Projeto “Adaptação e Leitura”: update #001

29 jun

Como, há alguns meses, postei por aqui uns esboços sobre uma ideia que estava me encafifando e algumas pessoas se interessaram, aqui vão alguns updates do projeto Adaptação e Leitura (rá, arrumei um nome. Não é um bom nome, mas é um nome de qualquer forma).

Como vocês se lembram (ou não), a ideia era, na etapa final, integrar o RPG, através do título Fiasco (publicado no Brasil pela Retropunk). Embora eu não tenha planos de usar os cenários oficiais, mas sim criar um mais adequado, eu ainda pretendo fazer isso, mas não sei se será possível, graças a dois fatores. Um deles, bem objetivo, é o tempo – as reuniões estão ocorrendo quinzenalmente, ao invés de semanalmente (por motivos de ambas as partes, meus e das alunas envolvidas), o que atrapalha um pouco o andamento. O outro, mais subjetivo, vou desenvolver aqui. Talvez uma alma iluminada possa me dar alguma sugestão.

Os primeiros encontros foram, na melhor das hipóteses, desanimadores. Vimos o filme (eu escolhi o Jogos Vorazes, Gary Ross, 2012, por achar que seria mais fácil guiar uma discussão no sentido de crítica às mídias de massa, e daí levar por um lado mais político/social) e a conversa posterior foi… superficial. As leituras não passavam do nível da narrativa, os elementos levantados como mais importantes também não passavam disso. Na melhor parte, houve uma comparação com Crepúsculo (ponto pra mim, pelo menos elas preferiram  Catniss a Bella).

Impossível dizer que não bateu aquele desânimo. Mas no caminho para casa (os ônibus e sua capacidade de fazer a gente pensar), ponderei algumas coisas e relativizei a situação: são crianças com um baixo nível de leitura, e que o contato com narrativas, na maioria das vezes, se limita a telenovelas e uns poucos textos das aulas de português. E elas estavam se esforçando, isso era notório. Então, nada mais justo e eu me esforçar também.

No encontro seguinte, peguei em um ponto do filme que acho particularmente interessante enquanto pessoa, e, por que não dizer, feminista (spoiler, mas só um pouquinho): “Ele está fazendo você parecer desejável, e isso atrai patrocinadores”, disse Haymitch, o mentor do casal protagonista. E assim, as coisas avançaram, passando pela representação do feminino/masculino em anúncios, consumismo e os papéis desenvolvidos pelas mulheres socialmente. E daí, a discussão fluiu melhor. Talvez por só haver meninas na faixa etária dos 13-14 anos, tenha sido mais fácil.

Agora, voltando ao segundo fator, que tem a ver com o RPG, lááá em cima no texto. Como eu disse no primeiro encontro com as alunas, eu quero formar leitores melhores (itálico para designar aquele efeito de destaque na voz). Quero pensar que, ano que vem, quando elas estiverem no ensino médio, elas possam se deparar com um texto e visualizar seus intertextos, seus subtextos. “Ler as entrelinhas”, como se diz por aí. Detectar as sutilezas do discurso jornalístico, as técnicas de argumentação, e usá-las, claro, ao seu favor no enriquecimento do senso crítico.

Certo, eu sou professora de português, é parte do meu trabalho querer isso. E a ideia de usar o RPG era, sim, incitar o lado lúdico, criativo, que também acho que seria de forte atuação no sentido de instigar o senso de leitura além das letras de um texto. Mas também há de se considerar a recepção do público à ideia. As discussões com as garotas estão claramente melhorando, mas não sei se a criação de uma história coletiva teria tanto sucesso.

Mas talvez eu esteja errada, e só fazendo tempestade em copo d’água. Terminada a leitura do primeiro livro,  Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Rocco Jovens Leitores), pretendo propor, inicialmente, uma redação. Dependendo de como as coisas acontecerem, vamos experimentando. E aí, como eu gosto de dizer, “a gente vê o que faz”.

