… dor… ajuda…

As vozes ganhavam cada vez mais força, mais ímpeto, mais vigor. Pedidos de ajuda, gritos de sofrimento, e em meio a tudo aquilo, a voz lhe era conhecida.

– Minha… irmã… ajuda…

Mas como? As últimas palavras fizeram gelar seu coração. Seu.. irmão…? Mas… por quê…? Como… por que não a procurou antes? Por que tanta tortura…? Seus pensamentos se confundiam e se esvaíam juntamente com o sangue do seu pulso. O corte devia ter sido mais profundo do que julgara, afinal. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu a consciência se esvair conforme a porta do banheiro era aberta violentamente. Nunca ficara tão feliz em ver seu pai.

Haunted – Parte I

20 abr

As botas de cano alto ecoavam pelo grande salão, enquanto os olhos claros se perdiam nas cores renascentistas. Sabia que aquelas não eram as artes originais da construção – a igreja era bem anterior à Renascença, mas passara por tantas reformas que as paredes originais haviam se perdido. Além do mais, não seria muito bom para a Igreja Católica relembrar as barbáries cometidas da Inquisição.

I’m ahead, I’m a man
I’m the first mammal to wear pants, yeah
I’m at peace with my lust
I can kill ‘cause in God I trust, yeah
It’s evolution, baby

Enquanto passeava pela grande construção de pedra sólida, pendurado na cintura um eletrônico levava música aos ouvidos da jovem Nicole. Algo, no entanto, se fez soar mais alto: primeiro um grito agudo, feminino, desesperado, e então o crepitar de chamas. Não foi apenas o barulho que fez a jovem se virar, mas também um forte cheiro de carne queimada, acompanhado de um calor intenso e repentino. Para a cena que desabrochava diante dos seus olhos havia apenas duas palavras: inexplicável e assustador.

Uma fogueira imensa ardia enquanto a fumaça espiralava para o teto da construção, agora invisível pela fumaça. Uma mulher, completamente desnuda, gritava loucamente, atada por cordas a um grande mastro de madeira. Já não se via seus pés ou joelhos, consumidos pelas chamas, e seu rosto já trazia grandes queimaduras, assim como o que restava do seu corpo. A mulher tremia e gritava de um modo inumano, desesperado, e tentava balbuciar algo em meio à tamanha agonia. Quando virou o rosto na direção de Nicole, a jovem percebeu: a mulher tivera a língua cortada.

Nicole fechava os olhos com força, e abanava as mãos diante de si, um gesto desesperado de fazer a visão desaparecer. Aquilo tinha que ser falso, afinal. Se fez gritar, até que notou que os gritos da mulher pararam, e que o calor da fogueira havia cessado. Abriu os olhos, e no mesmo momento se arrependeu de ter feito aquilo.

Viu pessoas, muitas delas. Andavam pelo salão, e pareciam ter percebido a presença da jovem. Todas elas estavam num estado deplorável – traziam várias marcas nos corpos, a maioria indizíveis. Homens, mulheres e crianças até, com marcas profundas no pescoço, as órbitas vazias e os lábios entreabertos, roxos pela falta de oxigênio. Enforcados.

E haviam outros mais – pescoços e braços quebrados, membros amputados, olhos arrancados. Andavam como podiam, ora se arrastando pelo salão, ora tropeçando. Nicole desejava correr, gritar e sair daquele lugar, sair dali e fingir que nada acontecera. Suas pernas, no entanto, não obedeciam. Estava paralisada de medo. Sua respiração faltava e sentia o corpo inteiro tremer – por mais que quisese, não conseguia sair dali. Deixou-se cair sentada no chão, encostada na parede. A inércia pelo medo era tanta que sequer baixar a cabeça conseguia – não era capaz sequer de desviar os olhos de tão horrenda visão.

Coforme se aproximavam, ela podia sentir o cheiro de carne putrefata crescendo, cercando-a, sufocando-a. Logo o ar começou a rarear e já não conseguia respirar. E antes que sentisse o toque gélido daquelas pessoas, desmaiou.

Awakening – Parte III

25 mar

Partes anteriores: Parte 1, Parte 2

O barco seguiu, embora seu guia não parecesse fazer nenhum esforço para isso. Olhei para trás mais uma vez, tentando me convencer de que não havia outra escolha. Reverberando na minha mente, as últimas palavras do guia:

Conhecimento. Sobre você. Sobre o que você é. E o que você pode fazer.

Na tentativa vã de distrair meus pensamentos, olhei para a água estagnada pela qual íamos, e entendi muito bem onde estava: rostos de pessoas que passavam, suplicantes, pedindo talvez uma segunda chance ou outras coisas além da compreensão. Seus olhos brilhavam de um jeito opaco, e as expressões eram de dor pura.

– Quem são eles?