Cinco músicas ruins que eu gosto

8 maio

Baseando-me em um post de Vinícius, resolvi compartilhar meu terrível gosto musical enumerando as cinco piores músicas que eu gosto. Sei que todo mundo tem isso, por mais que não tenha coragem de admitir: existe aquela música que assombra seu celular, ou sua playlist no computador, e você não tem coragem de exorcizá-la porque gosta dela de verdade.

Certo? Certo? Não…? Okay… .__.

1. Livin la vida loca – Ricky Martin

Quem me trouxe essa música de volta dos confis obscuros da adolescência foi Shrek 2, há uns bons anos atrás. Daí é uma presença mais ou menos constante na minha playlist. Pela batida, pelo ritmo, pela mistura tosca de espanhol com inglês.

2. Everybody’s fool – Evanescence

Outra música zumbi dos recônditos dos anos teen. A verdade é que tem outras músicas do primeiro CD de Evanescence que escuto até hoje, mas como queria ampliar meu leque de músicas ruins, resolvi usar essa como exemplo.

3. Cities of the future – Infected Mushroom

Essa música, pra mim, representa todo um feeling cyberpunk: a batida rápida, as variações de ritmo, e serve de trilha sonora perfeita pra maioria das coisas cyberpunk que eu leio. E o pedacinho de letra dela também tem tudo a ver. Mas que eu não veria isso ao vivo, hmn, não veria.

E convenhamos, não é todo mundo que curte um psytrance loucão, né?

4. Driving to nowhere – Hadouken

Piadas a parte (Shoryuken!), conheci essa banda através do meu namorado, Nino, e é outra que não sai dos dispositivos móveis. Eu não sei se é exatamente ruim, mas como música eletrônica sofre diversos tipos de ojeriza randômicas, resolvi listá-la aqui. Gosto do ritmo, da batida, e penso em pelo menos três começos de pequenos contos quando escuto essa. Um dia escrevo.

5. Girl’s not grey – AFI

Porque eu gosto de cantar arruinar essa música no Rock Band.

UPDATE:

6. Miss Independent – Ne-Yo

Gosto de clipes com historinha, gosto de músicas com uma batida diferente, e não costumo gostar de rap e adjacências musicais. Mas tenho um irmão mais novo (aquele que você sempre culpa por quebrar o que quer que seja na sua casa) que tem um gosto um tanto terrível diferente do meu. E entre os cantores do ramo, gosto de pensar que Ne-Yo é o menos mal. Na verdade, isso é só desculpa e eu gosto dessa música.

7. Killing Loneliness – H.I.M.

Traduz essa música e Reginaldo Rossi canta lindamente, ao lado de Joelma do Calypso. E olha pra esse cara. Precisa de mais?

8. Head up high – Firewind

Jogue algumas palavras-chave num saco, balance, puxe algumas e você tem uma música de Firewind (que foi muito feliz em um cover de Maniac). Certeza que eles fizeram álbuns inteiros assim, brincando de Bingo do Metal.

9. Savior – Rise Against

A vantagem de ouvir Rise Against é desligar o cérebro e deixar tocar no player aleatoriamente. As músicas são todas iguais, não? E alguém pode me dizer qual é a da polga de bichos de pelúcia?

10. Misery Business – Paramore

Quanto mais eu vejo esse clipe, menos sentido ele faz. É um ciclo vicioso, certeza.

Celulares e a invasão de privacidade

12 abr

Verdade seja dita, nunca gostei muito de celulares. Quando comecei a trabalhar – e, por conseguinte, passar o dia fora de casa, numa fase tão tosca idílica que é a adolescência – meus pais tentaram me empurrar um aparelho herdado por eles. Foi um hábito difícil de adquirir: eu esquecia o bendito em casa, desligava para assistir às aulas e esquecia de ligar quando saía, colocava no silencioso e não lembrava de olhá-lo…

Tudo bem que o aparelho era um trambolho: ele já estava ultrapassado quando me passaram a herança. Tecnologia, essa danadinha, sempre fazendo você desejar o último lançamento do que quer que seja. Mas não era por uma vaidade adolescente imbecil (bem, eu era adolescente, e certamente era imbecil, mas não a esse ponto). O que eu realmente detestava era a capacidade que o celular dava aos outros de me encontrar em qualquer lugar, a qualquer momento, e a suposta obrigação em atendê-lo.

Eu, menina revolucionária, via apenas a opressão naquilo, e as reclamações de quando eu não atendia celular. Os perigos do mundo exterior não tinham entrado ainda na cabecinha vazia – é fácil passar o dia fora, experimentar alguma liberdade e não avisar aos pais que você vai sair com uns colegas de sala para almoçar. Na minha mente simplista, todo mundo sabia onde eu estava: ou no trabalho, ou na escola, ou em casa. Não me ocorria que, caso eu passasse mal, sofresse algum acidente ou qualquer coisa parecida, podia ligar para os meus pais chorando e pedindo para alguém me buscar. Pensava no celular como um invasor do espaço individual, e continuo achando.

Evito ligar para pessoas porque, intimamente, sinto estar incomodando. Sou eu quem quer falar com você, e não o contrário. Essa pessoa pode estar dormindo, divagando no banheiro, tendo momentos íntimos com namorado(a), e tá lá o bendito do celular tocando. Ligo para meus chefes porque não tenho lá muita escolha (questões urgentes que demandam a comunicação, por exemplo), e porque eles me deram essa liberdade. Mas não o faço de bom grado, e posso listar diversos exemplos.

Já me ligaram de duas e meia da manhã (me acordando de um sono muito bom, devo destacar) alegando que tinham anotado meu número em um programa de rádio. Obviamente mentira. Ou o sujeito tinha trocado um dígito e a azarada fui eu, ou é algum infeliz sem coração para ligar de madrugada para mim. Pior foi saber que, depois de umas frases mal educadas, ele ainda insistiu em me ligar. Salvei o número como “Não atenda nem no apocalipse zumbi” e passei a ignorar as chamadas.

(Tenho alguns números salvos na agenda com alcunhas semelhantes, como “Cara chato vendedor de seguros”. Nem lembro de todas as ocorrências, mas quando vejo um “não atenda”, silencio o toque e continuo a fazer o que quer que eu esteja fazendo. E vivo muito bem, obrigada).

Uma colega já deu meu número como referência para o financiamento do carro, e me ligou por volta das seis da manhã de um sábado para informar o fato. Mais uma vez, eu estava dormindo, e de uma daquelas noites bem tardias. Sorte dela que a financeira nunca resolveu me ligar; de vingança, diria que nunca a vi na vida. Ou que era uma caloteira, coisa parecida. Seria criativa.

Há ainda os cassos clássicos que de tão corriqueiros aprendemos a ignorar: no cinema, na aula, e longe da sua casinha de sapê. No meio de uma reunião, você esquece de ativar o modo silencioso e o tema de Game of Thrones toca nas alturas. Seu chefe, simpático, pergunta: “Ah, você assiste também?”. Incovenientes cotidianos que minam sua boa vontade e seu bom humor. Pelo menos, o meu bom humor.

Há quem diga que isso é falta de educação. Penso que, na verdade, a fina arte da etiqueta não estava pronta para receber essa possibilidade de conexão entre as pessoas, tão imediata, tão possível em qualquer lugar. Mas consensos surgem a partir de necessidades, não de possibilidades. E se não começarmos a nos policiar, a tendência é sempre piorar.

Nota

[Projetos 2012] Novo espaço literário

8 fev

Eu não disse que a literatura ia ganhar um novo espaço? Pois bem, cá estamos! Cliquem no nome meio grande aí embaixo e vocês vão chegar ao Almanacaria, projeto em conjunto com meu comparsa Mário Benevides (mais conhecido pr aí como Jagunço) e com a participação de Italo Curvelo, gângster de relativa reputação por aqui?