– Esquecidos. Pessoas que morreram sem sepulcro. Com o passar dos anos, se tornam matéria deste Reino.

– E que reino é esse? Que lugar é esse?

Por um instante a figura não respondeu. O único barulho que ouvia era o da água passando embaixo do casco do pequeno barco. Já estava prestes a perguntar de novo quando ouvi minha própria voz dizer:

– É seu destino, Nicole.

Uma figura enorme ganhava forma conforme o barco seguia pela correnteza. Um ponto branco em um horizonte negro se destacava e se avantajava, ficando cada vez maior. Meu coração palpitava, porque algo dentro de mim sabia exatamente o que era aquilo, embora Nicole não soubesse de fato. Por instinto, ergui minha mão e senti-la queimar levemente, mas de um modo agradável – a primeira sensação realmente boa desde quando tudo aquilo havia começado.

Puxei o ar para perguntar o que era aquilo, mas logo o barco encostou na margem e eu já não precisava de resposta alguma. A Torre de Ossos.

– Siga, e descubra o que foi acordado.

A voz grave que saiu do manto fez-me voltar a mim. Desci do barco, minhas botas afundando na margem de pedras de carvalho, e um vento trazendo um leve cheiro impossível de identificar, embora fosse estranhamente familiar.

– Como devo voltar? – ainda perguntei, mas meu guia já deixara a margem e seguia sem caminho. Sem ter para onde ir, comecei a caminhar.

Não sei quanto tempo se passou. Dias, meses, anos, não poderia dizer. Minhas pernas não se cansavam. Não sentia frio, fome, sede ou qualquer desconforto. Às vezes, sentia medo. Mas continuei caminhando para a torre, e ela parecia aproximar-se de mim, não o contrário. A cada passo que dava, suas formas iam delineando-se, e eu sabia que minhas respostas estariam ali. Ao mesmo tempo, sentia que não precisava de resposta alguma. E por fim eu cheguei.

Mal podia ver seu topo, e não havia porta de entrada ou qualquer janela. Os ossos se aglomeravam de modo aparentemente incerto, mas era firme, e a torre emanava poder. Eu não precisava de ninguém para me dizer que aquilo era magia, pura e bruta, em seu estado verdadeiro.

Toquei-a, e logo me senti invadida por algo tão poderoso quanto indescritível; basta dizer que era uma força avassaladora, que por pouco não me arremessou a metros de distância. Mas ali permaneci, e o lugar onde eu havia tocado começou a brilhar.

Eu já havia estado ali, milhares de vezes antes, então soube exatamente o que fazer. Escrevi meu nome, e como se esperando um gatilho, mais uma vez aquela força se jogou contra mim. Tentei evitar, mas fui arremessada e caí inconsciente. E quando acordei, estava nesse quarto, onde você me deixou.

Agora eu entendo o que eu posso fazer, Simon. E você pode não acreditar em mim, mas acho que é a primeira vez que tenho medo de morrer.

Por quê? Você já vendeu sua alma antes?

Renascimento

5 out

“Há alguns anos, executaram uma mulher. No meio da rua, eu, meu pai e quase a cidade inteira observamos seus pés balançarem até parar, a alguns centímetros do chão.

Uma bruxa, diziam. Uma adoradora do demônio, disseminadora de seus interesses profanos. Irônico que eu também tenha visto aquela mulher rezar e curar boa parte daquelas pessoas que ali estavam, dirigindo ao seu corpo inerte olhares de desprezo.

Sempre soube que ela não era má – impossível ser. Lembro-me até hoje de seu sorriso sereno, enquanto seus olhos verdes me assistiam preocupados quando eu adoeci em um inverno particularmente rigoroso. Lembro-me dela andando pelas ruas, e as pessoas agradecendo por sua ajuda muitas vezes gratuita, uma vez que poucos ali podiam pagar-lhe os serviços de curandeira. As mesmas pessoas que hesitaram em apontar-lhe dedos quando a Inquisição chegou. As mesmas pessoas que agora voltavam para suas casas, para viverem suas vidas normalmente.

‘Época da razão’, falam alguns. ‘Época do conhecimento, de iluminação’, dizem filósofos e estudiosos. Época de Renascimento. A maioria deles, no entanto, não fazem sequer idéia do que estão falando.

Eu, no entanto, Renasci. Eu, no entanto, Despertei. E agora posso ver através da ignorância efêmera. Com os mesmos olhos verdes daquela mulher que morreu numa tarde de primavera, vejo o mundo como ele realmente é.

Aquela mulher, de cabelos negros e rosto sereno, era a minha mãe. E dela não herdei somente esses olhos que podem enxergar além do Véu que envolve os Adormecidos, mas também a chama da Verdadeia Iluminação que lhe queimava o peito.

Com esses olhos, eu leio o mundo. E com essas mãos, hei de mudá-lo.”

– Miavele, aprendiz da Ordem de Hermes.