ALMANACARIA

Ainda estamos com algumas coisas do visual para acertar (como o banner, mas isso deu pra notar, né?), mas já estamos com algum conteúdo para vocês darem uma olhadona. Olhadinha não tem graça. 😉

Esboço de um Projeto de Leitura

2 fev

Faz séculos que não uso blog como diário, então, vamos ver no que isso dá…

Ano novo, cabeça cheia de ideias e projetos que você não consegue levar a metade adiante. Resolvi me organizar e planejar, esperando, assim, atingir uma meta de 60% das coisas que gostaria de fazer para 2012.

Aos que interessarem, eu não abandonei a literatura, ela só mudou de lugar. Divulgo o espaço já já por aqui. Ela está, inclusive, entre os projetos mais ambiciosos do ano. 😉

Um deles, que eu matutava há uns bons tempos, era uma ideia de incentivo à leitura. Minha experiência (não tão larga) enquanto professora levou-me à conclusão de que as pessoas não leem. Sim, estou generalizando, mas por mais que se diga que, com o acesso à informação, as pessoas estão lendo mais, a realidade que eu vislumbrei foi bem diferente.

Quando me perguntavam como eu conseguia escrever bem, eu respondia sem pensar: “eu leio”. Ler me ajudou a saber expressar melhor minhas ideias em uma folha de papel, bem como oralmente. É um hábito fundamental na formação de uma pessoa enquanto cidadão, e é, muitas vezes, relegado a um passatempo infrutífero.

Quantos “ler me dá sono”, “acho literatura chato”, “não gosto nem de ler legenda” eu ouvi, e ouço, por aí. Eu não disfarço a tristeza quando escuto uma dessas, e ainda tiro piada: “então como você joga vídeo game?”, “ih, desse jeito não vai ter nenhum Edward na sua vida tão cedo”, “e ainda se diz fã de Harry Potter? Tem sete livros que você não leu!”. As respostas mais indecorosas foram devidamente omitidas aqui, claro. ;D

Então, vendo casos como o do escritor José Roberto (autor do Baronato de Shoah, publicado pela Draco, e com uma sequência em produção), pensei que é necessária uma maneira interessante de atrair a galera pra leitura, que vá além do “me entregue um resumo desse livro para a próxima semana”. E bem, por que não usar o RPG?

Há diversas experiências interessantes usando RPG e Educação, diversas. Mas na maioria delas, não rolava aquela… identificação. Eu li, achei bacana, interessante, mas na hora de pensar em como eu poderia aplicar, a ideia travava. Sem problemas: deixei ela adormecida ali no cantinho do cérebro, esperando a tempestade que a despertaria. E então eu conheci Fiasco.

Edição brasileira de Fiasco pela Retropunk.

RPG sem mestre, com poucas rolagens de dados, e extremamente de improviso. Rápido para a finalização de uma história (cada partida dura em torno de três horas, dependendo do andamento), e em sintonia com uma mídia que tem bem mais a ver com os jovens de hoje: o cinema. Vislumbrei ali a possibilidade real de, finalmente, conseguir unir RPG e educação. E mexendo com uma das coisas que eu mais gosto: contar histórias.

Fui ao SESC, aqui em João Pessoa, saber o que eles têm voltado para a leitura. Falei com a simpática bibliotecária, e ela me contou que eles têm sim um projeto, voltado para as escolas. Mas não posso mentir que o formato não me agradou muito: levar livros para as escolas, induzir a produção textual. É válido, deve ter um feedback interessante, mas parece contar muito com a disposição do estudante. E essa, meus colegas, é uma coisa que a gente não pode contar.

Eu quero exatamente o contrário, algo que faça o estudante ter interesse pela leitura. Eles têm um imaginário, permeado de… de quê? Acabo de descobrir a primeira coisa a fazer para o projeto: uma avaliação diagnóstica.

O que meu público gosta de consumir quando o assunto é entretenimento?

Big Brother? Malhação? Brasil Urgente? Corre e anota isso, Allana!

Se ficar no Harry Potter, serei feliz.

Uma vez descoberto o imaginário, vem a parte de trabalho braçal: criar cenários que possibilitem histórias que os agradem. De preferência, baseados em obras literárias (clássicos ou não), para assim dar a deixa: “E então, essa história que vocês criaram em conjunto, foi baseada nesse livro aqui. Que tal falar um pouco sobre ele? Melhor, que tal se vocês lessem, e a gente depois fizesse uma comparação, saber o que ficou melhor, o que ficou pior?”.

Hm, isso é uma ideia boa, eu acho. Vou anotar também.

Melhor: antes de chamar os “mediadores” (acho que esse é um bom termo) para um jogo de Fiasco, vou fazer uma reunião com a turma a ser usada de cobaia (é um experimento científico, afinal de contas) e pegar algum filme adaptado de um livro. Depois da avaliação diagnóstica, vou escolher um filme, ver com os alunos e então propor um clube do livro: uma vez por semana, poderia ler um trecho em conjunto com eles, e, então, ir conversando sobre as mudanças que ocorreram de uma mídia para outra. Isso feito (de preferência com um livro mais curto, para que os encontros não sejam cansativos), apresento a possibilidade de jogarmos um “jogo de interpretação” baseado naquela história que vimos e lemos.

Se vier Crepúsculo... oh, noes!

“Ah, mas eu quero ser Harry Potter”; isso é algo que eu vou ouvir. Para contornar esse problema, é bom deixar claro que é uma história no mesmo cenário, e não com os mesmos personagens. Pensem que eles podem estar em Hogwarts, ou entre um duelo com lobisomens e vampiros.

E agora, eu mexo com as coisas que eu mais gosto: adaptação, leitura e RPG. Triple kill!

Já tenho a escola que vou usar de base. Vou conversar com a diretora (que, por acaso, é a minha mãe) e expor a ideia. Sei que ela vai gostar, mas preciso de um guia, principalmente, pra escolher a turma beta. Postarei (caso interesse aos 1d3-1 leitores) aqui o desenrolar dessa história, que não tem muito de fantástica.

UPDATE: convenci a diretora e dois professores! \o/ Agora é escrevernum textonde apresentação com a ideia e começar. Devo cmeçar em março/abril!

[The Liquid State] Cairo, 2082

29 set

“Somos governados por demônios de mentira. Por trás dos fantoches estão as garras escuras e verdadeiras”.

– Ditado cairota.

Cheguei de Londres há dois meses e ainda não acredito no que vejo. A grande Cairo abriga 68 milhões de almas, distribuídas em catorze cidadelas separadas por níveis de segurança (duas de baixa, cinco de média, seis de alta e o Centro Administrativo). Suas torres se espalham por todo o horizonte, dos dois lados do Nilo, em uma imensidão de presas negras contra o céu enevoado e morto. Controlada pelo Comitê Saariano, um aglomerado de representantes de governos europeus e asiáticos, eleitos por seus próprios parlamentos e enviados à África a cada oito anos, a megalópole é o centro financeiro do arrasado continente africano. De suas ferrovias e portos partem os carregamentos de minério, madeira, peles, e órgãos clonados, frutos de subimportações das nações do sul. A eles, chegam implantes, medicamentos, veículos e armas, produzidos aos bilhões em unidades industriais sediadas no Mediterrâneo e nas Estações de Produção do deserto da Arábia. Os equipamentos, de segunda, terceira e quarta categorias, são o estimulo precário enviado pelas maiores nações para a manutenção das condições no Saara.

Desde a década de 2040, os conflitos étnicos e políticos converteram a região em um pesadelo administrativo. Ainda assim, as minas de metadióxido de silício e o tráfego intermitente (e ilegal) de órgãos clonados e células tronco embrionárias (indispensáveis na fabricação de componentes de ajustamento e anti-rejeição de implantes) mantêm o interesse das corporações. Sabedores disso, facções religiosas islâmicas – expulsas da cidade há décadas – e grupos paramilitares de inspiração nacionalista têm transformado toda a região norte do continente em uma área de tensão. As únicas forças militares legais continuam sendo a Força de Segurança Continental (controlada diretamente pelo Comitê) e a Marinha Francesa. Além destas, contudo, a cidade abriga centenas de mercenários vindos de todas as partes. Enquanto as forças legais precisam medir poder com o terrorismo regional, os grupos ilegais atuam junto a corporações locais ou mesmo sob as ordens do Comitê a fim de resolver “problemas de casa”.

Abaixo das torres escuras das indústrias de reciclagem de água e conversão de quartzo, o Cairo é um pesadelo. 87% da população (entre imigrantes, refugiados do centro-sul africano e mão-de-obra das minas saarianas) vive sob condições de pobreza extrema. A força policial local é  composta por destacamentos militares da FSC sem treinamento para a função (mas com considerável tratamento para o combate). Imensas construções em ruínas, incompletas ou semi-destruídas por bombardeios três décadas atrás, servem de abrigo para milhões de famílias. Mercados precários transferem comida entre as cidadelas, mas estes são controlados por cartéis de atravessadores. A prostituição (real ou virtual) é extremamente comum, assim como a venda ilegal de implantes ultrapassados, drogas de aceleração (para o uso nas conexões com a Rede) e medicamentos ainda em fase de testes, contrabandeados ou introduzidos secretamente por empresas farmacêuticas. Para coroar a maldição faraônica que ainda a permeia, não é fácil deixar este lugal. A FSC controla cuidadosa e obcessivamente o tráfego para dentro e fora da cidade. O receio do Comitê para com o roubo de mercadorias, a fuga de mercenários e de seus próprios soldados serve para fazer da Cidade, uma prisão murada pelo pavor. Por quanto tempo, nós, civilizados, nos calaremos diante das atrocidades produzidas em nome do futuro? Por quanto tempo o
silêncio será mantido na terra da Esfinge?

Post identificado e censurado pelo Quadro Monitor em 21.2.2082.

Identificação do N.I.P. fonte: 00344033.2333.2345021.32033.949724.99.78

Secretaria de Seleção Informativa

Departamento de Registros de Rede

SubComitê Saariano de Gestão Urbana

Post escrito pelo Mário (aquele que… ok, eu vou parar!) para ambientação no cenário. Espero que curtam! =D Criei uma categoria à parte, para facilitar o acompanhamento de quem quiser ler com o bonde andando.

[The Liquid State] Niah – I

20 set

Niah – Diário 0100
Neurovideo nº 17:32:16:08:20:11

Preparo o rifle para mais uma missão, a rotina diária. Desmonto, limpo, lubrifico, checo os componentes de integração com o olho biônico. O quinto componente da segunda fileira continua dando um problema de incompatibilidade. Rejeição genética. Foi o quinto técnico que disse isso, e o quinto a afirmar que não tem jeito de me consertar. O último ainda veio dizer que eu deveria nascer de novo em um corpo menos defeituoso.

Minha resposta se resumiu a um soco na cara com o braço artificial. Deve ter rendido uns dentes a menos ao paspalho. Pf, nascer de novo. Eu renasci quando acordei naquela maca imunda pelo meu próprio sangue, sem um braço e cega de um olho. Um corpo novo, porém, não seria nada mal.

– Niah? – a voz irritantemente serena de Kojito. – Está pronta?

Levanto o olhar da arma e termino de montá-la, com um clique sonoro. Com a mão de carne, tiro o cabelo revolto da testa – preto, fino e ondulado, como o da minha mãe. O asiático me encara com aqueles olhos puxados que não revelam nada do que ele está pensando e sorri.

– Vai ser um trabalho fácil. Só precisamos matar o chefão do tráfico na região, quando ele sair da reunião. Ele é um sujeito descuidado, você vai notá-lo logo.

– Você disse uma coisa parecida da outra vez. E isso terminou comigo sendo arremessada para o outro lado da rua.

– Seu bom humor me impressiona – ainda sorrindo, ele se aproxima. – Algo te perturba, pequena?

Houve um tempo que eu gostava quando ele me chamava assim. Não mais, embora em não saiba bem o motivo. Afinal, eu continuo pequena. E ele só quer demonstrar algum tipo de… carinho, acho, em relação a mim. Mas o apelido faz eu me sentir ainda menor, fraca, debilitada, como no dia em que ele me encontrou, com um braço quebrado em dezesseis pedaços e quase morta. Mas o maldito japa, que na verdade é coreano, embora isso não faça diferença nenhuma no fim de mundo que é o Cairo, o maldito me conhece, e sabe quando algo não está bem.

– Só sinto que… algo vai dar errado. Um pressentimento.

Ele abre um sorriso sereno, que deveria me acalmar, mas acaba me enervando. Agacha-se diante de mim, aproxima o rosto e me beija. Não consigo mentir ao meu próprio corpo e relutando no início, mas de bom grado, cedo. Primeiro, o contato é frio e distante, como ele agia comigo quando acordei do coma. Mas logo vem a sensação familiar, o aconchego, e, com a mordida no lábio, a promessa do que poderia vir mais tarde.

– Vai ficar tudo bem, Niah. Apenas se concentre. Mantenha o foco. Pela manhã, você estará rindo de si mesma.

*****

Correndo da explosão, concluo que deveria dar mais valor à minha intuição. Era pra ser um trabalho fácil, mas alguém tinha nos delatado. Eles sabiam de todas as nossas posições, e nos desmantelaram com uma eficiência incrível. Perdemos pouco, porém. E àquela altura, repensando melhor os acontecimentos do dia, eu até fazia alguma ideia de quem era. Massao.

Desde quando ele chegara, três semanas atrás, cheio de referências e recomendações, eu desconfiei. Uma coceira nos dedos de carne, um nó na boca do estômago. Dias depois, conversando com Kojito, ele disse que aquilo poderia ser intuição, mas que provavelmente era só alguma comida estragada. Ou as drogas, vai saber.

Bem, ele estava errado, e eu estou certa dessa vez. Mas o que valia a palavra de uma viciada em stims, amante de um dos chefes, cujo trabalho era aquecer a cama dele e atirar de vez em quando? Caminhando para o chiqueiro que o novato chamava de quarto, eu penso bem nas palavras a serem usadas. Não posso falhar, não agora.

– Niah? – ele me olha, espantado, a pele negra quase se escondendo no uniforme.

– Tem um minuto?

– Claro. Kojito quer algo de mim?

– Ele não, mas eu quero saber o que porra aconteceu naquele trabalho – é minha única carta. Se eu estiver errada, estarei fora do bando, muito provavelmente morta. Mas se estiver certa… – Eles sabiam de tudo ao nosso respeito, e muitos se machucaram. Eu quase morri. E você, estranhamente, mal apareceu na ação.

– Eu estava ocupado, cuidando de um outro grupo deles que aparec… Eu não devo satisfações pra você, pirralha. Só porque você abre as pernas pra um dos chefes acha que pode vir aqui e falar assim comigo?

Sorrio, e ele se desarma. Àquela distância, o cyberware ocular me permite notar os mínimos detalhes da sua expressão, as gotículas de suor se formando, apesar do frio, e a leve tremida nos lábios escuros. Ele sabe que eu sei, e então, só
então, eu me afasto.

– O que você quer, vadia?

– É pro governo que você trabalha? Com aquela quantidade de referências forjadas, você não é um mané qualquer.

O silêncio o denuncia mais uma vez. Eu me aproveito.

– Um corpo novo, que funcione, como esses que os milicos no topo da pirâmide usam. Me arranje isso, e logo, ou eu conto tudo, e você vai desejar morrer.

Como se nada estivesse acontecendo, volto para a mesa comunal. Nenhum dos chefes está lá, o que me dá tempo para pensar. Estou prestes a me juntar com um rato, um delator, e, assim, me tornar uma cúmplice. Há tempo de desfazer, eu posso contar para K, mas… é a minha chance de me tornar inteira de novo, sem defeitos.

Viro um copo de uma bebida que desce queimando. Não preciso saber o nome, preciso apenas… não me arrepender.

Projeto cyberpunk escrito a quatro mãos com o Jagunço (vulgo, Mário Benevides). Mais coisas em breve. ;D